segunda-feira, 25 de junho de 2012

O Cavaleiro do Reino Petrolífero (22) Então começa a moda dos congressos. Agora é a vez do Congresso dos Alcoólicos Petrolíferos.


«Uma vez mais, como frente à globalização de uma parte da economia não se desenvolveram as correspondentes capacidades mundiais de política econômica, setores inteiros da economia de um país podem ficar inviabilizados por produtos importados incomparavelmente mais baratos, ou a poupança arduamente acumulada de uma sociedade pode evaporar sob o impacto de algumas iniciativas de especulação financeira. É importante lembrar que o processo caótico de globalização que sofremos gera regras únicas para realidades desiguais, confrontando economias onde se trabalha 12 horas por 20 centavos a hora, com outras onde se trabalha 7 horas com remuneração de 20 dólares por hora, para mencionar só este fator.» In o que acontece com o trabalho? Ladislau Dowbor dowbor.org/

Armazéns, estabelecimentos, lojas, o que resta de fábricas, sofrem uma grande pilhagem. O pretexto era sempre o mesmo:
- Alimentos impróprios para consumo, ou bens com defeitos de fabrico.
A vida no reino pára. Não há comida, não há nada. Roubam camiões, carregam-nos e dirigem-se para a Namíbia. A fila é imensa. Conseguem passar nas calmas. É tarde quando Epok ordena prender os chefes. Estes já estão bem escondidos nos paraísos fiscais a gozarem os rendimentos na companhia de mulheres de ocasião. Nem o dinheiro disponibilizado para os gastos do Exército Real Anti-corrupção escapou. Foi o maior roubo da história do reino. (Foi isto que originou os nossos novos-ricos)

Capítulo XIX
Os congressos

Em Jingola, o que um faz os outros copiam. Então, começa a moda dos congressos. Agora é a vez do Congresso dos Alcoólicos Petrolíferos.
Epok gostava de beber o seu copito. De vez em quando embebedava-se, mas disfarçava muito bem. Dizia que estava com paludismo, que lhe doíam as costas, que lhe doía a cabeça, que não sabia o que tinha, ou que desconfiava que tinha sido enfeitiçado. Declinou o convite que lhe apresentaram com a desculpa que tinha deixado de beber.
Agora que a moda pegou, e no reino imitam tudo o que vêem, surgirão congressos por todo o lado. Como as lanchonetes e as cantinas.
Patrocinadores sobravam. Eram todos do reino português. Não patrocinavam comida, só bebida. Era obrigatório levar bebidas de todas as marcas para dar um ambiente salutar, acolhedor e turístico... que revelasse o nosso folclore e a nossa identidade cultural actuais. As crianças, futuras continuadoras da grande revolução alcoólica, incentivavam-nas a beberem com à-vontade. Pelo menos seis ambulâncias aguardavam impacientes com os motores prontos à espera dos motoristas que os acelerassem. Como era festa nacional a população foi convidada a participar. No exterior colocaram-se torneiras. Quem quisesse beber o seu copo bastava aproximar-se. Havia um grande cartaz: AMIGO DO COPO É NOSSO AMIGO. Outro dizia:
EM CASA DO BÊBADO HÁ: COMIDA. FELICIDADE. SAÚDE. RIQUEZA
O Grande Destilador enfrenta os convidados, atira-lhes o seu discurso:
Como resolver problemas no lar?
Beber uma caixa de cerveja, chegar em casa e dar uma grande surra na esposa e nos filhos.
Como perder amizades?
Beber muito todos os dias.
Como perder o medo de falar com o chefe?
Beber uma garrafa de uísque. Virá uma coragem que nunca mais acaba.
Exigimos subvenções para bebermos. As bebidas estão muito caras. É por isso que nunca temos dinheiro.
Quando algum trabalhador aparecer no local de trabalho bêbado, será tratado como herói do trabalho.
Quem conseguir beber três dias e três noites sem parar, terá direito a enterro no Panteão Real.
Existem poucos locais de venda, queremos mais. Isto é o caminho de Deus. Bebam sempre. Andem, tendo por companhia uma garrafa. Droguem-se à vontade. Comprem armas que disparem bebida. Suicidem-se quando quiserem.
O congresso durou apenas três horas porque ninguém aguentou mais. O álcool encerrou os trabalhos. As latas, garrafas e garrafões vazios eram de tal monta que parecia uma grande maré, um maremoto vindo do sem mar.
Epok preparou-se, rejubilou com o aniversário do rei.
Para os festejos são criadas dezassete comissões organizadoras nos vice-reinos. No reino são às centenas.
Todos os funcionários do reino e das empresas reais aguentarão dois meses, ou mais, de atraso nos seus vencimentos para que nada falte. Suspender-se-ão as obras em curso, incluindo as mais prioritárias. Desviar-se-ão as suas verbas para o grande acontecimento. Afinal é apenas uma vez por ano. Obrigar-se-ão todos a participarem. Organizar-se-ão grandiosos torneios com os melhores cavaleiros do mundo. Uma semana de maratonas para que os esfomeados e alcoólicos se lembrem do seu rei. As comissões organizadoras ficam dispensadas da apresentação de contas.
O nobre Epok recebe um convite da empresa, Única Carga Real, para uma visita. Não tem nada de extraordinário porque tudo foi montado pelo reino sueco. Foi chegar, sentar e trabalhar. O nobre marquês, dirigente máximo recebe-o. Entra no departamento das finanças e pára, sente-se incomodado. As portas, os computadores, a alcatifa muito peluda… é tudo de cor negra. Os trabalhadores também são negros. Como se não bastasse, o chefe usa óculos muito escuros. Tem no seu gabinete um quadro grande com uma fotografia em que aparece a mexer num teclado de computador negro. Epok pede esclarecimentos:
- Isto é humor negro?!
- O carro do chefe também é negro.
- A alcatifa muito peluda provoca electricidade estática!
- Até agora ninguém sentiu nada.
- Só faltam flores negras.
- Andam à procura delas.
- Nobre marquês máximo… porquê?!
- É por causa do feitiço.

Capítulo XX
Diário do Reino

No vice-reino do Namibe, provenientes de um navio que encalhou, oito toneladas de açúcar impróprio para consumo são despejadas algures no deserto. Milhares de esfomeados correm na sua direcção como se fosse uma mina de oiro. Alguém alerta uma jovem:
- Esse açúcar está contaminado, não sabes que podes morrer?!
- Nós temos muita fome, comemos tudo o que aparece.
- Não tens medo de morrer?!
- Vamos comer, se não morrermos é porque não faz mal.
- Quantos sacos já apanharam?
- Eu apanhei dois, a mamã quatro, a tia oito e o papá dez… né?!
- Hummm! Hummm!
- E o que é que vão fazer com o açúcar?
- Vamos vender e fazer bebida. Temos muita fome, muita fome!
Os engenheiros chineses avançam com as suas máquinas para a construção do novo aeroporto de Jingola. Protegidos por polícias e militares arrasam as lavras dos camponeses. Estes surpreendidos reclamam. Mas nada conseguem fazer perante tal aparato. Com generais e militares não parece um aeroporto civil, parece uma gigantesca unidade militar.
Mais oitenta e quatro jovens que se dedicavam ao roubo são capturados pela polícia. Um repórter pergunta-lhes:
- Mas roubam porquê?
- Porque não conseguimos trabalho. Como precisamos de comer, temos que roubar.
Uma empresa de diamantes não assume os compromissos com os seus trabalhadores. O jornalista interroga um deles:
- O que é que se passa com vocês?
- O director não nos paga há dois meses. Além disso nunca nos pagou os subsídios. Queremos falar com ele, em resposta diz que está à espera de visitas. Criámos uma comissão sindical. Como represália despediu dez. Agora vamos fazer uma greve geral
Estudantes cansados pela espera de seis meses para obterem o passe que lhes dá acesso ao transporte público, fazem vigília no pátio do Marquês dos Cofres Gerais. Estão cansados e fartos de serem aldrabados.
Quinhentas vítimas dos massacres da Baixa de Cassanje farão uma manifestação com início no largo do Quinaxixi às dez horas, até à embaixada do reino português para reclamarem as indemnizações. O Vice-rei da capital não autorizou.
Um general, nas traseiras de dois prédios montou ferros e colocou cortinas verdes para esconder o que lá se passa. Mas o que é que lá se passará?
Ocupou as traseiras de outro prédio, e construiu até ao terceiro andar um edifício. Mas quem é que manda no reino?! Quando chover e sem acesso à luz solar, como emparedados, os vizinhos sofrerão muito, e quando incendiar arderá à vontade porque fecharam os acessos.
Tentamos sobreviver como toda a gente. Vamos trabalhar e ninguém nos quer pagar. O reino está nas mãos de aventureiros que sugam tudo o que resta. Fazemos o nosso trabalho e ficamos eternamente à espera do pagamento.
Já disse à Lwena para vendermos a casa e fugirmos para outro reino, talvez o português, senão morreremos aqui à fome. Ela é teimosa, prefere vender cigarros, guloseimas e gasosas. Temos que pagar a conta da luz e ainda não conseguimos dinheiro. Vamos ficar às escuras. O pouco que consegue com as vendas que faz, não chega para nos alimentarmos convenientemente. 

domingo, 24 de junho de 2012

O Cavaleiro do Reino Petrolífero (21) A luta contra a corrupção. Quem não critica o Governo é porque dele recebe alvíssaras.



«Os projectos são elaborados por agências situadas no exterior, às vezes na capital do país, em Bissau. Para um projecto de um milhão de dólares destinado ao desenvolvimento rural, por exemplo, cerca de 15% já são consumidos por taxas administrativas da agência de execução, seja ela a FAO ou outra qualquer. A agência de execução recrutará peritos para executar o projecto, já que os técnicos são raros no país. Estes técnicos custam actualmente algo da ordem de 7.000 dólares por mês. Antes de chegarem os técnicos, é claro, há missões sucessivas: missões de identificação de projectos, missões de estudo de factibilidade, de estudos de execução técnica. Durante o projecto há missões de acompanhamento de execução. É normal a metade dos recursos fornecidos ser consumida neste processo, voltando assim o dinheiro oferecido para os países ricos, sob a forma dos salários elevados dos técnicos.» In Ladiaslau Dowbor.  Guiné-Bissau. A busca da independência económica.

A mudança nas tecnologias muda as dimensões espaciais do trabalho, na medida em que as finanças, o comércio, os diversos serviços “intangíveis” que hoje assumem tanta importância, como publicidade, advocacia, gerenciamento a distância, circulam nas “ondas” do novo sistema de informações (TCI – Tecnologias de Comunicação e Informação) em segundos, fazendo por exemplo uma secretária que trabalha em Washington perder o emprego para uma secretária que vai fazer o mesmo trabalho, via computador, a partir da Índia. In o que acontece com o trabalho?» Ladislau Dowbor dowbor.org/

No dia seguinte saiu um despacho que teorizava:
DESPACHADOS
Considerando que a pretensão do Comité Miss Zungueira Universal é ilegal, indigno e antipopular, senão vejamos:
1- Ilegal porque não preencheram os requerimentos que a Lei manda. Um deles, fundamental, exige muita coragem para o obter. São necessários pelo menos doze meses de espera. Só isso desmotiva o mais corajoso.
2 - Indigno porque não aceitamos analfabetas, porcas e pobres esfomeadas a viverem em casebres com a pretensão de representarem o Reino. Que pensará de nós a comunidade internacional? Vão fazer-nos mais chacota. Só sabem é despirem-se, vestirem-se… não sabem.
A vingança do Frequentador não se fez esperar. Reuniu com as zungueiras e deu-lhes a conhecer:
- Já sabem não é?! Fomos ilegalizados!!!
- Sim… sabemos.
- Vamos criar um novo concurso... a Miss Zungueira Alcoólica.
Como os prémios eram tentadores as bonitas jovens passaram a beber. O prémio principal era vinte caixas de cerveja. Eis aqui a origem do alcoolismo nas jovens Jingola. O Santo Ofício confiscou o Frequentador e deportou-o para o vice-reino do Namibe. A acusação era simples: apelo à violência, ideias republicanas e ofensas à dignidade da mulher abandonada.
- Está bem mas nada de exageros. Por este andar quando quiserem fazer amor com os maridos vêm aqui solicitar autorização.
- Isso é que é um puro exagero!
- Cara marquesa, recomendo que consulte o Comité da Misse Politburo.
- Concordo, é de facto o órgão propositado.

Capítulo XVIII
A luta contra a corrupção

Epok, para agradar à comunidade internacional ordena a grande ofensiva contra a corrupção. Discute os pormenores com o Santo Oficio.
- Temos que avançar, fazer qualquer coisa!
- Cinco mil homens chegam?!
- Cinco ou dez mil, tanto faz. Estão desbloqueados cinco milhões de dolo para já.
- Dólares.
- Isso mesmo.
- Chefe Epok, vou começar já o recrutamento. Um mês de treino é suficiente.
- Com treino ou sem ele… é ir em frente.
- Começamos a caça por cima?!
- Qual caça (!)
- A dos corruptos.
- Ah! Sim! Por cima!? Quando se começa é sempre por baixo. Os degraus sobem-se um a um. Quando se começa por cima, já sabe como é. Os corruptos estão em baixo, nas ruas, nos casebres. Limpe-os e verá que a corrupção acaba. Acho que não tem noção do que é corrupção. Nunca frequentou um seminário?
- Já chefe… milhares deles, é por isso que fiquei baralhado.
- Então em frente! Marx! Tem seis meses para acabar com a corrupção.
- O navio está pronto.
- Isto nada tem a ver com a marinha!
A notícia de que o reino ia fazer um recrutamento massivo para criar um exército para lutar contra a corrupção atraiu gente de todo o lado. Os portos, aeroportos e estradas ficaram congestionados. (Esta é a origem dos engarrafamentos constantes do trânsito). Todo o Golfo da Guiné em peso rumou para Jingola. Os que tratavam das inscrições intrigaram-se quando chineses apareceram com o bilhete de identidade Jingola. Milhares de estrangeiros estavam na mesma situação. Ninguém sabia explicar como conseguiram o BI. (Bilhete instantâneo).
As várias comissões de trabalho deram por encerradas as suas tarefas. Gastaram apenas um milhão de dólares. Têm dois anos de prazo para apresentarem o relatório das contas. O nome da nova polícia: Exército Real Anti-corrupção.
Os efectivos tinham direito a alimentação e ao vencimento mensal de quinhentos dólares. Nos primeiros dias ainda comeram. Depois os pratos ficaram vazios. Não havia nada para lá colocar. Nem um pão. Dois meses depois sem receberem um tostão, chega a refrega habitual. Os automobilistas são abordados.
- Você é corrupto?
- Não.
- Então deixa aqui qualquer coisa.
- Mas vocês não são do Exército Real Anti-corrupção?
- Somos, vá, dá alguma coisa!
Estavam em todas as esquinas. Demoraram pouco tempo a limparem quem trocava dólares. As kinguilas, mesmo com os seus maridos na polícia não escapavam. As esfomeadas zungueiras com os filhos às costas eram um alvo fácil. As pobres ficavam confusas, se deviam salvar os filhos ou os alguidares. Os Anti-corruptos aproveitavam e carregavam tudo. Elas preferiam salvar os filhos. Um filho mais crescido pergunta:
- Mamã, são os da UNITA? Eles não pararam com a guerra?
- Não, são mercenários que o reino contratou.
- Estrangeiros?
- Sim meu filho.
As jovens não escapam. As preferidas são as que usam saias muito curtas, ou vestidos transparentes.
- Estás presa!
- Porquê!?
- Estás a corromper os nossos olhos.
Um polícia já tinha galado uma jovem. Esta resistia-lhe dizendo que não queria namorar com ele. Preferiu ser presa por outro polícia. O galã diz para o colega.
- Essa é minha, há muito que ando com o olho nela.
Os lavadores de carros passam mal.
- Estás preso porque estás a corromper o asfalto.
Os jovens vendedores de bugigangas sofrem uma limpeza sem limites.
- Tens factura da compra?
- Não.
- Estás preso por corromperes os comerciantes.
Ameaçam os moradores dos prédios e em especial os dos casebres que serão demolidos por uso corrupto. Alguns chefes escolhem as melhores habitações para albergarem as suas mulheres e a conta infindável de filhos. Conta-se a proeza de um que tinha mais de vinte mulheres. A família reunida nem em dois grandes hotéis caberia. Que super macho. – Diziam.
Ressuscita-se a Lei dos quarenta e cinco dias por abandono do reino. Uma moradora atónita fala com a vizinha.
- Vão demolir os prédios e os casebres?!
- Vão-nos pôr aonde?!
- No Nova Vida.
- Aiué! Vamos fugir para o Zimbabué.
- Lá fazem a mesma coisa.
Começa o interrogatório aos moradores.
- Prova que não saístes do reino há mais de quarenta e cinco dias.
- Sempre vivi aqui.
- Chegaste agora?
- Não, nunca saí daqui. Querem roubar as casas não é!!!
- Estás a criticar o Governo Real?
- Quem não critica o Governo é porque dele recebe alvíssaras.
- Outro valor mais alto se levanta, é o dinheiro.
As atenções viram-se para os bancos. Entram e deixam os cofres vazios. A acusação é:
- Confisco por corrupção dos bens da população.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O Cavaleiro do Reino Petrolífero (20). A Misse Zungueira



«Um país “descobre” que falta energia, e organiza-se de última hora um sistema de racionamento energético, como se o abastecimento e o consumo de energia não fossem previsíveis. Isto depois de décadas de incessante martelamento publicitário incitando-nos a comprar maiores geladeiras, aparelhos de ar condicionado e outras formas de maximização de consumo energético. Os Estados Unidos “descobrem” que estão chegando ao fim das suas reservas de petróleo, e se lançam em aventuras militares, quando todo o seu modelo foi organizado na promoção do uso perdulário da energia, inclusive como fator de “status” social. Os países produtores de petróleo contabilizam a venda dos seus recursos como se fosse produção, fator de aumento do Pib, quando na realidade estão vendendo hoje os recursos que faltarão às próximas gerações: a conta dos recursos naturais dilapidados não entra na contabilidade nacional. Os residentes de uma região não são informados sobre o uso de agrotóxicos que podem estar contaminando os lençóis freáticos, gerando doenças, reduzindo o valor dos seus imóveis: pelo contrário, os agrotóxicos só entrarão nos nossos sistemas de informação aumentando o Pib dos produtores.»

In Informação para a cidadania e o desenvolvimento sustentável.

Ladislau Dowbor http://www.dowbor.org/

Os morcegos e especialmente os corvos vigiavam. Poisavam nas varandas, nas janelas, nos postes da quase meia centúria escura iluminação. As baratas, os ratos e as aranhas entravam nas casas atentas a qualquer comida que chegasse. Por imposição clerical os esfomeados rezavam em voz alta.
- Meu Deus, por favor acaba depressa com a reunião deles!
As crianças destemidas devido à sua inocência pediam feitiços.
- Faz-me um feitiço para ter uma boneca muito bonita!
- Faz um feitiço para que não vá mais à escola!
- Tenho fome, quero um feitiço com muita comida!
Um descasebreado pegou numa espingarda e disparou para um corvo. Preparou o fogareiro. A ave ficou bem assada acompanhada por quase um quilo de jindungo. No fim da refeição é que foram elas. Uma chuva de corvos e morcegos invadiu-lhe a casa. Os bicos das aves nos corpos pareciam ferros em brasa. Foi para a rua e gritou:
- Tetézinha, atira tudo cá para baixo incluindo os filhos! Porra! Estes feiticeiros não são para brincadeiras!
Como alternativa de refúgio escolheram a igreja. O padre surpreendeu-se pela repentina aparição de tantas almas.
- Não vão trabalhar? Estão à espera do fim do mundo?
- Salva-nos por amor de Deus, liberta-nos dos feiticeiros!
Um polícia chega. Até ao momento não conseguiu lixar a vida de ninguém. Irá para casa com as mãos cheias de fome. Ouve o barulho de aves no cimo da igreja. Vai ao carro e retira uma carabina de cano curto. Não é a ideal para tiro, mas vale a pena tentar, sempre se consegue algo para comer. Aponta a arma, dispara e um corvo cai quase aos seus pés. Acto contínuo, os crentes que estavam em oração profunda, assustam-se e pensam num castigo de Deus, abandonam a igreja incluindo o padre. O polícia surpreso olha para a multidão. Pensa em pedir reforços. Depressa vê o erro que cometeu. Atrapalhado confessa:
- Pensei que fosse outra ave! Alguém a quer?
- Seu parvalhão! Isso era uma ave disfarçada de feiticeiro. Fujam enquanto temos tempo.
O polícia não sabia o que fazer. Foi ensinado desde criança a temer o feitiço. Aliás na sua família eram todos feiticeiros. Achava que tinha que dizer algo. Era esse o seu dever.
- Hum! Essa igreja deve ser uma célula da Al-Qaeda. Esta cidade parece a capital do terrorismo internacional.
Epok sentiu o que restava da sua alma ao vibrar com a informação do marquês das Epidemias. Além das existentes, outras mais poderosas estavam para chegar. Meditou: É certo e sabido que somos demasiado desumanos com os nossos súbditos. Achou que o rei devia tomar medidas para que acontecimentos demasiado notórios não acontecessem jamais. Sob pena de uma revolta protagonizada pelos mais pacíficos. Quando estes se revoltam não há quem os segure.

Capítulo XVII
A Misse Zungueira

Um Frequentador das cantinas de rua sentia-se orgulhoso em estar com os seus amigos e olhar para a devastação à sua volta. Um imenso cemitério de garrafas e latas vazias que poluíam o chão. Quase não se podia andar, sob risco de tropeçar numa delas, e a queda inevitável, desamparada, sem sobriedade traz sempre imprevistos.
Aí umas oito bonitas zungueiras em fila passam como se estivessem num concurso de misse. O Frequentador aborda-as:
- Ó bonitas… venham cá!
- Diz lá.
- Vamos fazer um concurso de misse zungueira.
- Ah! Vamos embora, esse está bêbado!
- Estou a falar verdade. Vá, desfilem aí uma de cada vez. O prémio para quem ganhar é mil dólares. A segunda classificada, quinhentos, e a terceira duzentos.
Consultou os amigos e estes concordaram. As zungueiras desconfiadas criaram uma comissão de inquérito e depois convocaram uma reunião. Poisaram os alguidares no chão. Sentaram-se à sua volta para evitar os roubos. A conclusão foi rápida, não é como as reuniões dos partidos políticos que nunca mais acabam. Andar um dia inteiro para nem conseguir cem kwanzas e ganhar o que os bêbados ofereciam sem trabalhar era tentador. A porta-voz das esfomeadas e sem casebres falou:
- Está bem, mas primeiro passem o dinheiro.
- Não, depois fogem com ele!
- Não fugimos... Ah! pá... Vamos embora!
- Está bem, está bem, está aqui o dinheiro.
Improvisaram uma passarela. Elas passearam, riam muito, estavam muito contentes. O dinheiro já estava seguro nos seus sutiãs. Achar a vencedora foi fácil. Era a única que tinha uma saia muito curta e os seios quase nus.
Recebeu uma salva de palmas da assistência. Preparavam-se para sair a correr. O Frequentador impede-as:
- Ó misse zungueira vem cá!
Indecisa e desconfiada guardou uma prudente distância.
- Fala amigo!
- Se desfilares de sutiã e biquíni ganhas mais mil.
O Frequentador consultou os bêbados que gulosos de prazer encorajaram e concordaram. Ela aquiesceu, claro:
- Por esse dinheiro até desfilo nua… passa aí esse mambo.
Como o sutiã e o seu biquíni estavam uma vergonha, não imaginam as dificuldades crescentes para conseguir água, pediu às suas amigas que lhos emprestassem. Abriram os panos que serviram de protecção. Trocaram as roupas. Um bêbado reclamou:
- Falta uma coisa. Onde se viu uma misse desfilar sem sapatos altos?!
Uma jovem amiga da assistência tirou os sapatos e emprestou-os à miss zungueira. A multidão crescia para assistir ao insólito espectáculo. A misse apresentou a sua beleza à multidão que crescia barulhenta. O Frequentador faz-lhe nova proposta:
- Cinco mil… se desfilares nua!
- Passa já o dinheiro!!!
- Calma aí!
Vira-se para a multidão, e pede-lhes que façam uma colecta porque vai aparecer nua. Muito rápido o dinheiro é recolhido. A misse zungueira passa na passarela a correr. A multidão já demasiado numerosa protesta.
- Queremos o nosso dinheiro de volta. Queremos sentir, ver a alma do material Jingola!
Ela volta e passeia com lentidão. Nestas ocasiões solenes sempre algum nervosismo apodera-se dos presentes.
- Não estou a ver nada!
- Deixem-me ver porra!
- É muito cabeluda parece que não tem racha!?
A coisa pegou a sério. Nas outras cantinas de rua criaram-se concursos semelhantes. Tornava-se necessário existir um órgão centralizador. Numa reunião geral o Frequentador propôs a criação do Comité Miss Jingola que foi aceite. Os prémios subiam. Criou-se um comité especial que circulava pelas ruas a observar qual era a zungueira mais bonita. Tinha um prémio de mil dólares. O desfile passou a ser semanal. Nas cantinas de rua o prémio chegou a subir até aos cinquenta mil dólares. Aboliu-se o desfile nu porque as desgraçadas chegavam em casa e apanhavam surra dos maridos e namorados ciumentos, entretanto bêbados com o dinheiro ganho nos concursos. No fim de um concurso alguém propôs à vencedora que no futuro contavam com o patrocínio de um casebre. Ela não concordou e até protestou indignada:
- Dessas da nova vida, dos zangos e da patriotada que acabaram de ser construídas e estão a cair aos bocados… não!!!
Então as zungueiras puseram-se mais bonitas que nunca. Sempre à espera de um prémio. Metiam inveja a muita boa gente da nomenclatura. O Comité entrou em contacto com outros países para criar o Miss Zungueira Universal. Todas queriam participar, esfomeadas não faltavam, especialmente as do Níger, Sudão, Mali etc, etc. Era óptimo para mostrar a verdadeira beleza da Mulher Jingola. Todas se preparavam com ansiedade para disputarem o concurso e ganhar a coroa Universal.
A marquesa das Mulheres Abandonadas levou esta pretensão ao cavaleiro Epok. Pediu-lhe a opinião.
- Nobre Epok, estas gajas estão a ir longe de mais, que lhes faço?
- Nobre marquesa, acha que devo preocupar-me com isso? É apenas um assunto de mulheres… decidam vocês.
- Cavaleiro… estou aqui em nome da centralização dos poderes!
Imagem: portaldoprofessor.mec.gov.b