sexta-feira, 21 de setembro de 2012

AS CINCO MAGNÍFICAS (12) Contém cenas eventualmente chocantes




Não estava disposto a participar no enlace que me estava a ser preparado. Olhei para o relógio e fingi:
- Tenho um compromisso que não posso adiar.
Ela insinua:
- Vais adiar o leite dos meus cocos?
- Infelizmente sim. Leite com cerveja é muito indigesto.
- Não me consideras bonita?
- Pareces uma pintura de Renoir.
- Renovar? Não achas que estou bem assim?
Tive que sair quase a fugir. Na saída ela diz-me:
- Depois vou-te ligar.
- Está bem.
Como previ, ela tornou-se incómoda porque me ligava a qualquer hora. A desculpa que lhe dava era sempre a mesma:
- Quando conseguir ficar disponível, vou-te dedicar algum tempo.
Numa tarde parado no trânsito automóvel, noto sinais de luz vindos de trás. Olho para o espelho e vejo que é ela. Parece que faz sinal para depois parar onde houver lugar. Põe a cabeça de fora, faço o mesmo, ela grita:
- Paramos em frente à minha casa!!!
Assim que chegámos ela mostra-se aborrecida. Repete o que antes me dizia:
- George, porque não atendes os meus pedidos?
- Já te expliquei.
- Evitas-me?
- Não.
Repeti-lhe que estava muito atarefado, e quando surgisse uma oportunidade ser-lhe-ia prestável. Estava quase no fim da rua quando surge uma jovem que me obriga a parar. Pensei que fosse alguma prostituta, ou uma tentativa de assalto. Olhei para os lados e não vi ninguém. Ela aproxima-se e pelo vidro entreaberto diz-me:
- Senhor deixa-me entrar.
Fiquei indeciso. Olhei-a bem e não vi nenhum objecto estranho. Ela diz-me de modo convincente:
- Abra a porta, a sua vida corre perigo.
Arrisquei, desconfiado abri a porta, entrou e sentou-se. Tinha entre vinte a vinte e cinco anos. Tranquilizou-me:
- Não sou mulher da vida. Como lhe disse o senhor está em perigo. Siga e pare mais à frente.
Consegui estacionar num local discreto. Fiz-lhe uma proposta:
- Acho que estaremos mais à vontade numa esplanada.
- Não, aqui ficamos bem, ninguém nos vê.
Ela viu que estava muito preocupado. Começou por dizer:
- Não me posso demorar muito. Quero alertá-lo que essa senhora é muito perigosa. Ela e a irmã formaram uma quadrilha, andam à caça de estrangeiros.
Fiquei alarmado. Exclamei:
- Não me diga!
- O estratagema que utilizam para os abordar é o chocar com o carro. A partir daí criam intimidade até conseguirem o que pretendem.
Ela adivinhou o que ia perguntar-lhe, respondeu:
- Chamo-me Sunny.
- George.
- Quando um estrangeiro lhes interessa, vigiam-no discretamente e depois com o carro, zás! Roubam-lhes tudo o que podem, de preferência os carros. Se a casa é deles, obrigam-nos com ameaças de morte a porem a casa no nome delas.
Disse-lhe com uma certa ternura:
- Sunny, você caiu do céu.
- Não, simplesmente acho a conduta delas horrível. Sou bastante religiosa e não posso aceitar uma coisa dessas. É a moda que elas agora criaram para enriquecer.
- Muito reprovável.
- Sabe George, são tão ardilosas que até lhes surripiam o dinheiro das contas bancárias.
- E a polícia?
- Muito difícil. A rede está bem montada. O importante é que evitem as suas malhas.
- Sunny, o interessante é que a Ninféia não aparenta nada disso.
- Qualquer pessoa desconfia quando entra na casa dela. As paredes estão cobertas com espelhos, para vigiar as vítimas. Está sempre a mudar de carro para passar despercebida. A média é um homem… uma vítima, por mês. Estão muito ricas, costumam passear muito na África do Sul, também em Portugal, onde tem casas, de vez em quando na Inglaterra e Estados Unidos.
Sunny despediu-se. Disse-lhe que estaria sempre ao seu dispor. Pedi-lhe a sua morada e o número de telefone. Ela não aceitou, abriu a porta do carro e pôs-se a andar.
Perguntei a George:
- Não te preocupaste mais com a Sunny?
- Preocupei. Tentei fazer tudo o que pude para a encontrar, para falar com ela. Esforcei-me imenso, e acabei por desistir. Convenci-me que era uma alma do outro mundo.

CAPÍTULO VI
JANDIRA

Já há muitos anos que a conhecia. Nasceu no Lubango. O seu pai abandonou-a imediatamente. Até hoje não sabe quem é aquele que lhe deu origem. A sua mãe não tem meios para a sustentar. Envia-a para Luanda onde fica entregue aos cuidados do seu avô. O ambiente em casa não é dos melhores, pois que se juntam vários filhos, de várias mulheres, como manda a tradição africana. Sai um filho, uma filha e surgem mais outros de outras mulheres. Cedo é violentada por um dos seus tios. Ameaçada por este, que se falasse, levaria uma grande pancadaria. Ela com medo, fica muda, e continua a ser violentada no silêncio de quatro paredes. Mais tarde mantém relações sexuais com outro tio. O seu avô vem a saber disso, e expulsa-o para a Europa. A sua ocupação principal em casa, é carregar água do rés-do-chão para o terceiro andar. Deixa de estudar porque não lhe dão dinheiro. Diziam, que se nós não estudamos, tu também não estudas.
Jandira tem vinte e três anos. É muito baixa e muito magra. Anda quase sempre a rir. É a minha vizinha da porta em frente. Costuma ficar com a chave da minha casa. Diverte-se a ver filmes. É honesta. Digna de confiança. Ofereceu-se para fazer alguns pequenos serviços domésticos. Gosta muito de estar na minha presença. Costumava dizer-me:
- Aqui estou bem, longe da confusão da minha casa. Mas não me deixam ficar muito tempo. Estão sempre a chamar-me. Jandira para aqui, Jandira para ali. Se não fosse a comida que aqui como já teria morrido à fome. Quase nunca me dão comida. És um verdadeiro pai para mim:
- George compra outra água mineral, não gosto desta.
A nossa amizade prosseguia. Tratava-a como uma filha. Jandira passava a maior parte do tempo agarrada ao telefone. A conta das chamadas subia imenso. As suas amigas telefonavam constantemente a dizer que queriam falar com ela. Eu passava o tempo a chamá-la para atender o telefone. Era muito engraçada. Pesava pouco, facilmente podia-lhe pegar e colocar no meu colo.
Abriu a porta, entrou. Sentou-se e pegou numa revista. Pouco tempo depois ouve-se a voz da sua tia:
- Jandira! Jandira!
- Poças! Não me deixam sossegada. Parece que não há mais ninguém em casa. George arranja filmes, estes já os vi todos. Vou levar duas maçãs e uma gasosa.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

AS CINCO MAGNÍFICAS (11) Contém cenas eventualmente chocantes




Voltou muito convencida, ordenou:
- Queres que prepare alguma coisa para comermos? Estou cheia de fome, e tu?
Continuava impassível. Sentia-me muito desconfortado. Ela tenta arrastar-me:
- Vou-me preparar. A nossa cama está bonita, está à nossa espera. Anda, vou-te lavar. Vou foder contigo toda a noite.
Perdi a calma. Senti-me completamente descontrolado. Peguei-lhe num braço, abri a porta e disse-lhe:
- Rua, nunca mais aqui voltes. Nunca mais te quero ver.
- George fica calmo. Amanhã não poderei aqui vir, vou a um óbito.
Depois dela sair, fechei a porta e ouvia-a chorar.
Telefonava-me a todo o momento. Eu dizia que não estava. De noite na minha casa, assistia a um filme muito interessante quando batem à porta com força. Abro e deparo-me com ela. Bato-lhe com a porta na cara. Pouco depois o telefone toca. Atendo, é ela. Desligo. Volta a ligar. Volto a desligar. O telefone continua a tocar. A única alternativa que me restava era desligar o cabo, para passar o resto da noite em paz.
George levanta-se, suspira, pega na toalha e limpa o suor da testa. Parece preocupado. São quase três horas da manhã. Vai para a porta, abre-a, sai, e diz-me:
- Meu amigo, quase que não chove. Apenas uns ligeiros pingos. Vamos para a praia.
Levámos duas lanternas alimentadas a pilhas. Montámos a sombrinha e duas cadeiras leves de alumínio. Não prescindi do cobertor. A brisa era de vez em quando um pouco forte, suficiente para afastar os mosquitos. George montou uma pequena mesa. Abriu um recipiente de plástico e colocou gambas à nossa disposição. Abriu a garrafa de conhaque, encheu o copo até meio e engoliu tudo de uma só vez. Olhou para a água, depois mirou o horizonte, mas como o céu estava enevoado, não deixava ver nada, acrescentou:
- Encontrei-me ocasionalmente com um oficial das comunicações que conhecia a Ana. Disse-me que ela esteve na sua casa, e que depois deu pela falta de vários talheres valiosos. Senti um grande desgosto na minha alma. Tive o cuidado de lhe perguntar qual era o seu valor. Mas ele recusou diplomaticamente. Senti-me muito envergonhado. Decerto este incidente seria comentado entre as chefias. Mas posteriormente não notei nada que me desagradasse. O oficial teve o discernimento necessário para guardar sigilo, e nunca mais abordou o assunto. Aliás ficámos grandes amigos. A sua esposa e filhos eram encantadores. Tinham uma educação esmerada. Ele e ela tinham o sétimo ano do liceu colonial. Recebiam-me muito bem na sua casa. Eram extremamente exigentes na educação dos seus três filhos. Não lhes permitiam o mínimo deslize. Ele gabava-se:
- Filho de oficial superior tem que ser muito bem-educado. George… somos amigos. Essa mulher com quem andas é muito perigosa. Uma prima da minha esposa é sua vizinha, deve estar aí a chegar. Vai-te contar tudo. Enquanto aguardamos vou-te servir um uísque. Preferes com gelo e soda?
- Não, prefiro puro.
Agitou a garrafa com violência. Intrigado perguntei-lhe:
- Porque fazes isso?
- Aprendi com os russos. Dizem que assim a bebida fica mais saborosa.
A prima chegou. Sou apresentado sem muitas cerimónias. Diz-me:
- Sinto imensa pena pelo senhor. Sou vizinha da Ana, e como é amigo da minha prima acho que devo contar-lhe o que sei. Ela estudou pouco em Cuba. Fizeram-lhe operação à vagina para que não pudesse ter filhos. Lá, a sua vida era apenas prostituir-se. Comentou com as suas amigas que já conseguiu dominar o branco. Quando o senhor esteve de férias engatou um italiano idoso, conseguiu ficar na sua casa como esposa. À noite anda com o carro dele no processo. Enche o carro de homens, e factura. Depois torna a enchê-lo, e factura. O parvo do italiano pensa que ela lhe é fiel. Não suspeita de nada. Anda com qualquer homem. Quando ela lhe disse que foi a um óbito, na realidade foi dormir com o italiano. Não tem nenhuma maturidade. Muitos homens gostam dessas que vieram de Cuba. Elas são máquinas de sexo, muito experientes. Fazem tudo. São verdadeiras estações de serviço sexuais. O que pretendia era explorar os dois ao mesmo tempo. Não tem nenhum escrúpulo. Essas mulheres nem se preocupam com a transmissão da Sida.
Retirei a Ana do meu pensamento. Nos meses seguintes, de vez em quando recebia um telefonema dela:
- George, o meu marido está na Itália há três meses. Tenho fome. Estou a passar mal. Deixa-me ir a tua casa por favor. Vem-me apanhar, o meu carro está avariado.
Não lhe prestava qualquer atenção. Mudou de táctica quando me telefonava:
- George, aqui fala do Ministério da Defesa, do Gabinete do Ministro.
Era duma vulgaridade impressionante. O último telefonema que atendi era quase do mesmo teor:
- George, nunca mais te vi. Porque não me telefonas? Olha, agora sou a chefe da informática do Ministério do Interior. Sou a chefe do comando. Está tudo sob as minhas ordens.
Aqui ocorreu-me o seguinte pensamento: Devemos estar sempre preparados para qualquer desilusão.

CAPÍTULO V
NINFÉIA

Num domingo de manhã pelas nove horas, a campainha da porta tocava insistentemente. Suspeitei que fossem as Testemunhas de Jeová, porque costumavam aparecer a essa hora. Antes de abrir pensei no que lhes diria. Simplesmente que estava muito ocupado, e que ficaria para a próxima semana. Era sempre o mesmo diálogo. Abri e vejo um jovem vizinho que me diz:
- Vizinho, vizinho, bateram no teu carro.
Pensei que o domingo estava estragado. Perguntei:
- É algum bêbado?
- Não, é uma senhora.
- Vamos já descer.
O meu carro não estava muito mal. Apenas ligeiramente amachucado no guarda-lamas traseiro esquerdo. A senhora disse:
- Desculpe, assumo a responsabilidade.
- Está bem.
- Fiz mal os cálculos para estacionar e toquei sem querer.
Ela pergunta-me:
- Como se chama?
- George.
- O meu nome é Ninféia.
Ela andava aí pelos trinta anos. Rechonchuda, peituda e nadeguda. Trocámos as nossas moradas e números de telefone. Ela disse para eu levar o carro a uma oficina, e depois dizer-lhe quanto seria a despesa para depois pagar.
Ninféia ligou-me e convidou-me para jantar. Disse-lhe para não se preocupar. Ela insistiu tanto que acabei por aceitar o convite. Quando entrei na sua casa, um pormenor despertou-me a atenção. As paredes do corredor e da sala de jantar estavam revestidas de espelhos. Isto permitia que quem estivesse em qualquer local, seria observado. O jantar estava na mesa, carne grelhada com batatas fritas. Para beber havia cerveja. Não me surpreendeu a exibição das suas mamas volumosas. Um ligeiro tecido fino branco, amarrado evitava que o peito caísse no prato. Ela diz qualquer coisa ao acaso:
- Se não fosse o trânsito horrível não teria batido no seu carro.
- Não se preocupe com isso. Quem anda à chuva molha-se.
Ela olhou-me com malícia. Baixou-se intencionalmente e os mamilos ficaram visíveis. Perguntou-me de modo provocador:
- George, estás a gostar do ambiente?
- Sim. Não sei se o coqueiro suporta os cocos.
- Ai George depende… da ventania.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Os Jasmins da Lwena (FIM) Se o petróleo está sempre primeiro, a fome está sempre no último lugar.




Eras como o pranto dos jasmins, que ainda conservo no mesmo canto da alcova do nosso recanto. Quando enlevados, abraçados, encalhados na ventania que anunciava os primeiros pingos da agitação atmosférica próxima. Depois bem regados, enregelados. Como era possível, dois desaparecerem e ficarem um só corpo? Ainda não consigo entender, para onde ia o que acontecia ao outro ser.
O meu sonho, os outros sonhos, terminaram. Só os pesadelos começaram, recomeçaram. Não há porvir enquanto este governo e os seus aliados internacionais persistirem em nos reduzirem a pó. A seguir, o que resta do divino vai, ruirá. Perco muito tempo à procura das nossas palavras perdidas quando revivo o passado no ferro de engomar. Cada peça de roupa retrata os momentos dos dias. Depois de tudo terminar, alimentamos o lamentar. Onde tudo começa e acaba só a morte o sabe.
Onde estás, para onde fores lembra-te de mim, há sempre um jasmim. Remodela os nossos passatempos com novos pensamentos. Encontraste os jardins eternos dos jasmins. Planta-os, rega-os. Finalmente tens tempo para encontrar o amor vencido. O paraíso da morte está sempre desperto no meu desespero de viver ao pé de ti, tão perto. Tarda, mas sei que vai chegar, me vai libertar. E só a morte nos liberta. Aqui continuamos no nascer e crescer desesperados… acorrentados, desejamos galgar as montanhas da feroz ditadura. Quando um simples monte se torna um obstáculo intransponível, deixamo-nos vencer, obedecer a qualquer voz de comando. E obedientes de medo nunca venceremos, nunca triunfaremos. Tantas e tantas fardas por todo o lado. Luanda é um gigantesco quartel militar.
O amor perdido é como a fome. Quando conseguimos comida saciamo-lo. E acreditamos que ele está próximo, que voltou. A comida voa sem retorno, as asas do amor também. Quando da fome me libertar, prometo amar o amor. Até lá adquiri a certeza, tenho o direito de me revoltar porque não me deixam alimentar, nem manifestar. Quase meia centúria mal conduzida para o trânsito proibido dos tubarões onde não se pode amar. Nem o trigo nos deixam semear. Os campos estão lavrados, armas neles vão plantar. O problema da fome já está resolvido, vão-nos eliminar e não terão mais despesas para nos suportar. Têm muito tempo para dispararem, para nos matarem. Nem um segundo para amarem. Grande parte do tempo da nossa vida é gasto em eleições, e sofremos com estas desilusões. Porque ainda não se legalizou o partido político do amor. Se critico a Igreja sou excomungada, herética hierarquizada. Se blasfemo o Islão, espera-me a Jihad, a intifada, a cimitarra. Se ouso opor-me ao comunismo, enviam-me para um gulag. Se luto contra o capitalismo, prendem-me porque persigo o marxismo. Se exijo a parte do rendimento do petróleo que me pertence, prendem-me ou assassinam-me por incitação à violência. Se faço uma manifestação contra a corrupção, premeiam-me com seis meses de prisão. Se denuncio as democracias ocidentais que repartem os biliões de dólares com os seus amigos petrolíferos, eliminam-me, acusam-me de nacionalista. Se exijo emprego e pão, dão-me o sarcasmo da fome. Se não sou militante do partido do governo, espancam-me.
Se há muita fome e miséria surgem muitas frentes de libertação nos enclaves. Se há um só Deus, porque existem guerras religiosas?! Se há tiroteio depois das eleições, é porque o partido que governa é o melhor, insubstituível, imperdível.
Se o petróleo está sempre primeiro, a fome está sempre no último lugar. Se me emprego na prostituição, o único emprego que há e onde a concorrência é tão elevada, desleal, que obriga a preços muito baixos... prendem-me porque sou debochada, sem carácter.
Se as iluminadas, ortodoxas, peculiares… igrejas teimam, queimam-nos com o sol das teocracias… são estas, as subserviências das democracias. Se não tenho luz e água, um qualquer arauto tranquiliza-me: «A revolução ainda não terminou». Se sai um colonizador entra outro. Se não tenho direitos, perdi a existência, a minha defunta independência, não sou ser humano! Perdi-me! Onde está a minha liberdade?! No próximo movimento de libertação!
Fui às compras na cidade próxima, não tive sucesso. As mulheres fugiam muito preocupadas, perguntei-lhes: fogem porquê?! «Estávamos muito bem, de repente sentimos chicotadas nas costas». Sabem quem foi? «É um jacaré, um espírito. Toda a gente está a fugir com medo Ninguém consegue escapar-lhe».
E findamo-nos sem essência, sem o germinar das lápides atiradas ao abandono do tempo. Depois reencontradas nas cavernas escuras e escusas, sem a iluminação da alta voltagem inofensiva do sublime amor. Esta história humana presente é o calvário, o purgatório, o martírio do amor sem a proporção divina das zebras desequilibradas entre o amar e sem viver. Condenámo-nos à nascença a amar, mas recusam-nos, teimam em nos odiar. Não é ser, é ter alguém no Governo em quem confiar. Não existe nada de divino em que acreditar. Temos que apreender a dizer não, a este faz-tudo de amor clonado em vão. Evitemos que estes vendedores revendam o ardor da paixão. Não podemos resumir esta contenda nos gestos augurais das suas vestais até já continentais. As plantas ondulam porque amam o vento. Se ele lhes faltasse o ódio reinaugurar-se-ia de verde amarelecido. As asas do estímulo vivencial são o código genético desconhecido que nos faz voar, perfumar, o aroma para amar. E quem isto ousar proibir, também será proibido. Os sensores do amor quando activados desordenam-se. No futuro serão bloqueados porque perigarão os instrumentos sensíveis das naves interplanetárias. E será imaginado, recriado um longínquo planeta amoroso para amantes eternos. É que os circuitos do amor desafiam as leis e a velocidade física. Não há, nunca existirá máquina que calibre a sua invisível intensidade. Porém, ele, o amor, esforça-se e tem mais que força, perenidade para viajar pelo infinito do Universo. Deixai que os sedentos bebam da sua água pura, para que a impureza humana na poluição das águas não cause pandemias, e aconteça a sua extinção. Apenas um minuto de imensidão amorosa vale milhões de anos planetários. Para quê lutar se estamos sempre presos nos tentáculos das suas areias movediças, acariciantes, desse eterno sentimento. Tudo se extingue e parece em vão, o amor não! O amor tem muitas pernas mas quatro estão sempre presentes: duas femininas e duas masculinas. O útero da deusa mãe aguarda o seu convidado e os pés dos amantes movem a escala Richter.
Promete pois que amarás o amor e que nunca te cansarás da sua tentação. A diferença que existe entre o rico e o pobre é que o pobre é rico de amor. E o rico vive na pobreza espiritual à procura do amor. A plenitude virá quando soarem as badaladas cardíacas, rítmicas do relógio bioquímico do nosso coração. Não haverá tormenta que nos domine, que nos separe, porque estamos acorrentados, desmaiados nesse sem sentido, perdidos nos outros sentidos. Que se santifiquem os mártires do amor, e que nos próximos tempos um salmo planetário seja cantado na cosmologia. E dos suicidas infelizes apenas porque amaram… serão edificadas estátuas de beijos com luz estelar aos viajantes espaciais com a inscrição:
AOS INFELIZES DO AMOR TERRENO QUE APENAS AMARAM
Imagem: Aléxia Gamito






































segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Os Jasmins da Lwena (35) São os segredos ocultos dos cultos religiosos.





ESTA EPOPEIA ÍNVIA
O vírus da democracia: «O bicho da democracia mordeu e o vírus vai espalhar-se rapidamente pelo organismo político do mundo árabe. O resto da humanidade deve ajudar este vírus bom a espalhar-se e a gerar a pandemia da democracia.» Mondi Makhamya, comentador sul-africano.

Nascemos, porque a isso somos obrigados. A tragédia humana necessita de actores. Sem nos darmos conta, o teatro humano absorve muitos figurantes. Uns representam bem, outros tentam, não conseguem. No fim resta-lhes o bater palmas. A vida é uma representação sem teatro. Quem nela não conseguir representar o seu papel de actor, será esquecido. Apenas lembrado de vez em quando numa qualquer cova de terra. Sobrarão os ossos para encenações rituais, de seitas, cultos religiosos que nos esperam, nos espreitam nas nossas portas, nas janelas das nossas mentes. Os nossos restos mortais não acabam, alimentam o tráfico da sobrevivência da feitiçaria que resta dos milenares cultos escondidos, disfarçados. A luta actual é final. Os cultos que o Cristianismo pensava extintos, regressam em força. Retrocedemos na história, viajamos no tempo, ao reencontro das nossas origens. Os espíritos dos nossos antepassados regressam, estão de volta. Nenhuma religião pode aniquilar outra.
Dois milénios de história são insuficientes para isso. Este inferno em que vivemos tenta acabar com o renascer do Caminho. Uma seita religiosa tentou acabar com as outras, não conseguiu.
Estranhamente, lembro-me dos celulares, esses dispositivos da tecnologia avançada do primitivismo, do menir, da anta, do altar que necessita sempre de sacrifícios, para carregarem as baterias dia e noite. Da civilização da pilha e da bateria de pedra.
E há quem acredite que estamos num estágio muito avançado da evolução. Perdemos o tempo que nos resta da vida a pressionarmos teclas com os dedos. Alimentamos as pilhas que restam da civilização. As teclas do amor que alimentam o nosso coração, não se pressionam. Que o amor é uma ciência, uma arte. Malditos dissabores sejam estes. Conheci e vivi no sistema que me obrigaram a seguir. Lutei com as minhas forças dia e noite para o manter. Mas com o tempo descobri que era enganador, ditador.
Obrigada a seguir leis, doutrinas que acreditava serem correctas: Amarás a um único deus para sempre. Para seres recompensada na vida, terás que trabalhar como uma escrava. Porque no fim receberás muitas recompensas e terás uma velhice condigna. Não desprezes o teu pai e a tua mãe. Respeita, obedece aos teus superiores, porque serás recompensada. Elogiada na glória dos céus. Não cometas adultério, e sobretudo nunca faças amor com os teus pais. Nem com os teus irmãos, porque isso é contrário às leis da Natureza. Evita o descanso, porque o teu patrão espera, desespera, vigia-te constantemente. E sem ele nunca serás ninguém, porque é ele que te paga pelo teu trabalho. E se não te pagar não terás dinheiro para comer. Morrerás de fome, tu e os teus. Por isso, ajoelha-te perante ele. A Igreja abençoa-o primeiro, e depois virás tu, porque a Igreja sem eles não subsiste. Arrasta-te e não penses porque serás excomungada, queimada nas fogueiras seculares das oficinas abençoadas do sangue do Santo Graal. A tua missão é trabalhar e obedecer-lhes. Se assim não fizeres, se tentares descobrir o Caminho, teremos que te aniquilar. Porque o muito pensar faz descobrir coisas de Giordano, de Galileu, de Da Vinci e outros apócrifos.
O nosso tempo não tem espaço. Os nossos teólogos estão atentos. Deus, seja ele quem for, aquele que inventámos, o nosso Deus que nos domina, que nos controla. Que domina as mentes dos homens, essa entidade implacável que nos nomeou como seguidores eternos. Ele que nos deu o poder para governarmos a Terra. Por isso somos os senhores do Universo e de tudo o que nele vive. Não toleramos oposição, e muito menos iluminados. O seu seguidor papal é infalível, em tudo no que diz e faz. A verdade é, somos nós, não existe outra. Sofram e morram à fome, porque no fim o reino dos céus será abençoado com a vossa presença. Ai de quem duvidar desta eterna verdade, porque não foi em vão que inventámos o reino do inferno. Quem for a nosso favor tem o céu, quem for contra, tem o inferno. Nada mais fácil que esta sentença para dominarmos o Universo das almas perdidas que nós criámos e alimentamos. Só existe uma verdade absoluta. Somos os detentores dessa verdade que criámos com o apoio das mais abomináveis mentiras. A vida sem mentira não tem significado e para a apoiar, acabámos com o útero dos carvalhos, e gerámos a grande hipocrisia divina. Esse demónio de duas patas, esse bípede selvagem indomável.
Que não receia a escuridão da mente. Na dúvida aproxima-se e pede-nos auxílio, porque se sente tranquilo, dominado. Apenas com a apresentação de uma vulgar cruz, reis, príncipes, grandes senhores foram dominados. Porque não terá que continuar assim? A verdade é o temor eterno das coisas, e quem se aventurar a descobri-las, o Caminho que conduz ao Deus deles, terá funestas consequências. Porque quem o descobriu primeiro, esses são os eleitos e nenhum deus admite concorrência. Uma empresa poderosa que domina o mundo aceita outra no mercado?! Não! Porque isso é desleal! Acorrem de imediato os seus defensores contratando os melhores advogados. São os segredos ocultos dos cultos religiosos.
Uma grande empresa de negócios mundial é como uma grande igreja. Os negócios têm uma religião, a igreja também. De modo que, como somos todos cegos, estamos impedidos de o ver. As searas plantadas que os nossos pés delimitados pelos campos minados da história da infâmia esbarram panfletários: NINGÉM MAIS ROUBA! APENAS NÓS! EU!
O silêncio da noite interrompe-se pela vozearia contaminada, alcoolizada pela hipocrisia do Ocidente que finge, apoia, tiraniza as repúblicas do petróleo que nos exterminam. Onde estão, onde ficam os intelectuais!? Perderam-se algures offshore e onshore. Um povo não se conhece pela riqueza do solo, do subsolo. Um povo é rico pelo número dos seus intelectuais. Nunca pela adorada propensão alcoolizada, fomentada, injustiçada. Não havendo justiça, há muita mão à disposição.
Para amar basta brotar, gostar de dois promontórios e uma fenda. Não, não gostam… fingem. É um sentimento vago, que se esvai como a cópula. É um prazer momentâneo. O ser humano habituou-se a não perder tempo com as súplicas da Natureza. E os banqueiros nunca dormem, obrigam as marés dos mares de gente a apressarem-se, a carregarem as ondas do papel-moeda. Que tem um som similar à ondulação, um canto, um cheiro matinal superior ao do mar, universal. Fabricam tudo.
Não sabem que conseguiram criar fábricas onde o amor sai enlatado? Agora tudo serve de negócio. É verdade! Quero amar, vou a um supermercado e compro uma lata cheia de amor. Levo-a para casa, abro-a, apresento-a ao meu amado. E aí temos uma noite grandiosa de suspiros e ais enlatados. Depois despejamos tudo na pia, e o destino é o mar. Podem imaginar como o mar se sente. Nunca pensaram nisso, repararem que todo o planeta assim procede. As pessoas sentem remorsos quando se aproximam da espuma branca marítima.
Porque sabem que os restos do seu amor andam por ali perdidos. Creio que têm receio que os oceanos engravidem. E que as marés ao encherem inundem a leveza da neve transparente. As areias das praias com… como filhos enjeitados. Para quê tê-los, se não há tempo para os educar. Não se lhes dispensa nenhuma atenção. Nem sequer os levamos para contemplar uma árvore… para quê se o verde já foi comprado por algum dos inúmeros banqueiros e insconstitucionais. Isto é assim: entre fazer amor e gerar um filho, há que escolher. Dez minutos de coito, e o dinheiro no seu banco deixa de render. Os pais teimosos que conseguem fazer filhos, no fim têm a surpresa habitual. As poupanças nos depósitos bancários utilizam-se para pagamentos a psicólogos e psiquiatras.
Ouvi um grande cientista afirmar que esta é a civilização da psique, a psique do dinheiro. Nada mais fácil. Para enriquecer rápido basta tirar um curso desses que explica como curar a mente. Estamos a gerar filhos idiotas para internamento psiquiátrico. Há uma degeneração somática devida às fobias que assolam constantemente a mente. É quase um milagre dormir em paz. As funções genéticas alteram-se porque o sono não consegue ser reparador. Somos todos pacientes, acordamos a qualquer momento da noite com pesadelos. Não conseguimos dormir mais, e se insistimos acordamos com espasmos violentos. Porque não conseguimos retirar as preocupações que dominam o nosso cérebro. Este, quando a claridade do dia surge está como bêbado. Como se acabasse de jorrar uma garrafa de uísque. Na tentativa de o ajudar, fuma-se um cigarro, depois outro. As próximas noites serão continuadas como uma floresta virgem, onde aparecem escavadoras que desflorestam o sono reparador das noites. Surge a saída: os tranquilizantes que no início resultam, mas depois vazam-nos a existência. Porque não existe paz para a mente. Os filhos gerados desta mutação sem o verde planetário, que existia, recebem os dotes dos progenitores e a sua missão é muito simples: Destruirem os bairros, as cidades, os países, a Terra.
 Não há nada… nem ninguém que não se enterre nas comissões das corrupções sectoriais que enchem os destemperados petrolíferos da fome. Oh! Como vos desnaturais!
Acabou a vigarice da independência, voltei a lavar roupa. Consegui emprego como lavadeira. Lavo e engomo. Regressei ao passado colonial pois então! A minha luta com o tanque de esfregar os tecidos não pára. Não consigo vencer o tanque. Há sempre roupa para lhe colocar e lavar, e a ferro passar, engomar. A senhora proíbe-me de almoçar. Com fome saio fraca, quase a desmaiar.
Meu Jasmim Branco! Foste e deixaste, abandonaste-me a tua Jasmim da Noite.
Eras como um alaúde sem Idade Média. Não ouvirás os beija-flores. Não verás mais o prodígio do equilíbrio do seu sugar. Nem as marés quentes que se estendem, horizontais., e verticais sob os mangais. Alarmam, chamam os caranguejos das marés. Que se desabrigam a saírem das suas caves inundadas.
Caminham como aranhas na maré-cheia, rotina marginal. Não me verás mais ondular no verde intenso do capim. Sem ti, senti a memória passada do meu biquíni. Na frequência oscilante da fragrância marítima.
Sei agora que após a tua despedida da vida, o amor deixa rastos invisíveis, invencíveis. O Taj Mahal e o Mausoléu de Halicarnasso não superam a grandiosidade desta tua prematura púbis cabeluda, onde anotavas, apontavas, desfloravas qual densa mata do Maiombe.
Na eterna espera do teu regresso talvez estejas a um minuto, ou biliões de anos-luz num longínquo desconhecido. A distância que nos separa desse muro cósmico, será nos próximos milénios assegurada. Quando os vindouros proclamarem o ressurgir da vida do suspenso momentâneo actual. Por aqui cada dia tudo está a ficar demasiado violento. As tempestades, os ventos, ultrapassam as maiores batalhas. Rompem facilmente a História destas muralhas.
Eras a minha sinfonia, a harmonia, antes da agonia outra vez deste mar. Deste colapso esverdear. Até os pássaros deixaram de voar. Secaram tudo. As florestas, os bosques, os rios. Esconderam o encantar do já nada existe para amar. Tudo está esclarecido, estarrecido noutra dimensão a pairar. Nos confins da inconsciência do reduzir outra vez tudo a pó.
Outra melodia será universalizada quando este Jesus Cristo acabar e outro surgir do fundo das águas. Ele está a ser modelado, e desta vez para sempre será libertado. Não ouvirão parábolas, apenas o seu olhar de compaixão. Para os maldosos, crentes insistentes, não existirá perdão. Grande reconstrução, um gesto e uma bênção.
Imagem: Aléxia Gamito