segunda-feira, 22 de julho de 2013

O EMPRESÁRIO LUSO-ANGOLANO (12)




Enquanto a empregada executa o pedido, entram dois portugueses fugidos da reforma agrária do Zimbabué. Encostam-se ao balcão e observam o que a parabólica transmite. Está num canal que só transmite música com negros e negras. Pessoalmente apreciava, aprecio, especialmente a dança sensual dos corpos das negras, a naturalidade genética. Para mim as negras eram… são, muito bonitas e extraordinariamente sensuais. Um dos portugueses reclama para a empregada:
- Tira essa merda daí, põe isso noutro canal!

Vieira grita para o irmão. Heitor aproxima-se com o telemóvel a tocar. Olha para o número que está no visor e não atende. Comenta:
- É uma gaja. Dei-lhe algumas fodas, agora quer dinheiro para os medicamentos dos filhos.
- Está bem!.. Heitor, eu e o contabilista vamos para minha casa!
- Concordo. Têm o direito de descansar porque hoje já trabalharam muito.
A empregada colocou tudo numa caixa. Vieira faz-lhe sinal para lhe segredar algo no ouvido. Ela baixa-se demasiadamente. Fica numa pose bastante provocadora. Consigo ouvir o que Vieira lhe diz:
- A partir de amanhã vão passar a andar nuas. Quero ver aqui muitos clientes. Acho que a casa vai ficar cheia.
E depois voltando-se para mim, reforça:
- Mas digo-o com toda a sinceridade. Qual é o problema de as pessoas andarem nuas?! Custa-me também a entender que para fazermos amor, que é um acto perfeitamente natural, temos que nos esconder?!
- No tocante a isso tenho a minha opinião.
- Vamos embora. Continuamos em minha casa. Vais ver o meu carro novo.
Saímos e parámos junto ao carro. Vieira abriu as portas, entrámos e diz-me orgulhoso:
- Já viste este Lancer?! Fiz um trabalho para um gajo, ele não me queria pagar, fiquei-lhe com o carro.
- É todo preto, preferes essa cor?
- Sim. Porque não se nota a sujidade. Um carro branco é trabalhoso a limpar, este mesmo que estando carregado de sujeira não se nota nada.
Havia pastas de arquivo, livros, e papéis espalhados em cima de mesas, cadeiras e sofás. Enquanto Vieira, na cozinha preparava a comida, consegui arrumar o local para nos instalarmos. Ele atrapalha-se:
- Não consigo encontrar o saca-rolhas para abrir a garrafa.
- Arranja um parafuso comprido e um alicate.
Enrosquei o parafuso na rolha de cortiça, depois com o alicate puxei com força, e consegui retirá-la. Vieira dá uma ideia:
- Já viste o negócio se aquelas gajas andassem nuas, era casa cheia de dia e de noite.
- Vieira, no tocante a isso tenho opinião formada. Foi o cristianismo que nos impôs o andarmos todos tapados. É pecado mostrar a nudez.
- Não acredito em Deus!
- Porquê?
- Isso é tudo uma grande aldrabice. No fundo é uma grande empresa de estrutura vertical. O Papa é o presidente do conselho de administração. Os Cardeais são administradores. Os Bispos são directores. Os Padres, chefes de departamento e os Fiéis, são os operários.
- Vieira, não acreditas em Deus… ou na Igreja?
- Nem numa coisa nem noutra.
- Ensinaram-me que quanto mais o negares, mais nele acreditarás.
- Mas o que é que tu queres?! Sou ateu. Não posso ser ateu? Não perco tempo com religiões.
- Parece-me que o ateísmo é uma religião. É como aquele indivíduo que diz que não quer saber de política, mas na realidade está a exercer um acto político. O de não ser político. Quando nos sucede algo que não podemos controlar, gritamos. Ai meu Deus!
- Mas o que é que tu queres?! Mantive um estreito relacionamento com um padre católico. A nossa intimidade fazia-me crer que a amizade seria eterna. Dei o meu contributo com algum dinheiro para ajudar a Igreja. Num determinado momento senti-me numa situação aflitiva. Roguei-lhe o seu apoio. Pura e simplesmente fui abandonado, desprezado. Quanto à nudez, até os dicionários há bem pouco tempo evitavam falar sobre tudo o que se relacionasse com o sexo… isso deve-se à Igreja.
- Não te esqueças que a Igreja é composta simplesmente por seres humanos.
- Mas o que é que tu queres?! Por seres humanos (?). Então não dizem que o Papa é eleito por Deus? Não sabes que o Papa João Paulo II tentou interferir na Internet? Queria controlo, que a Internet deixasse de ser livre, mas ninguém lhe ligou. E ainda bem.
Abrimos a segunda garrafa, Vieira exclama:
- Sinto-me orgulhoso em ser português por causa destes vinhos. Viva o Dão Meia Encosta!
- Mas és português ou angolano?!
- Eh pá!.. não me fodas! Aqui sou angolano, em Portugal português. Já te disse que sou um cidadão do mundo. Olha… os pregos no pão já acabaram. Vou retirar algumas lagostas da arca e preparar um molho que…
- Com o bom azeite…
- Sim tens razão. O bom azeite português. Outro produto do qual muito me orgulho. Viva Portugal! E os portugueses pedófilos que se fodam. Entretanto a Igreja parece que não se dá conta de que promove a pedofilia. E ficam incólumes.
- Vieira, já te disse que são apenas seres…
- E também querem promover o homossexualismo, mas o Papa não admite isso. Então para os chatearem, vários países já o legalizaram. Pouco falta para se estender ao resto do mundo.
- Na África não.
- Oh! Esses são uma cambada de atrasados.
- Vieira, apenas defendem as suas tradições.
- Enquanto assim procederem nunca avançarão em nenhuma frente.
- Mas agora somos todos obrigados a sermos homossexuais?
- Mas o que é que tu queres?! Se eles já nasceram assim, temos que respeitá-los.
- E casados? Como farão filhos?
- Adoptam-nos.
- E depois educam-nos para serem também homossexuais?!
- Não é nada disso, se não fazem filhos, não será por causa disso que a humanidade se extinguirá. O homossexualismo existe desde a criação do ser humano. Legalizando-o até tende a diminuir.
Vieira abre a terceira garrafa e canta:
- Ai meu vinho Dão Meia Encosta, não há cor igual há à tua. Porra! Isto é mesmo bom! Não existe no mundo nada igual. Nem o paraíso se lhe compara. Entre uma boa gaja e este vinho, escolheria o vinho.
- Sabias que o vinho nos seus primeiros tempos era considerado uma droga, divino, assim como a oliveira, reis eram ungidos com azeite.
- Sim sei disso. O culpado disto tudo foi o Carlos Magno. Antes de uma grande batalha, sonhou que viu uma cruz no céu. Ganhou a batalha e tratou de entregar tudo à Igreja. Por isso o Papa Leão III em gesto de agradecimento corou-o como Imperador do Ocidente. É como o Marx. Ele é o Cristo e Estaline a Igreja.
- Vieira, não estou a entender.
- Mas o que é que tu queres?! A igreja ficou com tudo. Depois aniquilaram os Cátaros e os Templários, apenas para os roubarem. Nem as terras escaparam. O Infante D. Henrique, o Navegador, conseguiu as suas aventuras marítimas à custa dos bens dos Templários. A história do cristianismo é uma história de massacres, genocídio de povos, roubos das suas obras literárias, e dos seus conhecimentos científicos. Com a Inquisição terminam, finalmente por aniquilar qualquer oponente, e ficar com os seus bens. Quando um membro da Inquisição sabia que alguém tinha algo valioso que lhe interessava, enviava-o para o braço secular do Santo Ofício, sem testemunhas para se defender. Tudo em nome de Deus. Mas a melhor monstruosidade que a Igreja Católica inventou, foi um demónio chamado Torquemada. Este demónio inventou instrumentos de tortura, que duvido existirem no inferno. Era mais ou menos como o 007, tinha ordens para matar. Tinha um prazer divino em matar. Como é que eu vou acreditar nesta quadrilha de malfeitores?!

quinta-feira, 18 de julho de 2013

UMA TRÁGICA HISTÓRIA DE AMOR




Baseado num facto verídico
Dérito e Sambita namoravam-se. Não como aqueles que namoram e fazem disso uma mera ocupação para passar o tempo. Amavam-se para além das montanhas aladas das suas almas. Muito para além da atracção universal de dois corpos terrenos. Dérito, de vinte e um anos e Sambita, dezasseis, vizinhavam-se, há dois anos que floresciam no namoro. O pai dela não sabia, saber não podia. Estudavam, o futuro preparavam. Distraíram-se e Sambita engravidou.
Desabrochavam-se no seu amor que já sentia maturidade. A responsabilidade que aceitavam no infiel quotidiano. Dérito lembrou-lhe:
- Querida, acho melhor desfazeres a gravidez!
- Sim, também já pensei nisso meu amor!
- Sabes, alguns remédios que vendem por aí… acho que são eficientes.
- Já tomo alguns… com a ajuda das minhas amigas tudo correrá bem. Assim o espero!
- Concordo contigo. Estudamos e neste momento não temos condições para suportar um ser que nascerá, e para o qual não temos meios de o sustentar, alimentar. Será mais um esfomeado. Quem nos apoiará? Decerto serás escorraçada de casa. Para onde? E eu? Que estou na casa de um tio?! Deixaremos de estudar. Será o nosso fim.
- Déritozinho, compreendo perfeitamente. As tuas preocupações são a eternidade da fortaleza, da certeza do nosso amor. Apesar de retirar a sementeira do meu ventre, que jurei só a ti pertencer, continuará sôfrego de liberdade para nele de novo exercitares. Planta neste jardim das delícias acolhedor, a semente do nosso universo. Verás depois os frutos saborosos, acolhedores que cairão no paraíso das tuas mãos.
E a vida no laboratório da Sambita expandia-se, sentia-se como o peixe na água, crescia, remexia, renascia.
- Déritozinho, não me sinto bem. Acho que estou com paludismo.
- Vou procurar ajuda!
- Não vale a pena. Ninguém nos ajudará. Somos apenas jovens que se amam. Quem se preocupa com isso? Pensa nisso minha ternura, minha essência pura, e tudo se enaltecerá!
- Confio em ti, na tua raiz celestial, matriz de amor impetrai.
Sambita sentiu-se num mar confuso que não lhe corria de feição. A juventude do seu corpo fortalecido, sempre adequado para saltar qualquer obstáculo, em maré de rosas sempre cuidada, regada, e que no esquecimento seca-se, sem rega. Mas que depois recebe a água da vida. Reergue-se, Sambita sentiu a sua jasminácea flor jasmim-manga murchar-se. Apesar de muito aromatizada não conseguia resplandecer. Lançou talvez o último pedido de socorro.
- Por favor, leva-me para a maternidade!
Dérito não sabia como obedecer. O que fazer do e no tempo, o que pensar. Sentia o sol apagar-se. Mecanizou-se como adivinho talvez ao último desejo da amada nebulosa.
- Está bem, não deixes o jasmim da nossa primavera da vida murchar.
Chegou na maternidade e entregou-se nos cuidados intensivos. Suspirava, procurava a vida que lhe faltava, do único que a amava. No exterior, Dérito aguardava, impacientava-se. Talvez fosse apenas mais um daqueles sintomas que as mulheres sentem durante a gravidez. O tempo passava e as notícias, ele sentia, desconfortavam-no. Sentiu uma faísca no cérebro. Como se alguém lhe enviasse uma mensagem. Que estranho... era a primeira vez que sentia tal no seu pensamento. Parecia um pesadelo. Despertou sobressaltado. Não esperou, subiu as escadas empurrando, não se importando com quem lhe aparecia à frente. Sabia onde ela estava. Estacionou e perguntou:
- A Sambita…
O semblante da médica deslocou-o para a época glacial, ela conseguiu descartar-se:
- Faleceu!
É apenas com esta palavra que as pessoas que trabalham nas áreas de saúde respondem. Saborear a morte é ser profissional, é ser normal. Perderam os sentimentos, apenas sentem as pessoas como qualquer objecto avariado. Enquanto funciona é prestável, quando não nos serve o destino é a morgue.
Dérito evadiu-se, afastou-se da realidade. A querida da sua vida sem ela? Será engano? Não! Viu, sentiu que ela se despediu, do muro de suporte da vida que ruiu. Não respirava. Lembrou-se que quando deixamos a dinastia da vela vivencial não respiramos. Sentiu a ténue chama que restava da alma do seu amor, já nos idos sempiternos.
Dérito! Sonharam-me que descobriria o Caminho, que tudo me seria revelado, lamento! Não consegui. Deixo-te os meus últimos suspiros, vão para ti. Vejo tudo tão escuro, parece noite. Que luar, neste tão estranho lugar! E contudo tão bonito. Vejo alguém muito longe que se apressa. Levita para mim. Dérito! Sinto muito medo! Ah! És tu! Não te demores, acolhe-te nos meus braços abertos. Ainda queria viver muito, mas não me deixaram. Não deixam ninguém viver, apenas nos resta o sono, sonho eterno da nossa infelicidade.
Um tremendo fogo interior percorreu-lhe o corpo. A decisão da morte tão cruel para expiar o sentimento de culpa que sentia, a vingança a uma sociedade desumana. Uma vingança ao mundo que não os soube acolher. Adquiriu a certeza que não adianta mais viver. Pegou num recipiente. Foi numa bomba de combustível e encheu-o com gasolina. Entrou em casa normalmente, ninguém suspeitou das suas intenções. Fechou-se no quarto bem trancado. Ensopou o colchão com gasolina, deitou-se e pegou-lhe fogo. As chamas tomaram conta do seu corpo. Um familiar sente cheiro a fumo. Tenta abrir a porta do quarto, não consegue. Gastaram-se aí quinze minutos para derrubar a fortificação. Levaram-no rápido para o hospital. As queimaduras eram intensas. Dificilmente escaparia. Pouco depois veio o fim do que nos resta. O convite da morte foi atendido. Contente por roubar mais um jovem, transportou-o para o seu abismo eterno. Os últimos momentos foram uma mensagem de esperança, para a sua Sambita. A quem amou, como poucos sabem fazer. Ao maior, mais puro e único amor da sua vida.
Sambita! Estou prestes a consumir-me nas chamas da gasolina. Na escuridão dos cofres humanos gelados, onde guardam as almas invisíveis, insensíveis, que nos conduzem à morte. O meu, o nosso clamor não será em vão. Alguém escutará, redobrará este apelo!
Na noite mais sombria dos tempos voltarei, e juntos encantaremos, espalharemos o perfume humano da humanidade do nosso Amor.
Oh! Querida… voltaremos! Vejo para sempre finalmente, a tua beleza e o teu amor que me seguem. Vem! Para a nossa morada eterna, onde não existem noites, apenas o nosso glorioso Amor. Se fortuna não tivemos na terra, a do céu será o nosso tesouro. Do casamento que inventaram, com a morte nos casaram. Este enlace que jamais alguém apartará.

Imagem: http://www.webix.com.br/fotos/imagens/paisagens/media_estrada-florida.jpg



segunda-feira, 15 de julho de 2013

11 A 21 de Junho de 2013. Diário da cidade dos leilões de escravos




11 de Junho
Este liquidificador funcionou apenas meia dúzia de vezes - como tudo o que é chinês até agora comprado – depois começaram a aparecer larvas, um ninho, devido a uma fissura na zona das hélices, coisa vulgar dos chineses, pois por onde passam só deixam fissuras, e lá se foi mais uma merda fabricada na China para o lixo. Eis o tal gigante, nunca é cansativo repeti-lo, dos pés de barro
Eis as características técnicas do liquidificador: Liquidificador (Hand Blender) capacidade 0,6 litros, marca Ottimo. Made in China. Embalado especialmente para: Fresta Holdines Ltd. Cnr. William Dabs and Old Pearl Road Brackenfell 7560. RSA (República Sul Africana)
12 de Junho
Numa empresa de informática um tuga recém-chegado, mais um, ganha dez mil dólares mensalmente com direito a carro, a casa, telemóvel sempre com saldo, etc. A função dele é angariar clientes. E sabem como é que os angaria? Sentado no seu gabinete à espera que eles o procurem, ah!ah!ah!, a fumar, a beber café, a falar de futebol enquanto lê “A Bola”. Antes da independência o português, Robert Vasco Montez, vendedor dos carros da Wolkswagen, VW, na Guérin, era raro vê-lo no seu gabinete e os carros antes de chegarem a Luanda já estavam todos vendidos.
A luz, sim, isto não é energia eléctrica, liquidou-nos às 11.52, e ressuscitou-nos às 13.18 horas. De novo às 21.42 horas morreu e regressou do mundo dos mortos às 23.38 horas.
13 de Junho
O petróleo é o culpado disto, outra vez sem luz, das 14.30 às 15.50 horas. Os chineses estão a instalar o contador pré-pago.
14 de Junho
Quando somos governados por miseráveis, considera-se a miséria como uma epidemia, e então aparecem milagrosamente portugueses e portuguesas solidários salvadores que vêm na nobre missão de nos ajudar - a tal ajuda e controlo de que tanto necessitamos porque somos incapazes de fazer o que quer que seja, já nascemos preguiçosos congénitos – exigindo em troca apenas dez mil dólares mensais. Quanto mais o incremento da miséria, mais os estrangeiros se regozijam, pois têm um exército de escravos para se servirem e de escravas para gozo sexual – faz parte do contrato - são como deuses enviados do céu adorados por miseráveis criaturas terrenas. Entretanto a revolta alastra-se.
15 de Junho
Estes tipos são uma máquina perfeita de destruição. A energia eléctrica – já estou cansado de escrever estas duas palavras – arrasou-nos às 07.30 e incendiou-nos às 19.43 horas. Afinal foi outra visita porque evadiu-se às 20.00 horas e revisitou-nos às 20.53 horas. 
E uma onda de podridão empesta Luanda, de tal monta que é bem visível de satélite.
16 de Junho
A nossa miséria é o oásis dos estrangeiros. Como eles vibram de prazer com o dinheiro fácil que aqui ganham e nós para conseguir algo obrigam-nos a roubar, a assaltar. É assim o contrato de cooperação que a EDEL tem com os chineses, obrigam-nos a ficarmos sem luz. Comunismo e leninismo, é isso mesmo, miséria extrema para as populações e riqueza absoluta para os patrões. A miséria da luz lá se foi às 05.30 e clareou-nos às 10.41horas. Não satisfeita, outra vez morreu às 16.26 e ligou-nos às 17.51 horas, para logo depois nos desprezar às 18.00 horas e corrupta chegou às 19.30 horas.
17 de Junho
A FAO esqueceu-se de dizer que para a redução da pobreza em Angola, contribuiu muito significativamente a constante falta de energia eléctrica. É de se esperar que outros países lhe sigam o exemplo.
Povo escravo é povo revoltado.
E com toda a certeza, estes cortes constantes, anárquicos, queimam os cabos devido ao liga e desliga. Mais um pretexto para uma intervenção chinesa?
Querem ver que os chineses da ZTE foram contratados pela EDEL para arrasarem definitivamente a energia eléctrica em Luanda? Será que os chineses ligaram os cabos eléctricos com arames?
Vê-se mesmo que é tecnologia chinesa: brutos apagões, é burrice e incompetência consagrada, ou será que é brincadeira? Mas não, como tudo é negociata, as empresas de estrangeiros que fornecem geradores necessitam de os vender, então pedem colaboração à EDEL que corta a luz para que haja vendas, pois que as comissões estão asseguradas, assim neste dia foi um recorde de cortes de energia eléctrica e de vendas de geradores: das 11.56-12.31, 18.16-18.36, 19.43-20.43, 22.49-23.32, 23.48-00.20. Viva a destruição da energia eléctrica! Viva!!!
Estão a rebentar, a queimar o que resta do sistema eléctrico. Em quase quarenta anos já vi muita coisa horrível da energia eléctrica, mas como agora nunca vi. Está tudo podre, a cair aos pedaços. Cheira-me a chinesada. E há portugueses que afirmam que isto é a terra das oportunidades, ou das bestialidades?
18 de Junho
Um cidadão: «Éh! Há muitos bandidos nas ruas e estão a bater mal. Quando nos batem é sorte, agora costumam matar!»
19 de Junho
Quantos equipamentos já se destruíram? Este MPLA está, tão, tão, tão irreconhecível, tão diabólico. Parece uma cantina dos “Sênê” – senegaleses - que vende ovos podres. Que final tão trágico o soprará.
Quando se envia o exército para as ruas, caso das Lundas, quer dizer que isto está perigoso, o comboio da pseudo democracia descarrilou na república dos tumultos.
No país das maravilhas os cortes de energia eléctrica são uma constante na redução da pobreza. A tal FAO – o que é isto? Para que serve? Confesso que não sei – orienta os países africanos a aprenderem com Angola, sim, Angola tem muito para ensinar ao mundo, quem quiser se doutorar em corrupção é só vir para aqui, professores do Poder não faltam – a que acaba de vez com a pobreza.
20 de Junho
Ouvi na Rádio Ecclesia. Alguém sabe explicar porque é que mais de vinte clientes ficaram retidos mais de uma hora, creio que das doze às treze horas e tal, na agência bancária do BPC, ninguém podia entrar nem sair, no São Paulo em Luanda? Sem qualquer explicação a Polícia chegou e um cliente perguntou o porquê de tal situação e o oficial respondeu-lhe: «Cala a boca!!!» E depois aos clientes foi-lhes negado o levantamento de dinheiro sem qualquer explicação.
O Banco não tinha dinheiro e pretextou um assalto? Está a ficar mais que provado que não podemos confiar nestes bancos? Será que existe sistema bancário em Angola? São bancos cantinas?
Será mesmo verdade, dizem para aí, que os tugas também vêm trabalhar na ELISAL e similares a varrerem as ruas e na recolha do lixo?
As novas cidades da nossa Administração do Território: Luanda, cortes de energia eléctrica na terra das oportunidades, no país das maravilhas. No país onde a administração pública está a ser invadida por portugueses. Será daqui, da administração pública, que o rastilho se incendiará definitivamente?
21 de Junho
Cerca das vinte e duas horas. O tuga jovem, na casa dos trinta anos, sai do carro e ruma na direcção da entrada do prédio, mas um bandido persegue-o. Entra e o bandido bem colado prepara-se para o assaltar. A sorte do tuga é o segurança que barra o bandido e pergunta-lhe: «O que é que tu queres? Desaparece daqui!» Claro que os outros seguranças já estavam de ouvidos atentos para intervirem em socorro do seu companheiro. O bandido sentiu que não dava e bazou muito rápido. Estes tugas não têm nenhum juízo, então andam aí na caça das meninas, não sabem?! Elas são muito vivas, muito perigosas, é a luta pela sobrevivência, e depois quando se arrependem, já é tarde.
Imagem: autor desconhecido

terça-feira, 2 de julho de 2013

O EMPRESÁRIO LUSO-ANGOLANO (11)


(Como o crescimento projectado do Pib era artificialmente inflado, o país fica endividado além da sua capacidade de pagamento. Frente à ameaça da moratória entra então uma segunda rodada de negociações, assegurando o controlo por firmas americanas das reservas de petróleo ou outros recursos. Em resumo, Perkins era encarregado de organizar, para as grandes empresas americanas, o aprisionamento dos países na armadilha da dívida, na chamada “debt trap”. In Armadilha da dívida. Ladislau Dowbor
…O caso da Arábia Saudita é exemplar: “Eu simplesmente punha a minha imaginação para funcionar e escrevia relatórios que apresentavam uma visão de futuro glorioso para o reino. (Como também se faz em Angola). Eu tinha referências aproximadas para as cifras que eu poderia utilizar para estimar coisas como o custo aproximado de produzir um mega watt de energia eléctrica, uma milha de estrada, água, esgoto” etc. (...) “Eu sempre tinha em mente os verdadeiros objectivos: maximizar pagamentos a firmas dos EUA, e tornar a Arábia Saudita cada vez mais dependente dos Estados Unidos. (Assim como Angola, dependerá em absoluto da China). Não levei muito tempo a entender como os dois objectivos se articulavam; quase todos os novos projectos desenvolvidos exigiriam “upgrading” e serviços de apoio contínuos, e eram tão complexos do ponto de vista técnico que assegurariam que as empresas fornecedoras teriam que mantê-los e modernizá-los.
Na realidade, conforme eu avançava com o meu trabalho, comecei a juntar duas listas para cada um dos projectos que eu visionava: uma para os contratos do tipo “design e construção”, e outra para acordos de serviço e gestão de longo prazo. MAIN, Bechtel, Brown & Root, Halliburton, Stone & Webster, e muitas outras empresas americanas de engenharia e construção teriam lucros generosos para as décadas seguintes”. A expansão das firmas era acompanhada da negociação da sua protecção militar, evidentemente apresentada como segurança do país, convenientemente ameaçado pelas tensões regionais “A sua presença (da indústria da defesa) iria requerer uma outra fase de engenharia e construção, projectos, incluindo aeroportos, (como o novo aeroporto de Luanda) sites de mísseis, bases de pessoal militar, e toda a infra-estrutura associada com estas instalações”. Um dos chefes do Perkins se referia ao reino da Arábia Saudita como “a vaca que iremos ordenhar até que o sol se ponha sobre a nossa aposentadoria”…
…É interessante fazer o paralelo entre Perkins, o homem do sistema que sai denunciando, e Stiglitz, que larga o Banco Mundial e publica “A globalização e os seus malefícios”, ou ainda David Korten que participa dos programas da USAID na Ásia e sai denunciando o que se faz na realidade (“Quando as corporações regem o mundo”). O sistema é realmente bastante podre, e chamar isto de “livre mercado” é realmente um insulto a Adam Smith» In Actualizações. Ladislau Dowbor)

Vieira avança:
- Os lucros do petróleo sobem. Os custos de importação também. Não sei onde está o lucro. Mas o que é que tu queres?! Nem conseguimos fabricar uma bicicleta.
- Vieira, isso não se deve também ao adiamento constante das eleições?
- Mesmo que outro partido as ganhe a situação não sofrerá nenhuma alteração. Acho que vai piorar ainda mais.
- Porquê?!
- A corrupção está de tal modo implantada que não se consegue sair dela. As petrolíferas vão manter ou aumentar os níveis de corrupção. Qualquer partido político que interfira nos seus interesses não durará muito tempo.
- Vieira… acredito que são os efeitos da globalização.
- Tantos intelectos que existem por aí, e não têm acesso à Internet. Convém-lhes um povo completamente analfabeto. Para quando algum estrangeiro aqui chegar, dar-lhes a volta facilmente. É tão fácil aos EUA acabar com os regimes corruptos, mas isso não lhes interessa. E quando um presidente da república não lhes interessar mandam-no passar férias.
- Vieira, isso significa que sempre assim foi e sempre assim será?
- Não tenho qualquer dúvida. Outro aspecto é que não se pode confiar em ninguém. Era muito amigo de um comandante da polícia. Aflito, pois estava sem carro, telefonei-lhe para me dar uma boleia. Disse-me que vinha já. Esperei, esperei e não apareceu. Depois nem se dignou falar mais no assunto. E andava sempre atrás de mim a pedir-me isto e aquilo.
- Vieira, a moral é coisa…
 … mantinha grande amizade com um coronel, depois foi promovido a brigadeiro, agora parece que é general. Pensei que entre nós existia uma amizade profunda e sincera, mas actualmente como já não necessita dos meus préstimos, mandou lixar a nossa amizade. Enquanto necessitava de mim, fingia-se meu amigo.
- Vieira, o civismo…
… uma coisa muito anedótica é quando um indivíduo se apresenta com um cartão de visita com o nome, por exemplo, Abu Bakar. É imediatamente recebido pelas altas estruturas do poder... assim não dá. Não se pode confiar em ninguém. O que interessa é roubar, seja o que for. O sistema está tão implantado, que quem não roubar, morre à fome.
- Vieira, a identidade cultural…
… No fundo concordo com a política de Fidel Castro em Cuba. Para resistir e evitar a escravidão do seu povo torna-se ditador. Quando os EUA pretendem derrubá-lo por todos os meios, para explorarem as suas riquezas e fazerem lá uma colónia de férias, com os grandes lucros que daí sairiam, ele livra-se disso. E naturalmente apelidam-no de ditador. Se Fidel Castro obedecesse aos EUA, seria considerado um grande democrata. Actualmente o que os EUA fazem na África Negra, e noutros países é simplesmente aterrador. Não há comparação possível com o colonialismo. Estão como que a matar milhões de pessoas à fome.
- Vieira, acho que Marx fortaleceu o capitalismo porque…
… Mas o que é que tu queres?! O culpado não foi o Marx. O Estaline é que estragou tudo. Ainda hoje conheço pessoas que quando vêem a sigla URSS ficam quase em pânico. Sentem um mal-estar pelas recordações que essas quatro letras lembram. Do mesmo modo as siglas MPLA, UNITA e FNLA deveriam ser alteradas devido às recordações que comportam. Lembram o terror das inúmeras matanças. Trazem sempre muitas memórias aterradoras. Para terminar vê o que apanhei no site do Angonoticias de um tal Grathus que comentava um artigo sobre os muçulmanos em Angola:
«Angolanos. Os muçulmanos estão de tal maneira implantados que agora já nunca mais os tiramos daqui. Os ismaelitas, que vieram com uma mão à frente e outra atrás, estão milionários e mancomunados com os nossos ladrões nacionais, por exemplo, sabem quem é o Amim Bangi, um drogado que chegou fugido de Portugal, em 10 anos ficou milionário, como? Roubando.
O Ministério das Finanças pagou-lhe milhões de dólares de mercadoria que nunca forneceu. Façam uma investigação séria à empresa Marvimport, ou Vitocaldas e outras que foi utilizando, e descobrirão as fraudes e os comparsas nacionais. A Imporafrica é outra. O Abdul e o seu comparsa Faruk, vieram fugidos e falidos da empresa Tricos de Portugal, agora são o que são, estes índios, foram os mentores do chamado caso dos biliões e mais tarde dos triliões, por acaso algum foi a julgamento? Não! Porquê? Porque os nossos corruptos estão feitos com eles, o dinheiro não tem cor nem religião.
Ainda temos aí mais rafeiros como os da Teorema, os Nizas, pai e filho, os da Euroafrica, e tal de Jamal da Socogrel, etc., etc. Por isso Mangolés, qualquer dia estamos todos a rezar de cu para o ar, porque os nossos dirigentes querem é dinheiro, não querem saber do que se vai passar em Angola dentro de 30 ou 40 anos»
- Vieira, pelos pormenores que esta informação contém, parece-me que é alguém que conhece muito bem os enredos da podridão angolana.
Vieira não comenta, prefere fugir para a temática das eleições.
- E o partido que oferecer telemóveis à juventude, ganha as eleições. Mas, a questão fundamental é que neste país não existe oposição. Apenas oram ou lêem comunicados… dão entrevistas para darem nas vistas. Não conseguem mobilizar o povo porque ninguém acredita neles. Nunca vi em parte nenhuma, uma oposição como esta. São simplesmente confrangedores. Este país nunca sairá deste marasmo. O mais curioso é que os intelectuais parecem que não existem. Onde estarão?! Porquê o seu silêncio (?). Estarão definitivamente acomodados?!
A aparelhagem da pista de dança da boate iniciou a sua actividade, a costumeira barulheira. O som estava altíssimo, insuportável. Para conversar quase que tínhamos de encostar os lábios aos ouvidos. De qualquer modo quase se gritava para se ser escutado. Então roguei a Vieira:
- Desculpa, mas com este barulho não é possível conversar. Não sei como consegues suportar isto.
- Também não consigo… calma que já vamos para minha casa acabar a conversa.
A empregada chegou e recolheu o que estava na nossa mesa. Novamente ao baixar-se, os seios mostram-se quase nus, sedutores, e depois de costas, o seu traseiro bem modelado, convida mudo de sensualidade. Vieira ordena-lhe:
- Prepara quatro pregos no pão, e trás as seis garrafas de vinho tinto Dão Meia Encosta que estão na prateleira e põe na minha conta!