sábado, 14 de junho de 2014

27-30Mai14. República das torturas, das milícias e das demolições





Diário da cidade dos leilões de escravos

27 de  Maio
Pedrovski Teca no Facebook: “Bombaaaaaa!!! regime propõe empregos para jovens do movimento revolucionário. Foi com grande choque que um tal de senhor Jelson, usando o numero +244 946 387 495 ligou-nos dizendo que há vagas na SONANGOL para os membros do Movimento Revolucionário que falam as línguas inglesa e francesa. Acrescentou que o salário a ser pago será de U$D 18.000.00 a U$D 15.000.00 (dezoito a quinze mil dólares) por mês. Isto é um insulto! Os membros do MRA e activistas cívicos não estão à venda. A nossa causa não tem nada a ver com as nossas barrigas mas sim pela defesa do interesse do povo. Liberdade ou morte!!!”
Ainda de Pedrovski Teca: “Por causa da manifestação, o regime não deixou que o jornal semanário Folha8 fosse impresso e que saísse às ruas. Algo que sempre acontece antes de uma manifestação pública.”
O que me espanta é os chineses actuarem como colonizadores, e isso ser aceite com a maior das naturalidades. Mas a pressão do vulcão aumenta, é iminente o seu redemoinho.
Há sim senhor, mais um plano bem orquestrado da maldade, agora chinês/norte coreano para a restauração do comunismo – como sempre – a ferro e fogo. Pretende-se que Angola seja outra vez a pátria do comunismo em África. O que resta das terras ainda em poder dos mwangolés serão espoliadas. Vêm aí mais confusão da grande, pois então. É que os milhares de chineses e depois também os milhares de norte-coreanos que chegarão, que na realidade é um exército para defender as tais conquistas da revolução comunista em Angola. Entretanto a censura cresce até chegar o momento do silêncio total.
Os estrangeiros chegam ávidos para o saque de Angola. Depois descaradamente afirmam que a economia de Angola cresce, que Angola se desenvolve, tem uma economia forte, é um paraíso, e que em Angola não há miséria. Que Angola é um país que segue o rumo certo do desenvolvimento, onde se nota claramente que nos rostos das crianças os seus olhos irradiam felicidade, pois fome, isso em Angola não existe, e que só existia no tempo colonial. Afinal a propaganda norte-coreana já se instalou em Angola.
JPA Luanda no Facebook. “Estamos juntos na honra e respeito por Ganga, Kamulingue, e Kassule, afinal o ELISIO soldado da usp, disparou mortalmente ao GANGA, por causa das mortes injustas que nós estávamos a repudiar.”
Os orientais que fazem as obras que depois se infestam de fendas, são os mesmos que as voltam a reconstruir num ciclo de infindável corrupção. E como se não bastasse, os acordos de cooperação/corrupção reforçam-se entre sorrisos e fortes abraços de amizade. É o vale tudo para continuar no poder. Entretanto, os frutos dessa cooperação/corrupção são bem visíveis na boca do povo que incansavelmente diz: «Vão ver nos hospitais, estão sempre cheios!»
Cada vez me convenço mais de que no Elinga Teatro descobriram petróleo, e por isso mesmo vão demoli-lo.
E por mais que tentem não conseguirão impor outra vez aqui o marxismo-leninismo. E se insistirem é porque são loucos.
Violência, só violência. Significa dizer que estamos perante um Estado em que a principal norma de convivência é a violência. Então, que será de nós?
Mas é mais que claro, quem constantemente cita os outros não tem ideias, e o mais grave, nunca será original. Pobre de quem perde tempo com tais personagens, porque a elas se iguala.
Ouvi os seguranças a falarem que agora se eles se enfrentarem com os bandidos não lhes podem disparar, têm que os apanhar à mão. Os seguranças a partir de agora não podem ter armas. Mas como, dizem eles, é que os vamos apanhar à mão se eles andam armados? E o que será de nós? Os bandidos vão assaltar mal. Isto está de mal a pior. Antes era insegurança, e agora será o quê?
Não parece, mas a situação em Luanda é extremamente grave. A violência política e social alastra, chegou a níveis de matadouro. O Poder treme e elimina adversários porque os biliões de dólares são para os lordes, para portugueses, chineses e para os amigos do petróleo. Claro que se aguarda nos próximos tempos o descontrolo da situação. Qualquer um chega à nazi e porque não gosta da nossa cara elimina-nos. Será o eu mato, tu matas, ele mata.
De fonte fidedigna. Esta é a Luanda do para facturar tem que se matar. É assim que o banco millennium faz na rua rei Katyavala. Tem um potente gerador nas traseiras do prédio que faz barulho dia e noite e lança fumo que mata crianças. As janelas e portas têm que se fechar quando o vento está de feição. Mata à vontade porque o Poder assim lhe ordena. Promotores da violência e da morte sempre convencidos que a eles nada lhes acontece. Eles são a lei. Mas é por estas e por outras que as revoltas nascem.
28 de Maio
Para quem ainda acalentava esperanças na instauração da democracia que procure outros caminhos, porque os actuais já não existem. Quer queiram quer não, virá muita confusão, porque o que se pretende é o lançar-nos na escravidão.
Sabem qual é o actual símbolo da República Popular de Angola? É uma imagem com muitas barras de ferro.
E como nesta cidade dificilmente consigo pensar e com muita dificuldade consigo escrever, há muito que a miséria desta Angola teria mudado.
E se eu lhes disser que o exacerbar do terrorismo reside na corrupção das actividades bancárias, não acreditam? Por isso mesmo, para acabar com o terrorismo tem que se acabar com o actual sistema bancário.
Agostinho Jonas Pensador. Facebook. “Depois da confirmação de ontem que a POLÍCIA NACIONAL DO MPLA protege assassinos e luta contra os seus próprios irmãos, EU posso aqui recomendar que todos que querem participar nessa luta devem JUNTAR-SE A MIM para aquisição de BOMBAS e destruirmos em conjunto esse regime. Fui submetido a tortura gratuita, caçado tipo delinquente até que fomos apanhados.”
O partido do petróleo mergulhou Luanda no caos – lembro que Angola só existe no mapa – e nele perecerá, porque a visibilidade da sua incompetência é tal que nem um passeio da rua consegue reparar.
O partido do petróleo usa barras de ferro, e a oposição vai usar o quê? Vai continuar a usar o corpo e deixar-se desfazer como molho de tomate.
“Isto é muito dramático.” Citado pelo programa Vector da LAC, o jornal de Angola escreveu que para um concurso de quarenta empregos no sector público, concorreram quatro mil jovens.
Nota-se claramente pelo sotaque que a publicidade passada nas rádios - salvo muitas raras excepções - não é feita por angolanos, porquê? Porque a palavra de ordem é: vamos desempregar os angolanos e atirá-los para o emprego dos assaltos.
Num mundo de corruptos, o dinheiro resolve tudo.
Das 13.32 até às 14.16 horas mais um corte de energia eléctrica.
29 de Maio
O chinês já aprendeu, já grita para o mwangolé: «Ó seu c.a.r.a.l.h.o!»
E para cada mwangolé a sua barra de ferro.
Significa dizer que Angola é apenas onde há poços de petróleo, o resto é para quem a quiser utilizando a lei da força.
Das 23.24 até às 23.46 horas, a república dos apagões de Angola apagou-nos.
30 de Maio
Projecto de direitos humanos em Saurimo e no Dundo?
Onze horas e dois minutos. Na rua das Sirenes os bandidos roubaram uma garrafa de gás dessas dos doze quilos. Vão numa moto rápida perseguidos pelos polícias das motas que fazem dois disparos para o ar. Os bandidos vendo que não tinham hipótese renderam-se.
Das 08.14 até às 08.52 horas o nosso arqui-inimigo privou-nos de energia eléctrica.
16.34 horas. Helicóptero Alouette III sobrevoa-nos a baixa altitude e a grande velocidade. Não tem as cores da Polícia, tem as cores de fábrica. Trata-se de alguma aquisição? Apresar deste modelo já não ser fabricado, é considerado o melhor do mundo até hoje. A título de exemplo, o protótipo SE-3160 voou pela primeira vez em 28 de Fevereiro de 1959.

terça-feira, 10 de junho de 2014

As moribundas crianças do petróleo





Ai esta assombrada pátria de poetas
E canteiros de obras de escritores
Das crianças do petróleo repletas
E milhões de outras malfeitores

As crianças invadem os hospitais
Porque a sua desgraça é demais
Desempregados estão os pais
Os estrangeiros vivem marginais

A cidade dorme, acorda sepulcral
Mas os seus algozes em alerta, não
Crianças famintas na cidade capital
Sem merenda sem o patriótico pão

Este petróleo tem muitos mistérios
Barras de ferro educam as crianças
Nele está, vive a corja de galdérios
E colada a igreja da tríplice aliança

O petróleo tem direito a manifestação
E as crianças dormem ao relento no chão
Na miséria da sujeição sem alimentação
Crianças sem amor vítimas da corrupção

Os chineses chegaram
E as crianças escravizaram
E os portugueses apoiaram
E as crianças muito choraram

Neste amar o petróleo de tacanha riqueza
Abundam crianças de tamanha pobreza
Vivem exércitos milícias como fortaleza
Nos braços de Deus e no clero da vileza

Este petróleo continua comunista
Vive, só pensa nele é muito egoísta
As barras de ferro são a sua conquista
Da sua principal actividade belicista

São crianças da inesgotável matança
Dos lordes do petróleo da sua malvadez
E delas só restará uma ténue lembrança
Em cada um a morte impõe a sua vez

Dizem que lutam para salvar a criança
E premiá-la com tudo o que ela merece
Já se ouve o uivo do vento da mudança
A intensa propaganda comunista perece

Os lordes do petróleo são imortais
Dizem que nós estamos aqui a mais
Que somos atrasados, Neandertais
Eis a orquestra dos débeis mentais






segunda-feira, 9 de junho de 2014

18-26Mai14. República das torturas das barras de ferro, das milícias e das demolições





Diário da cidade dos leilões de escravos

18 de Maio
Às 10.59 horas os senhores absolutos do petróleo desligaram-nos a energia eléctrica.
Vigarices contabilísticas 02: chegado o fim do ano há o fecho das contas, e a elaboração do mapa do balanço, balancetes e demais peças para apresentação de contas nos serviços de Finanças. Só que a conta bancária em divisas, milhares de dólares, não aparece nas contas, na contabilidade.
Agora, os mosquitos atacam de dia e de noite e perseguem-nos em andamento. É simplesmente horrível o que as obras dos especuladores imobiliários nos fazem. Até se estão cagando para as consequências nos seus próprios filhos, pois de tão desumanos que são, a única coisa que lhes interessa é o dinheiro, e os seus filhos que se lixem, quanto mais os dos outros. Definitivamente o demónio instalou-se em Luanda.
António Setas, no Facebook. “Rua! Rua! Por favor, ou sem favor, RUA! Meus senhores estamos à espera... RUA! Saiam! ... É só sair e dar lugar aos outros que estão na fila há mais de trinta anos! Não custa nada.”
Às vezes fico a pensar: mas os governos apenas servem para saquearem as suas populações?
19 de Maio
Depois de vinte e oito horas a energia eléctrica reaparece às 15.24 horas. Pergunto: para que serve a energia eléctrica em Angola?
Brevemente será a primeira peregrinação ao santuário do nosso senhor do petróleo. Esclarece-se que esta peregrinação será muito concorrida, pois este santuário arrasta multidões sem acesso ao tal precioso líquido que faz muitos milagres económicos em Angola.
O Censo. Quando o jovem inquiridor me perguntou sobre a água e a luz, deu-me uma grande vontade de rir à gargalhada, mas contive-me, ri-me censurado, o jovem também riu. E quando também me perguntou se tinha rádio eléctrico, respondi-lhe que não, só tenho rádio a pilhas. Para mim este Censo tem duas falhas graves: uma, não fui questionado sobre a habitação que está, pode-se dizer, em estado de desmoronamento, aliás como todos os prédios de Luanda. A outra é sobre o Governo, se funciona bem ou mal. E ainda falta o questionamento, se é bem atendido nos hospitais. E o quantas vezes já foi assaltado. E se confia na Polícia. Fico a pensar que, para que serve este Censo se há muito tempo todos sabemos como a miséria funciona.
20 de Maio
Este petróleo mata com muita facilidade, foi feito para matar. Segundo a Rádio Ecclesia, um polícia na zona do cavalo branco, em Luanda, matou a tiro um taxista de trinta e seis anos de idade, deixando seis filhos abandonados, pois a sua esposa não trabalha. Acrescento que são mais seis assaltantes, coisa que este Governo é hábil em fabricar. Podemos chamar a esta cidade, a cidade da república do petróleo dos assaltos.
Administradora municipal do Xinguar. “O Censo é bíblico!”
Mais uma epidemia avassala Angola. É verdade! Uma epidemia de poluição religiosa. Escuta-se por todo o lado a pregação do evangelho, e para isso basta qualquer energúmeno andar com uma bíblia. O grande perigo de mais esta epidemia é que a poluição religiosa também é corrupção.
A hipocrisia é o pai e a mãe da corrupção.
Fiquei, ficámos, trinta horas sem energia eléctrica porque os tais engenheiros mexeram nos fios, provocaram um curto-circuito entre fases. A portinhola à entrada do prédio parecia que ia explodir a qualquer momento e incendiar o prédio. Todos a fugirem convencidos de que o fim anunciado das sagradas escrituras se cumpria. Incrível! Passados quarenta anos e ainda vivemos assim, sem futuro. A EDEL veio e resolveu o problema. Mas os culpados da engenharia do poder popular nunca são responsabilizados pelos estragos que causam. Pelo contrário, sem a justiça que lhes caia em cima sentem-se incentivados para prosseguirem, destruírem. Há quarenta anos nisto!
O empresário mwangolé está no óbito do tio. Canaliza os fundos da empresa para os comes e bebes. Os dias vão passando e o salário dos trabalhadores, - mas o que é isso, trabalhadores, isto é permitido por lei, existem trabalhadores em Angola? - é pá, eles que se danem, esperem se quiserem, se não estão contentes zarpem para Lampeduza ou Mellia. Mas, os trabalhadores mwangolés dizem que os brancos portugueses já receberam os salários deles sem qualquer problema. Afinal branco é gente, mas os mwangolés dizem que isso é separação. E só no dia 15 de Maio os mwangolés começaram a receber os seus salários. Isto significa que trabalhar numa empresa mwangolé não dá, porque se o dono, ou donos tiverem óbitos, as empresas correm o risco de falência, descontentamentos, greves e tumultos.
21 de Maio
“Em época de tirania e injustiça, quando a lei oprime o povo, o fora da lei assume seu lugar na história.” In filme, Robin dos Bosques 2010.
Próximo, há a loja do indiano, onde quando não temos dinheiro fazemos kilapis. Hoje, ele está a chorar. Perguntamos-lhe porquê, ele sem abandonar o choro responde: «Vou-me embora! Estou cheio de medo! Mataram um amigo meu que tinha uma loja. Os bandidos chegaram para lhe assaltarem a loja, ele resistiu, quis lutar, e deram-lhe um tiro, mataram-no! Estou com muito medo, vou-me embora na minha terra!»
No debate da manhã de hoje na Rádio Ecclesia, um ouvinte comentou que devido à intranquilidade que vivemos, assaltos permanentes, que as FAA - Forças Armadas Angolanas, devem intervir para manter a nossa segurança e acabar com a criminalidade.
O presidente do sindicato dos professores, Manuel Vitória Pereira, disse à Rádio Ecclesia em Benguela, que os professores queixam-se de problemas de saúde devido ao giz importado.
Porque será que em Angola não há nenhum sacerdote de Deus que critique o regime, muito pelo contrário, bajulam-no. Porque será?
E das 17.12 até às 17.48 levamos com mais um apagão.
22 de Maio
Estava próximo de quatro jovens que trocavam opiniões sobre o Censo. Um deles disse: «Com isso do Censo, alguns já estão ricos.»
Vigarices contabilísticas 03: o financeiro da empresa entra em conversações com a máfia bancária. Assim, no banco é criada outra conta em nome da empresa. Numa, fazem-se os movimentos da máfia, especialmente os das transferências bancárias mais valiosas, de valores muito elevados. Os mafiosos bancários e os mafiosos financeiros das empresas movimentam as contas paralelas e enriquecem rapidamente. Assim, a empresa têm dois extractos bancários, o da empresa e o dos movimentos mafiosos. Mas quando se pede um extracto bancário da empresa, todos os movimentos lá estão, excepto alguns, que o banco logo que informado da sua falta “apressa-se” em corrigir.
“Nós vamos encontrar os culpados e entregá-los à justiça.” Quando deveria ser: nós vigiamos incansavelmente para que não aconteçam crimes, e os culpados antes de os cometerem serão detidos e entregues à justiça.
Das 21.34 até às 22.14 horas outro apagão.
23 de Maio
O chinês, serra, serra, tábuas de madeira. Serra, serra, saqueando mais um emprego aos mwangolés. E os assaltos crescem, crescem, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, nesta cidade de abutres.
Importam-se chineses porque onde o chinês está, é só destruição, é só poluição!
24 de Maio
O porquê do repentino silêncio sobre o desaparecimento do avião da Malasian Airlines? O que se descobriu obrigou a isso?
Os corruptos também têm direitos de autor?
Outro apagão das 21.44 até às 22.05 horas.
25 de Maio
Conversa na rua das sirenes: uma jovem disse que ontem outra jovem conduzia um carro, foi assaltada. Os gatunos levaram-lhe tudo, incluindo o carro, só faltou levarem-lhe a roupa que vestia.
Das 09.45 até às 13.12 mais outro apagão.
26 de Maio
Já sei porque é que a Net está lenta desde 25 de Maio. É por causa da manifestação do 27 de Maio.

sábado, 7 de junho de 2014

O PARAÍSO PERDIDO A OCIDENTE (08)





De posse da minha colecção, Quer Saber? Comecei a devorar um a um os muitos volumes que compunham esta pequena enciclopédia do saber. Andava sempre com um deles na mão, e quando lia perdia-me, alheava-me de tudo. De tal modo me concentrava na leitura que me esquecia do que tinha de fazer.

Para comprar a matéria-prima para abastecer a fábrica de arame, ia ao Rocha Pereira Amado & Latino, na rua da Prata, e os plásticos na Pollux, na rua dos Fanqueiros. Depois ia para a estação do Rossio apanhar o comboio com destino a Queluz. Assim que entrava no comboio e me sentava, a primeira coisa que fazia era ler, e de tão hipnotizado, algumas vezes ia parar noutra estação mais adiante e uma vez fui parar a… Sintra.

Perante estes acontecimentos os Wanzeller começaram a mostrar muita preocupação. Deram-me muitas reprimendas, lições de moral mas acabaram por se cansar, e disseram-me finalmente:
- Assim como és… distraído… nunca serás ninguém na vida! O conselho que te damos é que estudes, e tenta formar-te porque só assim te darão valor. Se não mudares o teu comportamento serás sempre um frustrado, um revoltado contra a sociedade!
Ouvi em silêncio e fiquei a pensar como é que eu poderia estudar, se já há dois meses não me pagavam os salários.

A Noémia, perante o meu gosto de ler teve a ideia de me oferecer um livro. O meu primeiro livro de verdadeira leitura a Antologia do Conto Fantástico Português. Li-o e reli-o, mas a pensar porque diabo me ofereceu ela este livro tão diferente das leituras que até então tinha lido? Seria porque eu vivia no fantástico? No irreal? Ou teria ela, apenas ela, devido à sua formação em germânicas aperceber-se da minha personalidade? Por mais que tentasse compreender, o certo é que nunca o consegui.
Acho que era apenas para uma introdução à literatura portuguesa do conto fantástico. Para mim era um volume considerável, pois continha muitos contos de vários autores portugueses. Depois ofereceu-me outro livro, A Selva, de Ferreira de Castro, aqui sim, fiquei impressionado com a vida que este homem viveu e sofreu nos seringais do Brasil, e o mais surpreendente é que tinha apenas a quarta classe, era um autodidacta.

Fiquei muito pensativo desde esse momento. Afinal existiram portugueses que não tiveram meios para estudar, e conseguiram ser grandes escritores. Isso deu-me uma grande força na alma. A Noémia ofereceu-me outro livro, As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Admirei nesta obra a descrição que o autor faz de um cágado, e a Rosa de Sharon com os seus seios a aleitar um esfomeado, mas sobretudo as descrições da grande depressão que para mim eram novidade, pois que me iniciava no conhecimento das coisas.

Já colocava algumas questões pertinentes aos Wanzeller. Já começava a ter um rumo político, já sentia alguma revolta, já sentia alguma percepção perante as diferenças de classes sociais. As minhas questões eram respondidas com: «que eu deveria estudar».

Acontecia que os meus salários continuavam a não ser pagos. Quase há um ano… Quando Wanzeller recebia o dinheiro dos clientes na minha presença, dizia-me que tinha de pagar os estudos dos filhos e o luxo de casa, porque parecia mal se não vivessem assim. Também tinha que comprar boas roupas devido à condição social que aparentemente ocupavam. Dizia-me para esperar um pouco mais, que no próximo fornecimento aos clientes pagaria a minha dívida. A situação mantinha-se, o meu pai disse-me para sair desse trabalho porque me estavam a explorar. Transmiti a preocupação do meu pai ao Wanzeller, e de imediato ele disse-me que iria falar com o meu pai.

Foi, e deixou um cartão-de-visita em poder do meu pai, que já ia em mais de um ano de dívida, uma pequena fortuna, e no cartão declarava o valor, e que se comprometia a pagá-la muito rapidamente. Implorava ao meu pai para que evitasse a todo o custo a queixa, a denúncia junto de alguém competente, porque não queria escândalos.
O meu pai concordou e passaram-se mais três meses e nada. Perante a exploração a que me sujeitavam e ainda o facto de constantemente me apelidarem de mariazinha, e insistirem que era um filho de casa, o meu pai insistiu para abandonar o emprego. Assim fiz, Wanzeller tentou convencer-me do contrário, afirmando que iria pagar dentro de três dias, o que não aconteceu.
Depois despedi-me, com muita mágoa é verdade, com ar paternal disse-me:
- Nunca te esqueças que é graças a mim que conheces todas as ruas de Lisboa, que aprendeste a andar de eléctrico. Eras quase analfabeto quando te conhecemos, fui eu que te ensinei a beber uma ginjinha com elas, e a beber um copo de dois e de três com uma sandes quando estávamos muito apressados. Fui eu que te ensinei tudo o que agora sabes, fui eu quem te preparou para a vida, e poderia ensinar-te ainda mais, mas como me vais abandonar, e isso é grande ingratidão da tua parte, depois de tudo o que fizemos por ti. Por isso pensa bem porque acho que te vais arrepender. Tu és como um filho para nós, gostamos muito de ti. Sempre insisti para estudares mas tu nunca o quisestes. Já que não queres estudar, então aprende a ser um homem.

As palavras eram muito convincentes, mas um ser humano não vive de palavras. Vive sim, mas só depois de se alimentar. Não é possível falar convenientemente sem alimentação. E tudo acabou. A divida que se comprometeu a pagar ao meu pai de quase dois anos, uma pequena fortuna para nós, nunca foi cumprida.
De facto quando um patrão faz muitas promessas a um empregado, e o seu falar é doce, meigo, terno, de muita amizade, e muita música, acreditem que ele está apenas a ser falso. Não é por acaso que as grandes fortunas surgem. Quem é muito rico, roubou muito.
Verdadeiramente nunca conheci ninguém que sendo honesto enriquecesse, e o mundo acabará no caos porque a invasão dos novos bárbaros impiedosos e protegidos por leis internacionais, têm permissão legal para escravizar qualquer trabalhador à escala planetária. Sim, à escala planetária porque quando o próximo planeta for colonizado, serão os famintos que para lá irão extrair os minérios. Tudo em nome da civilização e da descoberta de novos mundos.
Seremos controlados por pulseiras, por coleiras em nome da electrónica. Seremos vigiados por satélites, seremos os novos escravos, seremos exterminados lentamente. Os clones avançarão como exércitos e humanos só restarão meia dúzia, esses que actualmente dominam o mundo, e regressaremos à Idade Média, ao seu sistema social, a um novo reinado em que o senhor do novo castelo do Universo reinará por milhões de anos. E nos escravos planetários nascerá uma nova religião. Um novo Cristo surgirá a anunciar que todos os planetas receberão a boa nova do novo evangelho.