sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Os Jasmins da Lwena (18). Contra milhões de esfomeados ninguém combate.



(Num mundo de honestidade a economia seria desnecessária. A economia existe porque os desonestos são muitos e os honestos demitiram-se, perderam a coragem de lutar. A democracia é o movimento subtil da substituição das ditaduras para eternizar a espoliação universal das populações. Há bem pouco tempo era a espoliação pela inquisição da Igreja. Esta é a espoliação democrática.)


O vizinho esforça-se para subtilizar os instrumentos das cordas vocais. Por sorte a mente colabora.
-Vencido no jogo ebriático do álcool mas não convencido. Para liquefazer… escrever, dizem que é importante ter um estilo e utilizar metáforas. Quando inventaram a pólvora diziam a mesma coisa. Na era do nuclear inventaram outras contendas. No tempo em que o pensamento domine a matéria não gostarão dos raios luminosos extraordinários: «porque o tom azulado deste pensamento está muito carregado, a tonalidade daquele pensamento rosa está demasiado clara, o matiz desse pensamento vermelho foge à cor do sangue.» Os editores continuarão a perseguir-nos, dirão: «o estilo e a metáfora das cores não tem harmonia na estrutura, falta-lhes carácter». Sempre escravos da vontade deles. Estes são os verdadeiros ditadores benévolos. Só a sua ponderabilidade é imanente. Enfim, nenhum poder que se preze apoia intelectuais. Nos intelectos reside o prazer da resistência vital. Quem disser que a escravatura acabou é um sonhador. A democracia dos escravos é a revolta.
Ulisses mergulha a mente, docemente nos mares espumosos, superficiais cristais oceânicos. Sucede-se uma praia que se deleita com a nudez horizontal de Penélope. A ondulação melodiosa sobe e desce transparecendo a areia que encosta, refrescando o desejo da fremente epiderme. Penélope senta-se, enche as mãos de areia e passa-as pelos seios que avolumam, depois afunda-as na púbis, na vagina da leal ausência. Olha longínqua para o infinito oceano, e desprende-se:
- Meu esposo, nos mares onde navegas é fácil enfrentares a fúria das ondas. Em Ítaca não suporto as ondas da intempérie humana que me perseguem. Os dias passados são perdidos, irrecuperáveis. Tudo muda. Só o bater das ondas do mar permanece imutável. Se as pessoas fossem assim…
Ulisses cheio de vocação na terra emocionada usa o cansaço da rouquidão.
- Mas não são, nunca serão!
- Mas gostam dos momentos dessas semelhanças… conduzem-se como focas.
- Conduzem-se como loucos, vivem em carros loucos, em loucas estradas, que se altercam loucamente. Destarte é a civilização.
No barco, cinco homens do serviço de estrangeiros aguardavam-nos pacientemente. Mentor e Ulisses percebem a trapalhada da incongruente vadiagem estacionária. Um, cozinha as palmas das mãos em banho-maria, retempera-as pronto a servir-se. Soturno, explana manhoso:
- Nós facilitamos a entrada ilegal de estrangeiros, para depois à saída facturarmos.
Com dolo determinado exigiram cinco mil dólares. Mentor demoveu-os numa baixada de dois mil.
Mentor e Ulisses estão a bordo. Mentor convida-me:
- Vem! Tu e nós na patera, rumo a Gomera… depois Ulisses deixa-te em Ítaca.
E fui.
A Natureza continuava a pintar com tinta de água. Os seus pincéis pareciam violoncelos nos vidros da janela. A água corria, parecia que tinha pressa em chegar ao seu destino. Queria distrair-me, e a distracção é a corrupção da mente.
Andar à corda, a cirandar sem trigo para joeirar… a fome é uma questão política. Os políticos dividem os trigais entre si. Nas ruas, os vendedores revendem as sobras do PIB. Esta vida tresanda a bebida. Lembra, incontestável campeonato de barris de pólvora alcoólica, fermentados na imensidade inquisitorial. Paira, ressente-se o provável canto monótono do regresso às armas, à morte, à destruição.
Exportadores de petróleo, importadores de álcool. Escravos clonados no sono, do sonho escravo de dezoito quilombos. Frustrados no aroma pantanoso da liberdade. Sem formação, o escravo liberto prossegue na escravidão. Submisso no céu inundado de nuvens negras do FMI.
Escapei de levar, quando vi roubar motorizadas à paulada. Evitei a feitiçaria das baratas em fila indiana, e o gato preto que miava sempre à meia-noite. Meninos e meninas queimados, torturados, acusados de feitiçaria, ou usados no assado ritual canibal. Agora, complicam-se por qualquer coisa, e se incendeiam, ou se disparam, se matam de flagelos importados. Como Trajano, o império Bush exportou a violência na reconquista do Iraque. Tal e qual como antes sucedeu, a retirada é inevitável, e a violência reexportada. O campo magnético desta escravidão é muito intenso. Viver na maldade desta sociedade, é a autodestruição em cinco segundos. A morte é o curto-circuito da vida. Depois de um curto-circuito, os fusíveis da morte são irreparáveis.
Dos meus olhos reinaram lágrimas, quando li o anúncio da missa de defuntos. A oração, recordação do amor eterno de mãe para o seu bebé que viveu alguns meses.
«Meu filho, 21 anos são passados, mas na verdade é como se tivesse acontecido ontem. Meu amor, palavras, seriam necessários imensos jornais para exprimir, como grande é o meu sofrimento. Uma coisa eu digo, e direi sempre: dói, dói, dói, como dói, meu Deus. Descanse em paz meu bebé, e que estejas bem juntinho de nosso Senhor Jesus Cristo».

O camião descontrola-se. Na amurada dois contentores desequilibram-se, passeiam borda fora e descansam em doca seca onde três viaturas recebem pena de morte sem apelo a tribunal arbitral. A populaça com a fome bem desperta agradece a Deus o saque do dia.
O dinheiro do petróleo é o Terror desta Revolução Francesa. Muito dinheiro, muitos democratas, e muitos aventureiros para dar uma ajuda. Uma nação muito rica com muitos pobres, com poucos muito ricos.
A propaganda inconvicta passeia-se pelos bairros na retentiva ineficaz de explicitar aos confusos batedores eléctricos para não ligarem fios, porque causam muitos incêndios e carbonizações humanas. Muitos cabos eléctricos, incêndios garantidos. À noite, no torpor alcoólico desajeitado, acontece quem abasteça gerador com vela de cera acesa, e fica com a vela na mão. A democracia é como uma instalação eléctrica, deve ter bons disjuntores.
Um delinquente reincidente dos telemóveis não se cansava da prisão. A mãe conivente agraciava-o, pagava para lhe ver fora das grades. Mamãe cansou-se e não o desprendeu. Um tio desgradeou-o. Ele chegou em casa muito depreciado, e perguntou à mãe: «porque não me tiraste da prisão?» e deu-lhe um tiro de misericórdia.
Até nos cadáveres há cinismo, neste reino transportam-se como mercadoria vulgar.
Seis gracinhas saíram em correria da igreja. Como um anjo, as vozinhas infantis estimularam os pávidos passeantes ocasionais. A plenos pulmões pequeninos ensaiaram o espiritual negro da gatunice.
- Agarra! Agarra!
Era um gatuno, fingido crente, que inculto perturbou o culto. Sacrílego, roubou o telemóvel do sacerdote oficiante. Os agora impávidos revoltaram-se baixando os polegares. O impopular tentava refazer-se dos acidentes eucarísticos, mas não dos de percurso. Estava já a comer o pão que o diabo amassou. O vale de lágrimas estava incompleto. Fiscais governamentais atentaram-lhe no saco das costas e na carteira, e evadiram-se. A alma dele fugia-lhe. Um Baden-Powell chegou, ordenou aos seus escuteiros que o carregassem para a igreja. Salvou-se da extrema-unção.
Alheados, ratinhos do lixo trabalham. Destampam contentores, abrem sacos com lixo na esperança de encontrarem pitéu. Mas não dá para o petróleo. Uma gracinha, talento floral inocente dos primeiros passos corais do espírito evangélico, desconfia para um ratinho humano:
- Donde vens?
O ratinho humano olha-a, considera-a fada das lixeiras. Mergulha as mãos e quase a cabeça no contentor. Não tem nada para dizer, não sabe o que é viver. A resposta só pode ser dada como a vida do lixo.
- Lixado, mal lixado!
Um gato sente-se ofendido pela verticalidade da pernada do ratinho humano. Os gatos são exímios concorrentes desleais. O felino afasta-se do seu hábito alimentar, dá uns saltos… e outro lixo seguro à vista. Duas crianças politizadas e continuamente educadas do antanho satirizam:
- Contra milhões de esfomeados ninguém combate.
- Essa é boa! Porquê?
- Porque derrotados, fica muito dispendioso alimentá-los.
Os vermes provenientes do lixo invadiam quintais. Procuravam melhor caminho para espoliarem nas casas. Os esgotos e águas paradas originam a democracia incipiente. Democracia violentada na ilusão das palavras da liberdade, porque os famintos nas prisões da fome não se alimentam das epidemias das ideologias políticas. E a peste negra, em parte, como todos sabemos fez o sistema feudal desabar.
Não é possível o ser humano amar, porque destrói o amor!
As águas escuras da putrefacção habituam as pessoas à escuridão. E da janela sempre à espreita, um bom observador sempre nota algo que se aproveita. Os carros foram feitos para andarem, e nas estradas estão continuamente a pararem. Progresso é passar o tempo da vida nos assentos dos carros.
Mar alto, como se o mundo fosse água. Para onde quer que olhe vejo tudo líquido. Que imensidão na minha pequenez. Sinto-me microscópica perante tanta vastidão. As ondas poderosas fazem liberdade. Mas, estou receosa, isto não é vida para mim. Vou descontrair-me junto dos meus companheiros, ouvir o que conversam. O mar para eles é como se fosse um velho amigo. São filhos dele. Acho que Ulisses está a astuciar, sempre.
-… Com um bom pastor e ovelhas obedientes…
- Sem líderes?
- Mentor… se as tais massas forem inteligentes, pensantes, souberem o Caminho, os políticos acabam.
- Deixa de haver partidos políticos.
- Exactamente.
- Acabando com eles, acabam as equipas.
- Como no futebol.
- Não! As pessoas podem chutar a bola à vontade, seja redonda ou quadrada.
- De preferência quadrada, redonda qualquer joga.
Imagem: Aléxia Gamito

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Rua das Sirenes Press. nunca conseguiu beneficiar nada da independência


Enquanto vivermos, dependermos da teimosia que a liberdade e a democracia se conquistam por decretos-lei, jamais seremos livres e a democracia nem de binóculos se avistará.
A tia São
Este triste acontecimento passou-se há alguns meses, como tudo o mais que acontece neste país nas sondas petrolíferas plantadas, não é fácil de narrar, mas obrigo-me a fazê-lo. No fundo é a minha missão, não é?, mas é, acredite meu leitor amigo, que é com imensa tristeza no meu coração que o faço. A tia São normalizava a sua vida de dependente, porque nunca conseguiu beneficiar nada da independência, na lavagem de roupa numa senhora angolana, e o pouco que ganhava era para quando chegasse em casa os seus filhos, de acordo com as normas em vigor pelo Minoritário, a despojassem do seu parco vencimento da escravatura com novas leis, e assim a miséria continuava, muito certa. Até que alguém, um vizinho, lhe garantiu que umas pastilhas para matar ratos, tomadas tipo vitaminas faziam quase milagres no corpo. Ela, como uma boa crente das igrejas diabólicas, quadrilhas religiosas, acreditou e logo começo a tomar o milagroso remédio. E de tantas doses tomar acabou por cegar. A tia São chora, chora muito, mete pena. Ai esta Angola dos donos únicos do petróleo que desprezam o seu povo, que cada vez mais parecem-se como ratos. A tia São está irremediavelmente cega, como o Poder cego que nos desgoverna.
O reduto fortificado
E os indianos já estão toda a manhã a reforçar o portão de ferro do seu apartamento e gradeamentos das varandas, porque adivinham maka grossa com o FIASCO eleitoral. Como se isso lhes valesse de alguma coisa. O minoritário está perdido e para sobrevivência…
O Pilar
27 de Julho, pelas 16 horas. O técnico chinês confecciona a armadura em madeira com as dimensões aproximadas de 30cm x 10cm x 2,5 metros para depois vestir a estrutura de ferro que findará num pilar. O chinês martela pregos até nunca mais acabar e serra, serra, para que o trabalho não falhe. Já com tudo a postos chegam três mwangolés que cozinham o betão e depois o vão despejando até encherem por completo o “poço” do pilar. O trabalho já ia muito adiantado mas eis que surge um imprevisto. A estrutura de madeira do técnico chinês, tal como uma ponte-cais foi-se, e o pilar desabou. É no Hotel Katyavala do general Led, nas traseiras da Pomobel, próximo do Largo Zé Pirão, Luanda.
As sirenes
Sete horas de todas as manhãs, as sirenes anunciam mais uma terrível manhã, de também mais um dia catastrófico do amanhã. Passam as sirenes da escolta da opressão, outra vez como os canhões da desolação. Por aqui nada se alterou, muito pelo contrário, tudo piorou. As igrejas da maiuia apoiam o voto no minoritário, para que continuemos subjugados, acorrentados ao poder dinossáurio.
A moto rápida
02 de Julho, treze horas. Aqui na bwala aguardava por um amigo, ele aproximava-se de mim, já estava a cerca de vinte metros, quando surge uma moto rápida com dois ocupantes e zás, sacam-lhe a carteira e o telemóvel. Toda a gente a ver, incluindo eu, mas quem é que se mete lá? Já não se pode sair de casa?!
Gatunos! Gatunos!
11 de Julho 2012. As meninas assim que acabaram de sair da escola correram, correram a gritar: «Gatunos! Gatunos!» Não, isto não é no Cacuaco ou noutro bairro dos habituais assaltos, é mesmo numa zona muito nobre., ali para os lados do Zé Pirão. Uma mais-velha abanou a cabeça e: «Isto está a ficar duma maneira!»
Mais uma nova-rica
13 de Julho 2012.  A mwangolé nova-rica alugou um apartamento num quinto andar, desses do tipo águas-furtadas. Aparenta ter entre vinte e cinco a trinta anos. A indumentária ainda é de pobre e termina com um calção curto, improvisado, desses que antes eram umas calças. Até aqui, creio, nada de extraordinário. Foi quando ela já na fase final do carregar as imbambas começa a limpeza da casa, varre o lixo e muito naturalmente atira-o para o rés-do-chão. E depois um saco um tanto ou quanto volumoso também segue o mesmo caminho. Quarenta anos depois…. E esquecia-me: ao ligarem a água do reservatório, improvisado, caiu uma chuvada no apartamento do vizinho de baixo. Afinal os construtores mwangolés enganaram-se, ligaram o tubo da água aos tubos antigos, inutilizados. Agora, dizem, que vão fazer uma canalização exterior.
Foi levantar sete mil dólares
13 de Julho, Luanda. Segundo uma fonte digna de crédito que esta RSP passa a citar e que aguarda confirmação: «Um senhor da ANGOP mandaram-lhe ir no banco levantar sete mil dólares. Os bandidos estavam à espera dele, mataram-no e fugiram com o dinheiro.»
Os objectivos do milénio
E um dos principais objectivos do milénio foi conseguido. Com os biliões de dólares do petróleo, Angola finalmente declara ao Mundo que cumpriu todas as exigências deste milénio e dos que se seguem: em Luanda destaca-se uma corrida dos esfomeados aos contentores do lixo. Nunca este petróleo tantos e bastos esfomeados eliminou.
As crianças sem pátria
14 de Julho, Luanda. Aí por volta das vinte e uma horas estava o segurança no repasto dos desgraçados sem petróleo. Entretanto ausenta-se da sua sala de jantar. As crianças deserdadas e abandonadas pelos senhores da guerra do petróleo, esfomeadas do milénio, viram uma boa oportunidade. Pegaram rápidas, como é costume dos nossos corruptos, na comida e devoraram-na em poucos segundos como se fossem piranhas. O segurança retorna já no acto consumado e enraivecido, vida de miserável é assim até se mata por uma côdea de pão, deseja, grita que vai matá-las, o que pouco interessa pois nesta Angola o mais vulgar das vulgaridades é a matança indiscriminada de crianças. Mas os outros seguranças impedem-no, como a cavalaria num ataque contra poços de petróleo, dantes eram os índios, eram?, não, tudo continua na mesma, ou muito pior. Que tragédia esta mais-valia do petróleo.
Um tiro de pistola
06.45 horas, 15 de Julho, de mais um fatídico dia de Luanda. Ouviu-se um tiro de pistola. Mais alguém que foi assaltado e depois baleado mortalmente? As sanguessugas deste petróleo são o nosso fatal terror diário.
A fraude da água
No rumo da Nova Vida das centralidades. Vamos para quatro dias que continuamos na fraude da água. Não nos dão explicações. Já deixámos de ser gente. Será que a desviaram para a fábrica de cerveja CUCA? Mais um rótulo para este caos. Só loucos é que fazem coisas destas. Loucos perigosos à solta?
Bruta fogueira no terraço
Luanda, Avenida Comandante Valódia, Ex/ Combatentes, 19 de Julho, 11.10 horas, próximo do estabelecimento José Luís de Carvalho. Bruta fogueira no terraço. Só pode ser para cozinhar o almoço do dia. Já disse e repito: pouco falta para fugirmos dos prédios, pois a selvajaria está a tomar conta deles e da cidade (?). Quarenta anos de infindável Poder Popular.
Bancarrota nas kinguilas
Na implementação do projecto Nova Vida e Novas Centralidades, hoje de manhã no Zé Pirão as kinguilas foram varridas na totalidade por uma ventania de assaltantes. Ficaram limpinhas, sem um tostão.
O pelotão dos fiscais
Luanda, 23 de Julho, 15.55 horas. Um pelotão na composição de cinco fiscais todos trajados de negro, porquê?, do GPL – Governo da Província de Luanda, Ingombota, desembarcam de uma carrinha branca de caixa aberta,  tal e qual como tropas de assalto. Luanda é, e será sempre por vontade própria uma praça de armas, aliás como nas restantes províncias de Angola. Rápidos como tropas piratas do saque, porquê em Angola só se espoliam os honestos?, saqueiam os bens dos pobres vendedores de rua, e rápidos como vieram embarcam na sua viatura. Mas, azar deles, o trânsito está engarrafado, como o Governo, e ouvem os protestos da juventude que já lhes perdeu o medo, que lhes resiste heroicamente: «Gatunos! Gatunos! Isso que nos roubaram é o nosso ganha-pão!» Mas eis que surge uma senhora que se lhes junta e lhes grita de forma não habitual nestes comícios eleitorais da roubalheira, de mais uma fraude, quarenta anos de fraudes: «Depois das eleições vocês vão ver!!!»
Imagem: Aléxia Gamito






quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Os Jasmins da Lwena (17) Nunca mudei a porta, o álcool é que a faz de muda.



Catástrofes?! Sim, realmente, catástrofes são o que não falta. O último exemplo é a fome devida à estiagem que afecta milhares e milhares de angolanos. E Angola não tem reservas alimentares. Só tem reservas dos nossos novos-ricos nos bancos dos Eldorados. E tem também a monumental catástrofe dos imensos milhares de desempregados devido ao fecho do mercado Roque Santeiro por motivos da especulação imobiliária. Catástrofes não vão faltar, não!
É da crise mundial! E os nossos novos-ricos dos nossos milhões de dólares espoliados justificam-se: é da crise mundial!

«O que pedimos a Deus é que Dê aos moçambicanos um coração mole» Dom Dinis Sengulane

«Nós não podemos dizer que quem está na rua são os agitadores, bandidos, e etc., porque seria uma falha de análise e eu como académico, não me envolvo neste tipo de facilitismo. Também estão nas ruas, os cidadãos que clamam por uma justiça social. Nós ouvimos os governantes a dizerem que a economia do país não está lá muito bem como nós esperávamos, naturalmente que a crise internacional também nos atingiu, o que contraria um pouco as mensagens que recebemos há um tempo atrás, que se dizia euforicamente que a crise não nos iria atingir.» Lourenço de Rosario, reitor da Apolitécnica de Moçambique

«E talvez, se for necessário, adoptar-se medidas económicas corajosas porque penso que as manifestações significam descontentamento e o país não pode caminhar descontente.» Brazão Mazula reitor do ISTEG, Moçambique

«Hoje, o rico, o corrupto, o pobre, e quem ganha honestamente compram ao mesmo preço.» Dra Alice Mabote, LDH, Moçambique
«A elite de hoje é pior que a do tempo colonial» Fernando Mazanga, Porta-voz da Renamo

«Estou extremamente preocupado devido a esta situação grave. Verifica-se uma ordem de ordem emocional e uma situação grave que pode ser vista de várias maneiras. Em primeiro lugar como um tributo de um cansaço social de muito tempo que se expressa de forma anárquica e com tendência para aumentar. Este tipo de problemas sociais que se geram de qualquer maneira pode ser a reflexão o que está a acontecer na África do Sul há bastantes dias. O que é necessário notar é que estão a se fazer disparos com balas reais, e assim a situação é triste e ter muito cuidado com o que se está a passar porque podem se tornar bem mais graves e complexas.» Carlos Serra, Sociólogo moçambicano.


Para vivermos em felicidade, temos que prescindir, acabar com o dinheiro. As sociedades humanas não podem continuar a existir… trabalhando à espera que uma moeda caia do céu. O mundo é nosso, não é de alguns. A areia está em todo o lado, e nós não. No entanto somos como ela, abundante, é por isso que não temos valor. Contudo ela aparece nos edifícios, fomos nós que a carregámos, e a eles não temos direitos. Somos, vivemos como as areias dos desertos. Somos um imenso mar de areia, soprados pelo vento, vamos para ali, para aqui, e assim permanecemos. Transformaram-nos em pó, com o destino, a missão única de aumentarmos os terrenos dos cemitérios que já não chegam, pois que a fome, as epidemias e pandemias, são a única liberdade que nos resta. Até os cemitérios dos que nos matam à fome são sublimes mausoléus, e nós quando a morte nos convida… os nossos familiares regateiam um pouco de terra… porque mesmo depois de mortos a ela não temos direito. Somos párias no além.
O característico perdurar sonoro inconfundível faz aparição. Aparenta motim, humana borrasca de borracho destoado. As chapas do casebre crepitam com a corrente eólica do etanol. Vão saltando dos gonzos ogivais pregados. A voz é rouca, indecisa:
- Este vizinho está sempre a mudar as chapas da porta! Juro-lhe que hei-de encontrá-la!
Mentor apreende-se.
- Nunca mudei a porta, o álcool é que a faz de muda.
O vizinho parece estar no labirinto a fugir do Minotauro. Desequilibra-se e aterra com a massa corporal na porta de entrada. A fragilidade do material obedece-lhe, e como um furacão recebe-se na mesa que tenta fugir-lhe, limitando-se a mudar de posição. Faz tremendo esforço para se levantar, as pernas não obedecem vitimadas pelo vendaval, e os destroços espraiam. Ulisses zomba-lhe:
- Se os pés pensassem, não suportariam a dor do chão.
Entretanto, o vizinho consegue equilibrar-se no chão com a ajuda da parede. Tenta mostrar, ludibriar a sobriedade, parecer que não está bêbado.
- Monitor… Mentor… és o único que visito aos tropeções!
Olha à sua volta, e vê os derrames do madeirame.
- Não venho só, trago-te alguns escombros… ruínas do nosso PIB. Estes lugares, estas ruas esburacadas enterram o trânsito democrático. A questão não é o ter, é o cinismo do ser. O navio do dilúvio da escravidão negreira está à deriva.
Mentor sente uma visão profética:
- Só falta acontecer um vulcão, um tremor de terra e um ciclone… bebes, e não cumpres as regras do trânsito. Sinal vermelho é para parar.
- Oiço e vejo tudo vermelho outra vez, já não suporto o cinismo dessa agressividade.
- Cada vez que me visitas deixas a casa em pantanas.
- Pantanas?!... Ah, … o pântano do poder não me deixa respirar. Trago o perfume dos jardins de Babilónia apagados… lembrados, do paganismo alcoólico.
- Embebes-te porquê?
- Os gatunos sem utilidade pública incendiaram-me o casebre. Antes, os esgotos e a água das condutas rebentadas reuniram-se, e foram arrastando os poucos alicerces que o casebre possuía. Fiquei apenas com o habitual, o que resta da minha cabeça. O governo Politburo é conivente, não vale a pena. Isto é para destruir. Não é por acaso que o álcool persegue, prefere a população. Creio que não sobreviveremos muito tempo. É como nos estádios de futebol, entrosados e acutilantes. Fome, doenças, epidemias, alcoolismo, droga, feitiçaria… que extinguem um povo a curto prazo. Na prática já não existem, só restam as suas sombras. Quem os governa, prepara-lhes a solução atípica final. Com palavreado perfumado, um cemitério apocalíptico espera-os, onde finalmente repousarão. É como a censura e o racismo… solidarizam-se sempre.
- O racismo mais violento é o preconceito intelectual… o crescimento económico esvai-se.
- O crescimento económico é um pai muito rico, um presidente eterno e com os filhos na afronta da fome.
- Sem livros não há desenvolvimento, não há emprego.
- Por acaso há universidades para desempregados? É que jogo sempre na equipa deles, meto muitos golos, e dizem-me que estou perdido. Não consigo jogar nessa equipa. Não pertenço à classe dos que recebem ordens superiores, porque significa que vivemos como inferiores. A minha Penélope já está velha, vende qualquer coisa para sobrevivermos. Os nossos dois filhos e a filha seguem a determinação do tintol. Sabes… em Jingola a única liberdade que nos resta é acariciar, rodar com os dedos copos com qualquer mistela que se beba. Entristece-me a certeza que nenhum letrado da nossa pena escreve sobre os nossos feitos gloriosos. Nós… sim… nós… gloriosos alcoólicos, temos muitas odisseias para viver, para quem as queira narrar. Muitos, infindáveis livros encher-se-iam... construiriam uma biblioteca do tamanho de uma grande cidade. O nosso dia-a-dia dá para escrever uma obra literária, onde o autor ganharia – de sombra e água fresca – o prémio Nobel da Literatura.
- Devaneios de um alcoólico não se levam em conta.
Reapreciou-se o tilintar alaudado do medieval garrafal. Era a vizinha que aproveitou para abastecer a circunstância atenuante. O ébrio com a mente adjudicada, afortunou-se, imaginou princesa com xanto, e devaneia-lhe:

Princesa do saracotear, cervejar
Deixaram os punhais Setembrinos e Novembrinos
enferrujar
As sementes dos teus olhos perderam-se
no triste adubo verde, sem livros
Estão sempre os teus olhos tristes
sem medida cautelar
És probabilidade, defunta sem choro, figura decorativa
As noites delongam-se, mordentes noite e dia
escravas, nas costas carregadas de garrafais crianças
Os teus lábios endureceram sem porvir
só de fora para fora, de fora para dentro não
A minha tristeza voa, só vê desolação,
na Nação
Tudo esbanjado pelo partido e não repartido
sem bater pés não andam, desandam
Está tudo entupido, carcomido
Tudo de fachada fechada, enregelada
A tristeza de contemplar poetas
de poesia engarrafada
Poemas de escravos independentes
na pátria dos poetas mortais
Sempre as mesmas vozes se levantam
cabisbaixas nas repetidas intenções

O ambiente lembrava navio alcoólico que perdeu o leme, balançado nas cristas das ondas. Ainda não atingira a profundidade abissal desejada. Como os relatórios do FMI, equações certas, políticas erradas.
- Divinos devaneios para quem sabe liquefazer-se. – Astuciou Ulisses.
Imagem: Aléxia Gamito

terça-feira, 14 de agosto de 2012

AS CINCO MAGNÍFICAS (09) Contém cenas eventualmente chocantes



A noite agitava-se, cansava-se, estava quente. Ana pede-me a chave do carro. Regressa vestida com um maiô. Apresenta-me um calção para vestir:
- Vai ao carro e veste este calção para tomarmos um banho. No outro lado das pedras está bom. A profundidade é suficiente.
Avançámos até ficarmos cobertos de água pela cintura. Ana abraça-me e beija-me demoradamente. Retirou os seios e colocou-os à minha disposição. Um após outro suguei-os demoradamente. Já estava muito excitada, movia-se pelo meu corpo como uma serpente. Retirou o meu pénis. Masturbou-o durante momentos que me pareceram infindáveis. Parou de repente e sentenciou:
- Aqui não, vamos para casa. Os polícias têm ordens para quem encontrarem a fazer amor na Ilha para os prenderem.
Já em casa, Ana sai da casa de banho com uma minúscula toalha que não chega para lhe cobrir o corpo. Parece uma minissaia muito extravagante, provocante. Enquanto acaba de secar o resto do corpo, os seus braços balançam e os seios nus agitam-se convidativos, rejuvenescidos depois de massajados pela água fria. Retirou a toalha, limpou os sovacos e depois os seios. A vagina ficou descoberta. Não tinha um único cabelo. Sussurrou:
- Vai-te lavar.
Lavei-me rapidamente. Olhou para o meu pénis e comentou:
- És muito cabeludo, vou-te fazer a barba.
Voltou com uma lâmina e rapou todos os cabelos à volta do meu instrumento do prazer. Levou-me para a casa de banho, retirou com água os restos dos cabelos, pegou numa toalha e secou-o devidamente. A seguir iniciou uma série de beijos, e de vez em quando passava a língua pelo canal urinário. Senti uma leve saída de líquido, que ela depois me mostrou na sua língua. Já estava próximo da loucura. Ela diz-me em voz alta:
- Vou-te dar a sobremesa do nosso jantar! Agora é que eu vou apreciar o Farol do Ponto Final da Ilha!
Mergulhou a sua boca profundamente, e senti que estava tudo terminado. Calmamente engoliu tudo o que lhe enviei. Com a língua absorveu o que restava. Exclamou:
- Uau! O jantar foi delicioso, mas gostei mais da sobremesa.
Não era nenhuma amadora. Pelo contrário, era uma mulher muito experiente na arte do sexo. Vestiu-se e fez-me um desejo:
- Porque é que não me compras um carro? Olha, amanhã conto contigo para me ajudares a carregares umas coisas. Vou para o quarto que o meu pai me arranjou.
Antes de chegarmos na sua nova morada, advertiu-me que não desse confiança a ninguém, apenas que dissesse bom dia, boa tarde ou boa noite. Notei de imediato que o sustento das pessoas que estavam em casa, era tanta gente que alguns dormiam nas escadas, limitava-se à venda de cerveja e de refrigerantes. Ana, depois de arrumar as coisas que trouxemos, ordena-me:
- Tens que me dar dinheiro para comprar uma garrafa de gás, uma mangueira e um redutor, uma arca congeladora e um pequeno frigorífico.
Dormi ao seu lado, na sua nova cama. O colchão de molas era muito usado. Acho que o apanhou numa lixeira qualquer, porque não se conseguia dormir. O aço das molas feria a todo o momento o meu corpo. Não conseguia entender como ela era capaz de dormir profundamente. Como eram cerca de quinze pessoas que habitavam a casa, as nossas necessidades, como urinar ou defecar, tornavam-se um grande tormento. Para urinar, a Ana cortava o gargalo de uma garrafa grande de água mineral, e convidava-me a fazer o mesmo. Para defecar ficava a vigiar, e quando alguém desocupava a casa de banho, chamava-me rápido, e lá ia.
Enquanto satisfazia as minhas necessidades, notei que o local servia também de lavandaria. Alguidares de plástico uns em cima dos outros, cheios de roupas. Os locais livres serviam para pendurar biquínis e sutiãs depois de lavados. Parecia uma butique de roupa íntima. De manhã bem cedo, a Ana acordava e arrumava o quarto silenciosamente, evitando que eu acordasse. Lá fora, ouviam-se algumas vozes ruidosas. Ela afastava as cortinas da janela, abria-a e inclinava-se profundamente, mostrando os seios nus para gáudio dos assistentes, que comentavam:
- Agora estás bem. Já arranjaste um branco. Dá-nos dinheiro para bebermos alguma coisa.
Ana estava convicta que eu ainda dormia – mas não – escutei tudo perfeitamente. Soergui-me e lancei-lhe um olhar reprovador. Ela reagiu atrapalhada:
- Já acordaste? Estava a cumprimentar os meus amigos.
- Estranho modo de cumprimentar com os seios nus.
Ela não se mostrou desconcertada, pelo contrário:
- Consegui arranjar trabalho na Educação. Colocaram-me no ensino de adultos. O vencimento é uma miséria, mas é melhor que nada. Quando sairmos leva-me até lá. No fim do dia fico à tua espera para carregar o resto das coisas.
Entrámos abraçados. Fomos recebidos por uma das suas inúmeras madrastas. Esta exclama com uma grande alegria:
- Até que enfim! Chegou o nosso bosse. Hoje não vamos passar fome. Senta-te aí pá. Dá o dinheiro para comprar pão e frango.
Sem cerimónias vasculha-me os bolsos. Encontra o que procura. Retira uma quantia e envia uma das filhas comprar o que antes dissera. Quando a filha chega, retira o frango do embrulho, junta-lhe o pão e todos comem avidamente. Parecia que há muitos dias não comiam, porque devoravam a comida com extrema rapidez. Ana cochicha no meu ouvido:
- Esta madrasta é assim. Gosta muito de explorar as pessoas. Mandou as filhas para a prostituição. De manhã, quando elas regressam, tem que apresentar o dinheiro que ganharam, de contrário não há comida para ninguém.
Entra o pai da Ana. Ela apresenta-mo. Depois de me saudar faz-me um pedido:
- É pá. Tenho aí uma dama que acabo de conquistar. Empresta-me o teu carro aí por duas horas, para tomar conta do assunto.
- Desculpe mas não é possível. Tenho compromissos aos quais não posso faltar. Quando estiver livre, decerto satisfarei os seus desejos.
No fim-de-semana Ana está agitada, quer ir a Porto Quipiri comer cacussos assados. Recomendo prudência:
- Tão longe, se temos isso aqui tão ao pé de nós?
- Sabes, adoro viajar, ir a festas, jantar nos melhores restaurantes. Adoro perder-me na noite. Não imaginas o quanto é delicioso mergulhar na noite. Mais uma vez te peço, porque não me levas para Inglaterra? Tira-me desta vida. O meu sonho é viver na Europa. Ter um marido branco para amar, uma casa bonita com piscina, e receber os meus amigos e amigas. Será que isso é pedir muito?
- No fundo, é isso que todos desejamos. Mas para o conseguir é necessário muito trabalho e muito sacrifício.
Satisfiz-lhe os seus desejos. A estrada era cheia de armadilhas. Muito estreita e com falhas nas bermas muito perigosas. Um descuido e seria o fim. O pior era quando surgia um camião em alta velocidade. O espaço era muito reduzido para manobras. Se coincidisse com uma falha da berma o acidente era inevitável. Voltar ao escurecer era pura loucura. Alguns condutores que retornavam desse local, vinham com uma mão no volante e outra na garrafa. A iluminação era inexistente.
Depois de narrar tudo isto à Ana ela entendeu e aceitou. Acabámos os cacussos assados, perguntou-me se podia comprar o que parecia ser um papagaio. Concordei mas não entendi. Acho que a pobre ave não sobreviveria muito tempo. O meu receio verificou-se poucos dias depois, a pobre ave acabou por sucumbir.
Ela descobriu na cidade um local onde serviam cabrité. Um prato tradicional gerido por senegaleses. As condições higiénicas deixavam muito a desejar. O empregado convidava o cliente a escolher a parte do cabrito que queria. Era cortado em pequenas fatias, assado e entregue ao cliente num pedaço de papel, que dava a impressão eram restos de embalagens aproveitadas para o efeito. O jindungo e o sal vinham acondicionados num outro pedaço de papel.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Os Jasmins da Lwena (16). Lembrei-me que os pardais são como as pessoas esfomeadas.



«As ditaduras promovem a opressão, as ditaduras promovem o servilismo, as ditaduras promovem a crueldade: o mais abominável é o facto de promoverem a idiotice.» – Jorge Luís Borges, escritor argentino (1899-1986).

A síndroma Roque Santeiro. Quem será o empresário que conseguirá suportar tanta selvajaria crescente?! Meus senhores! Os seguranças já não aguentam, também estão medrosos. A selvajaria já domina nas ruas, e cada vez será pior. Já não existe população, apenas demónios. E onde está a verticalidade do homo angolensis? Sem ela reforça-se a idolatria da falsa nação e a secagem da árvore que alimenta aquilo que ainda dá pelo nome de povo. Luz, água, casebres e empregos… confiscados. É que os escoltados da governação e estrangeirada já nos invadem as habitações. E isto é a mais pura selvajaria inqualificável. Alguém terá inevitavelmente de sofrer, perecer com as consequências.


Lembrei-me que os pardais são como as pessoas esfomeadas. Que quando têm fome, são válidas quaisquer regras de sobrevivência. Arrastei os vasos para lugar seguro, replantei a hortelã. Para os pardais coloco-lhes regularmente arroz e água. Agora, ela tem condição para alimentar o filho. Deixa-o localizado porque sabe que está seguro. Dá umas voltas, quem sabe… talvez discutir com o marido que ousou abandonar o filho.
Os cães e o vento uivavam nervosos, temerosos da escuridão que agitava os sons do silêncio da noite. Tiros ouviam-se de vez em quando. Era um nocturno melancólico de uma sinfonia fantástica.
Ouvimos o miar de gato na porta da rua seguido de arranhadelas que vão aumentando de tom. Depois o ladrar de cão seguido de dois socos. Ficámos muito atentos, expectantes. Mentor esboça um largo sorriso, levanta-se e abre a porta rapidamente. Depara-se com alguém que traz um mostruário de vendas. Não demonstra surpresa, adivinhara quem chegara.
- Ulisses… não é possível… a venderes telemóveis!? Sempre com astúcia!
- Claro… depois será o disfarce de presidente de um partido político. Exigirei o dinheiro que me é devido, depois financiarei uma armada grega para atacar os Politburo. Vou-lhes lançar setas, onde lhes dói mais.
- Entra, entra, vou procurar algo para te sentares.
Mentor carregou uma caixa de cerveja vazia e Ulisses acomodou-se nela. Mentor abriu latas de sardinha e atum. Gritou para a vizinha que tinha gerador para que trouxesse cervejas frescas porque tinha visitas em casa, e que depois pagaria a conta. Pediu-lhe também para mandar um dos filhos procurar pão. Havia uma mesa pequena funcional que acomodou os convivas. Como a água escasseia sempre, as latas de conserva vazias serviam de pratos. Depois de algumas garrafas terem prestado o aquecimento mental, foram abandonadas no repouso do esquecimento tumular. Mentor aborda Ulisses:
- Ulisses… tu… em terra?!
- O meu nome é Odysseus! Não sei quem foi o parvalhão que inventou esse nome. A língua grega desvalorizou-se? Ah!.. Esses latinos com a mania de esconder a originalidade das civilizações. Copiam-nos e depois apagam-nos. Como se não existíssemos no tempo. Ainda bem que os arqueólogos da verdade nos desenterram, e provam a nossa maturidade. A verdadeira História está agora a ser contada. Os nossos deuses são iguais aos actuais, apenas mudaram de nome. Por mais tentativas que façam, acabam sempre por retroceder às origens. É isso que se chama História.
Interrompi porque achei que algo estava errado.
- Ulisses, não coma mais sardinhas, o atum é mais digesto.
Ele olhou-nos como se fossemos o mistério da natureza humana. Mostrou a melancolia do tempo passado nos barcos errantes que atrofiavam o destino do seu regresso, sempre nos mares traiçoeiros.
- Há trinta anos que ando nesta vida. Tenho imensas saudades da minha terra, da minha Penélope, da minha família. Acho que a Penélope já arranjou outro. Custa-me a acreditar que ela aguente as comichões do luar das noites. As paredes vaginais devem estar derretidas, porque Vénus a contempla. Sinto imensos ciúmes dos venusianos que adulteram Penélope, mas as minhas flechas serão certeiras. Quando chegar destruirei esse maldito planeta. Provocarei o caos no sistema solar. Ah!.. Mas que divindades são estas que separam marido e mulher, que se deleitam horrorizando o amor! Como poderei amar a Deus acima de todas as coisas? Se tenho que escolher entre duas divindades, Deus e Penélope, e como não me é possível amar duas entidades ao mesmo tempo, então escolho, quero amar apenas uma: para sempre amarei e mergulharei no néctar divino que Deus me deu. Não farei nenhum sacrifício, porque Penélope é o meu Deus do amor. Ela pode comer-me, banquetear-se com o meu corpo, com o meu espírito, quando e onde lhe aprouver. Quando se actua verdadeiramente no amor, o corpo e a mente somem-se… deixam de existir… pronto! Passam para uma dimensão desconhecida. Ficam a viver no planeta Etéreo, e dele não desejam sair. O corpo na terra, e a alma ligada por um cordão umbilical tão frágil, que uma qualquer ave bebé no seu primeiro voo indeciso o pode interromper. Amar é o mais poderoso dos sentimentos. É como um império que a qualquer momento rui. Onde há imenso poder, imensa fortaleza devidamente consolidada, os inimigos abundam, espreitam. As muralhas do amor são rompidas, não resistem à tragédia dos laços familiares. O amor está condenado a navegar, a ser transportado, carregado, a viajar no esforço das ondas do mar. E elas batem cada vez com mais força, invadem, perigam a segurança das nações. Advertem que o amor é restituído, deixando o que resta, após a invasão das águas imensuráveis terra adentro. Depois os choros, a tristeza da destruição dos pedaços dos jardins suspensos que aterraram na inundação previsível. As vagas quando chegam trazem ofertas, e no regresso acompanham-se por um grande coro cósmico, esquecem as oferendas, enrolam, e como uma mão gigantesca que se fecha, ainda fazem último esforço com um dedo, e levam para o abissal o feijão da tormenta humana. Onde há muito dinheiro há muita injustiça.
Por momentos o silêncio imperou. A lua vista da única e pequena janela parecia flutuar ao acaso no céu. Teimava em desafiar, mostrar que a noite é efémera, e só lembrada porque lança abraços sonolentos, hipnóticos. Até um guerreiro destemido como Ulisses não resiste aos tombos horizontais, do leito sem espaços conjugais. Ulisses vive momentâneo no sono, no sonho eterno de uma Penélope confrangedora. Mentor, menta a hortelã e aromatiza as palavras:
- Que saudades do meu amigo Ulisses. Vejo-o, sei que é um doce sonho. É mais uma das suas astúcias. És tu Ulisses… agora já entendo porque sentia o barulho agradável das ondas do mar… que nos acompanham com a sua melodia misteriosa desde o nascer até morrer. És tu a origem dos búzios, desse sussurro permanente encostado ao ouvido, e para sempre inalterável.
- Estou farto desta merda de vida e dos humanos, só quero voltar para a minha imortal Penélope.
Via-se que Ulisses se sentia como barco encalhado. Queria navegar mas não conseguia, porque os escolhos em terra não se comparam aos do mar. Estes são previsíveis, e os que estão em terra tem muitos tentáculos imprevisíveis. Veio bom vento a Ulisses.
- A muita idade traz muito cansaço de muitas aventuras. Chegou a hora do descanso. Quando regressar a Ítaca, espero que Penélope não me desgoste ao dizer-me que não tenho direito à pensão de velhice, depois de tanto trabalhar, depois de tanto lutar, guerrear e encher os bolsos dos outros. Isso será uma grande injustiça. Toda uma vida de trabalho… chegar a velho e não ter direito a nada. Mudam-se os tempos? Não! Quem os muda, é para aumentar a fome que antes existia, mas agora não há mares que se lhe comparem. Sempre contra a maré… de modos que não vi nada de novo, de baixo, e à superfície dos oceanos. Uma coisa vi em terra, uma coisa que nunca pensei ver: a maldade e a fome aumentaram tanto, que nem Zeus o pode quantificar. Assim, que Zeus me perdoe, e Apolo também… mas com tanta fome, como é que vou crer e amar o meu Deus? 
Percebia-se que Ulisses enfunava as velas, à espera de ventos de boa feição para fazer-se à vela, na fuga constante do mar para terra, da terra para o mar. Há mar de sargaços, em terra há muitos homens de negócios. Ulisses sabe que o destino do homem é a desumanização.
- As civilizações são maremotos. Emergem e submergem… aparecem e desaparecem. É este o destino trágico do ser humano. Quando nasce é inofensivo. Mais tarde, rodeado pelas forças do mal, instrui-se para destruir. Não faltam malfeitores, professores das ciências diabólicas. Nunca confiem os sentimentos a ninguém, porque nos tempos que correm serão escarnecidos. O ser humano só entende, só responde com a linguagem da violência. Proclama o maldito extermínio da espécie, mas nem todos perecerão. O sábio humanista sobreviverá, depois edificará um mundo novo, livre de malditos. Deixai-os abominar, reinar neste tempo, porque no próximo dilúvio jamais reinarão.
Quando surgir no horizonte uma pomba branca cheia de luz resplandecente, é o sinal para os exércitos das trevas avançarem. Virão com cruzes de sangue nos seus tecidos, e as suas espadas serão invisíveis. Um grande terror cairá sobre as nações, que serão desfeitas, e um grande lago vermelho, da cor do sangue colorirá a superfície da Terra. As crianças correrão ao encontro das suas mães, e não as encontrarão. As aves ficarão tingidas de vermelho, ninguém escapará do fogo divino.
Apetecia-me chamar-lhe, profeta apocalíptico Ulisses, mas contive-me. Receava que a fúria de Aquiles o invadisse. Ulisses dá duas punhadas violentas na mesa. Ouvem-se o regresso dos tiros e os ladrantes cães. Ele ri-se, e fala para as ondas do luar, que de velas desfraldadas inundam a noite:
- Estalajadeiro, a cerveja tremula. Ainda nos falta muito para chegarmos além das profundezas da terra.
Mentor aplaudiu. Reavivou mais cerveja que se movimentou alegremente no semblante dos navegantes. Ulisses refresca-se:
- E nada restará de humanismo, mas a purificação dos eleitos sobreviverá. Eles, os eleitos, serão para sempre os Abençoados, e reinarão para todo o sempre. A vida encurta-se, o amor alonga-se. Não existe, nunca existirá nenhuma espada poderosa que acabe com ele. Os que acreditam conhecerão os segredos do Universo, e neste lugar as moedas de oiro não têm valor. Não é concebível viver num mundo onde o dinheiro prevalece sobre tudo.



domingo, 12 de agosto de 2012

O nosso glorioso regresso ao templo das cavernas



E conseguiram arrasar tudo, como o mais violento dos ciclones. Finalmente a Internet já está como a água e a luz. Isto é África no abandono das marés. Angola está como a África parecendo um navio em alto-mar com os escravos a serem baldeados borda fora. Não serão motivos políticos que estão por trás da Internet muito lenta na batalha eleitoral? Estações de rádios, televisões e jornais estão militarizados e só faltava silenciar a Net para que a oposição fique sem nenhuma hipótese de comunicação. Mas isto é uma gigantesca fraude, e já são tantas, tantas que as eleições se tornam inviáveis.
Quanto mais me batem nas costas mais elas se enrijecem. Sidi Omar al-Mukhtar, 1862-1931, herói da resistência líbia contra o colonialismo italiano.
O principal caminho que nos conduz ao templo das cavernas é o dos desmandos dos mandos eleitorais. Como já estamos no templo cavernoso, a lei do cacete manda, comanda. Assim o eleitor vota à cacetada no partido do primitivismo.
Passa um pouco da meia-noite na Luanda do terror. Ouvem-se dois tiros de AKM algures na Avenida Comandante Valódia, ex/Combatentes, que parecem explosões devido ao extremo silêncio do que agora à noite Luanda parece, ou é, uma cidade fantasma. A origem dos disparos deveu-se a um bando de crianças que queria roubar a arma de um segurança. Ele disse que todas as noites bandos de crianças circulam pela cidade como mabecos, e que quando conseguimos nos libertar de uma, outra já está nas nossas costas para nos atacar, até nos imobilizarem. São terríveis, metem medo, e se não estamos armados, não vale a pena, não os aguentamos.
“ É a parte que nos cabe, neste latifúndio.”
Eles querem-nos levar, para as cavernas hibernar.
Neste ocidental império bárbaro, onde se praticam fraudes eleitorais tão escancaradas, tão incivilizadas, que obrigam até a ruidosas gargalhadas. Onde é tão fácil um do restrito bando do eterno poder usar a ilicitude de um bilhão de dólares sem nunca trabalhar. Onde chineses/vietnamitas com incrível à vontade impõem-nos o regresso ao comunismo primitivo, com a contrafacção de tudo, lâmpada incandescente que não funciona, e até nos exportam uma coisa parecida com sabão. Onde pelas seis, sete horas da manhã, e até à meia-noite ou mais tarde só se ouve o serrar de tubos, calhas de ferro, etc, pelos tecnólogos chineses/vietnamitas, e o desemprego do mwangolé que até lhe podemos chamar, República dos Desempregados de Angola, num regresso muito veloz às cavernas. Onde chineses/vietnamitas mijam e cagam ostensivamente à vista de todos. Onde Angola é o único país do mundo que tem leis que legalizam a corrupção. Onde em todo o lado a miséria é atracção turística. Onde a água é, cisternas para eles e água para ninguém. Onde é uma questão de sorte ter energia eléctrica. Onde o petróleo abunda exclusivamente para Ali-Babá e os seus quarenta accionistas. Onde as crianças nascem e depois é pura sorte sobreviverem, por exemplo: quem resiste ao infernal barulho diário das motas de escape livre, do partir paredes, música estrondosa, do fumo dos geradores, porque isso da luz é o reforço da fraude, e há que vender geradores, e o serrar ferros? Quem consegue dormir? Onde compramos tudo importado, alho, cebola, tomate, até o sal, uma imposição de Portugal, devido aos agora extremos laços de amizade como dantes nos mares naufragados, colonizados. Onde se esperam violentos tumultos pela repressão extremamente agressiva, selvática, que ninguém conseguirá suster, porque se atingiu o limite da potência da paciência, da fome que está muito para além do insustentável. Angola não é Darfur, não é nenhuma colónia portuguesa, Chinesa, ou como alguns pretendem, outra Síria. Angola prepara-se finalmente para a luta da liberdade e independência. Onde até as igrejas se constituem como partidos políticos. Onde, etc, etc, no colonialismo e na escravidão não desejamos continuar, queremos, e vamos nos libertar.
Segundo a RNA, algures numa localidade da Huíla, as populações ganharam uma nova administração municipal
O erro mais crasso de qualquer incompreensão de um Poder é o uso bárbaro da violência repressiva contra a inteligência. E como a inteligência sempre se sobrepõe, a fraqueza do Poder acaba sempre por ajoelhar-se, vergonhosamente rendido, sem forças, sem argumentos, irremediavelmente abatido. Porque até agora ninguém se lembrou de criar uma universidade para ditadores?
O minoritário e as potências estrangeiras que o apoiam tentam imitar Napoleão que venceu as primeiras batalhas, mas a última, a de Waterloo ser-lhe-á desastrosa, tal como também o todo-poderoso Hitler na Normandia, no Dia D.
Frase agora muito em voga do mwangolé: «Esqueci-me!»
Ó Senhores! Não são as manifestações que são extemporâneas, o poder ditatorial e repressivo em todos os domínios é que é de facto e de jure extemporâneo.
Os desejos das pessoas sinceras e honestas que acreditam, que têm fé, jamais se devem desprezar, porque significam a ténue esperança que nos resta do amor. Sem elas, sem dúvida que pereceremos. Independentemente das suas convicções religiosas, o que interessa é o que elas têm dentro da sua alma. Procedendo de outro modo, estamos no caminho errado da intolerância.
Porque é que os estrangeiros continuam com a manutenção do desrespeito total a tudo que seja mwangolé? Porque o mwangolé também não respeita as leis?
E ainda há quem insista na batalha perdida de lutar contra o seu próprio povo.
Creio que existe a necessidade da revisão do que é ser humano. Por exemplo, a opressão jamais poderá entrar na classe do ser humano, mas numa classe nova, que poderemos designar por, seres muito perigosos com deficiências mentais, e logo, logo, capturá-los, enjaulá-los e colocá-los num centro psiquiátrico de alta segurança.
Desde que os palacianos poderes e as suas dependências estejam amplamente iluminados e inundados de água, o resto que se dane.
Dantes eram todos contra a escravidão, o colonialismo, o imperialismo, o neocolonialismo, defensores dos povos oprimidos, amantes da liberdade e independência dos povos. Que não era possível o nosso povo viver na miséria, etc. E hoje esses grandes revolucionários o que são?
Alguma vez aconteceu num país que generais empresários fomentassem emprego e bem-estar? Sim, em Angola, onde a democracia e o empresariado estão bem militarizados, de fardas generalizados, e pelas milícias sustentados.
E finalmente o Senhor do Petróleo conseguiu converter as igrejas de Angola. E uma nova religião surgiu, tendo como teologia principal a adoração dos dinheiros do petróleo. E o nome dessa religião é Petrolismo.
Com a cidade do Kilamba já ganhámos mais um título mundial na classe de cidades fantasmas. Nas Lundas sairá mais uma fantasmagoria, uma nova cidade já baptizada, dos Santos, que muito naturalmente também será outra cidade fantasma? E Angola passará a denominar-se, República das Cidades Fantasmas de Angola?
E os campos petrolíferos inundam as igrejas da maiuia de sabedoria… e de dinheiro.
Porque é que alguém quando escreve diferente, de modo mesmo minimamente crítico, relevando as verdades da miséria e da opressão ainda coloniais, o minoritário e a sua minoria tomam-nos por inimigos a abater? E porque também porquê só a equipa do minoritário ganha prémios de jornalismo, de literatura, de poesia, etc? "Orgulhosamente sós", na caverna, à espera da luz democrática, que não demora, mas que entretanto já lhes arrebata os portões sem bibliotecas.
Está mais que visto que o minoritário é o candidato do desastre eleitoral.
Sete coisas que identificam um mwangolé:
1 Som de música insuportável.
2 Partir paredes, martelar em qualquer coisa e serrar ferros para fazer gradeamentos
3 Reservatório de água.
4 Beber, beber, beber álcool, será porque não tem água?
5 Gerador, isso de energia eléctrica só existe nas enciclopédias.
6 Não fala, grita, porque está surdo por causa do infernal barulho musical.
7 As leis dependem dos corruptos, e como eles não funcionam, os mwangolés também não.
Nunca tão poucos fizeram tantas fraudes.
Com o cenário do teatro infantil eleitoral montado, escanzelado, e apoiado pelo regresso às cavernas da invasão chinesa, Angola vive neste momento o regresso ao primitivismo incrível. Angola não pode, não deve, tem que sair das cavernas. As estruturas dos vinte bilhões de dólares da China desabam Angola. É o primitivismo da manutenção dos biliões de dólares nas contas pessoais neste latifúndio, neste pantanal petrolífero. E nesta selva petrolífera primitiva não há, não pode haver lei, nem ordem, como lhes convém. Por isso pode-se prender e aniquilar os outros como se fossem também selvagens.