sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Cavaleiro Mwangolé e Lady Marli na Demanda do Santo Graal (28)



Os eternos e ternos momentos dos silêncios do amor.
Sucederam num idílio, num oásis, as férias naquele Nordeste daquela praia, sempre atlântica. Os teus pés levitavam, acariciavam, brincavam na superficial areia. Como algo novo, um prazer desconhecido. O agitar da água soou-te nos ouvidos: «Vem! Vem!» e deixavas-te acariciar pela corrente coerente, tépida, ainda marítima. Entregavas como oferenda, o teu universo corpóreo ao deus do Nordeste espraiado. Navego muito no meu barco sempre na esperança de te encontrar, a navegar no Sul do teu Atlântico. Ainda estamos tão distantes, mas muito próximos dos teus silêncios contagiantes, inebriantes, e contudo tão perenes, inspiradores. Não, não… concordei com a minha mente, dispõe dela, está-te totalmente entregue. E se me falares de amor… já não me lembro o que isso significa. Apenas uma ténue recordação de outras vidas, de outros tempos, de outras eras passadas. Já houve um tempo em que as pessoas acreditavam imaculadamente no amor. Mas hoje em dia reservou-se como uma mercadoria. Na minha juventude acreditava fortemente nele, carregava-o, levava-o muito a sério. Mas com a idade descobri, aprendi, que ele está muito para além de nós… é metafísico, não se pode brincar de ânimo leve com ele. Eu sei que ele está lá no nosso Nordeste, que é onde estou neste exacto momento… à tua espera.


Nunca tal escravidão aconteceu. Até o comércio de electrodomésticos entregaram aos estrangeiros. A mão-de-obra dos senhores da construção civil está proibida, é só para chineses. Jingola é deles, num governo só para estrangeiros. Jingola é um imenso jardim zoológico, onde a espécie ameaçada de extinção, o homo angolensis, ainda vive em cativeiro. Este jardim zoológico é muito visitado, estudado por milhares de estrangeiros que fazem experiências de campo do que resta da espécie angolensis.
Subsistem ainda algumas coisas que arrastam o horror do ser humano e que há muito já deveriam morar no cemitério das coisas extintas. Empresário, um dos inventos mais estúpidos das mentes mais perversas. E tem disciplina científica, e nelas o ponto fundamental é o de obrigatoriamente eles espoliarem trabalhadores para obterem lucro individual sob a justificação de que ele investiu o seu dinheiro. Mas não como o obteve, como o ganhou. Será que provém do narcotráfico?
Quer dizer, não é um país, é uma democracia empresarial. É isto que querem fazer da África, países-presidentes-empresários?
A fábrica: na verdade as fábricas actuais são uma cópia de modernos campos de concentração. O sistema de trabalho separa os pais dos filhos fabricando a delinquência juvenil.

Os governantes portugueses chegam, apresentam e ditam soluções para os problemas de Jingola. Então porque é que em Portugal reina a instabilidade política, a eterna vergonha bancária e a crescente miséria da população que já ultrapassa os cinquenta por cento? Como devemos acreditar nestes andarilhos do progresso? Creio que a intenção é a descarada exportação dos problemas para a el-dourada Jingola, à beira-mar do petróleo implantada, encantada, enfeitiçada.

Fico convicto de que a CPLP é uma espécie de maratona, porque os altos abnegados magistrados nela eleitos numa outra espécie de eleições, aproveitam-na para publicitarem os seus piqueniques. De expansão da língua portuguesa não, mas da publicidade dos vinhos regionais, sim. Que apoios a CPLP dá aos seus escritores no início de carreira?! Desejo um salvo-conduto para os comes e bebes piqueniqueiros.

O Snr Aníbal, seguindo o rasto da eloquência dos seus compadres visitantes, executa magistralmente discursos para ocidentais, para jingolanos é que não são, não. Esse teatro de palavras não nos diz absolutamente nada. Quase há cinquenta anos que os ouvimos, estamos fartos, exaustos.

E quando chega alguma alta individualidade, a Internet desaba de tanta fissura. Significa que vamos passar mal com a Net durante uma semana. Ainda não aprendemos a sairmos dos métodos leninistas.

O abastecimento de água continua, está, pode-se dizer miserável. A cada dia que passa o caudal diminui, até se esgotar por completo. Isto acontece devido à anarquia generalizada na construção de prédios, condomínios, torres e outras fachadas betonadas.

Para quê sempre na política do fingir? Os políticos são como os jacarés quando montam emboscadas às suas vítimas. Movem-se traiçoeiros e arrastam-nas para os fundos aquáticos e devoram-nas sem dó nem piedade.
E os portugueses que investem, ou venham a investir em Jigola, que fique bem claro, os jingolanos não beneficiam nada. É sempre tudo canalizado para a mesma FAMÍLIA, dona em exclusivo, patrocinadora de Jingola.
Depois a mão-de-obra é para estrangeiros, repare-se nos chineses. Este manancial é um jogo financeiro onde se pode dizer que: mais investimentos nos tumultos precisam-se.

Entretanto, três viaturas com polícias e fiscais a bordo perseguem as zungueiras sem dó nem piedade, para esconderem a miséria de tão ilustre personagem que nos visita. Como se todo o mundo não soubesse que Jingola é uma gigantesca fábrica de miséria.

E da maneira que o governo da cidade de Jingola procede, no deixa-correr, no não te rales, construções anárquicas legalizadas por todos os cantos numa cidade que já deixou de o ser, onde quase não sobra um centímetro de espaço. Será este ano que as chuvas arrastarão tudo e todos, pois as águas não têm por onde saírem. Este governo é muito eficaz na destruição total e completa da cidade de Jingola e do seu reino.
E o chinês garante na espoliada dos casebres e agora vendedora de cigarros: «Nós, já não vamos sair de Angola.»

«Alves, Viana | 19/07/10 18:19
Pois! O feitiço virou-se contra o feitiçeiro!! Daí o "pede" na noticia acima!!Gostei de vêr o "nosso presidente" a "aconselhar" o governo Angolano (p.ex a desenvolver o interior de Angola!) quando, cá "em casa", ...é o que se vê!! !Isto está tão mal que qualquer dia até Angola toma conta deste "projecto de país"!!"Cenas" tristes e desesperadas!!»
Caim, LISBOA | 19/07/10 16:53
Concidadãos, CALMA.
- Primeiro que tudo o Cavaco foi a Angola (regime presidencialista), como patamar para a recandidatura. Inevitável! Não pensem que o homem iria terminar a carreira, sainda pela porta pequena (nem um nem outro.... o José).
- E último: estão muitas centenas de milhares de portugueses em Angola, alguns empresários (muitos falidos cá!); mas a maioria são meros emigrantes, à procura de uma oportunidade que já não encontram na Europa! O problema dos vistos é real. O Cavaco está mais a ir no rasto, que a comandar a nau!.. Mas é esse o rumo: diversificação de mercados, a Europa já não é garantia de nada.»
In Diário Económico

«Em tempos contou-se uma anedota que rezava o seguinte: "um organismo público lançou um concurso público e dele responderam três empresas distintas, sendo uma chinesa, uma portuguesa e outra angolana. Convocados a apresentar tecnicamente e defender os custos propostos o representante português começou por explicar que a obra proposta teria uma vida útil de 50 anos, material e acabamentos de primeira classe e um custo de 6 milhões de dólares. O contratante achou o valor bastante elevado e mandou embora o tuga.
Chamado o chinês, explicou, por sua vez, que faria uma obra de qualidade média (omissas as qualidades dos materiais e vida útil) com um custo de 3 milhões de dólares. O contratante olha desconfiado pelo preço do avançado pelo asiático e manda-o embora, prometendo contactá-lo no fim das avaliações.
O terceiro homem era angolano e este propõe um trabalho de alto padrão com acabamentos nunca vistos e duração infinita... blá, blá, blá (como sempre), ao custo de 9 milhões de dólares americanos. O contratante estupefacto pergunta por que razão o português pedira 6 milhões, o chinês, 3 milhões e ele o triplo:
_ Dr., serão três milhões para o chefe, três milhões de lucro para mim e três milhões para o chinês que será subcontratado como empreiteiro da obra".»
In mesumajikuka.blogspot.com

Manuel alegre moteja, reafirma-se como não sendo batráquio, prefere respirar ar puro:
«Manuel Alegre começou, sábado à noite em Setúbal, a pré-campanha presidencial com ataques dirigidos a Cavaco Silva. O candidato entente que um Presidente da República não pode afirmar que “a situação do país está insustentável”, tal como fez Cavaco Silva, porque isso agrava a situação.
"Ao Presidente da República cabe, não palavras de depressão que desmobilizem os portugueses, mas uma palavra de confiança", afirmou Alegre que considerou que "um Presidente da República não pode nunca dizer que Portugal vive uma situação insustentável, porque isso cria dificuldades ao próprio país, porque isso agrava o que ele próprio se refere".
"E se a situação é insustentável, o que é que ele fez para impedir que a situação fosse insustentável", questionou o candidato a Belém, recordando que o Chefe de Estado "não é eleito para avisar nem prevenir e que tem poderes consagrados na Constituição".
Segundo Manuel Alegre, "sabemos os problemas do endividamento, mas também não esquecemos que foi durante o consulado do então primeiro-ministro Cavaco Silva que se investiu muito mais no betão do que nas pessoas e que o endividamento cresceu, nessa altura, cerca de dez por cento".
No jantar de pré campanha para as eleições presidenciais que reuniu cerca de 300 apoiantes em Setúbal, Manuel Alegre lançou várias críticas a Cavaco Silva, e considerou que o país precisa de um Presidente da República com outra visão do país e do que devem ser os poderes presidenciais.
"Eu não me candidato para governar, mas também não me candidato para estar calado, ou para cultivar silêncios prudentes, ou não falar quando é preciso. O país quer ouvir do Presidente da República não discursos sobre hipotéticas crises de escuta, nem crises à volta do Estatuto Político Administrativo dos Açores. E é preciso ter uma visão do país que não confunda Portugal apenas com manual de finanças", frisou.
Para o candidato presidencial apoiado pelo PS e pelo BE, "é numa situação de crise, que mais do que nunca, o investimento público é necessário para criar políticas de emprego, para combater o desemprego que é o principal flagelo do nosso país".
"Sabemos que a crise está a ser aproveitada para impor a toda a Europa e aos países mais frágeis um plano de austeridade que vai trazer mais recessão, mais desemprego", declarou.
No entanto, Manuel Alegre considera que existem dois caminhos: "a austeridade, a recessão, o desemprego, a desregulamentação, diminuição dos serviços públicos sociais e liberalização dos despedimentos, ou, em alternativa, uma reforma profunda, uma política de coesão económica, de coordenação económica, de coesão social, de criação de emprego e, sobretudo, de mais solidariedade".
"Se é mais Europa neoliberal numa Europa dominada pelo neoliberalismo, o Estado português tem uma palavra a dizer. Sabemos que somos um país pequeno mas temos que fazer ouvir a nossa voz", considerou
Para Manuel Alegre, "não é possível que uma Europa que foi sonhada para trazer mais democracia, mais coesão, mais bem-estar para os povos europeus, seja agora aproveitada para fazer aquilo que, ao longo de dezenas de anos, a direita não conseguiu fazer: destruir o Estado social, destruir os serviços sociais, fazer diminuir os rendimentos do trabalhos, fazer diminuir os custos de produção à custa da diminuição dos rendimentos do trabalho". In http://tv2.rtp.ptImagem:

Ainda me recordo de um dos conceituados ensinamentos de um militante do partido das ruas: «O nosso governo é muito demolidor, porque governa nas demolições.»

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Os jasmins da Lwena (15) A nossa diferença reside em que não podemos ter ideias diferentes.



E depois do consumatum est, quem pretender entrar em Luanda vindo dos Zangados, obrigatoriamente terá que mostrar o passe, o salvo-conduto, senão não entra. Ou pensam que estes tempos Tarrafais diferem dos anteriores?
Como vai o nosso vulcão dos casebres?! Está óptimo, bem alimentado, alienado, já se notam alguns médios tremores de terra, preludia que vai explodir.
E Angola retorna ao mergulho da escuridão dos tempos. A população, sem vontade própria, cai na escravidão sem vida, onde só existe morte. A única identidade que lhe sobra é a selvajaria.
E no final os participantes aprovaram uma série de documentos. E os resultados ultrapassaram todas as expectativas.
E o nosso PIB cresce e nós encolhemos.
Não impressiona muito verificar que a actual sem saída de Angola, em quarenta anos de delapidação por um único partido, seja outra colonização. Angola já não tem nenhuma hipótese, a não ser outra vez para colonizar?


- O cortejo feudal do caudal automóvel outonal, luxuário do descrédito actual, envergonha o solo habitual da pobreza mortal. As vestais auguram aos príncipes encantados que o rei dos canhões anunciará eleições. Serão flageladas nos anos medievos de 1132, 1133, 1134. Desflorestadas em 1135, 1136, 1137. Desacostumadas em 2009, 2010, 2011, 2012. Aguardadas pela Renascença, abandonadas pelo Barroco. A nossa diferença reside em que não podemos ter ideias diferentes. Quem não está preparado para governar abusa do censurar. Urge um bom realizador que grite: CÂMARA! ACÇÃO!
A geratriz das ideias expõe o fervor ideológico. Perde-se o senso moral, abandona-se o bom samaritano. O perigo da política sectária acirra e confronta os espíritos, anima a imersão de conflitos civis. Quando um dos lados está contra tudo e todos, o poder salta-lhe à vista. Os anarquistas omnipresentes lançam poeira nos olhos incautos.  
- Há alguém que consiga fugir da prisão preventiva das cidades? Que não se canse de fazer amor, sempre com a mesma mulher?
- Eleições, com biliões? Quando a bondade se vê e deseja…é escarcéu… os Órfãos e os do Politburo são guerreiros, a eleição será pautada à paulada, cacetada. Se os Órfãos ganharem, os Politburo amarram o jogo, vão virar o resultado. Aliançados com grandes negócios, não darão as costas a midas. Se os Politburo perderem – têm que ganhar – os militares estão lá para resolver, para decidir a contenda favorável aos Politburo. É assim que sobrevive uma nação guerreira com o seu líder eterno colocado nas nuvens. Com ar de mistério no mar desencontrado.
- A espada da barbárie de Urundi suspensa.
- Para cada quadrilha de malfeitores há sempre um herói. Como Bat Masterson e Wyatt Earp, o panteão da história lembra-os.
- Na história da caubóiada.
- Nas leis da História. Os heróis são necessários, entram em acção e repõem a legalidade.
O receio da cólera feria as mentes, congestionava as vias públicas. A cólera é pungente porque o poder não se sente. É sonho diurno. A lábia dos boca a boca interrompeu-se. Radiodifundia-se actualização do vibrião.
- Aguentem a cavalaria! Vai sair locução dos números epidémicos.
- Muda para a Rádio do Oráculo, a outra faz desconto.
- Já está! Deixem radiar.
Rádio Oráculo. Números da cólera…quarenta e dois mil infectados e mil e seiscentos mortos.
Mais informação com o nosso correspondente:
… Desencontro-me no desertus mirabilis. O barqueiro Caronte tem a situação controlada. Desviou um afluente do rio Estige que inunda o desertus mirabilis. As vítimas excedem-se. Os defuntos progridem com os vivos. Estes, para escaparem dos fluidos de Caronte, saltam pelas janelas do hospital, que parece o anjo da morte Mengele. O cheiro dos cadáveres é insuportável. Há mais de um mês que as autoridades locais guardam silêncio. A cólera espalha-se como uma invasão de gafanhotos. Quem divulgue informação do que se passa, as autoridades ameaçam com tribunal ad hoc. No momento em que vos falo, os Politburo montam-me guarda. Dizem que vão cursar-me tratamento de choque informativo. Que tempos coléricos estes. Ó da guarda! Digo adeus ao mundo.
- Mentor…
- Minha Lwena, a cólera encoleriza os cegos de espírito.
A estirada para Tule de Viana avançava, diminuía o percurso. A paisagem da juventude Jingola que enchia baldes com água para lavar carros e solidificar a fé comestível, não melhorava. Jovens dengosas auscultavam nos vidros dos carros e trocavam impressões sobre o preço da carne sexual. Alguns seguranças permaneciam encostados, apoiados nos pilares, enquanto outros jaziam sentados em improvisadas cadeiras.
De repente o ambiente intempesta-se. Dois desabridos seguranças manifestam dor da alma. Um narra para os colegas os últimos acontecimentos. Roga apoio, mas os colegas limitam-se a ouvi-lo, porque ao mínimo deslize perdem o emprego.
-… O director da empresa da vanguarda Politburo apresentou lamentos: Descobriu que algumas alvíssaras se evadiram dos cofres. Vai daí, nada mais fácil do que culpar os seguranças. O indistinto prosélito, qual mastodonte fóssil do Mioceno ordenou: «chamem a polícia Politburo». A polícia chegou, ele deu-lhes a quantia necessária para as investigações e actuaram de imediato. Cismaram para quatro seguranças, arrastaram-nos e divertiram-se muitas horas a cascar-lhes chapadas com catanas nas costas e nas faces. Num deles, os Politburo arrancaram-lhe as unhas dos dedos das mãos. Depois atiraram-nos para um albergue com os ossos tão amassados que alguém se lembrou de dizer: «essa pasta óssea dá para fazer pastilha elástica».
- Mentor… é doença mental?
- Hum, hum. Prometeram-lhes mundos e fundos, a felicidade eterna. No princípio é fácil abusar da boa fé das pessoas, com muitas promessas eleitorais que se perdem nos vendavais. Tiram-se muitos dividendos, mas com o tempo tudo se desmorona. É como a prisão perpétua.
Adiantei-me numa rua onde se escutava uma ode ao automóvel. Buzinas estrondeavam, trombeteavam coro metálico de harmonia com vozes humanas. Realmente parecia um imenso manicómio. Tantos loucos varridos à solta! Alguns punhos erguidos agitavam-se temíveis. A explicação saltava à vista: um enorme contentor abandonado na rua obstruía os sentidos do trânsito. Nenhum carro entrava ou saía. Satisfiz a minha curiosidade num automobilista:
- Esta rua está condicionada a parque de estacionamento de contentores?
- Não! O motorista abandonou o contentor às cinco da manhã, e continuou… zarpou para a bebedeira com o camião.
- E?...
- E como pertence a uma empresa de um Politburo, não podemos fazer nada… senão levamos nos cornos.
O casebre de Mentor não prestou a mínima atenção quando chegámos. Parecia que as chapas onduladas que cobriam o telhado sorriam com a nossa presença. Mais chapas zincadas rodeavam o casebre. Contra elas o lixo e a água do esgoto próximo remavam, rumavam para incerto destino. Mentor abriu a porta gótica e entrámos. Pegou numa vela, acendeu-a. As sombras dos objectos revelaram-se como fantasmas. Cuidei-me ao sentar-me numa cadeira tresmalhada. Tinha um calcanhar vulnerável. Precavi-me, firmei-a na parede com cuidado. Desconfiada, se a estrutura resistiria à pressão. Mentor sorri, apresenta explicações:
- Sabes, não dá para ter uma casa em condições. Só o mínimo indispensável, porque quando chegam os assaltantes e os predadores das demolições do Politburo, se não conseguem roubar nada, pegam-lhe fogo. Obrigamo-nos a viver no estilo gótico. Luz é impossível… à noite abundam aparições de alicates fantasmas que cortam os vultos dos imateriais cabos. Olha… temos que prestar atenção às velas, algumas parece que explodem.
O pequeno corredor no centro do casebre guardava sete vasos de hortelã. Pensei que era por causa dos gatunos. Em simultâneo olhei para eles e para Mentor que explicou:
- Como a hortelã é óptima para as doenças respiratórias, comprei vasos e neles a plantei. Cresceu rápida, ficou atraente. As folhas esverdeavam a liberdade das plantas. A meio da noite acordava com a respiração opressa que lembrava chiadeira de gatos. Levantava-me, ia a um dos vasos, colhia quantidade suficiente. Mastigava-a, engolia-a e pouco depois sentia-me melhor. A expectoração saía forçada pela tosse, os pulmões arejavam e a respiração normalizava. Tinha um pequeno jardim e notei que alguns pardais apareciam. Duma vez contei oito. O piar era muito barulhento mas agradável. Talvez protestassem porque não tinham comida. Revivia neles a salutar Natureza. Coloquei-lhes recipientes com arroz e água. Vieram regularmente, comiam, bebiam e iam. No passar dos dias noto que um pardal corria com os outros. Surpreendi-me… porque ele assenhoreou-se da comida e bebida. Quando outros pardais apareciam, ele voava como um míssil, e zás! Não queria compartilhar a sua propriedade privada.
Habituou-se à minha presença, sentia-se à vontade, mas sempre desconfiado. Reconhecia a área como um cão ou gato. A cadeira onde me sentava não escapava à vigia. Sentia-se ser de casa. Gostava de observar o crescimento da hortelã. Numa manhãzinha verifiquei constrangido que quase desaparecera, incluindo raízes. Não tardei a encontrar explicação. Os outros pardais, furiosos porque estavam proibidos de se alimentarem da comida do colega, vingaram-se na hortelã… como se eu fosse culpado. Enfureci-me, retirei-lhes o arroz e a água. Gritei-lhes: «aqui não há mais comida e bebida para ninguém». Fi-lo por vingança, decidido a nunca mais enfrentar ingratidão de asas.
O comensal reapareceu, viu que a comida desapareceu, piou estridente até se cansar. Imóvel, provavelmente pensava: «mas, que mal fiz?!». Repetiu-se por quatro dias, quando percebi com grande surpresa: Não era um, era uma pardaleja que acompanhava o seu pequenino que iniciava o manejo das asas. O bebé abria o bico à espera que lá caísse qualquer coisa. A mãe desesperada bicava areia e enfiava-lha pela goela. Mas o bebé não se calava, queria comida de verdade. Percebi… era chantagem. A mãe culpava-me da morte do filho pela fome. Senti-me varado, gritei-lhes: «chega, estou despassarado!»

terça-feira, 7 de agosto de 2012

AS CINCO MAGNÍFICAS (08) Contém cenas eventualmente chocantes




- Como era a tua vida em Cuba?
- Oh! Lá é muito diferente. Existe muita disciplina. Nunca passei fome como estou aqui a passar. É tudo muito vigiado. Existem vigilantes em cada esquina. Há muita higiene. Ensinam-nos a sermos muito limpas. Quando alguém pisa o risco, fica debaixo das autoridades, que são muito rígidas. As negras aqui, a única coisa que sabem fazer é engravidar. Quando não engravidam, os maridos põem-nas fora de casa e arranjam outra. Mas mesmo assim têm sempre mais que uma. Julgam-se os donos das mulheres, e à mínima coisa batem-nos. Têm a mania que são perfeitos. O tipo de negro perfeito para a negra imperfeita.
- Ana, é tudo complicado.
- É sim. Querem funje de manhã ao almoço e ao jantar. Vem sempre com amigos e amigas para casa. A família quando sabe que na casa há comida, aparecem como visitas frequentemente. A dona da casa de facto, não passa de uma escrava. Gostam muito de nos darem pontapés nas pernas, sem mais nem menos. As suas esposas acabam por fugir de casa. Mas como eles tem muitas, não se preocupam com isso.
- Ana, já notei que viver na África Negra é um suplício.
- Não conseguimos avançar devido às nossas tradições. É por isso que os brancos nos consideram muito atrasados, e têm razão.
Ana deu duas sonoras gargalhadas. Levantou-se e começou a retirar a loiça. Disse-lhe:
- Não te preocupes, eu trato disso.
Não me prestou atenção. Levou os restos da comida para o balde do lixo. Lavou a loiça e deixou a cozinha bem arrumada, impecavelmente limpa. Não deixei de ficar surpreso. Afinal em Cuba a higiene era uma coisa muito séria. Ela despede-se:
- George, vou-me embora. Posso levar os cigarros?
- Podes.
Deu-me um beijo nos lábios. Já com a porta aberta, faz-me uma súplica:
- George leva-me para Inglaterra.
Cansado após mais um dia de trabalho, estava parado num sinal de trânsito, a aguardar que a luz verde chegasse. Senti uma forte pancada na traseira do meu carro. Retirei a chave da ignição, abri a porta e dirigi-me para o infractor. Este também já tinha saído do seu carro. Era um jovem corpulento, que cambaleava ligeiramente. Aproximou-se de mim, e senti o seu hálito que tresandava a álcool:
- Mandingo! Mandingo! Filho da puta!
Descontrolei-me e respondi-lhe na mesma moeda:
- Filho da puta é você! Seu macaco!
As portas do seu carro abrem-se. Saem três negros altos e fortes. Dois imobilizam-me os braços e encostam-me ao meu carro. O terceiro prepara-se para me dar socos. Senti que não sairia vivo do local. Como tinha os pés livres, preparei-me para pontapear o socador nos testículos. Já de punho no ar, suspendeu o gesto e retiraram-se a gritar:
- Branco mandingo, filho da puta!
Consegui anotar a matrícula da viatura. O estranho é que ninguém fez um gesto em minha defesa. Pareciam contentes. Antes de chegar a este país fui advertido para os perigos que continuamente corremos.
A Ana estava sentada à porta do prédio. Narrei-lhe o sucedido. Mostrei-lhe a traseira do carro que estava lastimável. Perguntou-me se tinha a matrícula do prevaricador. Disse-lhe que sim, tomou nota e acrescentou:
- Vou falar com os meus amigos da investigação criminal que estiveram em Cuba comigo, depois digo-te qualquer coisa.
- Ana onde vais?
- Vou já para lá.
- Não precisas de nada? Por exemplo, algum dinheiro para despesas?
- Não, não é necessário, aguarda.
Surpreendeu-me porque não demorou muito tempo. Cerca de duas horas depois já tinha o relato da situação:
- Olha, este carro é de um coronel. Ele não está cá, está no Brasil. Quem conduz o seu carro é o filho. Ele faz muitos desmandos. Não és a primeira pessoa que se queixa. Estão com o olho nele. Os meus amigos disseram-lhe que se ele não pagar os estragos vão-lhe retirar o carro. Amanhã os meus amigos vão vir aqui para avaliar o custo da reparação do teu carro.
- Ana, achas que isso é assim tão fácil? Custa-me a acreditar.
- Aguarda, amanhã veremos.
Para minha surpresa as coisas aconteceram tal e qual como a Ana disse:
- George está aqui o dinheiro do valor da reparação do teu carro.
Entregou-me uma quantia em dólares que facilmente verifiquei corresponder ao valor dos prejuízos. Senti um grande contentamento, de a abraçar e beijar. Que mulher tão prestável, tão simples e humilde. Congratulei-me:
- Ana, muito obrigado pelo que acabas de fazer.
- Oh! Não precisas de me agradecer.
Lembrei-me que era sexta-feira. De súbito senti um grande impulso:
- Convido-te para irmos jantar fora.
- Oh George, isso é óptimo! Onde será esse enlace principesco? Espero que no fim tenhas algo muito substancial para me ofereceres.
Senti-lhe uma intensa cupidez. Contudo percebi a sua afirmação enigmática. Sugeri:
- Acho que no fim da Ilha é interessante. Tem protecção e podemos apreciar o mar a qualquer momento. Quanto à minha substância poderás apreciá-la quando bem o entenderes.
- Aguarda uns minutos, vou preparar-me.
Quase duas horas já tinham passado. Acho que não voltaria. O sono invadia-me. As mulheres para se prepararem, contam os cabelos que rodeiam a vagina para terem a certeza que não falta nenhum. Depois miram-se e remiram-se interminavelmente no espelho, a aguardar que a sua face se transforme, como num sonho irrealizável. Despertei com o barulho na porta. As pancadas eram cada vez mais fortes. Abri e ela entrou sem cerimónia. Exclamou:
- Parece-me que demorei muito, não é!?
São as expressões peculiares delas, estava encantadora. Não parecia a mesma pessoa. Com um vestido branco de noite comprido, e um longo decote que mostrava os seios, um pouco compridos, que terminavam nos mamilos bastante inchados. Receava que ao inclinar-se os seios saltariam, e ficariam desprotegidos. Os sapatos de salto alto eram exagerados, não sei se conseguiria andar. Os lábios, as unhas das mãos e dos pés estavam pintados de um vermelho muito agressivo. O cabelo estava sem tranças, curto e muito justo, alisado como se fosse um rapaz adolescente. Transportava um saco de mão vulgar. Comentei:
- A tua beleza surpreende-me.
- Ah, George estou bonita?
- Não me recordo de nenhuma noite, em que vi algo tão belo como tu.
O empregado sorridente apresenta-nos o cardápio. Ana pergunta-me o que quero comer. Digo-lhe que prefiro ser ela a escolher. Encomenda dois pratos de frutos do mar. Faltava a bebida para acompanhar, o empregado aguardava. Tive que intervir:
- Tem Dão Grão Vasco tinto?
- Temos.
- Traga duas garrafas.
- Das pequenas ou das grandes?
- Das grandes.
Dão Grão Vasco… os vinhos do Dão são considerados os melhores do mundo. Tornei-me um apreciador incondicional depois de um português amigo ter-me confidenciado, que sem o bom vinho tinto, os portugueses já teriam perecido. Depois do repasto, Ana faz-me um convite:
- Vamos ficar ali nas pedras, muito juntinhos a ouvir as ondas do mar.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Os Jasmis da Lwena (14) Aiué!!! o nosso vulcão Angola que vai entrar em actividade.



Aumento dos combustíveis em 8%, salários da função pública também aumentam 5%, e corte da subvenção aos combustíveis. Extinção em simultâneo do mercado Roque Santeiro que movimenta todo o mercado informal e que gera empregos a milhares ou milhões (?) de pessoas.
O cemitério do quilómetro 14 em direcção ao Cacuaco, arredores de Luanda, estão a retirar-lhes as ossadas para prosseguirem a escalada da especulação imobiliária.
Entretanto, o Grande Líder das Massas passeou calmamente por algumas ruas de Luanda, escudado nos seus centuriões impressionantemente bélicos, – está em terra de bárbaros – agora nas veste de agente imobiliário – seleccionando e orientando quais das dez mil residências para alargamento (?) das vias rodoviárias receberão o prémio da confiscação para demolição sem mais, que somadas ao anterior milhão dão mais uma caterva de um milhão e dez mil problemas sem solução. Claro que isto não é prioritário, provavelmente é mais uma imposição dos agora amigos chineses de longa data. Como prioridades, não são o abastecimento de água e a energia eléctrica que estão num plano secundário desde a independência. Angola é muito grande, mas os cérebros que a governam desenham-na muito pequena, na mesquinhez.
E nas Lundas, revelando peculiar mestria política, o garante da governação diamantífera decretou a probidade da utilização de bandeiras dos partidos políticos.
Nesta banda tudo o que é anormal, decreta-se normal. Que o PIB cresce, o desenvolvimento económico prospera. Bom, só pode ser um novo sistema económico que inventaram e que permanece desconhecido. Provavelmente o Economic Jungle. Este petróleo é da cor dos espoliados.


O que aconteceria se desvendássemos, falássemos, abríssemos a nossa alma? Fazer o invisível, visível? Há muito receio supersticioso. As pessoas vivem noutro mundo possuídas pelos cultos religiosos.
A História recheia-se de guerras santas, de extermínios, de cultos de libertação. Todas, asseguram-nos, são libertadoras. Então porque continuamos oprimidos? Porque não são guerras de libertação, são guerras de continuação da opressão.
Durante muitos anos da minha vida ensinaram-me que os outros povos eram atrasados, incivilizados. Necessitavam do alimento feérico da fé cristã, da condução paradisíaca. Libertar-se-iam dos seus deuses, desconheceriam a maldade, sombras, trevas do paganismo demoníaco. Em consonância os políticos arremetem-nos vida melhor, e a religião promete-nos viver no paraíso eterno. Mas quando um governo se irresponsabiliza perante os cidadãos no abastecimento mínimo de água, luz, comida, chapas de zinco para refazer casebres e alguma roupa, isto é escravidão. Comparando os tempos, os modernos ultrapassaram os antigos. Nunca aconteceu na História tanta escravidão, submissão, espoliação como actualmente.
Os Jingola autóctones colonizados libertaram-se. Os seus libertadores sangraram o fim colonial e esclavagista. Em seguida como navios escuteiros desbordaram a humanização da História. Submetidos às leis modernas da nova escravatura, às leis da imutável fome, às leis das epidemias que a acompanham. É o destino dos povos, a frustração da História. Isolados como ilha perdida algures em qualquer oceano, à espera da morte salgada. Regimes de excepção suspensos em actos anticonstitucionais, empresariais, actos gratuitos. Não há mandados de citação, há mandatos penais. O poder empresarial é oculto, temeroso. Governante que não caminha pelo meio do seu povo, é impopular, receoso.
A tuberculose galopante inscreveu-se no quadro das epidemias. No hospital os lugares disponíveis são insuficientes. Apesar de alguns novos focos, a cólera, dizia-se, já não assustava. A equipa médica afirmou que seria extinta nos próximos cinco anos.
Este é mundo de dinossauros, seres de pedra com mentes de fontes incoerentes que inutilizam a validade da luz natural, cerebral. Ocos de linha dura, anzolam-nos na sua demência. Prescrevem-se choques nos tecidos tenebrosos mas, os encéfalos teimam que dependemos da inutilidade deles… perfeccionistas da lei de Murphy. Carentes, crentes no poder vitalício permanecem esqueléticos até à morte, a desordenar. Desusam o sentimento de culpa, não antecipam formação de jovens substitutos. Enfadam-se na demagógica criação de empregos, nas oportunidades à massa cinzenta rejuvenescida. As pontes desabam, a do poder não.
O homem mais poderoso e o homem mais fraco não têm a mesma importância. O homem mais fraco é mais importante, porque a qualquer momento derruba o homem mais poderoso
O meu melhor amigo é o silêncio do odor da santidade florestal embalsamado, dos lamentos confessados, convictos. Os meus inimigos são os quatro cavaleiros do apocalipse: o especulador imobiliário, o advogado, o especulador financeiro e o agente funerário. Mas, o meu maior receio é ser queimada por heresia.
Acreditamos, defendemos resoluções, revoluções, e depois deixamo-nos arrastar na correnteza da odienta pobreza
Educaram-me, ensinaram-me, reeducaram-me que a civilização Ocidental é superior. Mais tarde descobri com sorrisos solitários, o quanto estava lesada. Não produzi estátuas ou outras obras de arte porque a minha beleza, o purismo das minhas formas, são renascimentos para os artistas amantes dos superiores primitivismos. A minha civilização é inferior na tecnologia, mas é superior na minha outra impressão de sol nascente.
Ajustei o campo binocular. Um jornalista de fraqueza física, mas de espírito forte, tentava amainar um antagonista latagão. Discutiam-se e improperavam-se. O jornalista ao correr da pena ecoava que apenas dera um leve toque na traseira da viatura do latagão. Estavam a ficar intransitáveis, porque o latagão não aquiescia. Ao contrário, publicitava que era formado em pugilismo pelos ringues mais violentos que ainda subsistem. Sem pena, remexeu os toros musculados e desembainhou os punhos de aço natural. A bater o aço no intelecto do jornalista, que apenas conhecia defender-se com caneta e papel ou computador portátil. As palavras desvaneciam-se na mente redactorial. Perdeu o sentido da vida. O latagão como animal enjaulado não despegava a vítima, incansável como máquina metálica programada para matar. Braçais possantes conseguiram imobilizá-lo quando desligaram o disjuntor principal que alimentava a sua máquina desumana. Sentiu-se plenamente realizado porque odiava jornalistas. Assassinou um jornalista por cinquenta dólares, que era o preço da batidela. Triunfante, basculante, inocentou-se que apenas usou as mãos.
Os Jingola finalizaram a inaptidão da religião da vida interior. Deus expandiu o céu e a terra, depois contratou o Demónio para criar o Homem. Os animais selvagens vivem nas cidades, os animais civilizados nas selvas. Aperfeiçoam utensílios, inventam, renovam descobertas. Surgem novas doenças, novas epidemias. Rematam-se cada vez mais, com novas armas.
Alarmada, certifico que não evoluímos: fabricamos os filhos conforme preceituado na antropologia física. Não alterámos: beijamo-nos e acariciamo-nos antropologicamente. Não há nada de novo no ovo cósmico.
Desbravadores do roubo e da morte, início e fim do idealismo subjectivo. Então, que utilidade tem o ser humano? Nascer, destruir, matar. Um louco manso apelidou-o Homo sapiens. O nome correcto é: Homo Credo quia absurdum, (Homem creio por ser absurdo). Deus é a imaginação do Homem. Só existe quando necessário, aparece e desaparece. Sempre fomos e seremos pagãos. Falta-nos coragem para o confessar.
Quando a informação escasseia com intenção, os oratórios ambulantes costumam ser especulativos e evoluem para observatórios de rua. Um acontecimento de vulto é relatado, com o tempo torna-se lendário, um mito. Os Jingola instituíram observatórios de rua, nas ruas clandestinas. Popularmente, naturalmente, chamaram-lhes observatórios boca a boca. Num destes boca a boca, o orador especulava que um simples plano sem director seria suficiente para Jingola estacionar, ficar bem estacionada. Era somatório dos proeminentes que estudavam a degradada jurisdição. De improvisado púlpito e de jurisdição contenciosa esgrima-se:
- É o relativismo moral. Os Europeus refizeram-se, refrescaram-se, depois da secundária guerra universal. Porquê!? Porque é constante a corruptela das sociedades sem um plano económico. Depois da economia de guerra, de palitos, dirigida, fechada, informal, invisível, mista, popular, velha, uf!... E de mercado… o que necessitamos é estourar um grande Plano Marcial.
Os ouvintes, desempregados sistemáticos desentendiam-no perfeitamente. Eram natas, a fina-flor do ensino superior.
- Oh! Há quase cinquenta anos que estamos com esse plano de emergência.
- Carecemos da informação, da refracção da perda de intensidade da luz do backbone.
- Impaciento-me com semelhanças, inverosimilhanças.
- O plano quinquenal?!
- Sim! Esse mesmo, o das quintas.
- Não! O trienal.
- A caubóiada do ir por um plano inclinado.
Um participativo escuda-se no prudente silêncio. Receia falar porque lhe podem atirar o primeiro pedregulho da incompetência, ou uma bala perdida. Os convivas atiçam-no, então descongestiona a perda de coragem da garganta, refina o espírito, evidencia-se e reprova a turma do deixa-disso:
- Os Jingola querem rever os estatutos da fome. Os políticos falam bwé, muitos comícios, muitos debates, chuvas de palavras, seca alimentar. Fome canina de vento desabrigado. A fome supera os caudais oceânicos. Os lucros dos bancos sobem, a fome também. Palavras… dar o dito pelo não dito e os reditos maldosos aterram-se, vítimas da sua maldade. Políticos que sorteiam justificação, todos são deuses, daqueles inacessíveis.
O contumaz orador sentiu a boca colar-se. Era um esforço desabituado, contaminado pelo pó dos casebres sistematicamente demolidos, tempestivo que inundava a cavidade bucal. Solicitou água mineral, só havia desmineralizada devido às constantes fervuras. A garganta arranhava-se, entupia-se, congestionava-se. Na aflição qualquer água serve. Fez um sorvedouro, uma goleada de goles. Com a garganta reparada desfilou a temática. 

domingo, 5 de agosto de 2012

O Cavaleiro Mwangolé e Lady Marli na Demanda do Santo Graal (27)


A menina brincava no regato e as flores perseguiam-na. Ela afastava-as teimosamente e as flores redobravam a perseguição. A menina ria, ria, ria. Ela olhou e obrigou o regato a mudar de posição. E as flores ficaram tão embaraçadas, e a menina muito zangada bateu-lhes muito, de beijar. E elas choraram muito. A menina comovida disse para o regato voltar ao que era antes. E as flores voltaram à perseguição. E a menina ria, ria, ria.

Um amigo é aquele que estejas onde estiveres, te guarda eternamente no seu coração. Um amigo é aquele que te protege sempre, com ou sem tempestades. Um amigo é aquele que mesmo que lhe abandones o teu coração, ele entrega-te sempre o dele. Um amigo é aquele que mesmo ferido, abandonado, esquecido e desprezado por ti, guarda sempre o seu eterno amor, na esperança de que um dia regresses, e o seu coração se transforme num mar de amor, de jasmins, de perfumes, de fusão de dois numa floresta de recém-nascidos. Um amigo é aquele que te oferece o Universo, tudo, pois ele acha que só tu o podes valorizar. Um amigo é aquele que te entrega a sua alma sem nada exigir como retribuição. Finalmente, um amigo é aquele que olha sempre para ti sem jamais se cansar.
Que banalidade apresentar o amor como uma mercadoria.
O verde da vegetação pairava, fluía no rio, e a corrente do vai e vem do vento aprazível lançava gotas de sol prateadas sobre a sua superfície. As aves gratas teclavam no seu chilrear. Tudo agradecia porque parecia, não, tudo é a nona sinfonia de Beethoven.


Povo possesso pelos óbitos constantes, que são festas do voto eleitor que legalizou a votação da maioria absoluta para o submergir no extermínio da velha vida. Está tão idiota, tal e qual os sons desconexos que afligem o que resta dos seus circuitos neuronais. Resignou-se dependente tolamente das estações psiquiátricas dos comboios circulantes da loucura colectiva. Já não é povo, é o elogio da loucura. E tudo lhes serve de incitação ao alcoolismo, ao qual já é adepto propenso. Esta cidade (?) de Jingola jaz decretada, agigantada num necrotério de mortes súbitas. E a democracia tão absurdamente mal decretada por um poder no sonho da ilegitimidade. O povo Jingola votou nas urnas da morte, funerárias. E por isso os seus óbitos são as suas constantes farras horrivelmente barulhentas dos seus enterros abundantes. O povo jingola não nasce, não vive, só falece. Nunca é demais recordar que nas traseiras dos prédios abundam crimes contra a segurança do Estado Jingola. Nas infinitas imbecilidades reside o nosso futuro. Nos cofres da opulenta espoliação governamental acumula-se o desdém dos despojos humanos na selva petrolífera. Este povo já deixou de o ser. É apenas um campo de prisioneiros para a reentrada dos democráticos envenenamentos das câmaras de gás.

É um governo muito desportivo, apresentou mais um torneio: o girabola do sorteio de casas. Já não governa, é um casino das lotarias nacionais. Que desorientado o pastor deste rebanho está: a fase dos abismos terminou. Já não existe povo, apenas uma chuva de cadáveres. Viver é laborar no premente erro de ser humano. Errar é humano?! Não! Porque o homem é um erro. Logo, tudo o que faz está errado.

As cobras atacaram o hospital de Ondgiva e os doentes fugiram. Caminhamos bem, debaixo do salmo, da bênção da democracia chinesa. O problema não é económico, é político. O principal aspecto da invasão estrangeira é o rapto dos nossos empregos. O poder ufana-se em empregar estrangeiros, e desemprega-nos. Até as nossas almas venderam ao diabo deles. A nova Constituição veio para reforçar as banheiras nas cabeças das jingolas. É a Constituição do embrutecimento. Há governos que são como potentes terramotos, arrasam casas, casebres, tudo. Lutar contra o colonialismo branco foi relativamente fácil. Agora, lutar contra o colonialismo negro está difícil. Já não existem mentes libertadoras, apenas o culto da destruição. Jingola, a maior desilusão de todos os tempos. É como o amor: é muito bonito nos primeiros dias, depois vira palhaçada, não é possível conceber o amor numa sociedade de capitalismo selvagem. O amor é ingénuo, e de certo modo desonesto, porque já não é humano. Actualmente o amor é uma brincadeira, um passatempo. Transformaram o povo jingola numa outra gigantesca maré negra.

Dos jovens afogados em uísque bebido com cerveja, e na companhia dos mais potentes e loucos sons projectados dos carros estacionados, e de portas esventradas, escancaradas numa ode à idiotice dos analfabetos.

Estamos sem água e sem energia eléctrica, porque os prédios deles destroem, espoliam-nos o mais elementar, a luz e a água. Porque a lei do ruído demora muito a sair, está silenciosa. Até os escravos chineses já são senhores em Jingola e das aldrabices clonadas e comercializadas. Do esvaziar dos cofres nacionais e transferi-los, investi-los nas contas bancárias estrangeiras. Isto está bom, é para chinês, que até já constituíram um império natal, um paraíso celestial. Tantos facínoras organizados e em quadrilhas mandatados. A miséria cresce, e o desenvolvimento económico também, e o desenvolvimento social está betonizado na ESCOM, ODEBRECHT, e demasiado achinesado. E de outra vigarice dos setenta por cento dos trabalhadores jingolas nas obras chinesas, mas o neocolonizado é zerado.

Jingola no dia da África, e os discursos que ninguém escuta. Exceptuando a recolha do lixo, a prestação dos outros serviços em Jingola é a fingir, convém dizer, atestar que funcionam muito mal. Está igual aos que assentam em cima, os entronizados. Que desolação: o que resta da espécie humana, ou melhor, da espécie desumana, dos homens das soluções finais. Enquanto o jingola festeja, não se sabe bem o quê, como se fosse um partido das festas, festejos naufragados em álcool. Depois lamentam-se que os estrangeiros estão a dominar Jingola, a escravizar o jingolano. Povo que festeja as noites e os dias é povo sem futuro. O mwangole suicida-se nas cátedras alcoólicas. Está cursado, varredor nato colocado nos pódios das olimpíadas do amigo mais sincero, o álcool. Até já lhes chamam não jingolano, mas homo etilicus.

Se Jingola tivesse um presidente eleito de facto e de jure, decerto não estaríamos a fingir democracia. Este governo é uma fábrica de assaltantes. E em algumas zonas de Jingola há recolher obrigatório. Entretanto, a venda de Jingola aos estrangeiros prossegue. O que é que faremos com uma população feiticeira?! E o número da besta, está confirmado pelo Senhor, são quatro letras: quem souber que as desvende. Os portugueses foram os descobridores de Jingola, o actual poder é o encobridor.

É bom salientar que sem energia eléctrica qualquer projecto em curso é de fachada, cambalachada. Até quando continuaremos no fingimento de que aconteceu independência? E nesta república do bananal, já nenhum e nenhuma banana se aproveitam. Não deixa de ser muito interessante o facto de que a cidade jingola não foi destruída durante a guerra. Em pouco tempo de país a sua destruição está por demais evidente.

Todos os acontecimentos criminosos actuais têm que ser julgados e condenados sob a acusação de neocolonialismo. Dizem que o feiticeiro de Katete quando morreu, até os animais choraram. Se toda a oposição aceitou os resultados fraudulentos das últimas eleições legislativas em Jingola, então também são desonestos porque pactuaram com fraudes. Isto é o que se pode apelidar de república das bananas na extrema perfeição.

Ser mulher de casa não dá. Amante é que está bom, tem mais regalias. Num mundo de selvagens, mesmo nós honestos para sobrevivermos temos também que sermos selvagens. Mas que isso não nos cegue até ao ponto de vermos alguns valores morais que apesar de tudo ainda resistem a todas as intempéries humanas. Esses valores permanentes devem-se respeitá-los, senão é o nosso fim e o de todos os selvagens humanos. Os Lordes estão irremediavelmente ultrapassados, o lixo da história espera-o. Isto é Jingola onde qualquer é presidente vitalício, e lá sentado no palácio presidencial ousa jamais dele sair, justificando que foi eleito pelos nossos antepassados. É este o destino de Jingola e de quem se elege pelas suas divindades. A democracia moderna parece ser o auge da mais selvagem destruição capitalista. Lutemos e libertemo-nos desta suprema maldade.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

AS CINCO MAGNÍFICAS (07) Contém cenas eventualmente chocantes


- Olha, as crianças estão a dormir, vamos aproveitar.
Ajoelha-se, retira o meu pénis, coloca-o na boca e protesta:
- Porra! Entesa lá essa merda!
Dá-me chupadelas furiosas. Os seus dentes ferem-me. Sinto uma dor ligeira:
- Cuidado, estás-me a magoar!
- Como é você. Essa merda não entesa porquê?
- Se me estás a magoar como é que queres que fique teso?
- Está bem, vou ficar quieta. Vá, faz na boca.
Assim estava bom. O meu leite encheu-lhe a boca e escorreu pelos seus lábios. Encostou-os aos meus e deixou-me saborear tão precioso líquido. Foi buscar uma toalha pequena. Limpou os seus lábios. Depois limpou os meus. Arrumou a toalhinha e disse-me:
- George estou muito chateada contigo.
- Porquê?
- Compraste sapatos para a minha irmã e para mim não. As minhas amigas fizeram-me pouco, sabes. Disseram-me que com um marido branco, como é que tu andas assim tão mal vestida, tão mal calçada. Faz-me favor de me dares dinheiro para comprar roupas e sapatos. As crianças também precisam. Assim não dá George.
O dinheiro que lhe dava era mais do que suficiente para os gastos que necessitava. Não entendia porque é que ela reclamava. Algo não corria bem. As suas intenções já eram bem evidentes. Pretendia terminar com a relação, mas preferi aguardar mais um pouco. Ver até onde ela ia chegar. Disse-lhe simplesmente:
- Vou-me embora. Vou dormir na minha casa.
- Oh, querido estás aborrecido comigo?
- Não, não. Por favor, não penses numa coisa dessas. Amanhã vais trabalhar?
- Vou.
- Então vou-te apanhar no aeroporto.
De manhã ao sair de casa, dirigi-me para o meu carro. O aspecto exterior parecia que há muitos dias não era limpo. Entrei e olhei para o banco de trás. Em cima dele e no chão viam-se restos de milho e de cana-de-açúcar por todo o lado. A farinha de bombó espalhada na cor preta dos assentos, e no chão, dava um aspecto de violência, como se alguém tivesse acabado uma luta, e conseguiu sobreviver. Uma mancha vermelha chamou-me a atenção. Aproximei-me bem de perto. Era sangue de menstruação. Preferi limpar o carro sozinho, para evitar as perguntas que decerto me fariam. Esta situação a manter-se não duraria muito tempo. Era uma questão de horas ou talvez poucos dias.
Estávamos quase a chegar ao largo. Gilda está muito meiga. Encosta o seu rosto ao meu. Parece uma gata. Segreda-me:
- George… põe o carro no meu nome.
A chuva não era abundante. Devido a ela fazia um pouco de frio. Fui buscar uma camisola grossa para me proteger. Bebemos mais café e conhaque. Perguntei:
- George, puseste o carro no nome dela?
- Não. Nunca mais apareci. E nunca mais a vi.

CAPÍTULO IV
ANA

Uma vizinha apresentou-me a Ana. Morava no primeiro andar. Tinha acabado de chegar de Cuba. Esteve lá a tirar um curso de educação física, e outro de alfabetização de adultos. Tinha vinte e sete anos, baixa e forte. Olhos grandes, cabelo postiço com longas tranças. Rosto liso, não era muito bonita. Mas conseguia despertar interesse. Lamentou-se:
- George, quero trabalhar, arranja-me um emprego.
- Vou ver o que posso fazer por ti.
De regresso a casa encontro-a na escada. Lembra-me:
- George, já tens alguma coisa para mim?
- Não, ainda não consegui nada. Sabes trabalhar com um computador?
- Sei, tirei um curso.
- Acompanha-me. Tenho um computador, vou-te fazer um teste.
Liguei a máquina e dei-lhe uma folha de papel manuscrito para ela trabalhar. Afastei-me, não demorou muito tempo a chamar-me:
- George, não consigo entrar no programa.
Abri o processador de textos. Deixei-a, e fui para a cozinha preparar um petisco. Voltei alguns minutos depois. Olhei para o monitor. As palavras que escrevia continham erros. Estava com imensas dificuldades:
- Não sabes escrever português?
- Sei. Só estou um pouco destreinada.
- Então continua, estou na cozinha.
Acabei de preparar o meu serviço. Voltei para junto dela. Chamei-lhe a atenção:
- Estás a jogar às cartas?
- Já tirei o curso há muito tempo. Este computador é muito diferente. Não me entendo bem com ele.
Era evidente que estava a mentir. Nestas condições era-me difícil arranjar-lhe emprego. Suplicou-me:
- George, estou com fome.
- Vem para a cozinha, faz-me companhia.
Ana acomodou-se. Servi-lhe meia dúzia de gambas. Ela regozija-se:
- Ai! Meu Deus! Nunca mais comi disto.
Estava mesmo com fome. Num ápice o seu prato ficou vazio. Levantou-se e perguntou:
- Onde é que tens o balde do lixo?
- Está na varanda.
Perguntou-me se podia tirar mais gambas. Acabou-as. Era visível que estava satisfeita. Já ia na quarta cerveja. De repente dá sonoras gargalhadas, que acho se ouviram em todo o prédio. Cala-se e fica muito séria:
- Dá-me um cigarro.
- Não fumo, mas tenho sempre um ou dois maços guardados.
Levantei-me e fui buscá-los. Tirou um cigarro, acendeu-o e aspirou profundamente. Coloca o seu rosto na mesa e desata a chorar copiosamente:
- Ana, estás a chorar porquê?
Retirou a cabeça da mesa. Endireitou-se e recostou-se na cadeira. Tirou um guardanapo de papel, limpou as lágrimas e confessou-me:
- Não sei o que será de mim. Estou na miséria. Já estou arrependida de sair de Cuba. As coisas que trouxe, as minhas irmãs estão a roubá-las. Já me resta pouca coisa, ou quase nada. Para conseguir trabalho, temos que foder com o chefe. Temos que ser amantes dele. Durmo numa cama com duas irmãs. É quase impossível dormir.
- Tens pai e mãe?
- Tenho. A minha mãe está no Caxito, nasci lá. Tem uma lavra grande. Quando as coisas que semeiam começam a despertar, os filhos roubam-lhe tudo. O meu pai é do Uíge. Se houvesse um campeonato de ralis de mulheres grávidas, o meu pai ficaria em primeiro lugar. São tantas, tantas, que ninguém consegue saber quantos filhos é que ele fez. Nem ele se lembra.
- Mas isso não faz parte da vossa tradição?
- Isto é tradição? São mas é uns grandes atrasados de merda. Estou à espera que ele me arranje um quarto, numa casa que lhe pertence próximo ao bairro militar. Onde está – salvo erro – a quarta ou a quinta mulher.
- Onde estás neste momento, também é de uma das suas mulheres?
- Sim. Ele conseguiu dominá-la. Ela troca dólares. Já lhe fez quatro filhos. Quando vem em casa, apanha-a distraída e rouba-lhe o dinheiro, depois sai com uma mulata que tem carro e casa. Quer impressioná-la dizendo que dinheiro não lhe falta. A mulata já está grávida.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

AS CINCO MAGNÍFICAS (06) Contém cenas eventualmente chocantes



Chegámos ao largo. Quase grito:
- Estive mais de uma hora à tua espera. Depois perdi um tempo precioso com as tuas colegas. Como se não bastasse, ainda demoraste mais tempo nas suas casas.
- Desculpa, não sabia que ficavas chateado. Olha, amanhã vais conhecer a minha casa. As vacas das minhas vizinhas já sabem. Uma delas já nos viu e falou com as outras. Elas podem fazer tudo o que quiserem. Mas porque arranjei um branco vão cochichar que sou prostituta. Elas são assim. São muito invejosas, e quando uma de nós tem um marido branco pensam que já somos ricas., que não nos vai faltar nada.
Quase não conseguia raciocinar. Fiz um esforço. Pela primeira vez compreendi que manter relacionamento com uma negra era assaz complicado. Gilda antes de se despedir, faz-me um pedido:
- Dá-me algum dinheiro para comprar alguma coisa para levar para casa. As crianças estão cheias de fome.
Dei-lhe o suficiente. Chegava e sobrava, ela ficou muito alegre:
- Meu querido, vou comprar frango assado e batatas fritas. Hoje vai ser festa lá em casa. Gostas de mamada? Adoro, e tu? Amanhã espera-me aqui ok?
Notei que brevemente este relacionamento seria um fiasco. Estava interessado em ver o seu desfecho. Limitei-me a dizer:
- Sim, aqui onde o vento faz a curva.
- Onde o vento faz o quê?
Não entendeu, não estava minimamente interessada. Afastou-se com algumas risadas.
A rua era estreita. Tinha cerca de quatrocentos metros de extensão. Dois carros que se cruzassem tinham que o fazer com muito cuidado. Era ladeada por vivendas construídas pelos colonos. Algumas tinham muros. Quando chovia a rua ficava quase ou mesmo intransitável devido à lama que se acumulava. Ao fundo havia uma cratera,devido às águas dos esgotos que aí se juntavam. O panorama era desolador. A casa da Gilda ficava no fim da rua. Até lá chegarmos fomos recebidos com vários olhares cheios de curiosidade. Gilda recomendava:
- Não ligues, deixa-as olhar.
Entrámos, o recheio da casa era pobre. Gilda desculpa-se:
- Não tenho quase nada em casa, ele levou-me tudo.
As crianças estavam na vizinha do lado. Gilda confidencia-me que ela é boa pessoa. Chegam e noto que os seus olhos são demasiado largos para a sua idade. Diz-lhes para tirarem a roupa e tomarem banho para se irem deitar. São duas meninas e um menino. Os seus corpos nus são iguais às imagens que circulam pelo mundo. Quase não tem carnes, apenas ossos. Sinto-me horrorizado com a fome que estas crianças têm passado. Todos os dias vão para a escola. O seu rendimento escolar será em vão. Durante os momentos que com elas convivi, revelaram-se encantadoras. Tinham dois, três e quatro anos. Gilda enviou-as para a cama. Preparou uma refeição de ocasião acompanhada por duas garrafas de vinho tinto do mais barato. Os mosquitos não nos largavam. Eram muitos e fiquei com receio de apanhar paludismo. Terminámos de comer, Gilda mostra-se ansiosa:
- Vamos fazer uma grande mamada.
De manhã dirigi-me para o quarto de banho. Fiquei surpreendido ao ver que a sanita estava entupida. A trampa escorria. Havia um quintal amplo. Proveniente do esgoto a água estagnada acumulava-se. O aspecto era confrangedor. Gilda fica a olhar. Perante o meu ar interrogador afirma:
- Isto necessita de uma reparação. Não tenho dinheiro.
A sua amiga tinha uma casa na praia. Fomos lá passar o fim-de-semana. As crianças estavam muito contentes. Devido à alimentação já estavam a ficar gordinhas. A casa tinha dois pequenos quartos. Estávamos a fazer amor e vejo na porta aberta a sua amiga encostada, completamente nua a olhar para nós. Ela passava a maior parte do tempo a ler no quarto. Pela janela avistava-se o mar. A amiga da Gilda continuava a provocar-me. Sabendo que estava só continuava a mostrar-me a sua nudez. Falei com a Gilda sobre o comportamento dela:
- Ela não tem marido. Assim, quer dizer que está aflita para foder.
À espera no aeroporto, Gilda continua a chegar tarde. Agora já são três amigas para transportar. Devido a isto chego sempre a casa tarde. Não adianta nada chamar-lhe a atenção. É como se nada acontecesse. Gilda diz que as meninas estão com paludismo. Pede-me dinheiro para comprar os medicamentos. Comprei um par de sapatos por um preço razoável para a sua irmã. Fui a sua casa e fiz-lhe a entrega. Ficou radiante:
- São muito bonitos. Tens que comprar também para as minhas quatro filhas. Não penses que andas a foder a minha irmã de borla.
Fingi que não ouvi. O telefone toca. Ela atende:
- George é para ti, a Gilda quer falar contigo.
- Filho, estou no hospital com as meninas. Vem-nos buscar.
Apanhei a Gilda. Disse-me para passar em casa de duas amigas. Depois das conversas inúteis que tiveram e o muito tempo perdido, ainda tinha que fazer umas compras. Preferiu ficar no largo onde o vento faz a curva:
- Ficamos aqui. Algumas vizinhas já estão a falar muito. Não podem ver uma negra com um branco. Putas de merda. Amanhã apanha-me às seis da manhã. Um dos meus irmãos disse-me que tem uma caixa de peixe para mim.
Depois de deixar o peixe na sua casa, levámos as crianças à escola. Gilda retira um espelho do seu saco de mão. Olha para ele e passa a mão pelo cabelo. Lamenta-se:
- Querido, o meu cabelo não está em condições. Deixa-me no cabeleireiro.
- Não vais trabalhar?
- Oh, as minhas amigas não me vão marcar falta. Ninguém vai notar a minha ausência.
- Eu tenho inúmeros compromissos profissionais a que não posso faltar.
- George tu és chefe. Um chefe deve chegar ao serviço sempre depois das nove, ou quase às dez horas.
Depois do aeroporto o roteiro habitual. Gilda lembrou-se que outra das suas irmãs ia passar a noite em sua casa, mas ela não apareceu. Tinham um óbito de um sobrinho e não podiam faltar ao velório. A rua estava interrompida por um camião que avariou. Não havia lugar para passar. Tive que atravessar pela cratera de água putrefacta. Se o fizesse mais vezes depressa ficaria sem carro. Perguntei-lhe:
- Gilda a tua família é muito numerosa?
- Somos muitos. Tenho muitos irmãos e irmãs. Conforme a tradição, o meu pai fez muitos filhos com muitas mulheres.
- Acho que isso contribui para a miséria do povo africano.
- Eles pensam que se fizerem muitos filhos, algum há-de chegar a ministro.
- Agora já entendo. É por isso que todos querem ser chefes.
Deixei-as no óbito. No outro dia ela não iria trabalhar. Ou melhor, fingir que ia trabalhar.
Recebo um telefonema dela a dizer para a ir buscar no óbito. Quando chego o carro é invadido. Toda a gente quer boleia. Enquanto decidem quem vai e quem fica aguardo impaciente. Discutem interminavelmente devido ao álcool consumido. O tempo passa. Indeciso penso dar à ignição e pôr-me a andar. Gilda entra com a sua comitiva. São todas mulheres. Cinco sentam-se no banco de trás. Ao meu lado a Gilda está com uma sentada nos seus joelhos. Lembro:
- Levamos pessoas a mais, a polícia vai-nos incomodar.
- Manda lixar essas merdas. Não tenhas medo. Nós falamos com eles.
- Sim, mas eu é que sofro as consequências.
Gilda falava muito alto. As suas acompanhantes também. Estavam com os copos. Eram todas jovens, pelos vinte e cinco anos. Estavam a comer milho e cana-de-açúcar. Um saco de plástico com farinha de bombó rasga-se. Descarreguei a carga nos destinos. Exausto chego a casa da Gilda. Ela vai ao quarto, regressa e pisca-me um olho: