sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O REI DO PETRÓLEO (05)



RCE - República dos Comités de Especialidade, algures no Golfo da Guiné.

Que lamento… os quadrúpedes destruíram os bípedes… ficaram feras em festim que infestam o reino com festas numa invasão de predestinados, doutores e poetas institucionalizados. Poetas, todos com o dom que Deus lhes deu. Doutores evidenciados anunciam-se: «A montante e a jusante do sistema desestruturado, ainda sem condições psicológicas objectivas e subjectivas, de efeitos endógenos e exógenos, porque as estruturas não confinam, foram-se, estão debalde abaladas. É o binómio da aderência positiva e do saneamento básico do meio… do lixo que invade as ruas e que não se recolhe porque a perseguição e a tortura na prisão dos jovens inofensivos é o mais importante.».
E o auditório em uníssono aplaude a sapiência do grão-mestre mandatado pelo Rei do Petróleo. «Com o analfabetismo a oitenta, noventa por cento, os doutores e poetas excedem as esquinas. Nestas se acotovelam, atropelam-se, e nãoMuro das Lamentações. Donde repentinamente veio tal avalanche de avatares? Ninguém sabe, mas desconfia-se que é devido às alterações climáticas, ao calor abrasador que faz ferver os cérebros. E se instituiu a novel classe social do doutor general-poeta, doutor novo-rico, poeta novo-rico. É a abertura da marcha do desenvolvimento económico e social. É mais fácil ser superficial, porque aprofundar exige muito trabalhar.»
O estatuto de doutor e poeta permite-lhes reuniões, debates, conferências, seminários, assembleias, tertúlias, e agenda nacional de consenso, onde no fim os participantes descobrem estupefactos que não há concerto de ideias. Há unanimidade em que as questões económicas e sociais de um país decidem-se com intermináveis palermices partidárias. Entretanto, desconhece-se quem está disposto a trabalhar. Um participante desiludido questionou: «A democracia é a aspiração do voto em dias melhores que nunca surgem. É o eterno voto do permanecer sempre na mesma. As tradições orais foram-se, perdemos a nossa identidade cultural. O desenvolvimento económico e social é sustentado pelos doutores e poetas dos planos quinquenais. O melhor desenvolvimento económico é matar o povo à fome. E a militância poética glorifica os feitos do Rei do Petróleo. «Ah! poesia da terra oca, vazia, sem conteúdo mas terrivelmente real da orgia das chacinas.»
E o poeta militante, milita, afia as goelas, palavreia:
Os meus punhais anoitecem na destruição sistemática/ Do que resta, foi, era, não mais será/ Punhais ferrugentos das águas impuras/ Corroídos, perdidos nos quilombos. Corruptos, corrompidos! / Ao libertarmo-nos do colonialismo tínhamos o desejo do regresso/Aos nossos gloriosos eternos quilombos. Estamos imensamente felizes/ Todos mandamos, somos chefes, somos a anarquia/ Somos livres na nossa feitiçaria, na nossa monarquia/ E quem é que manda? Os donos do petróleo e diamantes!/ Ser patriota é passar fome, e nunca venceremos a guerra/ Porque é atrozmente difícil. Fácil é carregar no gatilho/ Sem bibliotecas públicas e com milhões de gatilhos/ Pereceremos vencidos, vendidos, rendidos à fome.

Dos poderes da magia, eis que surge o último trovador profissional da tradição oral: «Bantus, à procura do Graal, da perdida tradição oral! Canto a trova dos deserdados das fortunas, desesperançados da riqueza aviltados. Nos poderes exteriorizados. Poder, são os povos a sofrer. O poder da miséria é histórico. Morrer, padecer à fome é um acto heróico. São tantos os soldados conhecidos. A vida da miséria é revivida. Nos tostões parcos da despedida. O poder de Kalunga é incomensurável. nos lembramos Dele quando a miséria bate brutalmente no coração. Que antes era ferro ferrugento, e que repentinamente se purifica. E a lepra subsiste. Símbolo da miséria é andar de mão estendida, com o filho às costas, a chorar, a desesperar. Por entre carros desumanizados, sem conseguir mendigar. Os passos encurtam-se, está a acabar a luz solar. O chão de dormir endurece a noite sem luar. Fome é desfalecer, desarrumar a esperança sem forças para lutar. É triste morrer , abandonado em qualquer lugar. A fome não tem moradas, mas os seus caminhos estão localizados. Os ignaros sacralizam-nos, presenteiam-nos os caminhos da fome. Sem estrada, ponte, rua, sem nada. Os abarrotados protegem-se oprimindo os miseráveis. Os miseráveis bebem água inquinada, os abarrotados água engarrafada. O calendário da vida está prenhe de dias injustiçados
Faz uma pausa, retoma a memória: «Fora de questão: não é o menino das chuvadas, é o homem. É isso! E num país de sol ardente um carro aportado, abortado sem ar condicionado. As pessoas estão sempre a morrer e a nascer, a chorar e a cantar. Uns vão mais cedo, outros mais tarde. Mas todos vão. Idiotas com uma bandeira e um hino! A questão é: sem um tostão. Isto não é uma nação, é o fundamentalismo da escravidão. Uma agenda sem consenso, sem referendo da fome
Recupera o fôlego, remata: «Ó Bantus! Há crescimento económico no PETRÓLEO E DIAMANTES! Nós, o povo, estamos na escuridão e na sede, no reino do morrer à fome. Vejam o que fizeram às nossas mulheres! Negra é como mosca! Enxota-se, pisa-se, esmagasse, elimina-se, mata-se. O lixo é mais valioso. Este é o reino em que o mais essencial é o aniquilar o outro por todos os meios possíveis
A Pax Angolana chegava e as estradas se esburacavam. Os conquistados, parados, observavam e comentavam: «vamos ver o que estes chineses nos trazem». Depois: «Ah… trazem-nos subdesenvolvimento
Agora, na moda do falatório do desenvolvimento sustentado das conferências não auto-sustentadas, temos estradas com buracos, buracões, crateras, cavernas, abismos. Acreditamos que são perfurações petrolíferas e escavações diamantíferas. Que ultraje! ultrapassam os incontáveis doutores e poetas doutra tempestade que surge, outra grande epidemia, estamos certos
Vias, antes primárias, secundárias, agora na era terciária, quaternária, por culpa da chuva que nos deixa atrasar. É bom sempre ter desculpas para continuar com tão mal governar.
tantos anos que as chuvas foram previstas, revistas, anunciadas, proclamadas, trovejadas, ciclonadas. É mais fácil para quem finge democraticamente governar, esperar a destruição e culpar a chuvada, e depois remeter a responsabilidade para o auxílio internacional. Se não vier apoio é porque os Britânicos e Americanos estão apostados no derrube do sempre mesmo governo vitalício e pela batota democraticamente reeleito. 
Alguns escravos de intelecto apurado, bombardeiros habituais, criticam a sua exterioridade pedante. Os outros ouvem-nos e prosseguem-nos. Falarfalar é preciso. Das palavras até surgir a acção outro milénio de palavreado é esperado. E os escravos rejubilam-se porque falaram, repetiram-se muito comnão é! Não é!?
Todos a com os arcos, as flechas e as tangas da ancestralidade, ressorrindo na imposição do retorno comunista. E os arautos da descolonização libertadora copiam manuais médicos, e estrelam dos seus palácios que andar a , é bom, eficaz para a saúde. E chega-se ao local do trabalho cansado, ensonado, com grande apetência para sonecar. É a dádiva do remetente comunismo. E as multidões passeantes cantam como se enchessem escunas na busca do tesouro perdido: «Ió-hó-hó, e uma garrafa de aguardente!» 
Enquanto sem jindungo, muitos frutos da nação desbaratam os contentores do lixo nos prédios moribundos, mas independentes. O Vladimiro, maluco itinerante ergue o seu punho. Apenas conserva na memória os gritos intencionais do ensino três vezes ultrajante: «Pelo poder popular! Pelo poder popular! Pelo poder popular
Deste ensino que o elevou à loucura.
Passeiam-se os novos-ricos insensíveis, que vivem neste novo mundo petrolífero Hummer, desafiam, incumprem as leis, porque ainda não justificaram a origem das suas riquezas
Ao longe escuta-se o ruído da chuva estridente da padiola do desenvolvimento insustentável, dos subdesenvolvidos contaminados pela cólera.

Com fornecimentos de energia eléctrica e água medidos em onças, um aviltado sonda as vagas da repressão do novo navio negreiro a estibordo e a bombordo. Temeroso, brumoso, inseguro, mas mesmo assim grita:  «A FOME… CONTINUA! A MISÉRIA… É CERTA!» Tantos alienados, por causa das estradas das chacinas desoladas.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

DIÁRIO DE UM PRESO POLÍTICO (01)


 Sedrick de Carvalho, um dos dezasseis presos políticos de Angola.

INTRODUÇÃO

“A violência aparece onde o poder está em risco, mas deixada a seu próprio curso, conduz à desaparição do poder.”
(Hannah Arendt, 1906-1975)

Quando um país é uma empresa privada
A população vive desempregada
Os presos políticos são abundantes
Porque muitas são as vozes discordantes

Onde o poder da corrupção se espalha
Tudo vive na grandeza da bandalha
O poder auto eleito é ilimitado legitimado
E mais um preso político é algemado

Onde há fraca oposição há férrea ditadura.
Pelo andar das ditaduras, este mundo será uma prisão de presos políticos.
Um regime altamente corrupto corrompe a comunidade internacional e qualquer voz que o denuncie é acusada de tentativa de golpe de estado. E qualquer pretexto serve para encher as prisões de presos políticos.

Não me lembro de quem me disse que a humanidade caminhava a passos firmes e seguros para a democracia.
Mas é com profunda preocupação e tristeza que verifico a todo o momento o ressurgir das feras adormecidas que despertam das trevas e disfarçadas de seres humanos vão tomando de assalto o poder e com as suas garras impõem-nos regimes sanguinolentos. A asfixia dos regimes democráticos segue o seu curso, porque tudo já é composto de absinto.
A democracia oscila e é exactamente isso que os regimes ditatoriais, vampíricos, executam. O assalto comunista ortodoxo ao poder revigora-se perante o silêncio e o sorriso sarcástico de quem se julga seguro dentro das suas fronteiras. De um lado o assalto totalitarista, do outro, o assalto das hordas radicais islamistas. O Ocidente adormecido que - ninguém sabe quando definitivamente despertará – desperta de vez em quando, e o comunismo ortodoxo martela nas nossas cabeças que só com ele nos libertaremos da miséria e da escravidão, quando é exactamente o contrário, pois nele a população serve-o como escrava, caindo moribunda no chão amontoado de cadáveres. Os islamistas da ferocidade radical também se servem da estratégia do terror estalinista para atingirem o poder. O Ocidente mantêm-se na eterna espera de que estas duas forças com o tempo se aniquilem, desapareçam como um vírus sazonal. Foi assim com Hitler e não resultou. As muralhas do Ocidente abrem brechas que se alargam dia após dia, porque não é possível combater nenhum invasor com um exército de hipocrisia.

E a minha nação vê-se engolida: de um lado o monstro do comunismo e do outro o monstro islamista. E a África não sobreviverá, um monstro  após outro a devorará, a afogará nas chamas da fome.
Continuo profundamente abalado com o saque da Europa dos quinhentos anos, e da continuação de outros quinhentos. A Europa branca segue hipocritamente no saque do Continente Negro. Nem o mínimo sentimento tem pelos bebés, pelas crianças que a todo o momento são vitimadas por balas e por catanas importadas. As meninas e mulheres são usadas como caça fácil da prostituição infantil, juvenil e adulta. E a Igreja e as igrejas reinauguram a sua inquisição e quem protestar e não quiser rezar será para queimar. A Igreja e as igrejas são os veículos preferidos das ditaduras africanas. Porque quem mata por elas será para sempre abençoado no jardim do paraíso das mil delícias esperado. Onde há ditadura a Igreja e as suas irmãs vivem numa ilha paradisíaca abençoada pelo diabo. Pois, onde corre sangue, mais cedo ou mais tarde tudo será queimado, o crucifixo será desmontado, pois quando a Igreja e os seus anjos demoníacos apoiam a morte indiscriminada dos seus fiéis alegando que foi Deus quem o ordenou, estamos na presença das duas ditaduras mais ferozes do Universo: a ditadura de Deus e a dos ditadores terrenos, os seus legítimos representantes na Terra.
Nos primórdios da humanidade, a Igreja disse que os africanos não eram pessoas, e por isso mandou-os queimar para que ficassem negros, da cor do demónio. E ainda hoje isso continua. Negro é o demónio, branco é o Deus. Em troca de umas míseras alvíssaras, a Igreja apoia a prisão, a perseguição e a tortura dos presos políticos

A Igreja é a desgraça das nações, a benfeitora dos conflitos, porque obriga os seus crentes a seguirem fielmente a escravidão do chicote dos governos ditatoriais, enquanto os seus sacerdotes se enchem do absinto do petróleo. Enchiam-se, porque o dinheiro do petróleo acabou, a Igreja se esfumou. Essa Igreja do Deus ditador que afirma que todo o ditador é por ela eleito, pois enquanto o petróleo dá, colhe-se o seu maná. E quando o petróleo não der, abraçaremos outro ditador que nos convier. Igreja com democracia é pura hipocrisia, é demonologia
E na África negra a mensagem que se pretende passar é que os negros são incapazes de governar, são alguém que não se pode confiar. E por isso mesmo, negro é para escravizar, para chicotear, para queimar, para chacinar. E os estrangeiros apoiam fortemente a ideia que já se decretou: vamos chacinar os negros para que tenhamos carta-branca para espoliarmos Angola. Para que cada um fique com o seu latifúndio.
Todos os dias o terror recebe homens e crianças-bomba, e o Ocidente alega que não os pode combater, pois que se movem como lobos solitários. Ora, tudo tem uma origem e as ditaduras são a colmeia dos grupos de abelhas suicidas, porque a Europa ao fechar-se, ao apoiar as ditaduras africanas, ou quaisquer outras, alimenta as ditaduras mundanas.
Os presos políticos são a solução adequada para impor a cruzada contra a democracia. Perante a hesitação da democracia, todos os dias são maus dias.
Se a Europa não acabar com as ditaduras ao redor do mundo, elas acabarão com a Europa. Aguardar por um mundo onde a única solução é ver cadáveres de seres humanos empilhados por todo o lado, como outra solução final, isso é dizer que a história universal é um livro de mortos. Um conto onde desde as nossas origens nos matamos uns aos outros.
Os estrangeiros estão felicíssimos porque podem saquear à vontade, porque quem denunciar a roubalheira é acusado de tentativa de golpe de estado, e como tal de imediato detido sem acusação formada, sem julgamento e encarcerado na prisão dos presos políticos.

Chegou o saque chinês!

“Se os homens são puros, as leis são desnecessárias; se os homens são corruptos, as leis são inúteis.”
(Thomas Jefferosn)


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O PARAÍSO PERDIDO A OCIDENTE (17)



O comboio chegou. Embarcámos, e o Dário disse-me que iria procurar um compartimento com aquecimento. Aguardei, ele veio apressado e disse que tínhamos que ser muito rápidos porque só alguns compartimentos tinham aquecimento, e a viagem seria muito longa. Segui-o, e ocupámos os nossos lugares. O compartimento era muito acolhedor, muito quente. Nem apetecia mais sair só de pensar no frio que lá fora fazia. Mas depois algo aconteceu. No compartimento começou a fazer frio. Devia ser uma avaria. Depois começou outra vez a aquecer. Passado pouco tempo acabou de vez. A partir daqui frio por companhia. Recordo-me quando parámos na estação da Pampilhosa, era gelo por todo o lado. Os carris estavam possuídos de branco. Era a primeira vez que assistia a tal acontecimento real. Em alguns locais alcançava altura de mais de vinte centímetros junto à linha do comboio. A viagem prosseguiu. Como a bordo o frio se mantinha, conclui que desligaram o aquecimento com más intenções. Que outra explicação havia? Pois que ninguém informava nada sobre mais esta desgraça. Acho que era para nos habituarmos a viver nas mais horríveis condições. Não é com isso que as ditaduras sentem enorme prazer?!

Parecia uma eternidade o tempo que passou quando voltei ao Café do Frederico. Muitos jovens que o frequentavam embarcaram no barco sem destino da tropa. A palavra de ordem era: vão para o ultramar e mantenham, defendam o segredo de Fátima e da Igreja. Sem o Quitério e o Mota não via nenhum interesse em permanecer no Café do Frederico. Só ocasionalmente lá ia. Passava a maior parte do tempo em casa, em silêncio, a pensar o que seria do meu futuro.
O meu pai chamou-me e disse-me que iríamos passar o dia na praia de Carcavelos, e que depois de um banho almoçaríamos em casa de um casal amigo na mesma localidade, o dono da casa era colega dele na TAP. Exercia as funções de oficial de tráfego. O meu pai tranquilizou-me dizendo que eram muito amigos. O almoço foi abundante, do tipo, o meu filho vai algures para o ultramar e como não sei se ele voltará, aproveito para me despedir dele para sempre, convicto de que jamais o verei. Terminámos com lagosta… coisa que há muito já não me lembrava. Quem comia lagosta era considerado muito rico. Depois fiquei intrigado quando fui convidado a beber uísque. Não era muito apreciador de bebidas fortes e era a primeira vez que bebia tal bebida. Despejei um pouco no meu copo e bebi como se fosse água. Não senti nenhum efeito, o que me levou a concluir que afinal de contas esta bebida não era tão desagradável como diziam. E bebi mais e mais. Depois dei-me conta que já estava a falar de mais.

Depois dos agradecimentos e da despedida, o meu pai e o seu colega na rua miravam o carro do anfitrião. Também decidi dar a minha opinião. Disse que era um carro moderno. A porta do lado do passageiro estava aberta, enquanto eles continuavam a conversar decidi fechá-la. Fi-lo com tal força que o vidro se partiu. Depois das desculpas necessárias e promessas de pagar as despesas, foi-me dito que não era necessário. Até hoje nunca consegui encontrar explicação para tal acto. Penso que foi devido ao uísque. No regresso a casa os efeitos dos vapores da bebida já se vertiam, batiam fortemente na minha cabeça. O mal-estar era evidente. Fui para a casa de banho e vomitei. Durante algumas horas, com lamentos e alguns gritos à mistura, deitei-me no chão e ali fiquei até que a bebedeira acabasse. Ainda ouvia a minha mãe perguntar ao meu pai, por entre críticas, que ele não deveria ter-me feito uma coisa destas. E que eu não estava nada bem. No outro dia já estava como novo.

À noite durante o jantar, a minha mãe fez-me companhia. Estávamos sós. O resto da família andava algures por aí. Pergunta-me:
- Ainda continuas a escrever à Belita?
A pergunta apanhou-me desprevenido. Fiquei nervoso. Quis explodir em palavras, mas contive-me.
- Sim mãe, de vez em quando.
De facto a correspondência era escassa, porque me tinha tornado apático.
- Cuidado meu filho. Essa gente é muito perigosa. Ela já arranjou outro. Um do Tramagal que tem algumas propriedades e deve ser por isso. Não ligues mais a essa gente. São pessoas que não te interessam. Só te vão fazer mal. Ela veio aqui e levou todas as cartas que te escreveu. 

Respirei fundo e explodi em silêncio. De repente senti uma enorme vontade de ir imediatamente até ao Tramagal e desfazê-la em pedaços. Concluí sem entender, e com a ajuda dos traumas da tropa, vi que é difícil conviver e confiar nas pessoas. Nunca imaginei que a Belita me fizesse uma coisa destas. Custa-me a entender como as pessoas mudam assim de repente. A partir daqui a minha tristeza aumentou ainda mais. Amava-a de verdade. As mulheres são hábeis em dar-nos a volta. Por fim a minha mãe acrescentou que a minha tia estava muito aborrecida com isso. E que a Belita mais tarde se arrependeria. Decidi esquecer o episódio. Pensei com mágoa que afinal a Belita não passava de uma vulgar prostituta. Não é assim que se troca de pessoa de um momento para o outro.

A minha mãe levantou-se da mesa e foi à cozinha. Trouxe um prato com uvas pretas grandes e carnosas. Ela sabia que eu gostava muito destas uvas. Enquanto me deliciava a comer bago após bago, ela lembrou-se de algo:
- Estas uvas lembram-me quando era nova.
- Porquê mãe?
- Nós íamos em ranchos trabalhar na apanha das uvas. Depois descansávamos e algumas faziam uma coisa que me deixava arrepiada.
- Que coisa mãe?
- Levantavam uma delas no ar.
- Mãe… estás a brincar comigo. Não acredito nisso.
- É verdade meu filho. Não sei como elas faziam isso.
- Mãe, isso chama-se levitação. Mas como é que elas conseguiam?
- Diziam umas palavras e ela ficava parada no ar.
- Que palavras eram essas mãe?
- Não me lembro. Ainda hoje sinto medo quando penso nisso.
Dentro de alguns dias estaria na estação ferroviária de Santa Apolónia para mais uma longa viagem. O comboio levar-me-ia até à cidade do Porto para tirar a especialidade.



segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O REI DO PETRÓLEO (04)



RCE - República dos Comités de Especialidade, algures no Golfo da Guiné.

No palácio, a festa dos biliões de dólares chineses não acabava, há alguns meses que durava. Festejos como estes duram intermináveis meses, e ninguém no seu perfeito juízo – desconhece-se quem o tinha – estava disposto a encerrá-la. Biliões de dólares não é todos os dias que se conseguem, e a classe dominante, sempre a mesma até que já pareciam fantasmas, prometia eleições mas perante uma oposição de lesmas o Rei do Petróleo fazia o que queria e bem entendia, porque nenhum partido político com assento parlamentar numa assembleia nacional que só tinha esse nome, onde o ridículo se impunha e a oposição muito anedota se queixava nos órgãos ditos de soberania, mesmo sabendo de antemão que isso não resultaria, continuava, chorava sem nada digno de louvor, como pobres peixes na boca do tubarão que os engolia sem dó nem piedade… e os pobres de espírito da oposição continuavam, nadavam a lengalenga do sem solução, a queixarem-se aos estrangeiros em vão. Quer dizer, a RCE arde e para apagar o fogo pede-se auxílio aos bombeiros internacionais. E o Rei do Petróleo sorria e na sua falsa complacência para si dizia: «Mas que manada de parvalhões que tanto me fazem rir. Ó, como adoro este circo onde imensos palhaços não lhe faltam. Um dia destes vou contratá-los para um espectáculo de grande envergadura no meu palácio. Confesso que me sinto abismado por não ter nenhum líder da oposição que me possa enfrentar. E onde os presbíteros se rendem sob as minhas ordens, estou mandatado a fazer muitas desordens porque só a Deus devo contas tal e qual como por Ele fui eleito. Não sou das coisas terrenas, tenho o poder divino de chacinar e esse poder Deus mo concedeu.»
Os acontecimentos sucediam-se até chegarem ao horripilante ponto da mortandade vulgar. A morte sucedia-se inexorável como se constasse num artigo da constituição. A RCE ia para os precipícios da matança africana sob o esgar da máscara da morte da Igreja que os abençoava, pois, depois da matança vem a cruz levantada ao céu sob o ajoelhar dos crentes da religião da escravidão. Onde há excesso de religião há destruição da nação. É inconcebível que as instituições da Igreja funcionem como um partido político de um país. Sim, o Vaticano é um país com um único partido, a Igreja.
A RCE tornou-se no grande escoadouro da miséria internacional. Exércitos de moribundos económicos chegavam, como o rastejante exército português de miseráveis que declaravam que vinham ajudar os seus homólogos da RCE. Dono de uma extraordinária visão empresarial, Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro português, ordenou o envio de milhares de portugueses para o Vietname da RCE. Os pobres coitados não sabiam que a qualquer momento a morte os aguardava na insegurança do dia-a-dia, pois onde há muita miséria, há muita fome, e quando estas duas coisas se combinam as nossas vidas não têm nenhum valor.
Tudo se desmoronava, nada restava. Era arrepiante ver os escombros do terramoto político e social da extinta sociedade onde os valores se perderam, se abandonaram, ao esterco da vida se entregaram. Esta gente adoptou a lei da palhaçada do: já vou aí, depois falamos, daqui a pouco falamos, ou, amanhã passo aí sem falta, significando que não conseguiram sair da escravidão colonial portuguesa e muito menos serão capazes de saírem da escravidão chinesa ou de qualquer outra. Como ninguém sabe o que é um compromisso, e claro, não está em condições de o honrar, então não adianta pensar no projecto Nação, porque está definitivamente encalhado. A RCE não é diferente dos outros países africanos, é em tudo semelhante.
E os agentes secretos do Rei do Petróleo lavam as mentes dos que saíram de uma escravatura e entram noutra: «Antes fomos colonizados pelos portugueses, agora pelos chineses. Vamos ver se a colonização chinesa é melhor que a portuguesa.»
E que não devemos depender do dólar. Pois não, se não os há, claro que deles não se dependerá. E aqueles economistas pobres coitados que defendiam que graças á divina clarividência do eterno grande líder – apesar de os países de todo o mundo serem afectados pela crise – na RCE nunca, jamais, porque era um Estado governado por um deus e um povo muito especial. Agora já declaram solenemente que a crise afinal está aqui, e que daqui não quer sair. E que se não fossem os chineses, ai que seria de nós!
Da RCE nada há a fazer, a não ser vê-la desaparecer.
Os vizinhos dizem para termos cuidado com o que falamos, porque andam muitos nas ruas a escutar o que dizemos para depois entrarmos na lista dos alvos a abater.
As demolições dos casebres continuam para criar estaleiros para o milhão de chineses que aí vêm. Mas, a trapalhada é os saques, pois carregam bens dos desalojados, como geradores, arcas de congelação e outros bens.
Entretanto o Banco Mundial alertava que a RCE não tinha dinheiro para pagar as suas dívidas.
Os colonos chineses chegavam e um exército de escravos os aguardavam, saudavam, pois, com uma população e oposição que são como cães que ladram, logo não mordem. Alguma gente nascida na colonização portuguesa resignada, com a maior naturalidade da fatalidade estampada nos rostos dizia que já estavam habituadas a isso, e que se os chineses reinauguravam a colonização, preparavam os corpos para os novos/velhos chicotes, pois a vida de africano é para escravizar, neocolonizar. Mas a juventude não ia nessa conversa, pois não nasceu sob as ordens coloniais, e como tal o poder do Rei do Petróleo não lhes resistiria.
Em todo o lado a revolta fervilhava e uma insurreição geral se preparava, escutava. Quando a fome aperta, nos estômagos acende-se o rastilho da revolta, pois a fome não se combate com balas e exércitos presidenciais ou nacionais. Quando isto acontece, e na RCE acontecia, já era lugar-comum, aos poucos ouvia-se a música do número dos descontentes que davam os primeiros passos de gigantes para acabar com o sofrimento, com a humilhação, com a fome, com a escravidão. Para fechar para sempre os portões dos condomínios dos que têm tudo e dos que nada têm.
Governar sob a desgraça do petróleo é a população matar.
A população vivia como que preparada para o outro matadouro asiático que à força despontava. Nunca com tanta facilidade se conseguiu abocanhar, espoliar a terra dos autóctones entregue de bandeja a invasores chineses que decerto empregarão as mesmas tácticas que os franceses usaram na Argélia colonial.
Que Estado, que país, que nação é esta que entrega as terras, as instituições e as suas populações a gente que nunca esteve na RCE? Não é normal, é a mais terrível monstruosidade praticada por quem não tem escrúpulos pelas leis do Direito, pela sua advocacia e pela morte definitiva da Constituição. E viver com estas coisas é salvar-se da outra constituição instituída, a dos demónios infernais.
As leis nascem e logo morrem, porque aqueles que as criam não as cumprem. Então, governar é o tudo adiar, às hienas e abutres nos entregar, devorar.
A noite chega, e com ela o silêncio do nada mais há em que acreditar e em quem confiar. Há tantos e tantos anos que a parca oposição se deixa manietar, e sem chefes para nos comandar, o Rei do Petróleo está à-vontade para a RCE hipotecar.
Onde estão os homens honestos e as mulheres libertadoras desta terra? Jazem algures por aí na terra que muito brevemente os chineses as suas ossadas desenterrarão, e logo como heróis se levantarão e esta terra LIBERTARÃO!
Os analfabetos dominam, dominam-nos!

Imagem: autor desconhecido


sábado, 18 de julho de 2015

O Hino de São Paulo SP (01)




Na sua geografia
Ela faz a sua poesia

Ela passeava pela calçada
E no andar se enlevava
E no olhar enfeitiçava
Na sua câmara fotografava

Possuída de vida caminhava
Liberta ninguém a amarrava
Sentia que o destino a amava
E sabia que um hino louvava

No florístico atlântico guardava
A geografia que muito estudava
Muito, muito para além olhava
E segredo nas conchas atirava

No sol da areia pulava
E solenemente atraída ficava
A água vinha e ia lhe deixava
Uma conspiração preparava

Sempre alerta não se cansava
Para além do infinito viajava
Na selva humana se sentava
O drama do paraíso cativava

Uma forte onda brincava
No seu corpo saltitava
A espuma muda se aproximava
O sol do fim do dia a esperava
A serenava

A água cor de cinza do sol amarelo
Entristecia, não, bendizia o belo
A vegetação da margem se escondia
Para a maravilha de um novo dia

Como uma câmara o sol fotografava
As ondas que se espelhavam
No céu se amontoavam
A natureza divina pintavam

Como criar um sonho e nele viver
Numa palmeira uma onda bater
E na sua casa do mar se recolher
E deixar a areia a escorrer

No amanhecer de um novo dia
Esquecendo a anterior nostalgia
Uma profunda esperança a invadia
Oh! Como é difícil sentir alegria

Na sua geografia
Ela faz a sua poesia



sexta-feira, 17 de julho de 2015

O REI DO PETRÓLEO (03)


RCE - República dos Comités de Especialidade, algures no Golfo da Guiné.

É impossível uma nação sobreviver no secretismo absoluto das negociatas dos seus governantes.

No palácio, o Rei do Petróleo agigantou uma festança para comemorar mais uma das suas palavras de ordem que dava pelo nome de: ENTREGUEMOS AS NOSSAS TERRAS AOS CHINESES. Antes do imponente acontecimento os serviços protocolares esmeraram-se no envio de aeronaves para transportação dos governadores de todas as províncias e demais generalato do elenco governativo da RCE. Notável, como sempre há quarenta anos, era o comité de especialidade dos bajuladores, do comité de especialidade da Igreja e das igrejas, onde se impunha a sumptuosidade de um cardeal, bispos, padres e demais acólitos religiosos. Dinheiro não havia porque o preço do petróleo não consentia, a população sofria mas o Rei do Petróleo mais se enriquecia. Na RCE o seu soberano imperava como ser absoluto exactamente como os senhores feudais, dos quais seguia escrupulosamente os seus ditames. O fausto e opíparo rega-bofe tinha como abertura um duo de trovadores medievais recrutados na Europa para abrilhantar, fazer jus às laudas etiquetas desses tempos antigos mas na RCE extremamente actuais. O duo compunha-se de um hábil mestre de alaúde e de uma bela musa do canto, que assim inauguraram mais um universo de gastos supérfluos.  E a melodiosa voz feminina abriu o concerto medieval chinês:

O Rei do Petróleo é o único que pensa
Dá as terras aos chineses ficam sua pertença
Como se a RCE fosse deles desde a nascença
E o povo resta-lhe a escravidão como recompensa

Claro que os ouvintes levaram a letra da música para os tempos da Idade Média, não a conseguindo associar ao tempo local. O Rei do Petróleo não quis discursar alegando que estava muito ocupado com os assuntos do Estado, delegando competências ao cardeal seu grande amigo pessoal e das colheitas dos dízimos do petróleo. E o cardeal não se fez rogado e orou a Deus para que lhe concedesse sabedoria, porque sem Ele nesta terra e neste mundo nada é possível, então já possuído por Deus pregou para os beneficiários do petróleo e demais riquezas do país:
- Ao nosso omnipotente Deus que concedeu a graça e o poder divino ao nosso querido irmão crismado Rei do Petróleo porque sem ele nunca seriámos independentes. Meus irmãos, devo confessar que não é possível alguém governar em seu lugar porque o espírito de Deus está com ele na vida e na morte. Isto significa que o nosso bem-amado Rei do Petróleo governará para sempre e não há poder que se lhe oponha, pois o poder de Deus é invencível. Mesmo depois da sua morte o Rei do Petróleo nos governará do além-túmulo em espírito para todo o sempre, portanto não devemos perder tempo com eleições ou qualquer inutilidade similar porque Deus já designou vencedor. Meus irmãos, só Deus tem o poder de ressuscitar mortos e impor o seu governo celestial na RCE. Oremos irmãos para que o petróleo e os seus lucros continuem a jorrar sob a sábia direcção e gestão do único sábio que Deus nos presenteou. Finalmente uma palavra sobre a negociata chinesa: Não estranhemos irmãos a entrega de parte do território da RCE aos chineses. O importante não é o povo que será mais uma vez escorraçado, das suas terras espoliado, para dar lugar aos chineses em troca dos biliões de dólares que eles concedem a esta república em nome do reforço dos laços de amizade e cooperação que unem os dois povos, a República Popular da China e a nossa também ainda república popular. Meu Rei do Petróleo, tu és o maior meu!
Do comité de especialidade dos bajuladores surge uma personalidade bem sinistra. Demonstra-a o seu rosto sinistro, olhar de pelotão de fuzilamento, roupa de verdugo de guilhotina, de conjuntura rodeada por uma auréola de intolerância política, arrogância desmedida, gestos agressivos do estilo, eu faço o que quiser e bem entender, em suma: o demónio em pessoa.
- Jamais na história da humanidade se conheceu tão insigne humanista, tão acérrimo defensor do povo e dos direitos humanos. Nesta república tudo vai bem e a população sente-se imensamente feliz por ter um guardião que vela por ela, e dá às crianças tudo o que elas merecem. Nas centralidades e no partir das casas está o sucesso do nosso futuro. As nossas crianças, os continuadores da nossa gloriosa gesta, nada lhes falta, incluindo o mais importante: o extremoso amor do nosso querido e atraente líder, o camarada Rei do Petróleo. Sem ele, o que seria de nós? Não seriamos nada, apenas uns zés-ninguéns. Confiemos e brindemos ao nosso herói, ao nosso pai, ao nosso arquitecto da paz, ao nosso mais que tudo. Camaradas! Viva o nosso camarada presidente! Viva a nossa riqueza. Abaixo as manifestações! Tortura e morte aos arruaceiros e a quem ouse atentar contra a ordem estabelecida. Viva as chacinas! Viva o empréstimo chinês e a hipoteca das nossas terras! Viva os comités de especialidade!
E ouviu-se um estrondoso bater de palmas como uma ovação da entrada triunfal em Roma de um vencedor dos seus inimigos.
Começava também a primeira reunião oficial do GEC-Gabinete Especial das Chacinas, onde se deliberou, se decretou que a próxima chacina seria nos partidos da oposição. Como nota final recomendou-se que tudo o que fosse religião seria enquadrado no comité de especialidade da religião. E quem resistisse, não concordasse, se manifestasse, seria entregue, purificado pelo fogo da chacina.
Há homens que engrandecem países, há homens que os vendem ao desbarato. A corrupção não andava, por todo o lado galopava como uma manada de cavalos tresloucada. E na rua ouvia-se mais um desafortunado como num pregão: «Mais um saque de um português/angolano. Dupla nacionalidade, duplo saque. Augusto Helder Paiva de Azevedo é o sócio-gerente da empresa Magnum-Protecção e Assistência, Lda. Funciona em Luanda nas instalações do CFL- Caminhos de Ferro de Luanda, nas suas traseiras junto à Unicargas. Nas contas do balanço de 2014 defraudou a conta de Edifícios Administrativos adulterando-a para Equipamento Industrial no valor de Kwanzas, 593.515.896.50 para vigarizar a FESA-Fundação Eduardo dos Santos, que está em negociações para aquisição do espaço. Os valores dos Edifícios Administrativos provêm de facturação falsa de empresas criadas para o efeito. Ora, a Magnum nunca teve nenhuma instalação industrial, basta ver a sua denominação comercial. Uma empresa de segurança tem instalações industriais de quê? Foram também falsificados documentos para pagamento das rendas do ano de 2014 (e anos anteriores) do CFL no valor de 4.500.00 dólares mensais, e os seus valores creditados na sua conta pessoal. O terreno é do CFL, e a sua transacção é mais uma negociata ilegal. Quer dizer, o português/angolano faz a negociata e depois foge de Angola.» E o nosso pregoeiro termina: «Roubar mais e distribuir pior!» Eis o paraíso perfeito para a gatunagem empresarial, de bandidos da pior espécie que sob o disfarce da dupla nacionalidade exercem a sua actividade criminosa, obtendo elevados lucros e gozando da santa total impunidade.
Nas ruas houve-se o clamor do povo, que as igrejas estão cheias, que o povo diz que vai vir aí uma guerra pior que a de 1975. Enquanto os jovens do movimento revolucionário gritam que, sem manifestações não há liberdade.
Pretender acabar com quem vende nas ruas para sobreviver, é como querer acabar com as moscas, porque ao enxotá-las elas vão para outro lado. É o desejo mórbido de esconder a miséria para mostrar a pobreza de espírito dos ricos e das suas riquezas ilegais. Na RCE só há lucros para os ricos, os pobres são para exterminar.
Mais mil casas foram destruídas na zona da Funda, arredores de Luanda. Partir casas continua como a principal ocupação da desastrosa governação. Os desgraçados foram viver ao relento, entregues nos braços da morte, pois com as baixas temperaturas nocturnas, o frio mata-os. Mais uma cidadã agora na condição de expatriada disse na Rádio Despertar que eram três horas da manhã quando “forças de terra, mar e ar”, invadiram a área, para que os seus quintalões sejam entregues aos brancos, (chineses).
Os chineses já estão a cobrar os juros do empréstimo a toda a velocidade. Os chineses estão a ser corridos da África. Acabam de ser corridos de Moçambique, resta-lhes o último reduto, a RCE, e mais um violento conflito à moda colonial surge.


Imagem: autor desconhecido

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Calomboloca, a nossa prisão de Robben Island



Minhas irmãs e irmãos
Aleluia, amém!

Nenhum poder na terra é capaz
de deter um povo oprimido, determinado
a conquistar a sua liberdade.
(Nelson Mandela)

No tempo do Salazar
Não podíamos ler
Livros sobre o marxismo
Porque isso era comunismo
E logo condenados ao ostracismo
Estavam proibidas as reuniões
Nem falar de manifestações
E das políticas associações
E abarrotavam-se as prisões
De políticos presos
Como infantes indefesos

Não havia actividade política
Excepto a do partido no poder
Tudo o mais era para prender
Livros proibidos de ler
Acusados de tomarem o poder

E acabou num golpe de estado
Em Abril
A ditadura acabou
Nada sobrou

Aqui é muita coragem para sobreviver
Pois se nem amigos conseguimos ter
No próximo cacimbo viver mais assim
Que será dos quinze, ai de mim!

E se o meu deus me ajudar
Desejo nunca mais voltar
Enquanto o santo governar
Em Calomboloca me aprisionar

E na miséria que temos para contar
Sem que ninguém nos possa ajudar
E enquanto vamos rezando
Os chineses nos vão colonizando

Já o toque de finados da democracia
Nas celas dos quinze se previa
Na clausura da noite e do dia
Mais presos políticos se anuncia

Em pleno funciona a lei da mordaça
Os seus mentores felicitam a desgraça
De porta em porta se acerca o terror
Sem piedade nos persegue o Senhor!





sábado, 4 de julho de 2015

O REI DO PETRÓLEO (02)




RCE - República dos Comités de Especialidade, algures no Golfo da Guiné.

De um intelectual africano da RDC-República Democrática do Congo, durante um debate em Luanda. “O Japão nunca foi colonizado, depois dos primeiros contactos com os americanos, os japoneses admiravam e queriam saber porque é que a Europa era muito forte. Então decidiram traduzir os livros de filosofia, antropologia e outros e estudá-los, e finalmente descobriram porque é que a Europa era muito forte: porque os seus pensamentos duravam muito tempo… os dirigentes africanos assassinam os seus intelectuais porque têm receio que eles tomem o poder, quando na verdade os intelectuais são críticos e não aspiram ao poder.”
A ONU diz que a África perde anualmente sessenta biliões de dólares devido à corrupção.
Isaías Samakuva, presidente da Unita, disse numa conferência de imprensa em Benguela, que ao encontrar-se com um grupo de jovens alunos da oitava classe, perguntou-lhes quantos são cinco vezes quatro. Os alunos recuaram e alguns responderam que são nove.
José Patrocinio, dirigente da Omunga, uma associação cívica de Benguela, escapou à última da hora de ser assassinado por atropelamento por um camião conduzido por um chinês, (!) porque à última da hora ele desistiu de esmagar a motorizada com que normalmente José Patrocinio se desloca.

O Rei do Petróleo está no seu palácio – ele raramente dele sai, vive lá como um eremita palaciano – a analisar os fracos rendimentos do petróleo, porque a maré petrolífera estava sempre em alta, a encher, os preços baixaram e a maré está a vazar e não se sabe quando vai terminar. Naturalmente assim permanecerá porque o petróleo, como tudo, também acaba. Só os otários que nele tudo apostam e dele dependem porque não sabem fazer mais nada, preferindo viver à sombra e água fresca. E depois surge o desastre já devidamente anunciado por quem entende da matéria. O Rei do Petróleo, ou o Rei da baixa do Petróleo?, tinha uma maneira muito atípica de governar. Enviava os colaboradores que faziam parte da sua equipa palaciana por todo o país, como modernos arautos que lhes faziam relatórios, - ele não governava por decretos, ele era o governo, um super-homem que governava por relatórios e ordens superiores onde neles se lia que na república tudo ia, tudo estava muito bem, tudo funcionava normalmente como num paraíso, e que as populações estavam contentíssimas com a governação. E o Rei do Petróleo sentia-se felicíssimo pelas suas altas qualidades de líder, porque no mundo – apesar de ser considerado pela revista Forbes, como o segundo pior governante africano – não existia ninguém que o ultrapassasse em intelecto governativo. Até dava lições de democracia a países africanos, que quando algum presidente violasse a sua constituição para permanecer no poder, ele logo ensinava que não, não senhor, não deve ser assim. Que o poder tem que ser conquistado por via de eleições livres e justas porque sem isso não há democracia. E que o presidente ao defraudar as regras eleitorais para usurpar o poder defendia democraticamente que a oposição deve negociar com ele.
E como a maré vazava fortemente, quase que se via o fundo do mar do petróleo, não permitindo nele nadar, o Rei do Petróleo fazia cortes e mais cortes fora do OGP – Orçamento Geral sem Petróleo. O último foi na empresa do lixo, a Elisal, pertencente à sua filha, a princesa Bela do Petróleo, assim cognominada devido à beleza do dinheiro do petróleo, pois quem fica sentado à espera dos seus lucros, é uma beleza, não é?! Os trabalhadores dessa empresa de limpeza repentinamente sem qualquer comunicação do comité de especialidade médico ficaram sem assistência médica. Amigo leitor, é fácil verificar que quem anda, melhor, nada no lixo sem assistência médica é como se fosse um assassinato dos desgraçados que nem dinheiro de um barril de petróleo têm. Claro que eles fizeram muito bem em decretar greve.
A crise continuava, o seu cerco apertava, mas isso não afectava em nada a Bela do Petróleo, que comprou uma empresa portuguesa apenas por duzentos milhões de dólares.
Tudo estava cansado, mas o Rei do Petróleo acreditava ser amado. No seu palácio fechado, fortemente guardado e ele maniacamente escoltado, apercebeu-se de alguns zunzuns sobre uma insurreição popular que marchava, se revoltava, e por precaução ordenou reforçar a sua guarda com o dobro de homens, tal e qual como fazem todos os déspotas antes do seu trágico final. Sim, governar pela força das armas é o anunciar projectos da má velha vida, onde qualquer opinião contrária é de imediato castrada.
Não muito longe do palácio ouviu-se um tiro. Era de um assalto seguido do roubo de uma viatura de uma jovem que estupefacta, pois estava muito próxima de uma esquadra móvel da polícia, dirigiu-se-lhe e perguntou se não viram o que se passou, ao que um polícia respondeu que não viu nada. A jovem já aterrorizada ainda conseguiu perguntar se não ouviram o tiro, ao que o mesmo polícia respondeu que também não ouviu nada de anormal. E a jovem já a tremer terminou dizendo que como é possível se os bandidos roubaram o meu carro e deram um tiro mesmo aqui ao pé de vocês? Mas o polícia insistiu que ele e os seus colegas não viram nem ouviam nada. Naturalmente que a polícia segue os ensinamentos do Rei do Petróleo que na República dos Comités de Especialidade tudo está bem.
No exterior do palácio ouvia-se numa rádio que uma parturiente numa maternidade já prestes a dar à luz, era torturada sem dó nem piedade.
O Rei do Petróleo firmou relatório em jeito de decreto – ele afogava-se em relatórios – que criava duas classes: uma casta dos detentores do petróleo e demais riquezas e outra classe dos abandonados que a nada tinham direito. Na verdade tinham apenas um direito: o de morrerem à fome.
O Rei do Petróleo era acérrimo defensor da política do caos, porque onde este sistema existe matar é muito fácil, passa despercebido e como os meios de informação eram seus, quase de propriedade pessoal, na verdade ele era dono de tudo, com o caos implantado fácil era dominar a opinião pública. O cúmulo da corrupção elevou-se a tal nível que a Igreja e as igrejas organizavam manifestações em sua honra, enviando para o lixo os evangelhos porque mostravam fotos suas nas manifestações e nos altares da Igreja e das igrejas. Os pastores corrompidos abençoavam o Rei do Petróleo, oravam e obrigavam os crentes também a fazê-lo dando-lhes a conhecer a boa-nova que o Rei do Petróleo foi enviado por Deus para salvar e manter Angola em paz, livre de manifestantes e das suas manifestações. Inclusive ensinando-lhes que Deus estava contra as manifestações e ordenava prender e torturar quem ousasse se manifestar. E que sempre que alguém este decreto divino contestasse, era-lhes dito que em Angola existem duas constituições: uma terrena para o povo e outra divina redigida por Deus para utilização exclusiva do divinizado Rei do Petróleo. Por aqui facilmente se vê que era impossível uma transição pacífica para a democracia, porque a ditadura do poder de Deus jamais o consente.
O Rei do Petróleo tinha dois punhais cravados no seu corpo. Um era o célebre activista Manuel Nito Alves, o outro era o celebérrimo denunciador da corrupção, o cavaleiro sem medo, Rafael Marques de Morais. Bastava ouvir os seus nomes para que o Rei do Petróleo ficasse com dores no estômago, na cabeça e medonhos desarranjos intestinais. Ainda mais quando Manuel Nito Alves lhe chamava de ditador nojento e de lhe jurar que faria com que ele e a sua equipa repressiva e torturadora caíssem do poder através de uma insurreição da população.
E o Rei do Petróleo ria-se imenso das lamúrias da oposição porque ela não tinha poder de manifestação.

Perante estes notáveis factos e invocando o poder da crise de que não há dinheiro, o Rei do Petróleo decidiu comprar com o dinheiro da fome do povo, um bruto jacto particular que custou apenas sessenta e dois milhões e quinhentos mil dólares, com autonomia ilimitada, tipo reactores movidos a energia nuclear, para o que desse e viesse, isto é: preparar a sua fuga e dos seus mais chegados, pois as coisas iam de mal a pior e homem prevenido vale por dois, ou mais. Então quando a hora do assalto ao palácio iniciar é só correr para o avião e bazar a grande velocidade para um país que o acolherá de braços abertos, provavelmente os homólogos da Coreia do Norte.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

OS SEQUESTRADOS DE CALOMBOLOCA



A
Sedrick de Carvalho

E vivemos sob o chumbo da mortal
Crueldade
Nas grades das prisões
Da maldade
No democrático terror
Da liberdade
O Sedrick de Carvalho
Ainda um jovem orvalho
Um pobre diabo inocente
No tribunal revolucionário
Se faz presente
Doente
Agrilhoado na corrente
Do poder demente
A sua esposa chora
Pela liberdade que demora
A sua família não sabe que fazer
Neste militarizado país a arder
Que é que ele fez de mal?
Para lhe tratarem pior que a um animal
Ele não faz mal a ninguém
E isso do golpe de estado
Lhes convém
São os biliões de dólares que mandam
Na manada
tresmalhada
chinesada

O Sedrick a ninguém faz mal
Até porque quem está desarmado
Nunca fará um golpe de estado
Só o faz quem pela Igreja
Continua mandatado

O processo dos quinze está em curso
Sem direito a recurso
Quem tiver ideias diferentes
Lhes serão partidos os dentes

Maldita oposição
Que vive de ocasião
Faz refrão
Com o poder do cão
Do ancião

Ah! Sedrick, aquele abraço
A quem um acto não pode reportar
Prenderam-nos o acto de pensar
Porque isso é golpe de estado planear