terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

SONHO DE UMA NOITE TROPICAL (10)


- Não devemos admirar-nos destas coisas porque o ser humano nasce para ser ditador. – Apoiou o Poeta.
- Uma boa e bela coisa que devemos seguir são o não ligar ao que os governantes dizem. Tudo não passa de mentiras. – Disse o Vodka.
- Todos sabemos disso. Mas como sair desta grande anedota? – Perguntou o Filósofo.
- Mudar as pessoas. São sempre as mesmas que falam. Trinta anos de um pesadelo de palavras. Sempre com o mesmo verbo. – Disse agastado o Poeta.
- O nosso máximo quando raramente fala utiliza sempre o mesmo discurso. Fala em projectos que nunca se concretizam. Conversas em família para manutenção política. Para lembrar que existe. Não é como o Rei Sol da França. É como um rei do eclipse total. – Disse o Filósofo.
O Almirante pega num Angola combatente. Costuma dizer que é o melhor do mundo. Acende-o e começa a fumar. Elucida o auditório:
- Quem domina o mundo são as empresas petrolíferas, e como têm imensas fortunas compram tudo. No fim acabamos por sermos empregados de uma única empresa. Melhor ainda: escravos e esfomeados desses donos do mundo. Sempre foi assim e assim será. As revoluções que surgiram, e vão surgir mais, acabam por lhes dar mais força. No princípio fingem que aceitam as novas condições, depois acomodam-se e rapidamente fazem lances como num leilão. Voltam a dominar. Foi assim na Revolução Francesa. Como no Pregador da Bíblia: de modos que nada há de novo debaixo deste petróleo. Nascemos para sermos escravos de um ditador, de um rei ou de uma democracia. Nesta somos livres de exprimir a nossa opinião. Por incrível que pareça somos escravos da liberdade. Somos escravos daqueles em quem votámos. Como o eleito não cumpre o que prometeu ficamos a aguardar por novas eleições. Elas chegam, tornamos a votar e as coisas não se resolvem. Pelo contrário complicam-se ainda mais. É por isso que as pessoas estão frustradas com a democracia. Estão cansadas e anseiam por mudanças. Estão cheias de tédio, doentes. O nome correcto seria tédiodemocracia.
O Almirante faz uma pausa. Sente a garganta seca. Pega no copo e bebe. A voz está um pouco rouca. Prossegue:
- Não matar, não roubar, não cometer adultério. Eis a suprema verdade. Depois destes males cometidos, o ser humano ousa pedir perdão. Como o obtêm, volta a pecar. Novamente pede perdão. Como nas guerras em que se matam milhares, milhões de pessoas. Os vencidos são culpados e os vencedores proclamados inocentes. Mas os vencedores também mataram e contudo não são julgados.
O Presidente sente os erros que se cometem. E recorda:
- O processo de produção, segundo nós o concebemos, deve ser feito em proveito de todo o Povo. Os camponeses devem deter nas suas mãos a terra que cultivam. E do mesmo modo que ninguém tem direito nem pode vender o ar que respira, também, na nossa Angola popular, a terra deve estar ao dispor daquele que a utiliza. A terra não pode mais ser a propriedade de alguns homens para que outros a façam produzir em seu proveito. Assim, tudo o que existe debaixo da terra ou sob o mar ou o ar, tudo o que é natureza, pertence ao Povo. Entendem que devem destruir os bens do Povo. Esses são ainda os que estão impregnados duma mentalidade de escravo. Agostinho Neto. 23 De Maio de 1976. Discurso no encerramento do 1º curso de activistas do MPLA.
Alguns clientes chegam acompanhados por jovens mulheres da noite. Em troca dos serviços sexuais pagam-se com comes e bebes. Ainda conseguem levar algum dinheiro para ajudar à sobrevivência da casa. Enquanto observa a devassidão o Almirante prossegue:
- Por exemplo, a África nunca conseguiu sair da escravidão, e duvido que o consiga. Os seus dirigentes são impostos pelas multinacionais. Como necessitam de dinheiro, são vulneráveis a qualquer coisa, tornam-se puros vassalos. Vejam o que se passa no Golfo da Guiné. Chego a acreditar que têm ordens para exterminarem os seus povos. Aliás os governantes nem sequer confiam nos governados. Quando necessitam de executar um projecto, chamam as empresas estrangeiras, as suas bem-fadadas. E pagam-lhes bem, a pretexto de que não têm quadros. Estes nunca são bem-vindos, porque são considerados perigosos, subversivos para o poder. Edificámos a nossa independência sob o pretexto de que fomos roubados. Defendendo isso, hoje roubamos tudo e todos. Daí o nosso hábito de ainda continuarmos a roubar. Roubamos o ar que respiramos e roubamos qualquer rua para construirmos qualquer coisa neste canteiro de obras sem livros.
- África é o berço da humanidade! – Exclamou o Filósofo.
- É por isso que estagnou. – Retorquiu o Almirante.
O seu Angola combatente chegou ao fim. Atira-o para o chão e diz peremptório:
¬- Temos que ficar entendidos de uma vez para sempre. As democracias desprezam os outros povos, mas os seus não, e claro que quem se lixa são os esfomeados. Na verdade não se executam sanções contra governos, mas contra os desgraçados, a população, à espera que estes se revoltem. A realidade diz-nos que quando isto acontece, as ditaduras se unem, procuram auxílio mútuo. Isto significa que as sanções não funcionam. A democracia ainda está muito longe da perfeição.
O Filósofo dá uma achega:
- A África servia perfeitamente, e ainda serve para refazer, copiar a Revolução Francesa. Basta citar com outras palavras os seus belos poemas, e os esfomeados acreditam. Destruir tudo o que foi erguido em nome da revolução. Mata-se tudo, nem os animais escapam, porque são reaccionários. Basta atirarem-nos uma isca como engodo e aí temos o que merecemos. Depois ordenar que todos os que não estão do nosso lado, devem ser aniquilados, enviados para a guilhotina. É isto a beleza das revoluções africanas. Continuar a escravidão secular em nome da dependência, nunca da independência.
O Poeta argumenta:
- E também a corrupção, a venalidade, os desvios de fundos e as especulações de todo o tipo, as conjurações, as traições, a degenerescência cultural e moral, a perversão dos costumes, as ambições desmedidas.
- Pelo menos uma coisa boa aconteceu com a nossa revolução. – Replicou o Hepatite.
- Qual? – Perguntou o Almirante.
- Somos livres para bebermos à vontade, e não há nenhum branco que nos incomode.
- Incomodam sim. Enviam-nos bebidas estragadas que nos fazem dores de estômago, e pensamos que são algumas comidas estragadas que comemos. – Informou o Vodka.
- Mas pelo menos temos a liberdade de escolher, antes não tínhamos esse direito. E quanto mais álcool tiver essa bebida melhor. – Disse com satisfação o Hepatite.
- Com álcool ou sem ele as populações são dizimadas. Porque são chamadas em nome da revolução e da nação para a salvarem. E os poetas revolucionários compõem belos poemas, dizem que os heróis morreram por uma causa nobre. – Defendeu o Filósofo.
- Sim. São os tais poemas do punhal enterrado, que de vez em quando se limpa o sangue enferrujado. – Corroborou o Poeta.
- Novembrinos e setembrinos nas paredes sem tijolos. – Calculou o Filósofo.
- Quem disse que uma parede precisa de tijolos? Basta areia. – Rouquejou o Almirante.
- Está certo. Para o vento arrastar e ninguém mais se lembrar, a não ser pelo menos uma vez em cada ano. – Asseverou o Poeta.
- E como se chamarão os poetas desses cantos? – Cantou o Filósofo.
- Poetas que o vento da religião da areia levou. – Certificou o Poeta.
- Na religião da nossa tradição éramos os mais criativos do mundo. – Lembrou o Almirante.
- Acabámos com Adão e Eva? – Surpreendeu-se o Filósofo.
- Não! Inventamos uma nova religião todos os dias. – Rematou o Poeta.
- Nada há de novo debaixo da escuridão. – Pregou o Filósofo.
- Perdão! Debaixo do sol. - Esclareceu o Filósofo.
- Debalde. Porque construíram e estão a construir paredes, de tal modo que durante o dia já não vejo a luz do sol. – Findou o Poeta.
- Sem eleições vão votar… não vão votar. – Não sabe o Eleitor.
- Pelas oito pragas que nos afligem. – Aumentou-as o Pragador.
O Presidente sente que foi traído. Por isso chama a atenção:
- Pensa-se ainda que o confisco de bens dos colonialistas não é senão a transferência de bens do patrão para as mãos de um outro patrão. Quem dirige um país, dirige um Povo. Não podemos, não devemos travar guerra entre nós. É preciso preservar a unidade nacional. Nós somos um Povo que desde há séculos tem uma maioria de pretos, mas também milhares de mestiços e brancos. O que importa é neutralizar qualquer pretensão de grupos raciais que desejam manter uma supremacia económica ou social no País. Agostinho Neto. 23 De Maio de 1976. Discurso no encerramento do 1º curso de activistas do MPLA.
Imagem: A revista "Foreign Policy" saudava Angola por seu "espectacular crescimento ...
aespeciaria.blogspot.com



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O comboio da santa oposição da democracia a vapor


Num país em que a ocupação geral é estar doente, o maior serviço patriótico é incontestavelmente saber curar. In Os Maias. Eça de Queiroz, 1845-1900.
Com uma oposição ainda de comboio a vapor, ela demora muito tempo a chegar às estações ou então perde-se no percurso. Entretanto, o comboio a vapor democrático da oposição prossegue sem conseguir alcançar nenhuma estação. E o comboio da oposição da democracia a vapor avariou-se algures entre as estações dos comunicados e das manifestações. Há por aí algo, ou alguém, que consiga rebocá-lo, recauchutá-lo, ou preferencialmente, modernizá-lo? A oposição demora a chegar porque o seu comboio a vapor está a patinar. Quando um partido político da oposição não consegue efectuar uma simples manifestação, isso não é política, é o descalabro da política, das confrarias. Há milhentos acontecimentos negativos que diariamente nos perturbam, e para os quais confiamos na oposição para que tome a desejada firme posição. Então, acende-se uma luz de vela na mente da oposição e já está, uma decisão já há. Faz-se um comunicado embelezado e a boa acção do dia está praticada. Viver de comunicados não é solução, mas que estratificada oposição. Ou também uma conferência de imprensa onde interminavelmente se repete o mesmo discurso, a mesma ambiguidade.
Buala Press. Noticiário. 21 Dez, 14.40 horas
A minha esposa está preocupada porque não temos tomate. E, claro, eu pergunto-lhe porque é que não o compra, e ela não me surpreendeu com a resposta: «Ali, só estão a vender tomate importado.»
Buala Press. Noticiário. 21 Dez, 12.50 horas
Uma minha amiga acaba de me informar que já circulou por quatro bancos, todos sem sistema. Não consegue levantar dinheiro para pagar aos trabalhadores. Eu também desconheço o que é que existe em Angola com sistema... ah sim, o sistema da corrupção, o único que funciona a cem por cento, como nas eleições fraudulentas na RDC.
Eles, os eleitores, calam-se porque aguardam pela voz da oposição. Então, os luandenses procuram meios de se organizarem sem o concurso da oposição. Sem ofensa, mas quando oiço na Ecclesia o nosso querido Papa Bento XVI a ler um comunicado, imediatamente me lembro da nossa oposição. Porquê? Porque os nossos pobres camaleões tentam afrontar Sua Santidade. Oh! Como são estranhos, misteriosos e insondáveis os caminhos da nossa oposição.
É incrível como algumas pessoas atiram Angola para a Idade Média.
Quando um partido político da oposição nos promete com grande aparato publicitário que efectuará manifestações consecutivas contra o estado em que o país está mergulhado no mar da corrupção e outros mares congéneres, e depois surpreendentemente não cumpre nada, ou pouco, do que prometeu, esse partido, ou partidos da mesma lábia inútil, acabam no descrédito, na palhaçada política. E o seu presidente ou secretário-geral deveriam levar o pontapé de saída para a rua, que é o local mais indicado para os brincalhões da política. Mas não, continuam imperturbáveis como santos de uma igreja, intocáveis. Como anunciando que a política é um passatempo, um analfabetismo político, uma infantilidade sem responsabilidade. E porque suspenderam as suas/nossas revindicações, significa, temos esse direito, que já meteram a pata na poça da corrupção. Os altíssimos preços do petróleo são deveras muito interessantes para quem da oposição não está disposto a trabalhar, e ao poder se encostar.
Perguntaram numa ocasião a Mahatma Gandhi quais são os factores que destroem o ser humano. Ele respondeu assim: A Política sem Princípios, o Prazer sem Responsabilidade, a Riqueza sem Trabalho, a Sabedoria sem Carácter, os Negócios sem Moral, a Ciência sem Humanidade e a Oração sem Caridade.
Para serrar tubos de ferro e quejandos é necessário importar chineses?
Eu doei um quilo de fome e de miséria à Somália. E você amigo leitor? Ajude o nosso povo da Somália.
Utilidade pública, procura de paradeiro: perdeu-se PIB, trinta e dois biliões de dólares e a cadeia de supermercados Nosso-Super. Pede-se a quem os encontrar o favor de nos contactar no nosso departamento da corrupção.
Se isto não é uma guerra, então o que será?! Enquanto a Europa já navega num bote salva-vidas, os restantes países do mundo parece marimbarem-se, como se o incêndio financeiro não os afectasse. Entretanto, continua a imposição da invenção dos impostos sobre impostos à população que definha abandonada aos abutres financeiros. Só às populações se exigem sacrifícios, mas ao contrário, os banqueiros, os poderosos, os ricos e muito ricos, recusam-se ao pagamento de tudo que lhes cheire a impostos.
O nosso partido da vanguarda revolucionária instituiu e insiste no marxismo-leninismo como baluarte dos rumos dos canhões apontados contra, a contra-revolução. O nosso rumo marxista-leninista seguirá os caminhos do desenvolvimento dos povos felizes do planeta. Onde há leninismo nunca existirá miséria. E para cada crítico do nosso sistema a sua bala.
E os povos de todo o mundo rejubilarão com o estandarte da bandeira marxista-leninista. Para cada marxista-leninista o seu canhão, para cada um dos nossos dirigentes o seu bilião. Os povos já nascem marxistas-leninistas, não necessitam de nenhuma operação neurológica. Os povos não necessitam de democracia porque há muito têm no seu seio o partido revolucionário, sempre em armas, do povo.
A felicidade está no paraíso marxista-leninista e nos corruptos abençoados pelo deus leninista. E os povos com bwé de universidades, bwé de luz, bwé de água… inquinada, marcham felizes no rumo do colossal cemitério leninista que é Angola. Camaradas exorto-vos! Arrastai tudo e todos, incluindo os animais, que não se submeterem ao partido da classe operária e camponesa da corrupção. Onde há corrupção há nação. E onde há nação há um só partido e uma só população. Abaixo os reaccionários que não aceitam a escravidão do nosso querido e iluminado prócer!
As bandeiras marxistas-leninistas devem obrigatoriamente estar até no Além, desfraldadas com a imagem do nosso carismático, grande estadista que é o nosso, o actual e seus descendentes divinos, a encarnação, ou clone?, do mais destacado lutador pelas causas nobres do leninismo, o querido camarada Kim-il-Sun, na realidade o pai do marxismo-leninismo. Não é qualquer proletário que tem acesso a um partido eleito pelas classes operárias e camponesas ao poder. Onde há democracia não há necessidade de perder tempo com eleições, porque o nosso super-chefe já está eleito à partida para todo o sempre. Num partido vanguardista nunca existe corrupção, porque os bens da nação estão em poder do Politburo.
O nosso glorioso partido das massas queima quem se lhe opor. A verdade está sempre do nosso lado e da nossa democracia. Por isso mesmo, é, ordenamos às nossas hostes, aos nossos comités de defesa da revolução: É PURIFICAR! É PURIFICAR! INFLAMEM-NOS! Jamais aceitaremos desvios à nossa linha revolucionária.
E a exemplo do nosso querido amigo Assad, faremos da nossa querida pátria uma outra Síria, uma bonita fortaleza revolucionária, onde revolucionaremos todos os que forem contrários aos nossos anseios e mais profundos desígnios.
Apesar de o nosso povo ainda morrer à fome, é porque acredita nas estrondosas vitórias conseguidas pelo nosso ultra-ortodoxo partido leninista. Nunca viram, nem sonharam populações oferecerem-se à morte em defesa das teses marxistas-leninistas? Pois é, o povo angolano faz isso, morre pelo seu partido e pelo seu insubstituível Politburo.
Enquanto se convencerem que a corrupção lhes fornece o húmus da inteligência, os nativos desta nação armam-se de consciência e como uma bola de neve arrastará e limpará os daninhos para muito longe dos nossos olhares. A corrupção não passará. Cuidado! Os olhos e ouvidos do nosso partido da vanguarda vigiam-te e escutam-te.
E quanto mais bajulares, os bolsos encherás até inchares, rebentares, até não mais te fartares. Os nossos queridos e audazes meliantes, desculpem, militantes, são e serão sempre a nossa ponta de lança contra os inimigos imperialistas que nos querem impor o retrocesso à escravidão e ao neocomunismo, desculpem, neocolonialismo, querem-nos vender outra vez, porque o nosso povo vive feliz como nunca até gora viveu. Viva a nossa vanguarda da classe operária!
Camaradas, mantenham-se vigilantes porque a reacção interna não desarma e devemos esmagá-la com todas as nossas forças.
Além dos habituais investimentos, chineses em Angola também investem na religião. Tudo muito bem planeado, depois da dominação material, segue-se a espiritual. Quem é o angolano, ou angolanos que estão por trás disto?
Acaba de me chegar às mãos um exemplar de um livro com 110 páginas, versão portuguesa, que senhoras chinesas distribuem nas ruas intitulado: A CHAVE PARA A ILUMINAÇÃO IMEDIATA, da Suprema Mestra Ching Hai. A distribuição é gratuita. Alguns respigos: introdução: A humanidade tem sido visitada através dos séculos por indivíduos raros, cujo único objectivo é elevá-la espiritualmente. Jesus Cristo foi um deles, assim como Buda Shakyamuni e Maomé. Estes três são bem conhecidos por nós, mas existem muitos outros cujos nomes não sabemos. Visitantes provenientes da mesma fonte Divina, com a mesma grandeza espiritual, pureza moral e poder para elevar a humanidade, como os Santos do passado, estão aqui connosco hoje. Todavia poucos têm conhecimento de suas presenças. Um deles é a Suprema Mestra Ching.
N.B. Convém salientar que na China o Cristianismo é proibido, e os cristãos, claro, são perseguidos, abatidos.
Imagem: Comboios a vapor ...
ofunill.blogspot.com


domingo, 12 de fevereiro de 2012

Kero outra máfia Kero/ mais 32 biliões espero. Voltaire Ngola



«Josezito, já te tenho dito
Que não é bonito
Andares-me a enganar»

República da máfia chinesa
portuguesa, brasileira, manada
a espoliação de terras
está devidamente legalizada
nesta República dos bananas
não resta mais nada
não nos deixeis cair na tentação
livrai-nos da corrupção

A TPA1, 2, 3, 4, não é?!
estão com a princesa Tchizé
ilícitos podres de ricos, né?!
quando acabam com a corrupção
de milhões de espoliados
que vivem da podridão?

Até o vulgar chinês pilha-galinhas
e o Zé-ninguém fazendeiro
também fazem de Angola
um vulgar galinheiro
e os chineses arrasam
nada fica inteiro
não sobra nem um canteiro

O bicho-papão leninista
não quer parar
insiste, mete-nos medo
mas brevemente vai acabar
esta grande mixórdia
está, está-se a complicar
até em Cabinda
já não se pode pescar

Vamos todos votar
no absoluto partido
e tal como na RDC
isto está corrompido
E enquanto os da nossa oposição
não se levantam
mais trinta e dois biliões já cantam

No campeonato de futebol
e na bajulação somos os melhores
e nos futebóis da corrupção
somos os piores
E durante quinhentos anos
as máfias chinesas são um facto
chineses invadem Angola
assim reza no contrato

Sem professores não há Nação
há bagunçada, corrupção
Angola não é uma nação
é um projecto da imobiliária
especulação
Enquanto este leninismo nos esmagar
qualquer um de nós vai soçobrar

E a Tchavola metralharam
e as praias privatizaram

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Canal da crítica. O debate na Rádio Ecclesia sobre o jornalismo em tempo de eleições


O debate de hoje, 11 de Fevereiro, na Rádio Ecclesia sobre o jornalismo e as eleições decorreu o mais nobre possível, senão atentemos:
Reginaldo Silva, já demasiado apagado, já não tem mais nada para nos dar, a não ser as suas intervenções que não passam de monólogos, de manobrador, desviador da atenção dos problemas que afectam Angola e os angolanos. Manobras de diversão de coisas sem interesse, a não ser para ele próprio. Como sempre, nem um acorde sobre a corrupção que grassa no jornalismo, e em todos os estatutos de uma sociedade que ele não vê, receia a abordagem. E falava, falava, até ao ponto de Manuel Vieira lhe cortar a palavra. Ir ao fundo da questão da corrupção não é preciso, para isso só o eminente Rafael Marques que não estava lá, claro.

Celso Malavoloneke, por incrível que pareça, professor de jornalismo (?) conhecido pela sua intolerância, a qual já demonstrou no Facebook, eliminando da sua lista de amigos todo aquele que ousasse minimamente criticá-lo, falou de tudo, do nada, e cujos textos escritos deixam muito a desejar, pois, devido às limitações da língua que não domina, espalha-se no areal seco dos textos incompreensíveis. Por momentos tentou armar-se em defensor da causa da censura do semanário, A Capital, mas mais uma vez as palavras perderam-se no mais elementar exemplo da mediocridade humana que lhe é característica peculiar.

Outro interveniente, não consegui fixar-lhe o nome, do CNCS – Conselho Nacional da Comunicação Social, apoiava, ressaltava que o jornalismo tem regras, leis, a que sinceramente, por mais esforços que eu fizesse para o entender, não consegui. Então, numa óptica leninista do jornalismo do centralismo democrático, consegui entendê-lo muito bem. Sobretudo, como ontem a RNA – Rádio Nacional de Angola, que no noticiário das vinte horas do dia 10 de Fevereiro, começou e só acabou meia hora depois a sua actividade partidária sobre a reunião dos duzentos e sessenta empresários/deputados do comité central do MPLA, presidida por sua Ex.ª, o douto engenheiro, José Eduardo dos Santos, presidente do MPLA e da República, e de outros, variados cargos que todos conhecemos.
Este CNCS, é como o INADEC – Instituto Nacional de Defesa do Consumidor, que não oferece resistência alguma, nem tão-pouco denúncia a contrafacção chinesa que invade Angola, e cujos exemplos são tantos e lastimáveis que nem vale a pena elaborá-los, porque são sobejamente conhecidos de todos. A propósito disto, brevemente sairá um trabalho sobre esta desgraça chinesa em Angola.

Entretanto, ouvintes participavam e salientavam o caso Jójó, o “defunto” jornalista da Rádio Despertar, que assegurou que enquanto lá funcionou, o seu coração estava sempre parido na coroação, no seu MPLA partido.

Quando é que se acaba de vez com a promoção da mediocridade do jornalismo angolano? Enquanto o mesmo comboio dos quarenta anos circular, a informação é, será, a de nos manietar.
Isto de promover pessoas num debate sobre jornalismo, de facto é muito complicado, sobretudo para quem teima passar por tal, e na prática demonstre que não o é, ou nunca o (foi?).
No fundo, o debate também não abordou nada de circunstancial, pois faltou-lhe o intelecto que não se possui, não se domina, e se até agora não se conseguiu, já é demasiada tarde para o adquirir.

É este o jornalismo, de quem não é jornalista, mas apenas a bandeira dos vulgaríssimos comentadores de acontecimentos que pessoalmente lhes interessam?
Apesar dos esforços de Manuel Vieira, os convidados impunham-se pelo discurso sem palavras, no habitual rodopio pantanoso de que sempre as mesmas palavras em remix, afinal surtem efeito.

Mais pareciam deputados da bancada parlamentar do MPLA em pleno gozo de funções.

Entretanto, chinesas e chineses zungueiros apregoam pelas ruas de Luanda: «Mata baratas, mata ratos, cola de parede!»
Imagem: no Centro de Formação de Jornalistas(Cefojor), em Angola.
altohama.blogspot.com

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O cavaleiro Mwangolé e Lady Marli na demanda do Santo Graal (11)


Acredito que não é possível descrever os quadros pintados que povoam a nossa alma sem o toque da centelha divina do simples contacto dos lábios, a força do incentivo do destino, a presença inspiradora, arrebatadora do amor de uma mulher. É que o escrever, o descrever, o narrar, o desvendar dos segredos das coisas que nos inundam, e das quais receamos lançá-las, como se nos movêssemos num caminho desconhecido, como antes diziam que para além dos mares só existiam monstros ou paisagens celestiais, o paraíso terrestre com maravilhosas mulheres, deusas nuas.
O amor é a deusa mulher que não permite que as portas da perseverança se fechem. Ela é o mundo, o Universo do jasmim que perfuma, ruma, o movimento do nosso sistema neuronal, e nele lá sempre tendo-o como morada desvenda os universos das palavras e as converte numa doce, ela é a heroína melodia da nona sinfonia.

Eis o noticiário do diário Jingola e do seu futuro mórbido que nos espreita: recebeu ameaças de morte. Foi assassinado. Roubaram-lhes os terrenos. Partiram-lhes as casas. Desaparecerem trinta e dois biliões de dólares. Os bancos apoiam o bem-estar e o futuro das populações. Os Tsin arrasaram-lhes tudo. As eleições e o registo eleitoral são uma grande fraude. O edifício recém-constituído, construído, pelos Tsin está em risco de desabar. Houve uma manifestação contra a insustentável fome e as forças de segurança atacaram ferozmente. A nossa vida vai melhorar. Nós temos responsabilidades acrescidas. O nosso futuro depende das centralidades. Todos os nossos actos estão dentro da legalidade. E já inaugurámos muitas estradas, pontes, escolas, hospitais, fontenários, etc., mas não conseguimos concluir com a corrupção. Com os investimentos em curso, a curto prazo criaremos mais um milhão de empregos. Dependemos da ajuda, do apoio desinteressado dos nossos amigos tsins, devido à recusa do apoio da conferência internacional de doadores. Há muito que o nosso povo sabe para onde vamos. Os nossos jornalistas devem primar por uma informação plural e isenta, de acordo com as regras da doutrina marxista-leninista, que é sem sombra de dúvidas onde reside a pureza, os ideais da libertação de um povo. E por isso mesmo, um só povo, uma só libertação, uma só corrupção. Estamos livres e independentes. Faremos de Jingola uma pátria de centralidades. E sem provas não podemos combater a corrupção, só ouvimos falar, mas até agora ninguém apresentou provas convincentes, exceptuando alguns casos que deram entrada na nossa Procuradoria-geral da República, mas não lhes damos crédito porque nota-se claramente que são eivados por motivos políticos. As estradas reconstruídas transformam-se em morte para os peões. Acordo especial de vistos de entrada de tsins, pães-de-açucar, emboabas, outros promotores de centralidades e outras máfias estrangeiras e jingolanas.

Uma jingolana sexagenária embalava-se no ritmo do tanque e lavava, dançava com a roupa. Próximo de si colocou arroz e os pardais aproximavam-se dela, debicavam os grãos e trinavam felizes.
Nunca vi em lado algum pretender que a corrupção acabe com a miséria. Para acabar com os corruptos é necessário acabar com a corrupção, e como os corruptos estão na sua origem.
Errar é humano, mas persistir conscientemente na maldade do erro é desumano.

E Lady Marli sente-se, elevasse, voa, paira e: Despertei, no sonho continuei, me enlevei, há muito que o não consigo, estou presa, algemada no destino do deus sem amor que os homens inventaram. E dele não ouso libertar-me porque não o desejo. Quero nele acordar, nunca dele me separar e sempre o procurar, procurar, perseguir e sugar o elixir armazenado nos meus seios.
O teu amor, é os milénios dos tempos ignorados das misteriosas mensagens cavernais, das réstias das claridades que alimentam o sonhar da Humanidade e que ainda subjugam as nossas almas.
E sempre de mãos entrelaçadas percorríamos, corríamos e sentíamos o gosto da infindável, sempre renovável areia que moldava os nossos passos. E cansados, já depois sentados, atraídos pelo movimento da atracção universal dos nossos corpos, sonhávamos com a antevisão da tela pintada pelas correntes da sonoridade marítima. Um ou outro peixe ferreirinha agitava, saltava para escapar a um qualquer predador, na insistência de que mar sem peixe não é concebível.
Um flamingo caminhava com as suas longas pernas, caçava alguma mabanga aberta, distraída, ou algum minúsculo caranguejo. A maré crescia e inundava os mangais e mostrava como que outro mar, outra vida, da qual de vez em quando nos lembramos.
Um barco a motor aproxima-se bem rápido, o barulho do seu movimento misturado com a vozearia humana, perturbam, agitam, revoltam a vida marinha que num ápice desaparece, esconde-se. E o barco parou, silenciou, alguém atirou uma corda com uma pedra amarrada, bem pesada. A bordo três ocupantes, que lestos preparam as suas canas de pesca, iscam-nas e lançam os seus fios de náilon bem distantes. Depois poisaram-nas nos descansos de bordo e a rirem como crianças, pegaram cada um na sua cerveja, sentaram-se e começaram a comer sanduíches. Eis que a civilização chegou.
E a perturbação perdurava, não acabava, prosseguia, o nosso amor afligia, e a nossa concentração nos fugia. E do mar pareceu-nos sair, ouvir um som que nos prevenia: naveguem, naveguem marinheiros nos oceanos do amor. E o sol, como que obedecendo a algum comando desconhecido, abriu-se, soltou-se, e tudo pareceu ficar, primeiro amarelo, depois muito branco, transparente, e tudo rejuvenesceu, de vida se encheu.
Encostámo-nos mais à nossa intimidade ansiando que estes momentos a eternidade acolhesse. Mas as convenções dos seres humanos não permitem, fabricam corridas de obstáculos para que o amor pereça. Mas não… não é possível porque basta apenas alguém acreditar nele, e ele surge como que por encanto, avassalador, querido, amado, eterno louvor. O amor é a chama que ilumina o farol daqueles que perdidos na escuridão da selva da vida, guia os perseguidos, os caçadores da paixão do amor.

No comité de especialidade dos religiosos, cada vez que um da sua governação abre a boca, há um incêndio social.
Quanto mais tempo o ditador permanecer no poder, mais problemas pós-ditadura surgirão. O que está reprimido há muitos, muitos anos, virá à superfície e nela explodirá.
Na verdade vos digo meus irmãos e irmãs, que o céu está infestado de padres pedófilos e de outros que vendem os seus crentes apenas por um litro de petróleo.
Para levarem avante as suas manifestações, é curial afastarem, exterminarem as populações que os incomodam imenso, para depois construir, continuar, isto é: destruir, destruir. É a praga universal que se resolve com um potente mata-ratos. Isto não é deles, é nosso.
O aquecimento global destrói a natureza, e os padres da igreja pedófila destroem as sociedades, e provam que afinal a religião é a reencarnação do demónio. Afinal o demónio é pedófilo.
Afinal não era para nos libertarem, era para nos mais guerrear, nos infernizar. Até o elefante disse: «Deixem um bocado para nós.»
Quando um médico entra na política, está tudo mal medicado, porque confunde o paciente como um opositor político.
Mas quando a igreja intervêm a favor de um partido, isso é incitação à violência, e a igreja não é condenada.
E o nosso estranho poder, não havendo mais espaços livres, afinal Jingola é muito pequena, quase microscópica, implementa um, novo modelo de gestão urbana na cidade de Jingola: estaleiros e oficinas nas traseiras dos prédios. É o que se pode chamar de terrorismo contra a segurança do Estado. É o deixa andar, que depois o vento Norte resolve?!
A governança da abastança resvala todos os dias nas crateras de explosão, mas o seu olhar está programado para detectar os lucros do petróleo.
Há uma ala da igreja jingolana que se apaixonou pelo petróleo corrupto.

Pai e filho estão abancados nos destroços do mobiliário que milagrosamente escapou dos que têm azar de viverem em casebres, e da raiva incontida dos destruidores do património ganho honestamente. Quem é corrupto tem inveja de quem é honesto. É de noite, o céu está limpo, as estrelas oferecem a sua nitidez cintilante. A criança olha para o céu de Pitigrilli, a TVR – Televisão Privada do Rei, dos espoliados, e pergunta: «Pai, é verdade que nos outros planetas e nos outros países há vida inteligente?» «Sim meu filho, em todo o lado há vida inteligente, só em Jingola é que não.»

Nesta democracia unipessoal, os jingolanos residentes no estrangeiro estão proibidos de votar. É uma democracia interior, de fraude eleitoral e empresarial.
Para evitar a fraude eleitoral, a verificação, a fiscalização não é no final, mas antes, tal como o automóvel e o navio se aprestam para a viagem. Claro que haverá fraude, ou não fossem os Lordes os campeões mundiais invictos da grande corrupção. E sem a extensão do sinal da Rádio da Confiança Tchavola a toda a Jingola, a fraude eleitoral é mais que garantida, mais uma vitória certa.

Para cada corrupto todos os dízimos do petróleo são poucos, porque a avidez é crescente. Os horrores vividos no campo de concentração de Jingola são inéditos na actualidade. Cortar o abastecimento de água à população não é genocídio passível de juízo no TPI? Ah! Esqueci-me de um pormenor muito importante que resolve de uma vez por todas o problema da insolubilidade do mineral mais precioso. Não, não é o petróleo: portanto, o melhor sistema de abastecimento normal de água às populações… é fechar-lhes as torneiras.
Para quê precipitar mais um holocausto, e ensanguentar ruas com o sangue de milhares de cadáveres. Se os Lordes não conseguirem a fraude eleitoral, vão para as urnas de armas na mão, de acordo com os mais elementares preceitos marxistas-leninistas. Os Lordes são um falso cordeiro vestido de defender a pele.

Conforme noticiado na Rádio da Confiança Tchavola, os fiscais do saque das populações, seguindo os exemplos dos seus superiores hierárquicos e muito especialmente o célebre senhor X das ordens superiores, saquearam todos os haveres aos seres inferiores às duas da manhã, armazenados de cidadãs no Centralizanga. No mais puro fascismo hitleriano partiram as residências com martelos de ferro. E nem a oficina de um jovem serralheiro escapou. Se isto não é o mais puro estilo nazi, então o que é? E com tantas igrejas que proclamam o amor ao próximo e exigem dos seus crentes que orem pelos seus governantes.

Os Lordes não mudam, pelo contrário, reforçam o aparelho repressivo. As manifestações intensificam-se até ao entrosamento do encontro final. Em Jingola a única coisa que funciona em pleno, é a repressão.

Oh, meu Cavaleiro Mwangolé! Tantos inventos para nos beneficiarem a vida e nos encantarem. Tantas maravilhas que até as nossas almas privatizam. Tantas promessas que nos atrofiam os espaços e os nossos passos. Já não há ninguém que consiga (esqueceram-se?) de inventar o amor?
Depois de mais um dia vertiginoso, a noite ruidosa aproxima-se. Os olhos cansados fecham-se repousados no agitado silêncio do amor perdido.
A publicidade que nos assedia a cada momento mostra-nos o paraíso, a anunciação, o clímax do finalmente regresso do Senhor. E qual é o dia da redenção, da filiação do nosso amor?
As escadas das nossas vidas estão solenemente partidas. A escada prometida para o reino do céu também. Resta-nos a escada do amor. Mas, quem será o seu construtor?
Fugimos de um lado para o outro, na constante procura da tranquilidade que ansiamos, mas não encontramos. Na realidade fugimos do amor que transformámos, monstruoso. Fugitivos do desespero, do amor enterrado.
E chovia intensamente, como normalmente. Dois jovens apaixonados molhados refugiaram-se numa acolhedora árvore. E a chuva não parava, aumentava, parecia outro dilúvio que se aproximava. E eles alheios na paixão, enlevados. Um dilúvio de amor inigualável se instituía, prometia.
Continua
Imagem: escola no Zaire, Angola.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

JES-MPLA – Filhos, Amigos e Bajuladores, SARL. Voltaire Ngola


Ah! No fundo sou um sentimental
ainda farei de Angola
outro império colonial

Para uma pequena ou média empresa
não é necessário te preocupares
faz um movimento espontâneo
e nele basta bajulares
E para o teu futuro assegurares
não precisas de trabalhar
com JES-MPLA é só
facturar

É uma república tão desastrada
tão devastada como nunca vi
república engolfada de petróleo
República do golfo 32 bi
Com noticiários muito atraentes
comoventes ao serviço dos burlões
só não noticiam o destino
dos 32 biliões

O rei JES-MPLA e seus salafrários
reuniram a massa militante
do comité dos empresários
vai chover dinheiro sonante
e os abandonados na Tchavola
morrem a todo o instante

E os portugueses vêm para Angola
trabalhar
e os mwangolés vão para Portugal
passear
lá não há trabalho, é só
desempregar

Mas que petróleo tão impiedoso
antes tão sereno
e depois de descoberto
fica como os patriotas
encoberto
E nesta república
tudo o que perdemos
com os actuais amos
jamais recuperaremos

Sinto uma tristeza imensa
no meu olhar a desabar
roubaram-nos o futuro
este petróleo é de matar
Olho para mais um dia
a nascer
hoje, o amanhã, sem nada
para comer

E os ditadores tão felizes
com a desgraça dos seus povos
abismal
que até dizem
ditador é também uma calamidade
natural

Naquele palácio sempre iluminado
pela energia eléctrica
está enfeitiçado
o petróleo abundante sustenta-o
negro, injustiçado
E como não há ninguém nesta
lamentação
resta-nos aguardar que se faça
revolução

Até as praias privatizaram

Imagem: un mapa en el que el Imperio ColonialPortugués (Angola, Mozambique, ...
ww1.rtp.pt

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SONHO DE UMA NOITE TROPICAL (09)


O Poeta persegue a Liberdade. Faz apenas o trabalho que lhe compete. Entrega-lhe um papel poemático. Ela lê-o em voz alta:
Querido vem para mim/ não tentes conhecer os nossos segredos/ femininos/ nunca conseguirás/ mantém-te passivo/ segue-me, segue-me/ e vem para mim/ nunca me perguntes nada/ nós no feminino/ não gostamos nada/ que nos façam perguntas/ deixem-nos ser livres/ e gostamos por tudo e por nada/ de rir/ por isso meu amor/ segue-me, segue-me/ vem comigo algures/ vamos encontrar um tesouro perdido/ todos chamam por mim e dizem-me/ segue-me, segue-me/ todos me chamam/ e repetem-me sempre/ mas que tesouro/ porque não me segues, porque não me segues?/ Venham todos comigo/ e segui-los-ei
Venham comigo para lhes mostrar/ os meus tesouros escondidos/ por favor sigam-me, sigam-me.
O meu ventre será a vossa fonte/ onde sempre bebereis/ e sereis saciados/ não tenham receio/ da minha fonte/ de amor.
O Presidente não se cansa, afirma:
- A República Popular de Angola propõe-se dinamizar e apoiar a instauração do Poder Popular à escala nacional. A República Popular de Angola considera como um dever patriótico inalienável e de honra a assistência privilegiada e a protecção especial aos órfãos de guerra, aos diminuídos e mutilados de guerra pelos sacrifícios consentidos na luta de libertação nacional. Envidará ainda todos os esforços, no sentido da reintegração completa na sociedade de todas as vítimas da guerra de libertação nacional. Preocupação dominante do novo Estado será também a abolição de todas as discriminações de sexo, idade, origem étnica ou racial e religiosa, e a instituição rigorosa do justo princípio – «a trabalho igual, salário igual».
A República Popular de Angola, sob orientação justa do MPLA, estimulará o processo da emancipação da mulher angolana. A República Popular de Angola afirma-se um Estado laico com separação completa da Igreja do Estado, respeitando todas as religiões e protegendo as igrejas, lugares e objectos de culto e instituições legalmente reconhecidas. A bandeira que hoje flutua é o símbolo da liberdade. In Agostinho Neto.11 De Novembro de 1975. Proclamação da independência.
- Alguém me sabe responder porque a maioria dos que conduzem carros são mulheres? – Perguntou o Almirante.
- Os maridos estão nos copos. – Esclareceu o Hepatite.
- Perdemos o precioso tempo da nossa vida a beber. Somos ao contrário dos outros. Eles passam o tempo a comer. Nós…só a beber. – Lamentou o Branco.
- Aí está o carro do barulho. – Alertou a Caribenha.
- A esta hora? – Admirou-se o Almirante.
- Alguém quer comprar lotaria da sorte? Aqui recebe mesmo. – Anunciava o carro do barulho.
- Não. Só se sortearem uma caixa de garrafas de uísque. – Sugeriu o Hepatite.
- Ainda ninguém se lembrou de lhes mover uma acção judicial. – Disse o Branco.
- Porquê? – Perguntou o Vodka.
- O barulho é considerado um crime. Afecta a nossa saúde.
- E os copos não?
- Não, porque os copos são sempre bem-vindos. Com esse barulho são dois crimes. Já basta um não é?
Numa rua próxima ouve-se o partir de uma garrafa. O som dos bocados de vidro lembra a violência aberrante. O Almirante comenta:
- Nesta cidade onde se ouve o barulho constante do partir de garrafas de vidro, estamos a viver uma festa violenta permanente, sem fim. Nunca saberemos quando vai acabar.
- É por isso que existem as escoltas privadas. Vou montar uma empresa dessas. – Disse o Vodka.
O Filósofo baixou-se e começou a reunir as garrafas vazias para que o sítio não apresentasse mau aspecto. Depois de acabar filosofou:
- Dormimos e acordamos angustiados. Todos os dias a viver a angústia que sabemos quanto custa viver num país onde não temos direitos. Não podemos viver na tranquilidade merecida porque os criminosos estão protegidos e abundam. Não me refiro aos pobres criminosos das ruas, mas aos que roubam milhões e esses não são perseguidos. Estão protegidos pela lei. Isto significa que as leis existentes são falsas. A lei actua só para quem rouba um dólar. Quem rouba um milhão é protegido, e nunca é julgado. Não os podemos denunciar porque seremos mortos. É por isso que estamos condenados a viver no medo, no terror da fome. Estamos a viver no tempo de Torquemada. A lei caça facilmente os de baixo, os de cima vivem felizes com a protecção do legislador. Não existem os de baixo porque é um reino sem povo. Um reino com duas leis. Uma para a nobreza e outra para a ralé. O único meio de sobrevivência é o que os governantes nos ensinam: roubar para não morrer à fome.
- Um gajo aqui para se safar tem que criar uma associação industrial. – Lamentou o Vodka.
- Outra empresa que dá dinheiro é uma agência de casamentos. Em especial nos fins-de-semana. - Gracejou o Almirante.
- Os camiões dos chineses passam carregados com sacos de cimento, há quem se aproveite pelo caminho e descarrega alguns para sobreviver. Estes roubam pouco. Roubam o que sobra. Mas há quem rouba muito nos gabinetes climatizados. – Denunciou o Filósofo.
- A revolução acabou com o colonialismo. Fomos libertados. Depois veio outro colonialismo, a escravidão continua. Não há por aí algum revolucionário que nos liberte? – Profetizou o Poeta.
- É melhor arranjar uma máquina do tempo. Também é uma revolução. – Ironizou o Hepatite.
- E isso serve para quê? – Perguntou o Vodka.
- Para voltar para trás e para a frente.
- E?
- Quando aqui não estiver bom, saltamos de um tempo para outro.
- Isso não vai funcionar. Porque vamos passar a vida, a saltar de um tempo para outro.
- Não sei porquê.
- Os tempos passados e futuros estão infestados de ditadores. Já se apoderaram do tempo, são donos dele.
O Presidente esclarece:
- Mais, os colonialistas introduziram e intensificaram o sistema capitalista de opressão que a pouco e pouco foi cedendo o seu lugar às formas multinacionais da exploração. O factor fundamental para a transformação da sociedade, é a produção, são as relações de produção, é a maneira como na sociedade são distribuídos os meios de produção. É preciso que os meios técnicos modernos e as condições oferecidas pela natureza, estejam ao serviço do Povo. In Agostinho Neto. 23 De Maio de 1976. Discurso no encerramento do 1º curso de activistas do MPLA.
- O culpado disto tudo foi o Marx. Ele devia ter dito assim: esfomeados de todo o mundo uni-vos! – Exclamou o Filósofo.
E continua:
- Por exemplo, quando inventaram o automóvel, que considero o invento mais estúpido de todos os tempos, havia promessas de felicidade e bem-estar para todos. Com ele fizeram-se duas grandes guerras e sabemos a mortandade que causou. Como precisava de combustível e lubrificante descobrem o petróleo. A publicidade mostra-o perto de um rio ou do mar, junto com a família num paraíso. Destrói-se as árvores, tudo o que é vegetação, para construir estradas asfaltadas para aos fins-de-semana ou nas férias, deleitarmo-nos nesses novos paraísos. Todos os dias surgem novos inventos e bugigangas para apetrechar o nosso carro. Quando dizemos que vamos fazer praia, ou campo, devemos dizer que vamos destruir essas coisas. Quem hoje suporta o barulho que esse veículo faz? Parece um dragão mecânico a rugir, a preparar-se para voar. Alguém descobriu que o carro está a destruir a civilização. Provoca tantas doenças que não se conseguem contar. E em nome do lucro ninguém consegue parar com este maldito invento. Devido a isso estamos a morrer lentamente. Agora retrocedem e dizem que este invento é a pior causa da poluição. Mas não desistem porque está em causa a ordem democrática. Quem fabrica isto comete um grave crime e não é julgado. A democracia foi uma grande invenção. Por causa dela estamos a morrer à fome. É isto o que se chama a democracia moderna.
- É a regra do vença o mais forte. Até que no fim só reste um habitante vivo no planeta. – Afirmou o Almirante.
Imagem: Balada CERTA - Festas :: NOITE TROPICAL
baladacerta.com.br

Eça de Queiroz (1845-1900) e a bancarrota de Portugal


A desgraça de Portugal é a falta de gente. Isto é um país sem pessoal. Quer-se um bispo? Não há um bispo. Quer-se um economista? Não há um economista. Tudo assim! Veja Vossa Excelência mesmo nas profissões subalternas. Quer-se um bom estofador? Não há um bom estofador...
Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – «cobrar o imposto» e «fazer o empréstimo». E assim se havia de continuar... Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
– Num galopezinho muito seguro e muito a direito – disse o Cohen, sorrindo. –
Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável: é como quem faz uma soma...
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.
– A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela – continuava o Cohen – que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país...
Então Ega protestou com veemência. Como não convinha a ninguém? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! A bancarrota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um país que vive da «inscrição», em não lha pagando, agarra no cacete;
e procedendo por princípio, ou procedendo apenas por vingança – o primeiro cuidado que tem é varrer a monarquia que lhe representa o «calote», e com ela o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal, livre da velha dívida, da velha gente, dessa colecção grotesca de bestas...

Depois ninguém consentiria em deixar cair nas mãos de Espanha, nação militar e marítima, esta bela linha de costa de Portugal. Sem contar as alianças que teríamos a troco das colónias – das colónias que só nos servem, como a prata de família aos morgados arruinados, para ir empenhando em casos de crise...

Ega rugiu. Para que estavam eles fazendo essa pose heróica? Então ignoravam que esta raça, depois de cinquenta anos de constitucionalismo, criada por esses saguões da Baixa, educada na piolhice dos liceus, roída de sífilis, apodrecida no bolor das secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o músculo como perdera o carácter, e era a mais fraca, a mais cobarde raça da Europa?...
– Isso são os lisboetas – disse Craft.
– Lisboa é Portugal – gritou o outro. – Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!...

– A mais miserável raça da Europa! – continuava ele a berrar. – E que exército!
Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em massa no hospital! Com
seus olhos tinha ele visto, no dia da abertura das Cortes, um marujo sueco, um rapagão
do Norte, fazer debandar, a socos, uma companhia de soldados; as praças tinham literalmente largado a fugir, com a patrona a bater-lhes os rins; e o oficial, enfiando de
terror, meteu-se para uma escada, a vomitar!...
In Os Maias.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A EMBAIXADA DA BANCARROTA


Perseguido pelo calor, teimava na subida da rua da embaixada portuguesa em Luanda. O suor escorria-me pelo corpo dando-me a sensação de que me liquefazia. Vi uma esplanada bem sombreada, por ela entrei e me sentei para me refrescar com um refrigerante Sumol laranja. Aliviado, respirava fundo como se acabasse de regressar ao meu paraíso interior. Foi então que vi bem à minha frente um amigo angolano que já não via há muitos anos. Experimentámos o que ainda restava das nossas forças num caloroso aperto de mãos. Ele perguntou-me o que fazia por tais bandas e logo lhe narrei a minha desventura.
Há muitos anos que não navegava para a Embaixada Portuguesa em Luanda, porque só de pensar em lá ir me fazia adoecer, é que as coisas por ali são tão horripilantes que deixei caducar o bilhete de identidade e o passaporte. E como necessitava de renovar o bilhete de identidade para obtenção de um certificado de residência, lá fui na terrífica aventura, como se fosse para um campo de concentração nazi. Até lá eram cerca de três quilómetros que percorri a pé, de carro nem vale a pena pensar, o trânsito está sempre engarrafado, mas mesmo assim o número de veículos aumenta todos os dias sem a existência de locais para estacionamento. Enquanto caminhava via como a rua se tinha alterado, melhor dito, adulterado, nos vários anos que por ela não circulava. Vi chineses a serrarem ferros, o barulho constante de partir paredes de quem acabou de alugar ou comprar a casa ou o estabelecimento comercial. Cada um que se acaba de instalar parte o que o anterior inquilino deixou e assim sucessivamente. Partir paredes, significa fazer obras, dar nas vistas de que se têm dinheiro, de que se é rico. Os passeios das ruas que os chineses repararam tinham lombas, altos e baixos, o olhar tinha que ser feito para o solo porque senão uma queda era inevitável. Nalguns locais sobressaíam fissuras que revelavam o amadorismo do trabalho. Geradores instalados nos passeios, taipais de obras paradas, alguns trechos ocupados para ganhar mais espaço, um tubo de esgoto que atravessava o passeio, um cano de água rebentado que já formava um pequeno poço e que se notava muito bem que já há longo tempo vivia. Noutros pontos do percurso o passeio já não existia porque mais um edifício se não erguia. O taipal estava canibalizado, também abandonado. Regra geral não existia passeio, o que nos obrigava a circular pela rua no constante receio de atropelamento. Senti-me como Martin Sheen no Apocalyse Now. Cheguei ao objectivo cerca das oito horas. O mar de gente era impressionante, lembrava-me imagens de um campo de refugiados. Senti-me mal disposto e lembrei-me dos horríveis momentos de quem foge da guerra, e comparei se isto é a embaixada de Portugal em Luanda ou a embaixada americana durante a evacuação da guerra do Vietname? Tinha combinado na véspera com um português conhecido de uma empresa de construção civil que me guardasse o lugar, para apanhar a célebre ficha numerada. Ele estava com mais dois portugueses, gritou-me, aproximei-me e encostei-me a eles. Alguns angolanos não gostaram e apontaram-me: «Como é isso, mal agora chega e já está nos primeiros lugares da bicha?!. Assim não dá, assim não pode!» Os outros portugueses disseram-lhes que não, que o meu lugar estava marcado, o que corroborei, claro, mas eles não acreditaram e ficaram naquela de que os portugueses estão sempre a gozar com os mwangolés. Estávamos todos concentrados numa bicha para os mais diversos assuntos, o que revela a mais profunda desorganização à portuguesa. Pelo menos que separassem as bichas em: uma bicha para registo civil, outra para bilhete de identidade, outra para passaporte, outra para vistos, etc. Mas não, quando a cabeça não funciona. Dois mil anos depois ainda estamos em plena Idade Média portuguesa?
No rés-do-chão estavam dois jovens polícias angolanos da protecção às embaixadas. Entrei e disse-lhes, conforme indicações dos outros portugueses: «Vou tratar do bilhete de identidade.» Não me colocaram qualquer objecção. Subi até ao segundo andar e aguardei durante duas horas que me chamassem. Apreensivo, notei que na embaixada do meu país os idosos não têm direitos. Horrorizado, regressei quase dois meses depois ao inferno. Consegui mais uma vez atingir o objectivo, cumprir a missão. Cheguei por volta das dez horas. Deparo-me novamente com o espectáculo confrangedor de muita, muita gente, era como se tentassem abandonar o campo de refugiados de Darfur. Desta vez não era necessário estar na bicha, bastava chegar e o bilhete de identidade levantar. Assim parecia. Logo à entrada, depois de muitos com licenças pelo amontoado de angolanos que aguardavam a sua sorte, informei mais uma vez os jovens polícias que ia levantar o BI, entrei, avancei e oiço um deles com voz brutal: «É PÁ, PÁRA, ONDE É QUE VAIS?!» Parei estupefacto, mas não surpreendido, e respondi que ia tratar do BI. Com ar marcial interroga-me a gritar: «NÃO SABES QUE TENS DE PARAR?!» De repente compreendi: era encenação para me meterem medo, e para mostrar aos mwangolés presentes que nós quando queremos enxovalhamos os portugueses. «MOSTRA O DOCUMENTO!» Mostrei-lhes um documento qualquer e mandaram-se subir, mas sem antes me advertirem: «E NUNCA MAIS FAÇAS ISSO!» Como a coisa já era demais, ripostei-lhes: «TENHO SESSENTA E DOIS ANOS. NÃO LHES ADMITO QUE ME FALEM ASSIM, SENÃO JÁ SABEM COMO É!» E virei-lhes as costas, subi as escadas, parei confuso no primeiro andar e perguntei a uma funcionária se o BI era ali. Ela presenteou-me com um olhar gélido e apontou para cima. Já no segundo andar, falo a outra funcionária que vinha levantar o BI. Ela logo me respondeu para aguardar pela sua colega que não tardaria a chegar. Passou-se uma hora de espera e nada. Voltei a interrogá-la, e ela dá-me a mesma resposta. As doze horas aproximam-se, então começo por concluir que ela está no gozo comigo.
Um português preenche um formulário, e onde deveria escrever 890, escreveu 800 e 90. E o outro português repreende-o: «Já estás angolanizado?!.»
A funcionária deve ter para aí vinte e cinco anos, acabadinha de chegar porque se nota muito bem pela pele que parece leite. Sondo-a com o olhar e ela retribui-me com desprezo. O tempo vai-se gastando, as treze horas chegaram e a tal colega dela não passa de uma torpe mentira. Que gozo lhe dará, a não ser o da maldade, martirizar durante três horas um sexagenário que vem apenas levantar o seu BI? Já com os serviços da embaixada encerrados entram em acção os serviços da corrupção. Algumas pessoas amigas entram e ela atende-as e eu continuo a aguardar, a ver até onde ela ia chegar. Entra outra senhora com cerca de vinte passaportes e é atendida por outra funcionária dos passaportes. Afinal há corrupção, sim senhor. Depois de já não existir mais ninguém para atender, chamou-me, mandou-me sentar, e prepara-se para a entrega do BI, mas sem antes me estender o martírio: «Mostre-me o recibo!» «Mas, pelo email que me enviaram isso não é necessário, respondi-lhe.» E ela ameaçadora: «Nós não entregamos BI a ninguém sem o recibo!». Pensei: «Porra! Esta gaja é louca, foi educada pelos nazis, é terrível, monstruosa, vai-me fazer voltar amanhã, puta que a pariu.» Então, mostrei-lhe a cópia do email que recebi: «O seu Cartão de Cidadão e a Carta dos Códigos já chegaram. Deverá levantar pessoalmente para validar as suas impressões digitais. Horário de atendimento é de Segunda á Sexta das 8h ás 12:30. Se já tem Bilhete de Identidade Português, deverá trazer consigo para ser inutilizado. A presença dos menores de idade também é indispensável, e deverão estar acompanhados por um familiar adulto, desde que esteja devidamente identificado com um documento que tenha fotografia.» Ela informou que o email não tinha nenhuma validade, e que ia verificar no computador se eu tinha pago ou não. Depois de confirmar o pagamento entregou-me o BI, e lá fui à minha vida cogitando que isso de ser cidadão português é a mesma coisa que ser cidadão da selva.
Já no regresso, quase no fim do caminho, assusto-me quando um segurança - são cinco - fazem recolha das receitas de uma, são apenas duas e não se permite concorrência, operadora de telefonia móvel, me aponta a arma e manda-me parar, e se não obedecer, dispara-me a matar sem hesitação. Depois os fiscais do GPL – Ingombota, com o seu novo uniforme preto, para meter medo?, a prepararem-se para espoliar mulheres indefesas que não têm direito a nada, excepto a escravidão. Pouco depois observo dois portugueses a efectuarem manutenção numa caixa de comunicações a beberem cerveja.
Como se torna cada vez mais difícil a fuga do inferno, que existe sim senhor, continuamente, e o paraíso prometido afasta-se à velocidade da luz, inalcançável.
Uma embaixada que obriga as pessoas a perder noites para tratarem de um vulgar documento, como um passaporte ou um bilhete de identidade, em circunstâncias típicas das célebres bichas leninistas de 1975 e alguns anos seguintes, mais até parecendo fuga à guerra do Vietname. Com cenas incríveis como se de mais um campo de refugiados se tratasse, de autêntico horror, só revelam o colapso de um país que nem os seus cidadãos respeita, muito pelo contrário, despreza-os. Se faz isto aos seus nacionais, que fará aos outros que o não são? Isto aconteceu em Angola, na Embaixada Portuguesa, ou melhor, na Embaixada do Pavor Português. Têm que trabalhar noite e dia até atenderem todas as pessoas. Manter o sistema da bicha para conseguir por milagre uma ficha para incrementar a gasosa da corrupção, só pode ser, existirá outra explicação? Creio que não. Isso faz-me lembrar que Portugal é o castelo medieval da Europa.
A lua não se movia, e por isso nada acontecia. Os políticos com as suas políticas oprimem as margens das nossas vidas, e tudo o que é mostrado, tão desencontrado. Onde se finge que existe democracia, o nosso destino decide-se com um agrafador que agrafa os nossos documentos e que se acumulam nas secretárias de funcionais nazis, que nos enviam para os comboios sem destino.
A voz de um português cansado da democracia ecoa-me: «Ontem disseram-me para vir hoje para me dizerem que o meu passaporte ainda não está pronto: «Espero que o PSD, agora que ganhou as eleições, mude isto, assim como está, é impossível!»
Agora compreendo porque é que Portugal se exporta outra vez para além das suas ocidentais praias lusitanas, pelos ares agora muito navegados, está na bancarrota.
Imagem: População escala muro da embaixadanorte-americana em Saigon, hoje chamada ...
cn2012.wordpress.com