terça-feira, 19 de junho de 2012

Na casa da eterna tribo da bandeira



Exceptuando-se a corrupção, nunca tão poucos entenderam de mais nada.
Conta-se que um mais velho, perguntado sobre o porque é que ninguém reage contra tantas situações escandalosas no domínio da moral público-política em Angola, ele terá sentenciado o seguinte:
− Meu filho, Angola está hoje como uma loja assaltada por um pistoleiro. A loja é única do bairro e o pistoleiro meteu tudo num grande embrulho, mas de forma tão desajeitada que à medida que vai arrastando o grande saco, alguns produtos vão caindo, para os quais todos se atiram para garantir um mínimo de subsistência para os próximos dias; em vez de arriscarem a levar um tiro do gatuno ao tentarem agarrá-lo. In Marcolino Moco
Na casa da eterna bandeira, permanecia inadiável discussão entre mãe e filho sobre quem é que deveria ter direito ao uso exclusivo de bandeira naquela casa. É que a mãe gostava de uma bandeira com uma estrela negra, e o filho, de outra com um galo que despertava um sol fervente. E claro que não se entendiam, muito pelo contrário, a mãe decidiu-se, como era da praxe, pelos rumos da nova vida de uma só bandeira, um só partido, um só povo, e também da outra bandeira das responsabilidades acrescidas, e de outras corrupções.  
A mãe garantia que a experiencia de luta adquirida pelos patriotas do partido da única bandeira conduziriam o navio e do que restava da sua ferrugem naval, outra vez e sempre pelos mares da liberdade, da independência, rumo ao homem novo. E que para isso só um partido é mais do que suficiente para atingir o tal desiderato.
Mas o filho já cansado - e quem é que não o estava? - de escutar durante incontáveis anos sempre a mesma sinfonia com os mesmos executantes e também sempre com o mesmo maestro, onde qualquer um fica estarrecido e apela à manifestação, e até, como alguns, à desordem, e um ou outro à guerra, o filho, apresentava como num debate os seus argumentos: «Mãe, a minha bandeira do alvorecer vai ganhar as eleições, porque essa tua bandeira da estrela já lhe secou a luz, dela só restam alguns príncipes das trevas que nos consomem os anseios da liberdade. Ademais, essa bandeira actualmente é o símbolo da corrupção. Quando se olha para ela, vêm-nos à mente tudo o que é miséria, corrupção, arrasar de casebres, espoliação de terras, desemprego, falta de água, luz … escravos dela e dos seus amigos estrangeiros, etc., etc.» Mas a mãe, como os férreos seguidores de uma religião que obriga os seus fieis a oferecerem em holocausto as suas vidas, apertava-lhe como numa visão mística, numa profecia: «Meu filho, bandeira com um só coração não se pode dividir com mais nenhuma… já viste o que é quando um coração se parte em dois? É um grande sofrimento para a alma. Nós, no nosso querido, amado e idolatrado partido leninista da ainda oprimida classe operária, isso da classe camponesa ainda teremos de reencenar uma luta pela sua liberdade, porque as cooperativas parece que acabaram e os produtos hortícolas e os campos definitivamente murcharam, mas meu filho, aviso-te solenemente que não quero... tira-me daqui essa PORRA DE BANDEIRA DO GALO!!! OUVISTE???!!!
E o movimento dos citadinos, a gíria generalizada dos jornalistas dos nossos órgãos de informação sem excepção, fazia-se sentir multicolorido, também outra gíria dos nossos consagrados lentes das penas, arrastava-se pela rua da centralidade da tribo da casa da bandeira eterna. O horroroso barulho de chineses instalados nas traseiras dos edifícios arruinados, que sem problemas, agora Angola é deles e de todos os estrangeiros, que com uma máquina serram tubos de ferro, isto porque os mwangolés não são capazes de o fazer, garantem os nossos amigos do império asiático, e como chinês trabalha de dia e de noite, imaginem a poluição sonora e ambiental que se instalou em Angola. E os chineses, como mais um dos milhões de produtos importados, assentam arraiais, e transformam as traseiras das nossas residências em oficinas com o apoio incondicional das nossas estruturas das mais-valias. E via-se claramente um chinês a mijar com tão grande à vontade, para quem o quisesse apreciar, como um cartaz de publicidade pornográfica de baixo nível, que se juntava que festejava a restante imundície acumulada.
Ouvia-se também o estridente escape de alguns geradores também instalados nas traseiras do que antes era propriedade angolana e agora espoliada. O barulho e o fumo tóxico não têm problemas, vale como lei, porque os dirigentes sentados na eternidade dos seus cadeirões imperiais, há muito que não sabem, desconhecem por completo que afinal Angola tem povo. Mas a palavra de ordem é acabar com tudo o que ainda se chama de população, apenas os ratos, as baratas e as moscas lhes resistem, até ver. Angola não é dos angolanos, é da tribo de uma só bandeira.
E o lugar-comum da vozearia de quem já foi assaltado, o prato da manhã, da tarde, da noite, enfim, de todos os momentos, entrava-nos pelos ouvidos como se perseguidos pelo inferno. E os fortes sons de bater com tampas de panelas, ou algo similar, escutava-se, informando que a uma mamã já lhe raptaram o filho. E com ou sem polícias os motoqueiros rasgavam, ultrapassavam os instrumentos medidores de som com os seus loucos escapes drogados pelas mais violentas drogas conhecidas e desconhecidas. E como se não bastasse, ouvia-se mais um som de um motoqueiro especial, o batedor do trânsito da escolta presidencial assinalando que a maratona do cortejo presidencial se aproxima. O terror apodera-se de nós, porque não é imaginável que alguém ouse fazer um gesto qualquer, porque se arrisca a levar um tiro, enfim, coisas da democracia. Mas, os esclarecidos dirigentes da bandeira publicitavam, decerto por engano, na sua imprensa particular que: «Está tudo sob controlo.»
E perante a intransigência do seu filho e da sua bandeira, a mãe, extremada zeladora da sua única bandeira queixou-se nos seus amigos e amigas do seu coração, e muito rápido, quase à velocidade da luz, chegou um pelotão de execução, uma chusma que cumprindo desordens superiores, atiraram-se como piranhas sobre o traidor salafrário da causa do povo angolano. E tanto lhe batucaram, lhe amassaram que o aniquilaram e mais à sua bandeira. E dentro da maior impunidade que a caracteriza, a estrela da bandeira de um só partido sorriu por mais uma missão cumprida.
E logo de seguida, como que já de antecedência programado, noticiou-se de lés-a-lés nos órgãos que só falam a verdade:
Conselho da Revolução. Decreto 001/CR/12.
Convindo harmonizar, legislar, o uso de bandeiras e camisolas dos partidos políticos, este CR decreta e promulga o seguinte:
1 – Doravante, qualquer partido da oposição que deseje utilizar as suas bandeiras ou camisolas, terá que solicitar a este CR através de requerimento, acompanhado da quantia monetária de dois mil dólares que servirá como caução para despesas de expediente, porque este processo é longo e demorado. Pois que terá de subir até ao nosso chefe supremo da revolução. A coisa, a autorização demorará pelo menos um ano até à sua implementação. Mas não desesperem, porque as coisas revolucionárias são mesmo assim.
ÚNICO:
O único partido que está autorizado a utilizar camisolas e bandeiras, é o da nossa vanguarda eterna, aquele partido que conduz os destinos desta portentosa Nação até à vitória final e suas consequências.
Quem não cumprir este desiderato decretado será de imediato espancado até à morte, sem poder recorrer, como é óbvio, às instâncias policiais e judiciais.
Está isento de recurso ao Tribunal do Supremo Conselho da Revolução.
E logo um serviçal bajulador tratou de organizar em regimento militar a voz destemperada da sua informação nacionalizada.
E a evolução da nossa revolução dos 32 biliões segue o rumo imparável de mais outros 32 biliões. E contra 32 biliões ninguém luta. A nossa revolução não é corrupta, os revolucionários é que são corruptos.
Não se é revolucionário por vontade própria, mas por certidão de nascimento. E nas nossas fileiras os nossos militantes ao nascerem portam na pele a gravação das letras do nosso imortal partido. Os nossos também imortais líderes guiam-nos, mostram-nos o caminho do sucesso revolucionário dos nossos camaradas e amigos de luta da Coreia do Norte. Onde existir um revolucionário há revolução, e quem portar uma bandeira com cheiro a galo, vai apanhar até se finar.
E porque estamos enxameados de revolucionários, dispensamo-los definitivamente porque os corruptos ultrapassam-nos.
E apontaremos os nossos canhões para os militantes de outros partidos com bandeiras que serão canhoneadas, e os nossos homens dos canhões devidamente honrados com a medalha de herói nacional da pancadaria.
A nossa luta é dirigida contra todos aqueles que não comungam com os nossos ideais de liberdade e de democracia.
A nossa estratégia de combate é a seguinte: primeiro, aniquilar a bandeira do cantar de galo, o nosso inimigo principal. Segundo, na lista negra, o partido da banda desenhada, nome dado pelo partido da nossa estrela, depois… os outros… é muito fácil, basta um sopro das nossas forças que estão há muito preparadas no terreno.

domingo, 17 de junho de 2012

O Cavaleiro Mwangolé e Lady Marli na Demanda do Santo Graal (21)



Quando somos maravilhosos, os dias também o são. Perante tanta imperfeição humana, resta o amor, que nos une até à eternidade. Não compreendo como nós humanos vivemos tão ausentes, tão desconsolados, como se perdidos num deserto. Mas, resta-nos sempre um rosto feminino angelical que nos convida, nos impulsiona, nos revive o doce amor.
Perseguimos a perfeição, isto é, o amor. É por isso que tentamos ser felizes, mas frequentemente esquecemo-nos dos anseios da Natureza, isso sim, é onde reside a vida, o nosso destino e o amor. Sim, alguém sincero é como a Natureza de uma mulher que se ama, como o pulsar de um profundo sentimento correspondido.
Ó princesas acasteladas nas montanhas das nuvens das vossas ameias. Libertem-me desta ditadura, deste dragão que me usurpou o trono principesco. Ah! Como desfaleço nesta jangada desfeiteada há quase quarenta e dois anos não renovada, à deriva. O meu olhar perde-se neste lugar. Mas, eis que desperto, ávido de forças, sinto finalmente o Sul arrastar o vento deste Norte sem liberdade.
Raramente vejo passar a brisa diária que me rodeia, e a marítima adivinho-a ao longe, mas sinto-as nos teus olhos perdidos, no vaguear longínquo das estrelas-do-mar. De andar cambaleante mas não ferido, e ainda não perdido. Não, não! Os pecados não se apagam no inferno, a terra testemunha-os. Não conseguimos sair dos anos 70… os relógios não deixam, de asfixiados no tempo das folhas poeirentas, deitadas ao vento. Mas o seu verde memoriza-nos. A estação aguardava o comboio e ele não parou, admirou-se da beleza da paisagem. É um comboio humano. Quando os momentos de alegria se perdem, ganha-se uma lágrima de tristeza.
A questão que se coloca é: será que o chefe dos Lordes vai impor continuamente a repressão feroz ao seu povo, o qual o elegeu, com o apoio dos países neocolonialistas que nos invadem como ratos, e que até das traseiras dos prédios, numa destruição inédita, e numa desordem combinada, fazem estaleiros e oficinas. Este poder está demasiado destrutivo. Se assim persistir, o poder do chefe dos Lordes vai-lhe fugir.

Para os de preconceito racial:
Se os negros não existissem, também o continente africano não existiria, e o mundo também não.

Pelos discursos que se perdem no ar, o chefe dos Lordes está muito deslocado, ele não está em Jingola, está algures perdido num país imaginário, que de parecenças com Jingola não tem absolutamente nada. A paranóia é o principal sintoma de um ditador antes do seu deitar final.

Porque é que o ditador escolhe, prefere sempre o diálogo das balas, do metralhar dos seus canhões contra manifestações pacíficas de populações indefesas, como morticínio, como o único meio de comunicação? A resposta é muito simples: o ditador é surdo, mas, escuta sempre a conversa da morte. 
Porque será que em Jingola se instituiu um regime de terror, de tal modo que se prende qualquer pessoa pelo motivo mais fútil, por exemplo: uma mamã esfomeada que tenta vender cigarros para que os seus filhos não morram de fome, e não se prende nenhum corrupto, muito pelo contrário, ainda se dizem empresários de sucesso?
Quando se fala de manifestações, ouve-se publicitar amiúde pelos donos da riqueza petrolífera, que Jingola não é a Tunísia, o Egipto ou a Líbia. Mas omitem intencionalmente que Jingola também não é a China, a Coreia do Norte ou a Guiné Equatorial.

Os bancos são muito confiáveis e prestáveis. Têm sempre um caixão depositado… à nossa espera. E onde há um banco, também há corrupção. O banco é sempre o chefe da família da corrupção. E onde há muita corrupção também há muitos lucros bancários.

Parafraseando:
Ai meu petróleo, meu petróleo
não há cor igual à tua
ai meu petróleo, meu petróleo
que dás miséria a milhões de jingolanos
não há cor igual à tua
há sim! A cor da tua ditadura

Para onde olho só vejo criminosos. Eles conseguiram acabar com a justiça. Aguardamos pela chegada de um xerife que imponha a lei e a ordem. Enquanto tal não acontece, cada um faz justiça pelas próprias mãos.

Sim! Não se faz tudo num dia, mas os corruptos em alguns minutos resolvem tudo e mais alguma coisa.

E um regime eleito democraticamente condena jornalistas por denunciarem os corruptos. Mudam-se os tempos muda-se a democracia. Até os bancos são democráticos e financiam as eleições das democracias corruptas. A ditadura bancária é a nossa desgraça.

Quando um presidente da república se move no seu país protegido por pelotões de guerreiros como que à espera de inimigos invisíveis, lembrando uma qualquer invasão que pára a vida da cidade há dezenas de anos sitiada. E os seus subordinados imitam-no até ao exagero, pois estas coisas conduzem os extremos da crueldade, então, gradeamo-nos na democracia do estado de sítio. E para dele nos libertarmos, do estado de sítio, a História da Infâmia sintoniza-nos no tempo, porque o espaço já é desnecessário.
Que tétrico é notar que, quanto mais os preços do petróleo sobem, também o investimento na prospecção dos caixotes do lixo lhe é proporcional. Como são abundantes os ratos humanos que extraem lixo para se alimentarem da produção onshore. Quanta mais abastança mais miséria se promove. Então, quem alimenta a fogueira das revoluções?!

Receio que sigamos os caminhos do inferno. E com a experiência bélica que temos, que leva ao desprezo pela vida, acredito que o ensaio do purgatório já cá mora. Quando a paranóia da ditadura se instala, ressuscita o rei Leónidas e os seus 311 espartanos.
Não sei como conseguem despojar mais os espoliados que já nada têm. Mas obtêm rendimentos, são os inventores da excelência da maldade. E todos têm que obedecer à sua vontade. Afinal a história dos tempos é a história das ditaduras. E à sua passagem até as plantas mirram, secam. Sai-lhes do olhar tanta perigosidade que nada à sua volta lhes resiste. E depois, que desplante, laçam-nos com discursos que foram eles que nos cederam, nos implantaram a democracia. Ainda há por aí quem não acredite no demónio?
Esporeei a minha montada furiosamente porque no castelo dos vultos sombrios, estava lá a minha amada, não sei se acorrentada, ou já violada. O ditador do dia e da noite raptou-a, e encastelou-a. E pavoneia-se pelos campos que nada têm de verde, que a minha donzela lhe foi prometida para saldar uma antiga dívida de escravidão. Ele, como não sabe, nunca saberá, que a democracia já acabou (?) com tal vexame, compôs uma trova maldita de glorificação aos ditadores. E ameaça que quem ousar atacar, com o meu amor vai acabar. Oh! Mas estes tempos ainda não acabaram?
Para toda a doença existe uma terapia, e onde isso não acontecer, há que não desfalecer. A terapia da alma é uma maravilhosa alternativa. Sim, o alternar é a chave da ditadura do amar. E nos silêncios das nossas almas irrompem jasmins com imortais, gloriosos perfumes. Um jasmim é sempre a melhor terapia. Os ditadores são incansáveis no apetite de jasmins de sangue. É por isso que se dizem amiúde imprescindíveis e que os povos debaixo dos seus exércitos são os mais felizes do mundo.
Só espero que não maltratem, que não odeiem os jasmins. Mas que estranha, bizarra sensibilidade. Oh! Agora a culpa é dos jasmins. Nunca uma planta tão perfumada foi tão odiada. Já há quem pretenda inventar, ou parece que já inventou, uma arma de raios laser para queimar, arrasar os jasmins para sempre. Há quem também não durma, se aterrorize com pesadelos nocturnos e diurnos. Especialmente acordar com uma manifestação de toneladas de jasmins na cama. Os ditadores já andam de casa em casa, de porta em porta, na caça implacável dos que teimam no cultivo de jasmins. Então não sabem que as ditaduras, ainda como algumas bactérias resistentes aos antibióticos, decretaram o Fahrenheit dos jasmins? Dizem que esta ideia genial veio de um cónego petrolífero, também grande adepto das proibições de manifestações.
Passei ao acaso e vi a clínica Natureza. Acerquei-me para a cumprimentar, mas parecia dolente, doente. Não entendia o torpor clínico, tão sem natural, anormal. Até o esverdeado tolhia, mas afinal que acontecia? Próximo, um pequeno grupo de crianças que dançavam ao som de uma orquestra celestial, que como a água de um rio nascia nas suas pequenas cabeças. E então compreendi o desalento da clínica Natureza: é que as crianças nunca mais adoeceram, e assim deixaram de frequentar a clínica, e ela sentia-se muito só, triste, muito abandonada, como as pessoas idosas.

Será que outro mausoléu se erigirá? Desta vez em honra do guia imortal Assad?
Sim, presentemente as nossas vidas são parecidas com túmulos. Todos os nossos esforços têm sido em vão no evitar da queda triste das folhas das árvores que nos rodeiam. A Primavera saúda-nos, o Verão abrasa-nos, o Outono murcha-nos e o Inverno arrefece-nos. Se existisse uma só estação no ano, os nossos sentimentos cairiam, tal como as folhas murchas que dizem adeus às suas mães árvores. Perante o gelar do tempo, porém, o amor aquece-nos.

Imagem: super.abril.com.br

O Cavaleiro do Reino Petrolífero (19). Então anuncia-se a realização do 1º Congresso dos Feiticeiros Petrolíferos



Forçam-nas a tirarem as roupas. Resta o refúgio das duas peças íntimas. Torque exclama descontrolado:
- Um conjunto da Triumph!!!
- Não velho chalado… é Chanel!

Capítulo XV
Os feiticeiros

Apesar dos convites que os feiticeiros lhe fizeram, Epok preferiu ignorá-los. É certo que tinha muitos feiticeiros na família, mas não queria nem era aconselhável que os nobres soubessem disso, porque decerto criariam intrigas para lhe lixar a vida e ocuparem o seu lugar. As invejas eram muitas. Conseguiu sobreviver a muitos feitiços porque o dele era muito forte, mais poderoso que o petróleo, mais brilhante que o mais valioso diamante.
Então anuncia-se a realização do 1º Congresso dos Feiticeiros Petrolíferos, no Palácio dos Feitiços. Diz a lenda que o Palácio nasceu devido ao esforço conjunto da unidade mental quando todos ainda viviam em harmonia. Fizeram um grande feitiço e do nada surgiu a obra, que ainda continua a ser motivo de orgulho e coesão mental. Os trabalhos do congresso dividiam-se em quatro capítulos.

Capítulo um
Abertura dos trabalhos feita pelo Grande Feiticeiro. Ele entra acompanhado por várias jovens feiticeiras seminuas. Lançam-se dezenas de morcegos, cobras, galinhas, corvos, mochos, ratos, aranhas, baratas, porcos, pregos enferrujados, caveiras e ossos à sua passagem. O corredor central é ladeado por panelas com água a ferver, junto com mistelas para que sejam efectuados alguns feitiços como prova de organização. No púlpito o orador começa a palrar. «A Nação está completamente enfeitiçada. Quem quiser ser general, ter uma óptima mulher, um emprego, apanhar o marido da outra, apanhar a mulher do outro, tem que pedir-nos um feitiço. Vou desvendar-lhes um grande segredo: conseguimos enfeitiçar o rei. É por isso que não conseguimos ir em frente. Pelo contrário, cada vez mais para trás. O rei está bem enfeitiçado porque nunca nos deu valor. Tem o que merece. Isso prova que somos muito poderosos. Mas, um dos maiores e mais bem sucedidos feitiços que fizemos foi sobre o SPR, Sistema de Pagamentos do Reino.
Um feitiço feito à meia-noite, onde reunimos e invocámos todos os trovões e faíscas do mundo. Resultou em cheio. Toda a gente trabalha e ninguém recebe nada. Na realidade estão como desempregados. Depois aperfeiçoaremos este feitiço para atingir a nossa meta que é entregar o reino aos estrangeiros e obter cem por cento de desempregados. Temos que avançar mais. Estamos a ser ultrapassados pelos grandes feiticeiros brancos da genética e da clonagem. Temos que estar atentos ao que se passa no mundo. Temos que estudar muito. Proximamente enviaremos uma delegação para aprender as modernas técnicas dos feiticeiros brancos.» Levanta o seu bastão encimado por uma caveira que lança raios de luz. Dezenas de crianças escolhidas como as melhores na arte da feitiçaria, entram e cantam. «O nosso rei e rainha já não têm nada para nos dar. Acabaram-se os nossos sonhos, nada mais há para enfeitiçar.»
- Declaro o início dos trabalhos. – Sentenciou o Grande Feiticeiro.
- Pelo Poder! Do Feitiço! A Luta! Pelo Feitiço!

Capítulo dois
Intervém o Feiticeiro do Norte: «Trabalho não nos falta. A aderência é digna de Cátaros. A Católica sente receio devido à escassez de fiéis. Os militares preocupam-se, os partidos políticos também. Isto é novo para nós. As crianças perseguem-nos aos milhares. Temos que aumentar os nossos honorários. Nunca imaginei ver tanta gente na feitiçaria. Temos que formar quadros urgentemente, porque podemos perder o controlo da situação. Uma universidade já está a ser construída. Conseguimos erguer um grande armazém onde estão amontoados ossos aos milhares. As ruas já se iluminam com velas em caveiras. O combustível retira-se dos corpos que tombam com a fome. Devido à falta de apoio está tudo nas mãos de estrangeiros. Em breve correremos com eles respeitando as nossas leis em vigor. Por todo o reino um só!» Feitiço! – Confirmaram em uníssono os presentes.

Capítulo três
O Feiticeiro do Centro com ares de intelectual e cérebro bem lavado pela propaganda estalinista repete-se: «Camaradas e compatriotas. Membros do glorioso partido dos Feiticeiros. A nossa grandiosa luta de libertação nacional, os nossos heróis que tombaram não derramaram o seu sangue em vão. Alguns de nós tombaram nas esquinas devido aos assaltantes dos telemóveis e às espoliações e destruições dos nossos casebres e ancestrais bens. A nossa luta ainda não terminou. Agora a nova guerra de libertação nacional orienta-se sabiamente contra os esfomeados. É uma luta sem tréguas…»
Alguém da assistência interrompe, faz-se ouvir.
- Porra! Este gajo veio para aqui por engano! Vai para o Palácio do rei!
O orador sente que alguma coisa está errada. Verifica os papéis e justifica-se.
- Desculpem, enganei-me no discurso. Vou continuar... como dizia: a nossa luta de libertação nacional, sabiamente conduzida pelo nosso Grande Feiticeiro fez com que a exclusão e escravidão…
- Olha o gajo! Agarra! Atrás dele!
Uma turba, qual vulcão, cai em cima do orador. Este torna-se num minúsculo ser. Pancadaria cai-lhe no corpo. O Grande Feiticeiro aparta os ânimos. A vítima recompõe-se. Um exaltado esclarece:
- Pensas que estamos em 1975?! Essa conversa já não dá. Mesu ma jikuka… (já abrimos o olho) vai directo ao assunto.
- Está bem, já sei o que querem… oiçam por favor: As brigadas do bilhete de identidade estão sem plastificação. Roubaram-lhes um mês de vencimento. Não têm alimentação, “esqueceram-se” de pagar-lhes os vencimentos. O dinheiro dos carros para os apoiar desviaram-no. A desmotivação avança. O feitiço para sabotar as eleições resultou. Tudo está definitivamente enfeitiçado, para que não hajam eleições. Quem as quiser, que invente outra nação ou vá para o reino do Gabão... tenho dito.
- Vês que quando queres sabes falar? Muito bem! Muito bem!
E premeiam o orador com uma grande chuva de feitiços.

Capítulo quatro
«Sou o Feiticeiro do Sul. Posso afirmar que o Santo Oficio perdeu as forças para nos combater. Temos feiticeiros infiltrados nos centros de decisão. Não há actividade sem feitiço. Temos escolas que formam bons feiticeiros. Somos rigorosos com os nossos remédios. Conseguimos acabar com famílias inteiras. Finalmente conseguimos o respeito e admiração que merecemos.»

Conclusões
O Grande Feiticeiro prepara-se para encerrar os trabalhos.
Camaradas Feiticeiros e… desculpem isto dos camaradas. Sabem… foi tanto tempo que por vezes não esquecemos… Feiticeiros e Feiticeiras finalmente realizámos o nosso sonho com este primeiro congresso. Devidamente legalizados já podemos atirar as pernas para a frente. A feira dos feitiços aqui perto é um êxito. No topo de vendas está o feitiço da fome, do roubo e dos poetas. Estamos em todo o lado, somos imparáveis. Há ainda quem não tenha as suas quotas em dia. Tem trinta dias para as pagar. Findo o prazo serão contemplados com um poderoso feitiço. Às delegações estrangeiras dizemos: bem-vindos e roubem-nos à vontade.
Apelo ao pessoal de serviço para limparem a porcaria que fizemos. O cheiro está insuportável. Limpem com lixívia nacional, importada não dá. Ah!.. Antes disso convém lembrar: A nossa capital é a mais exótica do mundo. As nossas esposas bem enfeitiçadas passeiam nas ruas apresentando o nosso genuíno folclore nacional. Com as oferendas em qualquer recipiente ficam bem enfeitadas com o que carregam na cabeça. Esse é o seu penteado tradicional. Nunca se esqueçam do mais importante! Para que o feitiço do dinheiro funcione, basta matar um familiar. E um feiticeiro infiltrado na Igreja fugiu com a família para o estrangeiro, levando os quinhentos mil dólares dos donativos. Outro feiticeiro digno de menção é o que está na EDVR, a Empresa Distribuidora das Velas do Reino que deixará de as fornecer. Ninguém paga as contas.
O Feiticeiro do Centro interrompe.
- Como é que os coches vão andar nas ruas sem velas? Sem luz os esfomeados pilharão tudo.
- O Santo Oficio já criou esquadrões da morte.
- E os mosquitos?
- Apanhem-nos e comam-nos. Contém o mínimo de minerais essenciais à saúde.
- O Nosso Feitiço! Voa! Voa! Um só! Feitiço! Escravos para sempre! Da fome e do feitiço! Garantiram todos os feiticeiros.
Nos três dias que duraram os trabalhos, as áreas circundantes do Palácio viveram momentos de grande terror. Logo no início a luz e a água foram-se. Um denso nevoeiro pairava no céu e na terra constante, fazia os vultos parecerem fantasmas. As noites eram tão escuras que quem se aventurasse a circular, sentia-se como dentro de um poço sem fundo. Como se não bastasse, raios e fortes trovões vindos do céu iluminavam a cena desencorajando mesmo os mais audazes transeuntes. As mães em pânico não sabiam o que fazer com as crianças. As pobres alminhas imploravam:
- Mamã tira daqui os feitiços! Não quero mais brincar com eles. Mamã, gosto mais da TPA, os feiticeiros dela são muito engraçados. Fazem-me rir bwé!
- Não posso fazer nada, estes feiticeiros são poderosos.
Sobre a água e a luz as vozes concordavam:
- Como se não bastasse o rei e os cortes constantes que os nobres nos fazem, agora aparecem estes feiticeiros.