quinta-feira, 23 de agosto de 2012

AS CINCO MAGNÍFICAS (10) Contém cenas eventualmente chocantes



Já era noite, as mesas do cabrité estavam lotadas. Ficámos no balcão a aguardar. O proprietário chamou um empregado que retirou quase à força alguém de uma mesa, e com uma grande cerimónia o dono do estabelecimento afastou pessoalmente os outros clientes, para que eu e a Ana nos sentíssemos à vontade. Limpou cuidadosamente a nossa mesa, mandou vir uma toalha, avisando a empregada que se ela, a toalha, não estivesse devidamente limpa seria despedida. Era visível o pânico no rosto da pobre empregada. Antes de nos sentarmos limpou devidamente as nossas cadeiras. Uma toalha muito clara foi colocada na nossa mesa. Vieram guardanapos de papel. Copos de vidro que pareciam ser de luxo. As garrafas de cerveja antes de serem abertas sofriam uma limpeza algo exagerada. O proprietário passava e repassava o seu pano como se pretendesse retirar algo que nos contaminasse. Finalmente deu instruções para que os clientes fizessem pouco barulho. Confessou-me num mau português mas perfeitamente compreensível:
- É a primeira vez que um branco vem aqui comer cabrité. Assim o meu negócio vai melhorar. Trás todos os brancos teus amigos para aqui. Serão bem tratados.
Gostei do cabrité. Apeteceu-me outra dose. Disse à Ana para seleccionar outra parte do cabrito. Não demorou muito tempo a ser servida. Era a primeira vez que comia cabrité. Aproximei os meus lábios ao ouvido da Ana e segredei-lhe:
- Obrigado, afinal isto é bom.
- Não te disse, confia em mim.
íamos na quinta cerveja. Havia música permanente difundida por uma aparelhagem sonora barata. Uma música de Pépé Kalé escuta-se. Fico com os ouvidos atentos porque a música é uma das minhas preferidas. Ana não suporta, dança na cadeira. Dá-me um beijo demorado. Levanta-se e vai para o pequeno espaço vazio junto ao balcão. Antes disso grita-me:
- Querido vou dançar para ti!
Estava com uma mini-saia preta. Com sapatos de salto não muito altos. Uma leve camisola bastante decotada sem sutiã, mostrava os seios provocantes. Dançava na pista de dança improvisada. Revelava ser exímia dançadora. Levantava os braços bem alto, e a saia subia revelando as suas coxas apetecíveis, que antes por elas tinha-lhes passado um creme que as fazia brilhar sob o efeito da luz. Acredito que a mulher negra é o único ser humano que nasce com a música no corpo. Tudo nela a qualquer momento isso se revela. Qualquer som agradável que surge fica inexplicavelmente possuída por ele. Tudo o que nela existe é transmitido pela dança. Uma dança sensual que enlouquece qualquer um.
Os clientes ficaram entusiasmados. Batiam palmas de acordo com os compassos musicais. Um deles levantou-se e entendeu que seria o companheiro de dança da Ana. Levantava os braços e pretendia acompanhá-la no ritmo. Dançava muito bem. Ficou atrás dela e ostensivamente com as mãos pegou nas suas nádegas, e arrastou-a à força de encontro ao seu sexo. Ana não teve meias medidas. Deu-lhe uma sonora chapada na cara. Burburinho entre a assistência. O proprietário fez um sinal para um dos seus empregados. Vieram dois homens corpulentos. Cada um segurou nos braços do infractor. Fiquei pasmado com o que aconteceu a seguir. Deram-lhe vários socos e pontapés, levantaram-no no ar e deixaram-no cair no contentor do lixo. Na assistência ninguém ousou acudir em seu auxílio. Ana fora de si gritava:
- Seus atrasados. Pensam que uma negra quando está com um branco é puta. Nunca irão à frente. Não podem ver uma negra com um branco. O amor não tem raças. Digo-lhes mais seus atrasados! Prefiro um milhão de vezes um branco, do que um negro. Com eles aprendo muita coisa, com vocês não aprendo nada. O que vocês nos dão é miséria para sempre. E com os brancos não passo fome. Seus atrasados! Seus atrasados!
O proprietário visivelmente apreensivo por perder um bom cliente chamou a Ana para dentro do balcão. Conversou com ela durante uns bons minutos. Ana veio sentar-se ao meu lado e confidenciou-me:
- O senhor disse-me que nos pede muitas desculpas pelo sucedido e oferece-nos uma dose de cabrité e cerveja. Tudo por conta da casa.
Fomos ao Cacuaco comprar bagre fumado, tomate, beringela, quiabos, etc. Acompanhados por uma irmã da Ana regressámos a casa. Esta aproveita, retira metade das coisas. Vai à cozinha e acrescenta mais coisas. Diz que é para levar para casa. Ana preparou tudo. Fez um delicioso funje de bombó. Revelou-se uma boa cozinheira. Perguntei-lhe onde aprendeu:
- Foi o meu pai que me ensinou... ele sabe muito de cozinha.
Ana gostava muito de festas e jantares em restaurantes de luxo. Na maioria das vezes eu não estava de acordo. Os ambientes eram muito barulhentos, prefiro o silêncio. Quase todos os fins-de-semana íamos à praia. Ana insistia no seu pedido:
- Leva-me para Inglaterra. Gosto muito de viajar pelo mundo. Compra-me um carro, compra-me uma casa.
- Aguarda, veremos isso depois.
- Estás sempre a dizer a mesma coisa.
Mostra-me a vagina, e diz:
- Já viste como ela está, não é?
- Já.
- Fiz operação, não faço filhos.
Numa das nossas saídas aponta para uma pensão. Conta-me uma pequena história:
- Olha, já estive nessa pensão com uma amiga. Saímos de carro com dois amigos. Eles pagaram-nos o almoço, o jantar e as bebidas. Depois passámos a noite na pensão. Fizemos amor com eles. Assim pagámos a nossa parte da despesa.
Numa noite Ana vem com a sua irmã e duas amigas. Fico surpreso pela invasão. Instalam-se, depois vão para a cozinha. Começam a beber de tudo o que existe. Cozinham tudo o que encontram. Depois de comermos, a sua irmã começa a despir-me. Todas se despem. Uma após outra chupam-me o pénis. Ana observa enquanto se masturba. Aproxima-se de mim, afasta-as e coloca a sua vagina no meu pénis. Fui agraciado com uma grande orgia. Depois delas saírem disse à Ana que iria para Inglaterra de férias:
- George, por favor leva-me contigo.
- Desta vez não é possível. Fica para a próxima.
Quando regressei trouxe algumas coisas que lhe entreguei. Agradeceu imenso. Disse-me que faria anos no dia seguinte e pediu-me algum dinheiro como forma de contribuição. Daria uma festa na casa onde estivera antes. A farra estava bem animada. Entre os convidados está um comandante da polícia. Ana presta-lhe muita atenção. Surpreende-me quando se abraçam e se beijam amorosamente. Ana despreza-me, abandona-me. Fico mais um bocado a aguardar. Quando passa por mim lança-me olhares de desprezo. Considerei que nada mais me restava senão ir-me embora. Fi-lo sem dar nas vistas.
No dia seguinte, Ana aparece com as suas habituais gargalhadas:
- Abandonastes a festa porquê?
- Achei que a minha presença não era necessária. Aliás estavas bem acompanhada.
- Não sabia que és ciumento. Deve ser por causa do comandante… ele é meu primo.
Dei-lhe o devido desprezo que merecia. Ana sente-se insegura:
- George, meu querido, porque me desprezas?
- Não passas de uma vulgar prostituta.
- Tens provas?
Ela estava a tornar-se demasiado incómoda. Mudou de conversa:
- Estou cheia de sede. Não me ofereces nada para beber?
- Infelizmente não tenho. Da última vez que aqui estiveste com as tuas amigas, deixaram-me seco. Optei pela lei seca.
- Já não gostas de mim, não é?
Estava a começar a ficar descontrolada, devido a que não lhe prestava a mínima atenção. Sentou-se à minha frente, e com um pé acariciou o meu pénis. Tentou convencer-me:
- Vou arranjar a nossa cama.

Imagem: paideguadosertao.blogspot.com

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Os Jasmins da Lwena (20) Com tanto ultraje à democracia, o nosso futuro é imprevisível



(Com tanto ultraje à democracia, o nosso futuro é imprevisível. Já não existe país, está retalhado numa fábrica que produz jovens delinquentes altamente perigosos. Este cais da democracia está muito inseguro, o navio do Politburo sente-se impedido de acostar. A âncora está solta e  o leme sem comandante. A luta pela democracia está adiada neste tempo imprevisivel, ávido de violência vampiresca.)


Mesmo sem trovoada oiço muitos trovões. Esses que saem dos escapes das motos. Esses mesmos, os da civilização Branca. Quando o fumo sai branco é bom. Quando escuro é mau. É contrário aos desígnios do deus Branco.
Um deus com cores: Preto, branco, vermelho, amarelo… um deus para cada cor, para cada povo, para cada raça. Ah, os humanos, só eles podiam inventar uma coisa assim. Ah, … tão cansada destas coisas estou, que já não sei o que sou. A relatividade do tempo gerou-me e estacionou-me na ceifa do divulgado, grandioso desastre ecológico. Por mais que tente desadapto-me a este dormente terreno.
Quando retornarei à nebulosa cometária? Há infindáveis anos espero que me venham resgatar. Impossibilito-me neste planeta. No outro vivia tão feliz… com os meus pais na irmandade familiar. Não sei, desfaço-me porque sou incapaz de entender. Quero voltar, levem-me!
No mundo dos desumanos vou morrer só, abandonada, ninguém me ligará. Para quê… não é preciso. Só pensam no dinheiro. Se isto é viver, que o meu Deus, o meu anjo Verde me ouça, que não me abandone, que me transporte.
ESTOU A ALERTAR PARA O RUMO QUE NOS QUEREM LEVAR. Não é o menino, não são as chuvas, vulcões, ciclones, tufões, maremotos, terramotos – isto sempre aconteceu, e acontecerá – são os malditos políticos que nos desgovernam, que querem o mundo só deles. RENEGUEMOS MAIS VIVER COM CONSTRUTORES DE PAREDES.
O esmeraldino das folhas das plantas desaparece. Sofre, porque as forças de intervenção rápida odeiam o verde. Tudo o que é cinzento, vermelho da cor do inferno em vida é negociável. Chegaram, estão entre nós, ninguém parece  aperceber-se. Estamos comandados, escravizados, por seres deste mundo, terríveis, impiedosos… parece ficção científica mas não é. A raça humana está a ser exterminada. Despertem gentes antes que seja tarde. Os que nos governam, os mais poderosos, os donos do nosso mundo, das nossas vidas, do nosso destino, aterraram na terra, não vieram de outro planeta. Vão acabar com as nossas vidas. OS SENHORES DO MUNDO SECRETO ESTÃO AQUI PARA SEMPRE.

O namorador adulterou-se com mais uma. Brilhou o popó, e abrilhantou-a numa serenata passeata. Dançaram, festejaram, farrearam, reviveram o paganismo. Concordaram-se no término do descaminho nocturno no rio da kanvuanza (falta de ordem, confusão). Encaminhavam-se bem às mil e uma apalpadelas. Cupido desarmou-se, esgotou as setas. Estavam já no momento oportuno das vias de facto sexuais quando ouvem forte restolhar. Alarmam-se, suspendem a emissão e a recepção. O namoradeiro vasculha a área, e o que vê deixa-o gélido. Treme-treme como um castelo assombrado. O instinto de conservação liga a ignição. De pé na tábua faz-se de disco voador, pára e não repara onde está. Deve ter voado uns cem quilómetros distanciado. Suores frios inundam-lhe o rosto e as costas. A namoradeira desperta-o com o resto do frio da noite. Ele justifica-lhe porque retirou tão abruptamente o pénis da sua quentinha.
- Meu bombom temos que avisar os outros para não virem aqui… era uma sereia.
Esta civilização está muito desenvolvida, dizem. Mas não perdemos os hábitos da idade da pedra.
A religião e a ditadura são as algemas da mente.
Os ditadores não deixam os democratas descansarem.
Gritos da morte na noite escura. Mais um esfomeado que disse adeus à ditadura.
Preciso de uma chave para abrir as sete chaves da fechadura desta ditadura.
Na democracia incipiente até os cães são hipócritas.
Nas sociedades modernas as prisões estão sempre com a lotação esgotada.
As esquinas da política enchem-se de aventureiros.
Vivemos sempre no receio, que a prisão da noite nos bata à porta.
Estamos sempre a reviver os momentos do Conde de Monte Cristo.
O melhor partido político é a fome, e esta é a melhor conselheira.
Os abutres estão no poder, mas o albatroz vigia-os.
As colunas militares avançam na madrugada. Vão enviar balas aos esfomeados.
A fome é proporcional aos discursos dos políticos.
Se mais petróleo houvera, lá chegara.
Sempre mais adiante há um fosso, mais um poço de petróleo.
Até o surdo ouve o murmurar das promessas de liberdade.
As estruturas do poder estão ferrugentas, cairão por falta de manutenção.
A maldade é a bíblia dos ditadores.
Para sentir o vento da liberdade basta uma janela aberta.
Somos como aves engaioladas na ditadura.
Até o surdo faminto consegue ouvir o barulho da fome.
Os incompetentes eternizam-se no poder, mas não são eternos.
As ondas do mar repousam na areia, os ditadores dormem nas areias movediças.
A noite termina, a manhã começa, o dia do poder não acaba.
A luz dos faróis deles cega-nos, roubaram-nos as lâmpadas da democracia.
As contas bancárias secretas são para alguns. O banco dos esfomeados tem muitos depósitos a prazo.
Receio que me amarrem o pensamento.
Muitos generais pouca democracia.
As seitas religiosas dão-nos o alimento caído do céu, as grandes corporações tiram-nos o petróleo.
Camaradas! Do alto deste palácio milhões de esfomeados nos contemplam.
Sinto-me na prisão como o Conde de Monte Cristo, de lá sairei.
Se uma família tem um país debaixo de mão e havendo eleições, isso chama-se guerra intestina.
Se a bondade surge das seitas religiosas, então somos escravos da mentira.
Tudo tem uma saída, basta encontrar, procurar o Caminho.
Sou apenas um dos biliões, uma vítima da miséria, da fome, da maldade humana.
As coisas não se vêem, sentem-se.
Olhem para as folhas de uma planta. Tudo acaba e recomeça numa semente.
A bebida extrema a sabedoria. É por isso que os bêbados se acham sábios.
E o Governo finalmente decidiu-se: decretou benefícios para os esfomeados e isenção de impostos: premiou-os com água, electricidade, saúde, livros, habitação, vestuário, automóvel, cartão de crédito, etc.
Nunca supus, mas vi um país com oposição política silenciosa.
Os animais humanos fugiram do jardim zoológico, é por isso que vivemos na selva.
Quem governa mal supera o lodaçal.
Os maus filhos são como os maus governos. Quando os esperamos numa desdita dizem-nos sarcásticos que gastaram o dinheiro em banquetes.
Nunca acreditar em mestiços, negros e brancos. Defendem os mesmos princípios, mas diferem nos fins: aviltam o erário público e estatal. De noite todos os gatos são pardos.
São medievos os sons actuais nas noites destes sonhos eleitorais.
Nas batalhas da vida de todos os tempos, o amor é sem dúvida a mais terrível.
A demagogia é a arma atómica da política.
Há povos que nasceram para construir, outros nasceram para destruir.
As nossas bibliotecas são alcoólicas. Estão apetrechadas com os piores mestres da vinicultura mundial
O ódio, a corrupção, o racismo, o alcoolismo são maus conselheiros.
A corrupção é a lei. As leis protegem os legisladores.
O tempo muda, os tempos mudam, este poder não.
As nossas ruas são imensos navios negreiros encalhados.
Os reis absolutos perseveram, não acabam. É a inflação reinante.
As injustiças e a fome alimentam revoluções. Grandes naus, grandes tormentas.
Governar é comandar. A chefia não se impõe, nasce naturalmente.
Leio muitos livros para quê?! Os livros não me dão dinheiro, dão-me perda de tempo?! Mas eu não quero dinheiro! Somente sabedoria para compreender porque vocês perdem o tempo no dinheiro!
A História da Humanidade? Nasceram, viveram e morreram na maldade.
E todos ficaram presos da maldade, porque a bondade terminara. Como um rio na prisão de uma grande represa.
Depois da tempestade vem outra.
Democracia ornamental é: se roubar um pão recebo a graça da prisão.
Milhares de anos-luz a lutar contra a fome, e não conseguimos vencê-la. A melhor estabilização económica é matar o povo à fome… e também o meio mais eficaz para combater a inflação.
Não se perde tempo com leituras. O tempo é para exagerar, amealhar, e carregar para as neometrópoles.
Quando se revoluciona sem bibliotecas, as vivas – bibliotecas – são desvalorizadas, despersonalizadas.
O maldoso já foi bondoso. Vinha com bondade, viu tanta maldade…
A faceta mais subtil do ser humano é a doentia traição, patologia da razão. Inundada de goleadores, a sua mente não tem sabor, nem cor.
Preparei-me para a fragilidade do sono da noite. Deus existe ou subsiste?
O choque do humanismo com a selva humana é como um mar infestado de tubarões.
Há alguma guerra legal? As guerras são legais? Invadir um país é legal? Não… é a letargia letal.
Estamos devidamente preparados para sermos neocolonizados. Servos voltam a servir medievos.
Não havendo ideais humanistas as nações esmorecem.
A Bíblia, a Revolução Francesa e Marx alavancaram a História. Biliões de mortos testemunham-nos.
Quando se aprova o orçamento geral dum reino absoluto, vota-se a continuação da miséria na generalidade.
Imagem: Aléxia Gamito

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O Cavaleiro Mwangolé e Lady Marli na Demanda do Santo Graal (30)



Não existem batalhas que suplantem a batalha do amor.
E quando na totalidade a miséria prevalece, tudo, o amor incluído, se esquecerá. Enquanto nos pátios das fortunas, a riqueza ilícita dos ilícitos se venera, se engrandece.

Será que existimos realmente? Não seremos o produto de um sonho? Há algo ou alguém que nos controla a mente? Além de perdermos tempo, que mais sabemos fazer? Somos a coisa mais inútil que existe no Universo? Nem sequer sabemos quem somos? Apenas algo que imagina que pensa?

Sonho de uma independência tropical
A independência contempla-me afastada, fugidia, triste, escureceu como breu.
É uma independência ao luar. E tudo ela me levou, me espatifou, me espoliou.
Agora resta-me o direito, o retorno da milenar lei da escravidão. Olho para o luar, a única coisa que me resta destas noites tão frias com a minha filhinha apátrida, e fingimos que estamos no palácio presidencial a assistir na Televisão Privada do Rei os campeonatos de futebóis nacionais e internacionais. E quando alguma estrela se move, rio-me para a minha filhinha que o nosso Pai da Nação nos abandonou, e ensino-lhe que aquela estrela é uma novela que está a passar nos confins do céu. Que deve ser uma princesa errante a brincar com o seu amante. 
E a minha filha alenta-me aquela música que costuma tocar na Rádio da Verdade Jingola: «Levanta-te mamã! Qual é a barreira que te impede de avançar? Levanta-te mamã!»
Mas porque é que esta independência está tão escura, de maldade tão obscena, de tão odiosos e desintegrados túneis.
Esta é a independência para os brancos e para alguns negreiros, para nós apenas alguns trapos e os destroços da opulenta corrupção petrolífera.
Tudo acaba como começou.
Choro neste universo de chão deserto, órfã sem direito à terra que me pertence espoliada pelos bancos brancos do petróleo do negro poder.
Olhai-me nobreza negra sob disfarce branco! Das profundezas dos vossos poços petrolíferos, e do alto dos vossos palácios fendidos, um milhão de casas-casebres destruídas vos contemplam! E nelas erguerão mais fachadas da corrupção chinesa fissuradas.
Sim, insisto! Um milhão de casas-casebres destruir-se-ão, e um comboio subterrâneo de Kabinda ao Kunene descarrilará.
Não, não posso culpar o meu Presidente, porque quando ele milenarmente por aqui passa escoltado pelos seus carros de combate, a poeira agitada é tamanha que ele não vê nada. Sim! O muito pó do betão progressista ofusca-lhe os movimentos, o olhar e a mente. Deve ser por isso que ele não vê, não sente nada. Será que ele tem sentimentos?
Porquê que aqui só há direito a viver em palácios e em apartamentos de um milhão de dólares? E eu não posso viver num casebre de um punhado de dólares?

Acerca-se mais um eleitor muito desiludido, um dos integrantes dos comícios de rua itinerantes e dardeja o que se almeja: «Nós votámos no Lorde porque acreditámos em tudo o que ele nos prometeu. E ele enganou-nos. Nada do que nos prometeu nos dá. Ele que tenha muito cuidado! Afinal é tudo para ele e para a sua família e para os estrangeiros seus amigos. Ele está muito confiado nos militares. Ele que tenha muito cuidado! É melhor que ele comece já a cumprir o que nos prometeu.»

Porque tarda o julgamento de tanto crime, de tantos e tantos criminosos?
De notar o silêncio convincente das Santas Madres Igrejas perante a ditadura do Lorde.
Mas, o silêncio revela que as coisas nas mãos de um partido matador trazem muitos conflitos, mais guerras.
Saí de um país atrasado e quando me dei conta estava noutro muito mais a andar para trás.
Os cães deixaram de ladrar, há muita miséria para lhes dar.
As noites fizeram-se para dormir, para descansar. Quem nelas perde tempo, também lá perde a vida.
Todos bêbados porque se esgotaram os recursos do intelecto.
Quando se perturba o silêncio da noite é porque as mentes estão doentias.
Sem solução é o fim da governação.

Admirável silêncio, o dos portugueses que votaram no partido do petróleo sem futuro. Dantes tão participativos, tão putativos. E que Jingola deves-lhes tanto, dizem.
O sistema político da civilização ocidental não se alterou. Assenta na formação indirecta de terroristas. O relacionamento em nada se alterou com os outros povos ditos atrasados, colonizados. No caso vertente jingolano, os portugueses são os tradicionais fornecedores de revoluções e terrorismos. Os portugueses ao apoiarem governos que deveriam desaparecer, desempoleirar, para explorarem, pilharem as suas populações, incorrem no grave risco da revolta popular generalizada. É que se houve em surdina todas as vozes autóctones neste sentido. Todos à espera do pretexto. Estamos todos no contra dos portugueses e no seu desejo de nos continuarem a humilhar. A continuar, a manter-se nestes moldes, a cooperação portuguesa não nos serve para nada, como muito bem afirmou Graça Machel
Estes portugueses em Jingola portam-se como os cães da pradaria. Mais um exemplo relatado por um amigo. Algures em Luanda, uma empresa de informática de portugueses disponibilizavam serviços de Internet de banda larga. Mas não tinha nenhuma banda. Era uma vigarice. O meu amigo ameaçou-os, desmontou-lhes a vigarice, e os pobres idiotas, mais criminosos, pararam, bazaram. Andam por aí à vontade, na descoberta sem a coberta das naus de mais vigarices. Os crimes impunes incham até explodirem.

Também um país só a viver da anarquia petrolífera não tem futuro. Fica estado-falhado. Agora com tanta gente para sustentar, num governo que mais parece um harém que nunca mais acaba. São tantos governantes, que ninguém os ousa contar, quem lhes vai sustentar?! Com um orçamento no barril a 55 dólares? Vão desviar dinheiro? Passar ao lado do orçamentado? Salve-se quem puder, que a governação submarinou-se. E o barulho das obras de noite, os fumos dos geradores que nos matam, o roubo de terrenos, o camartelar casas, o falso controlo dos preços no dia-a-dia, tudo continuará, prosseguirá?
Isto acabou meus senhores! Veremos o neocolonialismo com toda a sua força, com toda a sua escravidão? Acabaram-se os sonhos, dominam os pesadelos? Será um desastre imobiliário, o subprime Jingola? O petróleo já não dá para pagar dívidas. Falsa riqueza na extrema pobreza. Todo o dinheiro que existia, esbanjaram-no, ultrajaram-no… estamos feitos! Que será de nós!?
Devemos exigir a esses agentes provocadores, contas. Onde o gastaram, delapidaram os dólares dos petrofamintos. Adeus futuro sem Nação?  

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Os Jasmins da Lwena (19) Igrejas não faltam. Talvez sejam superiores em número a ratos, a baratas e lixos



(E no descaminho de Emaús veneraremos, venceremos todos os obstáculos, proclamaremos que seremos depois da república das bananas invicto estado-falhado, e seremos muito galardoados e aclamados.)

O mar não se cansa de ondular. Nasceu assim, vive, é feliz sem fim, é jasmim. Estou a deixar-me levar para terra firme, a relembrar a desventura, a incerteza do Homem das bombas. Homem, o invento mais estúpido que a Natureza criou, o monstro, o predador, o maldito Homem que em conflito com o semelhante, quebra lanças por, lança-lhe bombas. E nascem abençoados nos tectos de Deus.
Igrejas não faltam. Talvez sejam superiores em número a ratos, a baratas e lixos que comandam a actividade diária dos Jingola petrofamintos. Em frente a buracos, lixo e esgotos existe uma igreja. E os seus cantos litúrgicos reforçam milenarmente: «Jesus, a minha vida são pedaços do teu sangue derramado.» 
Sinceramente não sei que interesses têm as nações, ganhos, em estupidificar as suas populações com superdoses de estádios de futebol. Isto é a outra civilização, a da bola. Quantos, tantos estádios de futebol que deveriam transformarem-se em bibliotecas de cultura. Jogos Olímpicos do livro, da literatura, de quatro em quatro anos. Isso existia na Grécia mas… as ditaduras e o Cristianismo colocaram os seus cadeados, invocando que eram cerimónias pagãs. Os poetas foram proibidos de jogar as suas odisseias. Os Celtas com as suas tradições orais fintaram a Igreja, e depois escreveu-se o Santo Graal, o Rei Artur, Guinevere, Lancelot, Avalon... Sim! E Excalibur, a espada mágica que simboliza as forças da Natureza, o destino da Humanidade. Eis o paradoxo: nascer para morrer. Ou melhor: nascer para destruir civilizações.
A miséria obriga a que por qualquer motivo se descaia, faleça, em qualquer local inesperado, sem direito a assistência médica e social. Os transeuntes, despregados de humanismo – mas, quem só pensa em dinheiro, tem tempo para estas coisas? Até lhe chamam de louco! – Cansados da viciosa morte gritam maquinalmente: Morreu! Morreu! – No tempo dos romanos era: viveu! viveu! - A vítima jaz no chão indefinidamente abandonada. É a vida diária dos campos de concentração petrolíferos deste Golfo da Guiné.
O novo comboio passará. Será mais rápido que o outro que existiu. Levantaram-se muros de protecção. Os moradores para circularem têm que saltá-los, os funerais também. Crianças sem instinto de conservação aproveitam o anoitecer e cagam no cimo dos muros. Os moradores trepam e sentem as mãos desagradáveis. Ficou oásis para bandidos. Pela intranquilidade os seguranças recebem extras, facturam nas pessoas. 
A História não é coisa parada, é movimentada. Novas descobertas surgem. O que hoje é uma descoberta revolucionária, no outro dia já não o é.
Famílias a viverem ao relento. A nobreza Politburo rouba terrenos e somaliza casebres para construir palacetes, palácios, com a abundância das receitas do petróleo. O que está na berra, na moda, são os condomínios. Abertos dentro, no ocultismo por fora.
Os primitivos tinham cavernas, os actuais desalojados nem isso têm. Os mirones acercam-se na praxe subjectiva. Interrogam-se que talvez seja um circo de cavalinhos debandado.
- A rua é a vossa nova casa?
- Os Politburo partiram-nos os casebres, roubaram-nos as terras e sempre assim sucessivamente.
- Vão se queixar nos direitos humanos!
- Não dá mano, esses quando falam os Politburo ameaçam-nos, prendem-nos, matam-nos. E que me adiantaria isso? Risadas e papeladas não despachadas.
- É lepra Politburo contagiante! Exilem-se!
- Sim… vamos para o Índico, a ver se algum mercador de escravos nos compra.
Regressei ao mar, desperta por onda dimensional que balançou a embarcação. Segurei-me bem. Os marinheiros nem por isso, nas calmas, insensíveis às ondas. Sensíveis falantes, não se cansam. O Ulisses bordeja: 
- O dinheiro sujo civiliza-nos. É o dono do mundo, patrão da hodierna civilização. Antes arrasaram, mataram, dizimaram, escravizaram os antepassados. Até que finde… quando não sobrar nada….
Antes que me esquecesse, intrometi uma deixa:
- Quando chegar à Ibéria depois parto para Armórica… tenho lá uma prima. Finalmente… regresso à civilização… da comida.
… apenas vestígios. Dantes as pessoas revoltavam-se, agora não. Estão cansadas, submissas, frustradas. Os intelectuais desapareceram… apareceram muitos pseudo-intelectuais que dirigem as sociedades. É fantástico ver como toda a gente os segue. Lembram Júlio César a subjugar os Celtas.
O Mentor está à pesca. Atira o anzol sem isca, recolhe-o, volta a atirá-lo. Que paciência de Job. Anzol sem isca… deve ser pesca de malucos. Oh, afinal bate bem. Pescou um bem grande. Ufana-se:
- É uma dourada! Vou fazer sushi.
Ulisses tranquilo confunde-se com o mar. Talvez porque Penélope esvoace, abrace e lhe dê doce calmaria. Conversa vai, conversa vem.
- Onde cheira a negócio, de imediato aparecem os homens.
Mentor afadiga-se no corte de fatias finíssimas, tenrinhas, fresquinhas, do esquartejado teleóstio. Dá apito de manobra:
- É futebol… se falta entrosamento, concentração e força anímica, perde-se a batalha.
- Não, não pode ser. Não foi Deus que criou o Homem, que aberração, que imperfeição, que monstruosidade. Estamos dominados, governados pelo demónio há mais de dois mil anos. Esta é a verdade. O fundador… os fundadores, os seguidores da Igreja, são… Satanás. Ele está aqui, sente-se, move-se, domina-nos. Eis porque o mundo está no fim, no caos. Satanás está em todo o lado, ninguém lhe consegue escapar. Estamos amarrados, vivemos os últimos dias da maldade. Satanás triunfou.
Calaram-se. Que ventura. Longe de casa, na solidão marítima o pensamento é mais sagaz. Discorre perfeitamente. No convívio da verborreia humana é quase, senão impossível pensar. Hoje, a loucura humana criou a sua melhor descoberta: o ruído. Por isso os cérebros andam tão decadentes, desmazelados, que desconseguem reflorir. Descomplexei-me e expus-me a Mentor: 
- Mentor, acompanho-te porque não acredito nos intelectuais Jingola, metem-me medo, são falsos, oportunistas, aterradores, recordistas da bajulação. Mas, creio que sempre foi assim desde os primórdios, desde aquela abalada quando os nossos ancestrais viviam nas cavernas, depois aprenderam a usar um osso como arma. Que pobreza de espírito. Como se alguém acreditasse nisso. Custa-me a entender o porquê de tanta violação da História. Quanto menos contactos humanos melhor. Porque é pernicioso, perigoso, e evitamos muitos dissabores. Vivermos como eremitas? Sim, porque não? Existe alguém que goste de viver com serpentes venenosas? Ainda não está tudo perdido. Chegou a hora das grandes cruzadas. O tempo de desembainhar as nossas espadas e acabar com os maldosos. Fazer outra vez um rio de sangue divino, e salvar a humanidade. Não há alternativa. Vamos a isso, acabemos com eles!
- Os tempos apagados continuam experientes… coisas que antes eram dadas como certas, mais tarde verificamos com surpresa estarem erradas. Uma delas é fundamental: A África Negra permanece, permanecerá primitiva.
- Porra! Esses guardiães do templo da memória são muito perigosos.
- As noites dos tempos são sempre iguais, não se alteram. Os dias findam e escurecem, as noites acabam e amanhecem.
- A escravatura não mudou, porque o homem não acabou. São tantos os escravos que não se podem contar.
- A civilização Branca da fome faz-lhes o balanço.
- Sim… o homem Branco, a civilização Branca… os destruidores de civilizações.
- Se me dessem a escolher entre um homem e o demónio, escolheria o demónio, porque ele me ajudaria a eliminar o homem.
- Quando não existir homem, haverá finalmente paz na Terra.
A nau perseguia o destino Atlântico, o mar que ensinou os homens a navegar. Depois melhoraram as embarcações e reembarcaram, descobriram-se com outras gentes. Parecia inacreditável, mas existiam outros povos primaveris que pisavam rodeadas riquezas incomensuráveis. Com olhos cobiçados e cabeças tontas vergavam-se os exploradores perante tantas montanhas de ouro inexploradas. Eldorados, ilhas encantadas, misteriosas cidades do ouro, esmeraldas, diamantes, prata, petróleo, urânio. E matavam-se, rematavam-se e matavam. Riquezas humanas, povos… civilizações espadeiradas, tiroteadas, apenas porque os seus deuses eram árvores, rios e terra. Eram-lhes superiores porque amavam a Natureza. Agora os neo-exploradores esfolam-se e esfolam. Destros superficiais boçais.
Reanimei-me, e reaprendi a amar, a desenvolver o amor do meu Deus implantado na árvore iluminada de esmeraldas, riqueza verde insubstituível.
Louvei as minhas inclinações a Anfitrite, Oceano e Mentor pelo agrado do improvisado sushi. E voltámos aos nossos sons, como se o mar entendesse, participasse mudo e quedo.
- Mentor, meu amigo… não vou nos futebóis das bolas brancas, nem nas políticas dos políticos melífluos.
- O autor dos FFF, Fado, Futebol e Fátima, é prezado… o ser humano necessita da prova de fogo constante. Como os grandes hipnotizadores de multidões que nos conduzem à solução final.
- Os cães são livres, nós não.
- Não entendo.
- Eles podem ladrar, perdemos esse direito.
- Por isso existem canis.
- O que é uma discriminação.
- Sim! Não há diferença entre os homens e os cães.
- Há uma, comem a mesma comida.
- Então os criminosos deviam estar nos canis e os cães na prisão dos homens.
- É tempo de acabar com essa injustiça.
- O homem não é um animal.
- Por certo, os animais pensam que o homem é irracional.
Imagem: Aléxia Gamito

sábado, 18 de agosto de 2012

O Cavaleiro Mwangolé e Lady Marli na Demanda do Santo Graal (29)


Tudo é composto de sinfonias. Sem dúvida que o Universo é-te disto revelador. A nossa vida é uma sinfonia muito mal orquestrada naqueles que votámos para o poder, e cuja orquestra está sempre muito mal desafinada. Nunca te esqueças: luta sempre contra a hipocrisia e a corrupção.

E criaram-se muitos caminhos e nenhum sabe qual é o nosso destino. E os ventos agitam-se fortemente derrubando o único destino que nos resta: o amor. Somos uma multidão perdida nas areias deixadas pelo espraiar do revolutear marítimo. E os seus grãos misturam-se, agitam-se, tal e qual nós. E seguem arrebatados pelo espumar do ondeado mar.

Convencemo-nos que somos muito fortes, mas perante uma inesperada desdita revelamos a nossa proverbial fraqueza. Os vírus atacam-nos, porque somos o receptáculo ideal. No fundo, somos um laboratório viral em constante mutação para destruirmos os nossos semelhantes.

E finalmente o célebre Comandante Prata abandonou a bebida descontente. Cedo fez do precioso líquido a crítica da razão pura da sua efémera existência. Sempre a medir forças contranatural, enfrentava-se valentemente, mas contudo rendia-se incondicionalmente, ou melhor, ou ainda pior, efectuava notadamente uma retirada estratégica da frente de batalha do seu conservador cogito: «bebo, logo insisto, e logo existo!» e nele sitiar, se situava e nunca havia prólogos, mas somente epílogos.
Fortaleceu a sua consciência revolucionária em Cabinda, e lá se sentia como um estranho numa terra estranha do Robert A. Heinlein. Tão tenro, apenas com vinte e sete anos, tão Rimbaud, e com tantas virtudes ainda para nos demonstrar.
Comandante Prata, in vino veritas, (no vinho está a verdade) PRESENTE!
A nossa juventude, esses heróicos alcoólicos anónimos, a força petrolífera nunca está com eles. Esses intrépidos bandeirantes da pátria dos varredores dos alambiques tumultuosos. E onde houver bebida, juntos lá estaremos, cairemos. Este comandado perdeu-se na sua última peleja. Frustrou-se no derradeiro in memoriam suspiro. Agora, desconheço como é que ele se vai safar. Consegui ligar para o Céu, as rotas da telefonia celular cada vez mais se alicerçam no reino da anarquia, e lá nesses azuis estelares impera rigidamente a lei seca.
E o comboio da morte apita-lhe, ultima-lhe a partida deste paraíso da juventude alcoólica. O coração estava tão sobrecarregado de labor alcoólico, reivindicou-lhe melhores condições de trabalho. Não sendo consentidas entrou em greve por tempo indeterminado. A produção sanguínea parou, a fábrica entrou em ruptura de estoques, sobreveio a falência e depois o colapso total.
Comandante Prata! Esta pátria sempre desonra os seus heróis, esquece-os. É uma nação de meia dúzia de afogados na maré negra dos milhões de dólares submersos. Esta nação actual é obra de jovens alcoólicos.
Comandante Prata! Oh! Como invejo os prazeres que as doces valquírias te proporcionam.
Ó tristeza, porque me persegues, me roubas o sorriso e me contemplas no meu olhar medonho.
Frases célebres do Comandante Prata: era muito esclarecedor pois destilava: e todos os problemas se dissolvem na bebida. E, as plantas alimentam-se de minerais, a mim sobra-me a alquimia etílica. Quando o frio me apertava, a bebida aquecia-me, me consolava. A bebida faz dançar o meu andar. O nosso maior desastre não é a SIDA, nem os acidentes dos carros da viação, e nem o paludismo. O nosso desastre natural nacional é o alcoolismo. Somos vitoriosos porque atingimos o cume do Evereste alcoólico. O melhor benefício que a independência nos deu é o alcoolismo sem limites.

Extraterrestres invadem Luanda
Uma nave extraterrestre acaba de aterrar em Luanda. Sabe-se que é para reabastecimento de provisões, porque neste momento em que vos escrevo, eles espoliam-nos pelo sistema de teletransportação, a energia eléctrica, a água e a comida. Estão a sugar-nos, melhor, a espoliarem-nos tudo.
Entretanto, há notícias confirmadas da aterragem de várias naves em diversos locais da cidade de Luanda. A luta é desigual, porque os invasores decerto vindos de outra galáxia, são muito poderosos.
Apelamos por socorro a todas as nações e povos do planeta Terra.
Ajudem-nos a combater estes invasores antes que seja tarde de mais.

O casebre sem sol tropical
O habitual cliente chinês de uma mamã do seu casebre espoliada compra-lhe cigarros e segreda-lhe: «Angola tem muitos bandidos!» «E lá na China?» «Não, polícia mata!»

República dos tumultos
É proibido trabalhar – também onde o há? Este sonho tropical é só para estrangeiros e Lordes – e ganharmos o nosso dinheiro honestamente. Este sol de nascente incongruente das tardes sem destino está tão pálido, tão poeirento.
O nosso casebre mesmo sem oásis estava tão aprazível, mas ainda entorpecente no adormecer independente.
Estávamos reunidos no nosso casebre no nascente sol amarelento, bolorento de tanta ousadia bancária familiar luso-tropical.

E vieram… como se chamam essas coisas metálicas que se inventaram para desobstruir casebres das reservas dos indígenas do Estado? Ah! Chamam-se buldozeres... não… buldogues, é isso, manas e manos. São os buldogues, as feras de dentes de ferro ou aço. É isso! Aquelas coisas que os brancos inventaram para devorarem os casebres negreiros.
Eu acho que eles se enganaram. Estavam a fazer uma operação, um treino militar algures. Acredito que a localização no mapa deles estava errada. É… então vieram para aqui com o comando todo deles, e bombardearam-nos, arrasaram-nos os casebres. Traziam tudo de bélico, só faltou um porta-aviões.

Só pode ser mais um erro dos americanos. O GPS deles anda sempre avariado, a bombardear o planeta Terra por engano e desinformaram os seus colegas angolanos de que isto, os nossos casebres, afinal são células da Al-Qaeda. E a CIA informou-lhes com a muita veracidade habitual que afinal toda a Angola está infestada de casebres disfarçados de campos de treino dos terroristas da Al-Qaeda. Então passam o tempo a bombardearem os nossos casebres. Já viram o nosso azar, manos e manas?
E ainda os cadáveres dos nossos casebres não se funeraram, é pó e destroços por todo o lado, os banqueiros espreitam rapinadores. Lutam entre si: «Não, este terreno é meu» «Não, não, este é meu, aquele ali é o teu» «Não senhor! É tudo meu! Tenho o recibo provisório passado pelo governo provisório dos Lordes.» «Ok! Vamos então negociar»
E os especuladores imobiliários no local vendem rapidamente os apartamentos ainda não construídos. Os novos-ricos dos poços de petróleo cagam-lhes milhões de dólares.
Um milhão de casas angolanas não será com certeza. Então o que será?! Na certa serão um milhão de tumultos.
Angola em obras de remodelação, e por todos os cantos e cantos, ámen.
E onde houver betão lá concretizaremos. Esta será a nossa digna pátria no betão edificada.
E nos campos das populações escorraçadas também lá edificaremos, honraremos os nossos compromissos imobiliários. Angola será a pátria da revolução mundial do imobiliário. E nada se lhe comparará, aliás todos sabem bem disso. Que fique desde já claramente entendido: em Angola não existe população, abundam sim, alguns milhões de escravos e nada mais do que isso. E para que servem os escravos? Para obedecerem aos seus novos amos, aos seus imortais senhores que têm poder de vida e morte sobre todos. Agora já entenderam?!
Vamos pois em frente! Nesse caminho da escravidão.

«Campo da Refrinor: Mais um espaço público engolido por interesses particulares
Depois queixam-se do aumento da delinquência e da criminalidade juvenis nos bairros de Luanda. Depois, vemos por aí uns "bombeiros" a promoverem sessões de sensibilização e esclarecimento sobre comportamentos desviantes dos nossos jovens. Pudera... Se os últimos espaços livres para a prática do desporto estão a ser engolidos por interesses empresariais, de facto pouco mais haverá para fazer, para além do "cangaço". Depois dizem que o Cazenga está impossível...» in morrodamaianga.blogspot.com/

A nossa Net está com fissuras, vamos pois renová-la com umas obras de restauro concretas, no concreto, no betão. Vamos fazer-lhe pois umas obras, umas melhorias. Já conseguimos o financiamento dos especialistas das fissuras chinesas.

O nosso actual sistema de governo é a especulação imobiliária.
Nós dos Lordes queremos implantar um Estado forte, pleno de democracia e liberdade de informação. E achamos que os exemplos da Coreia do Norte e da China são os que devemos seguir. Como principal medida a tomar, vamos já criar mais um comité de especialidade da Internet.

Mais um testemunho válido de uma trabalhadora angolana sob o peso do insustentável verdugo do betão: «Lá no meu trabalho eu vejo as folhas dos vencimentos, os estrangeiros ganham de quinze mil dólares para cima. E alguns são tão burros, não sabem nada.

E dos nossos estúdios centrais prosseguimos com a nossa programação normal da miséria. Um poder absoluto e uma anarquia total. A miséria do betão persistente bate-nos nas portas violentamente.

E o cidadão sem banda grita para os chineses que não deixam ninguém descansar, pois escravizam-se dia e noite: «Parem com a barulheira e deixem-me dormir meus! Eu estou no meu país, porra!!!» e outro espoliado replica-lhe: «No teu país não, na tua selva!!!

E no abstracto do concreto da nossa abstracção reside a nossa facturação.