segunda-feira, 26 de maio de 2014

01-08Maio14. República das torturas, das milícias e das demolições





Diário da cidade dos leilões de escravos

01 de Maio
Outra coisa interessante, é o eu estar a pensar como contactar governantes ligados à Presidência da República, como por exemplo, o general Kopelipa, o general Dino, o general Veríssimo, apesar de os conhecer pessoalmente por ter colaborado com eles. O general Dino, colaborei quando ele era tenente nas comunicações militares, na altura DIRCOM - Direcção de Comunicações. Dou voltas à cabeça e não consigo o meio de os contactar. Não dá para entender tanto secretismo.
18.51 horas. Vento muito forte sacode Luanda. Que o nosso querido protector, São José Eduardo dos Santos nos proteja mais a sua Igreja.
19.03 horas. Já está no céu o sétimo episódio da série, O DILÚVIO DE LUANDA, com a continuação de vento muito forte.
Mensagem privada recebida no Facebook da Rita Smith. “Esta é para informá-lo que você ganhou R $ 1.600.000,00 no Facebook Promo. For Claims em contato com o gerente de serviço externo via e-mail com detalhes drew_donald561@hotmail.com abaixo: Nomes completos ...... Idade ............. Morada ......... nacionalidade ..... Sexo ............. N. º de Telemóvel ...... Ocupação ..... Endereço de e-mail válido ..... Montante ganho ......... parabéns. Sra. Rita Smith Promoção Service Manager.”
19.30 horas. E Deus compadeceu-se de Luanda e ordenou ao seu arcanjo da chuva que a suspendesse. E assim aconteceu. Por quanto tempo, isso ninguém sabe, só Ele.
19.54 horas. E como grande parte da cidade (?) de Luanda sobrevive sem energia eléctrica, Deus, sempre na sua eterna compaixão envia imensos raios luminosos que parecem gigantescos holofotes que iluminam as zonas escuras da cidade. Sem dúvida alguma que devemos agradecer ao nosso eleito por Ele, o São Santos, por mais esta manobra engenhosa própria de um génio. Sim, a nossa governação, a nossa oposição e a nossa Igreja têm muitos génios, só que Deus não confia neles. Vá-se lá saber porquê.
20.08 horas. Poças! Ouço jovens mwangolés a discutirem, a gritarem de tal modo que parecem estar numa discussão de vida ou de morte. Afinal, estão apenas numa conversa normal, parecendo que vai chover sangue. Esta juventude, aiué! Quarenta anos de obscurantismo ainda não são suficientes?
Isto é apenas para lembrar o passado sem qualquer intenção de menosprezo por tão alta personagem do Poder angolano: e no tempo da DIRCOM-Direcção de Comunicações, o tenente Dino, hoje general e braço direito do PR, pedia-me para ir com o meu carro na padaria Kaxicane, ele tinha lá um familiar, estacionava o carro nas traseiras da padaria, ele mandava-me aguardar e passados alguns minutos vinha com um saco com pão. Era para abastecimento da sua casa, mas também incluía pão para mim. Depois ele retirava o meu pão, colocava-o num saco e oferecia-mo sem pagamento. Naquele tempo era muito fácil contactar com o Dino, hoje é impossível. Porquê?!
02 de Maio
Responder com a plena verdade que se ama, isso não é pecado, não é condenável, porque nada nem ninguém pode condenar o amor. O amor é livre, desde que existam duas pessoas que se amem na plenitude dos seus seres, sempre foi assim e sempre assim será. As convenções destroem o amor, e por isso mesmo ele salta todas as barreiras que se lhe oponham. Amar é batalhar, é lutar por esse anseio, e a alma libertar. E por isso mesmo amar é a centelha divina que nos faz despertar. Amar é os sentidos enlouquecer, é nos braços da pessoa amada desfalecer.
Obrigado meu Deus! Por me enviares mais um ser humano para amar. Farei tudo meu Deus para esse amor suportar, me encantar e dele me enamorar, jamais me cansar, e sempre nele me renovar.
Conversa captada na rua entre dois mwangolés: «Oh! Mano estás bom?» «Estou, e tu mano, como é?» «Tudo em cima?» «Ya, tudo!» «E como é, mataste a tua esposa?» «Ya, tinha que ser.» «E o dinheiro está a entrar com força?» «Está!» Quem quiser enriquecer muito rápido, é só falar com o feiticeiro, e ele receitará que para ficar rico de um dia para o outro basta matar a mãe, um filho ou filha, a esposa, um irmão, fazer amor com a mãe, com a filha, com a irmã, e o dinheiro cai com força.
Alerta das Testemunhas de Jeová. «Preparem-se porque nos próximos dias alguma coisa vai acontecer, assim já estão prevenidos.»
Gestão mwangolé: os trabalhadores estão sem salários porque o empresário mwangolé está num óbito. E se o óbito demorar dois meses? E se houver mais um óbito? E mais outro? E se…
03 de Maio
Mas que macacada, lá se foi a energia eléctrica das 10.35 até às 11.59. E logo depois das 13.31 até às 14.34. E depois das 17.50 até às 19.16 horas.
Luanda, a capital mundial dos psicopatas.
É recomendável que a Portugal e Angola se utilize a denominação de: República de Angola e Portugal.
A história da humanidade é a história dos escravos.
04 de Maio
Com a facturação do petróleo para uso exclusivo dos bolsos deles, como é que teremos energia eléctrica. Eles têm sempre, nós é à sorte. Assim das 12.07 até às 13.47 horas, a lei de Ohm aqui não funcionou, nem nunca funcionará, só se for outra vez no colonialismo branco.
E ao som dos violinos dos barris de petróleo fazem-se negócios com a escravidão do povo angolano. E, quem dá mais? Quem oferece mais por essa bela escrava angolana, a mais bela de todas as mulheres escravas do mundo?
Agora falando muito sério. Isso das sete maravilhas de Angola é a coisa mais estúpida que já vi na minha vida, tal e qual como os seus mentores.
Se numa pátria não existirem homens que a engrandeçam, então é melhor que se suicidem.
05 de Maio
O neocolonialismo em África diz que os países se desenvolvem a olhos vistos, e o povo vive feliz nas fugas à deriva pelo mar da morte para chegar à Europa. E nessa atrocidade continuamos sem energia eléctrica. E assim sofremos mais cortes das 11.09 até às 14.43 e das 14.57 até às 15.11 horas.
06 de Maio
A mana Filomena traz-me duzentos kwanzas de jindungo. Enquanto o preparo para depois congelá-lo, verifico com surpresa que nunca vi em quarenta anos jindungo como este. Ponho-me a pensar e concluo que isto não é jindungo, é a malagueta dos portugueses. Afinal? Também já importamos “jindungo” de Portugal? Será que as prostitutas portuguesas também já invadiram Angola? 
Ao enviar os portugueses para Angola, já sem força, Pedro Passos Coelho, o primeiro-ministro português, repete a tragédia de Alcácer-Quibir.
Oposição é o MPLA com outra linguagem.
Sem energia eléctrica, significa que o Governo estabeleceu uma parceria estratégica com os assaltantes.
E o nosso chefe máximo sente-se seguro, em tãos inseguros acontecimentos.
07 de Maio
Pequenino ensaio sobre o escritor: quanto mais lermos os trabalhos literários de um escritor, começamos a descobrir os seus sentimentos, o que ele pensa, quais são os seus ideais de nobreza, e sobretudo qual a mensagem maravilhosa que ele nos quer transmitir. É que, escrever é isso mesmo, a arte que nos aproxima do divino, do maravilhoso. Sem escritores valiosos, há muito que este mundo – e o outro – teria perecido. E por isso mesmo o bom escritor alerta-nos para os perigos da nossa exterminação política, intelectual, social e democrática.
08 de Maio
E como é possível num país onde não existe jornalismo existirem jornalistas? E alguns acham-se tão doutos jornalistas que até descobrem novos poços petrolíferos.
Angola, títulos honoríficos: o arquitecto da paz. O eleito por Deus. O nosso pai. O garante da estabilidade nos Grandes Lagos. O grande estadista. O grande futebolista. Tudo se deve a ele. O coordenador de tudo. O que vai acabar com a pobreza. O grande estratega. O engenheiro. O lutador incansável. Ele não dorme. O arquitecto da nova vida. O garante da paz e da estabilidade. O candidato ao prémio Nobel da paz. O chefe incontestado. E muitos, muitos mais!

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O PARAÍSO PERDIDO A OCIDENTE (07)



Acabei por conhecer o Ludovino, que depois me propôs se eu queria trabalhar num ambiente familiar, porque ele ia para a sua terra natal, e o seu patrão pediu-lhe para arranjar alguém de confiança, que fosse honesto e trabalhador. Combinámos, e no outro dia lá fui com ele apresentar-me. Fui aceite. O local de trabalho situava-se na rua Maria aos Anjos, próximo do Martim Moniz, e era servido pela rede de eléctricos de Lisboa. Ficava no quinto andar de um prédio.

O meu trabalho era fabricar cabides, suportes de ferros de engomar e molas para a roupa. Havia uma maquineta artesanal em madeira montada na cozinha. Pendurava-se um rolo de arame e na extremidade que se arrastava à mão, havia uma marca onde com uma lima se cortava o rolo de arame em pedaços, que depois recebiam tubos de plástico previamente fervidos até amolecerem o suficiente para serem enfiados nos arames cortados à medida.

Depois, através de pequenas engrenagens metálicas procedia-se à feitura das molas, dos cabides e dos suportes para os ferros de engomar. O dono desta original fábrica doméstica era descendente de judeus holandeses, os Wanzeller. O segredo já vinha de família. Vieram para Portugal fugitivos da Holanda por causa dos nazis e aqui ficaram. A esposa, Licínia, a filha, Noémia, e o filho, Carlos Alberto, eram donos de grande cultura e intelecto. Na realidade devo-lhes a iniciação nos grandes mestres da literatura mundial.

Nova mudança de casa. Finalmente e definitivamente para Olivais-Sul, Encarnação, arredores de Lisboa, num prédio com quatro andares. Eram as casas prometidas por Salazar para os pobres, que mediante pequenas prestações mensais, ao fim de vinte anos seriam entregues aos moradores. Um bairro bonito, bem estruturado, bem arborizado, com floresta e piscina.
Com grandes espaços livres, um liceu, escola, banco, supermercado, com um senão. Falta de mais espaços para actividades desportivas. Os jogos de futebol disputavam-se na rua asfaltada, à noite. Quando um carro circulava éramos obrigados a interromper a partida, e o carro nívea, azul e branco, da Polícia perseguia-nos a toda a hora.

Entretanto, o Jorge, mecânico de automóveis, dizia-me para aguardar que já ia buscar o Austin Cooper S de um cliente, e que depois iríamos dar umas voltas por aí. Só que tínhamos que roubar gasolina, porque estes carros consumiam muito combustível. O Jorge, conhecedor das redondezas sabia onde estariam os abastecedores com gasolina da melhor qualidade, no bairro da Encarnação. E lá pelas três da manhã quando todos dormiam, dava-me uma lata de um galão e uma mangueira, e apontava para outro Austin Cooper S, chamando-me a atenção de que: «Esse aí está bem abastecido, e o tampão é fácil de abrir.»
Aproximava-me então para o reabastecimento. Tudo estava bem iluminado, e receava que se alguém me descobrisse, não sei como seria, pois que era muito fácil ficarmos encurralados. Em mais algumas vezes que abastecemos por este método, por sorte nunca fomos surpreendidos. Depois mergulhávamos na noite. O Jorge ia sempre ter com a namorada dele, ali para os lados de Moscavide. Ela estava sempre à espera dele, sempre preparada a qualquer hora da noite.
Ela gostava imenso dele, e como tinha uma irmã, vinham as duas muito felizes porque iam passear de carro, mas tinham que voltar antes do amanhecer para iludir os pais como se não se tivessem ausentado de casa. Depois parávamos num local bem escondido, e o carro ficava com roupas espalhadas por todo o lado. Fazíamos amor até ficarmos cansados, e depois as nossas namoradas procuravam os biquínis, os sutiãs e o resto da roupa. Tinham uma grande preocupação de arranjar os cabelos e alisar a roupa amarrotada.

Depois íamos comer pão quente com manteiga e beber uma garrafa de leite nas bombas de combustível da SACOR, na Encarnação, que também tinha restaurante. Muito rápidos íamos levá-las a casa, depois era eu. O Jorge ensinou-me que para entrar em casa sem ninguém dar conta, tinha que meter a chave muito devagarinho na fechadura e ir rodando lentamente, ao mesmo tempo que segurava no puxador da porta, levantando-a para evitar as folgas. Assim evitava-se o ranger e o chiar gótico quando se abre uma porta. Depois em passos muito leves ia para a cama. As nossas namoradas não necessitavam destes cuidados, porque entravam pela janela que antes deixaram encostada. Tudo ficava em segredo, só nós os quatro é que sabíamos.

Com esforço e poupanças e também com a ajuda do meu pai, que foi promovido no serviço – passou a bagageiro na TAP – o que lhe permitia já algum desafogo financeiro. Ele dizia que não era o dinheiro do vencimento que o sustentava, mas as inúmeras gorjetas que os passageiros lhe ofereciam pelos serviços de carregamento das suas bagagens.
Várias moedas estrangeiras que depois no fim do mês se cambiavam. Também conseguiu crédito num merceeiro amigo de Moscavide. Ele enviava-nos todos os meses um carro bem carregado de comida. O leite e o pão eram colocados à porta todos os dias bem cedo. Também a pagar no fim do mês.

Comprei a colecção completa, salvo erro da Porto Editora, dos livros Quer Saber? Tratava de muitos temas desde, a História do Dinheiro, até a Mozart, Beethoven, etc. Comecei a aprender muita coisa, a entrar no desconhecido, a sair da ignorância. Depois também comprei a colecção completa do Fantomas, mas só li metade devido à repetição cansativa da personagem, e lamentei o dinheiro gasto.
Entretanto, Wanzeller muda-se para Queluz, nas proximidades de Sintra, um local muito mais calmo. Uma habitação com apenas dois andares, mas com grande arrecadação na cave e um, pode-se dizer, vasto quintal, que lhe permitia aí instalar a sua fábrica.

Mais um jovem foi contratado e incumbiram-me de lhe ensinar as técnicas de fabricação. A produção aumentou e os clientes também, especialmente as molas para a roupa que os clientes muito apreciavam, pois que eram de boa qualidade. O nosso principal cliente era a Pollux, na Rua dos Fanqueiros.
Concederam-me o direito de frequentar e a almoçar na casa, a conviver com a família, pois consideravam-me como um filho. A Noémia, licenciada em germânicas, ensinou-me a contar em três línguas, de um até dez. Em alemão, inglês e francês. Queria despertar-me para as línguas estrangeiras.


quarta-feira, 21 de maio de 2014

27-30 Abril14. República das torturas, das milícias e das demolições






Diário da cidade dos leilões de escravos

27 de Abril
Na verdade vos digo, manos e manas, que o MPLA já não existe, desapareceu. Dele só lhe resta as letras na lápide funerária, abandonada, empoeirada, a cair aos pedaços como as obras chinesas.
Mais uma vez elegem-se maravilhas incorrectas, pois no lugar da eleição das sete maravilhas de Angola, o correcto será eleger as sete misérias de Angola.
28 de Abril
Luanda e a chuva. “Não mexam nas terras, deixem-nas estar como estão.” Mexeram e agora?! Um exemplo: o bairro da Terra-Nova desapareceu.
Era uma vez uma cidade chamada Luanda que desapareceu misteriosamente. Uma equipa de arqueólogos estrangeiros, porque saiba não existe nenhum angolano, luta arduamente para decifrar o mistério.
Parafraseando o adágio popular: quando os cães são burros, ladram, mas a caravana dos corruptos passa.
E a beleza da Marginal de Luanda, reconstruída pelos inteligentes corruptos, também desapareceu, ou quase? Foi arrastada pelas águas? Alguém sabe informar?
Muito confrangedor. Os nossos políticos perderam-se no tempo, estão ultrapassados. Nova classe política precisa-se urgentemente. Isto estende-se também ao nosso jornalismo, que alguém se lembrou de o chamar como tal, mas não, não tem nada que se pareça. Mas como insistem que isso é jornalismo, deixem-se andar a enganarem-se uns aos outros, enquanto os estrangeiros se apoderam de Angola nas calmas e depois serão – já o são – meros escravos deles.
Num incêndio de grandes proporções na sua base, a TCUL- Transportes Colectivos Urbanos de Luanda, mais de setenta autocarros arderam. In Rádio Ecclesia.
Porque é que o nosso PR não consegue que a sua guarda presidencial desfile, marche e cante, por exemplo, o “Zamina” dos Camarões?
As vozes dos burros chegam ao céu do petróleo de Angola.
Respondam-me se tiverem coragem: quem tira um curso de jornalismo é jornalista? Uma moça de corpo sensual é jornalista? Uma modelo é jornalista? Só quem tem o cartão de militante do MPLA é que sabe escrever, e logo só ele pode ser jornalista? A locutora e o locutor são jornalistas? Quem não domina o português, e logo não sabe escrever, também pode ser jornalista? Se assim for, estamos perante um jornalismo da tuji.
Mais um recorde: Angola, a pátria dos autocarros queimados.
E Angola será por vontade de Deus o país mundial das peregrinações. De quilómetro a quilómetro haverá um santuário. E um deles será o eleito de milhões de peregrinos que caminharão, reverenciarão o canonizado do Vaticano, santo Apolónio de Luanda. O santo defensor da religião do petróleo corrupto. E no dia da sua canonização, todas as torneiras do petróleo lançarão um jacto de forte pressão, e o petróleo o inundará, e esta terra corrupta de poluição se abençoará.
Onde há muitos prelados, o demónio está sempre presente.
A República de Angola é um Estado de direito ou um Estado de concubinato?
20.07 horas. Mais outro dilúvio em acção? Parece que sim, a chuva está como ontem, poderosa, como se um castigo de Deus se abatesse sobre os governantes, prelados e políticos corruptos. Mas a miséria abate-se sempre sobre os indefesos, porque o dinheiro do petróleo não é deste mundo, é do Diabo. Outra arca de Noé precisa-se para Luanda. Uma não, várias.
E para a destruição provocada pelo nosso ciclone Katrina, o nosso Governo sempre na sua majestosa magnanimidade edificará centros de acolhimento condignos para os desgraçados vítimas das chuvadas que cercam Luanda e arredores. Para já do saco especial dos rendimentos petrolíferos que só beneficiam a nossa nomenclatura, sairá um bilião de dólares, isto para as primeiras impressões, que se reforçarão quando necessário pois o saco não tem fundo. Nele, os dólares crescem como que por magia. É claro que isto nunca acontecerá.
29 de Abril
07.40, renovação do dilúvio, chove, chove!
A eleição da primeira das sete misérias de Angola. É o povo angolano num imenso jardim zoológico como atracção turística de Kabinda ao Kunene. E os turistas não se cansam de tirar fotografias a tanta gente enjaulada e atiram-lhes com jinguba e banana, e riem, e riem.
08.46, o dilúvio retorna. Esta cidade vai desaparecer.
Há uma coisa que me espanta nos “Portugueses em Angola” no Facebook. É que até agora nem uma palavra ou foto sobre o dilúvio que ataca Luanda. Porque será? Censura? Matumbice? Por mais voltas que dê na cabeça não entendo esta gente. Também não são para entender.
Ruas sem esgotos! Isso também é obra da Natureza? É! Da natureza chinesa!
Sinceramente que não entendo! Claro que entendo! Então o nosso Governo só se preocupa com a construção de jardins zoológicos para os angolanos e que pomposamente lhes chama de zangos. E para os estrangeiros constrói condomínios expulsando à força – até com a morte – os legítimos proprietários milenares da terra angolana.
E o nosso Governo já tem agendado para a próxima sessão a reconstrução integral de Luanda, a cidade submarina devido às chuvas da época. Um projecto ambicioso, aliás como todos, basta ver as consequências que todos sabemos e que ele não sabe, coisa absolutamente natural para quem apenas se preocupa com os sacos dos rendimentos do petróleo. Vai daí, para a implementação de tão imponente projecto, como se fosse um gigantesco santuário igual a esse da Muxima, serão importados cerca de um milhão de chineses e quinhentos mil portugueses. Claro que isto é ficção, mas pode bem ser verdade. Até porque a seguir seremos vendidos aos franceses, e mais jardins zoológicos serão construídos porque os franceses adoram a fauna africana e em especial a angolana. É só petróleo.
Eugénio Costa Almeida, no Facebook. “Ainda há quem admita o fim da pobreza extrema em 2015, embora já prepare uma Agenda para 2063...” Hoje, com a experiência adquirida como técnico de contas, sorrio daqueles que impingem isso e dos que os seguem. Há muito nazismo disfarçado. O nazismo está no poder em muitos países.
30 de Abril
Mais um terrível dia nos espera em Luanda. Para nós a cidade do inferno, para os lordes do petróleo e estrangeiros, o paraíso eleito por Deus.
Um português na sua missão civilizadora junto dos infiéis mwangolés, alugou um apartamento no terceiro andar do prédio muito bonito por dentro, mas por fora aos poucos a desabar devido à provável epidemia chinesa das fendas, está sem energia eléctrica há buéréré de dias, mas o prédio tem-na. Então o português vive de gerador na varanda, liga-o, ontem foi à uma da manhã, acordei assustado, porque o gerador faz muito barulho. O tipo não tem o mínimo respeito pelos vizinhos que comentam: «Quando estiveres aflito não contes com os vizinhos porque não te ajudaremos.» Um casal português também alugou um apartamento no primeiro andar do prédio, já alugado a um português que lhes realugou, também em missão de civilização aos selvagens mwangolés. Não tem esgoto e resolveram com um tubo quase de dez metros que sai da varanda das traseiras e escoa algures por aí. Se a matumbice pagasse imposto esta cidade estaria carimbada. Há também um indiano que de vez em quando pelas seis da manhã reza a gritar. Nas traseiras, entre as seis e as sete da manhã, e todos os dias a qualquer hora, ouvem-se também gritos ferozes de chineses lançados aos jovens mwangolés que com eles trabalham, melhor dito, que eles escravizam. Depois serão os franceses?
Angola tem muitos poetas, muitos escritores, muitos jornalistas, muitos políticos, muitos economistas, muitos cientistas políticos, muitos advogados, muitos bajuladores, muitos corruptos, muitos hipócritas, - nisto é imbatível, recordista mundial – muito petróleo, muitos portugueses, muitos chineses, mas não tem engenheiros.
Há uma intensa actividade neocolonialista em Angola tão descarada, que se nota claramente que muitos países estrangeiros, incluindo tudo o que é igrejas, aceitam a oferta de venda de Angola, em troca da livre corrupção e aniquilação do mwangolé. Os mwangolés estão irremediavelmente perdidos na terrível escravidão que já lhes cai em cima com muita violência. Creio que uma nova luta de libertação nacional se inicia.
E então, manos e manas preparem condignamente as nossas sete maravilhas da miséria, para recebermos mais enxurradas, mais invasões que aí vêm, desta vez de franceses e de missionários do Vaticano.
Em Angola a religião é como o álcool, inebria-nos.

terça-feira, 20 de maio de 2014

19-26 Abril14 República das torturas, das milícias e das demolições






Diário da cidade dos leilões de escravos

19 de Abril
Ontem consegui tomar banho de chuveiro, coisa que já há muitos anos não acontecia. É que neste dia choveu intensamente.
E um grande mérito se deve ao actual MPLA – e à hipócrita oposição - uma das maiores vitórias da independência: a reimplantação da escravidão em Angola. P.S. Jamais se esqueçam do que aconteceu na Argélia colonial.
As intenções da oposição, orações, desejos, críticas que não passam de emolumentos confessionários, confissões de crentes, e os habituais discursos da glorificação da miséria do povo angolano, que não sejam erguidas, seguidas de manifestação para invocar os direitos da população, dos eleitores que representam, não passam da teológica retórica sem valor, tal e qual como aconteceu com os vendedores de Cristo!
Grandioso comício da vizinhança: Um vizinho faz a introdução: «Luanda já tem mais brancos que negros.» Uma vizinha: «Se pudessem até carregavam com Angola para os países deles.» Outro vizinho: «Os portugueses são muito falsos.» Mais outro vizinho: «Os portugueses são ignorantes e atrasados.» Mais outra vizinha: «São o povo mais atrasado da Europa.» Ainda outro vizinho: «Estão a vir dos países deles para aqui arranjarem confusão.» Ainda mais outro vizinho: «Se pudessem até nos envenenavam.» Ainda mais outra vizinha: «Não vão conseguir!»
20 de Abril
Esta é para pensarem. Recordo-me que há vários anos o mercado de trabalho em Luanda estava saturado. De repente surge uma invasão de portugueses que algumas vozes estimam já em trezentos mil. Bom, a questão é a seguinte: como é possível eles trabalharem se não têm empregos? É fácil notar que há muito têm uma máfia instalada que manda vir portugueses para Luanda sem trabalho - a máfia do compadrio do marido, esposa, irmão, irmã, primos, amigos, etc., - e assim eles transferem dinheiro para Portugal como trabalhadores fantasmas, sem trabalharem. E viva Angola! Isto é, viva Luanda!
21 de Abril
Receio que em Angola existam apenas dois ou três democratas. Os outros são um rebanho de argentários, pastores e bispos.
Qué isso! Nós viemos, somos da mata e dela não saímos! Teatro?! Qué isso? Isso dá tiros? Não dá?! Então se não dá para tiroteios isso não é teatro, nós só gostamos do teatro que aperta o gatilho. Teatro? Isso é coisa de brancos! Não gostamos de teatro, merda! Vamos arrasar esse tal de teatro Elinga, e se refilarem muito também acabaremos com o teatro das vossas vidas! O tiro é a nossa cultura, a nossa identidade cultural!
23.29 horas. O vizinho indiano está na sua oração. Parece um daqueles carros das maratonas religiosas. Mas como ele é um gajo porreiro, um vizinho muito humano, até se prestou em nos conceder o seu gerador, desde que conseguíssemos um cabo para ligar do andar dele para o nosso, também é só um andar, e o cabo está aonde? Parece que não mas quem não vive do petróleo é muito caro.
22 de Abril
Das 13.58 até às 17.43 levamos no focinho com outro corte de energia eléctrica. Às 22.21 horas outra vez a luz revolucionária se foi, a tal do homem podre.
Ouvi falar na rua que um senhor mestiço foi nomeado chefe na Angop, os dias passaram e ele não aparecia em casa. A família estava muito preocupada, pois com certeza, mas a DNIC- Direcção Nacional de Investigação Criminal, encontrou o corpo já a cheirar mal numa vala, esquartejado. Uma senhora disse que não bastou só matá-lo, também tiveram que o cortar aos bocados. Isto está mesmo muito mal, pior! Quem for nomeado chefe é morto, porque a inveja está demais, e que só eles é que podem ter dinheiro os outros não. Disseram também que o outro chefe da Angop, o Camate e mais outro também estão doentes sob suspeita de envenenamento. Em Luanda o veneno tem ordem para matar! Há muitos envenenamentos! No trabalho quando os colegas convidam outro para beberem uns copos, afinal é para o envenenarem.
E o mais notável que existe em Luanda é a total e completa desinformação!
O bolo Angola é para uso exclusivo da pequena equipa, dos portugueses, brasileiros e chineses.
23 de Abril
Frustrações eléctricas. E à nossa miséria total e completa havemos de voltar!
A energia eléctrica da revolução leninista chegou às 01.15 horas. Mas marchou à nazi às 14.08 e pobremente acendeu-se às 15.17 horas.
E a chuva ainda não acabou e já as epidemias alastram. A cólera já ataca em Luanda.
Se os chineses arrasam Luanda – isso todos sabemos – então porque os deixam continuar? Só os travarão quando nos encontrarmos num mar de destroços? É claro que sim, porque há quem adore viver na imposição da desgraça alheia! Um gozo pessoal e intransmissível!
As mulheres que andam com as chuchas ao manifesto são como uma isca num anzol numa cana de pesca.
Boa-tarde república dos milhões de frustrados!
Um frustrado, dos milhões que não se servem dos fundos do erário público, que tentam viver honestamente, mas nem isso conseguem porque Angola é só para gatunos!
Outra vez na baila e quantas vezes forem necessárias. Pouco antes da independência ouvi na rádio um comunicado do Bureau político do MPLA sobre a miséria das populações que viviam nos musseques de Luanda. Recordo-me desta passagem que gravei e que teima em não me sair da cabeça: «E assim o nosso povo continua na miséria.» Passados, em número redondo, quarenta anos, o tal nosso povo continua como? Vejo-me obrigado a perguntar: o MPLA era um movimento de libertação nacional ou uma perigosa quadrilha de exterminação nacional?
24 de Abril
Bom-dia assaltantes de Luanda! Onde é que hoje farão assaltos?
“Você é parte da minha existência, parte de mim. Você esteve em cada linha que já li. Você esteve em cada possibilidade que já vi, no rio, nas velas dos navios, nos pântanos, nas nuvens, na luz, na escuridão, no vento, na floresta, no mar, nas ruas.
Você foi a personificação de cada sonho bonito que a minha mente já conheceu.” Charles Dickens
25 de Abril
E como é da praxe lá fomos outra vez atirados para a escuridão das 00.06 até às 00.51 horas.
Sim! Este mundo é muito estúpido porque se rege por convenções muito estúpidas.
Os últimos noticiários da Rádio Ecclesia estão de acordo com as regras do bem desinformar. É só ouvir os títulos e bazar.
É melhor comprarem megafones para no caso – frequente – de vos barrarem a saída dos e das que se estão marimbando para o mau estacionamento. É muito tempo desesperante perdido. Já vi dois embevecidos amorosos que estavam tão hipnotizados um pelo outro que não ouviam as buzinas. Teve alguém de bater no vidro da porta, e mesmo assim demoraram a despertar. Então peguem no megafone e a plenos pulmões gritem o mais alto que puderem denunciando a matrícula da viatura, dizendo que o carro está a pegar fogo. Vão ver que têm o problema resolvido de imediato.
Outra vez a anarquia permanente, outro apagão das 15.54 até às 16.59 horas.
26 de Abril
Mais um brutal apagão das 06.42 até às 13.56 horas. E os lordes do petróleo sempre no silêncio, porque é necessário manter a imagem da falsa energia eléctrica, porque só os biliões de dólares do petróleo são reais, o resto? Tudo é irreal!
“Permitam me que diga mas é uma vergonha que a cidade Soyo da província do Zaire seja a única cidade da costa Angolana que ainda não tem estrada asfaltada a ligar esta cidade à Capital do País, a cidade que tem o maior investimento de capital privado e público alguma vez feito em Angola, que hoje em dia é a cidade de onde sai a maior parte do petróleo deste país (segundo as contas apresentadas pela alfandega já ultrapassou Cabinda) e agora também tem o Gás LNG, Propano e Butano, é uma vergonha que não tenha pontes nem estrada a ligar à capital, já andei um pouco por este belo país vejo evolução e as condições proporcionadas pelo governo ao povo angolano em todas as províncias e respectivas cidades e no Soyo parece que andam a brincar com o povo! Espero que com este novo governador de província a mudança seja feita durante o seu mandato!” André Reis. Portugueses em Angola. Facebook