sexta-feira, 23 de maio de 2014

O PARAÍSO PERDIDO A OCIDENTE (07)



Acabei por conhecer o Ludovino, que depois me propôs se eu queria trabalhar num ambiente familiar, porque ele ia para a sua terra natal, e o seu patrão pediu-lhe para arranjar alguém de confiança, que fosse honesto e trabalhador. Combinámos, e no outro dia lá fui com ele apresentar-me. Fui aceite. O local de trabalho situava-se na rua Maria aos Anjos, próximo do Martim Moniz, e era servido pela rede de eléctricos de Lisboa. Ficava no quinto andar de um prédio.

O meu trabalho era fabricar cabides, suportes de ferros de engomar e molas para a roupa. Havia uma maquineta artesanal em madeira montada na cozinha. Pendurava-se um rolo de arame e na extremidade que se arrastava à mão, havia uma marca onde com uma lima se cortava o rolo de arame em pedaços, que depois recebiam tubos de plástico previamente fervidos até amolecerem o suficiente para serem enfiados nos arames cortados à medida.

Depois, através de pequenas engrenagens metálicas procedia-se à feitura das molas, dos cabides e dos suportes para os ferros de engomar. O dono desta original fábrica doméstica era descendente de judeus holandeses, os Wanzeller. O segredo já vinha de família. Vieram para Portugal fugitivos da Holanda por causa dos nazis e aqui ficaram. A esposa, Licínia, a filha, Noémia, e o filho, Carlos Alberto, eram donos de grande cultura e intelecto. Na realidade devo-lhes a iniciação nos grandes mestres da literatura mundial.

Nova mudança de casa. Finalmente e definitivamente para Olivais-Sul, Encarnação, arredores de Lisboa, num prédio com quatro andares. Eram as casas prometidas por Salazar para os pobres, que mediante pequenas prestações mensais, ao fim de vinte anos seriam entregues aos moradores. Um bairro bonito, bem estruturado, bem arborizado, com floresta e piscina.
Com grandes espaços livres, um liceu, escola, banco, supermercado, com um senão. Falta de mais espaços para actividades desportivas. Os jogos de futebol disputavam-se na rua asfaltada, à noite. Quando um carro circulava éramos obrigados a interromper a partida, e o carro nívea, azul e branco, da Polícia perseguia-nos a toda a hora.

Entretanto, o Jorge, mecânico de automóveis, dizia-me para aguardar que já ia buscar o Austin Cooper S de um cliente, e que depois iríamos dar umas voltas por aí. Só que tínhamos que roubar gasolina, porque estes carros consumiam muito combustível. O Jorge, conhecedor das redondezas sabia onde estariam os abastecedores com gasolina da melhor qualidade, no bairro da Encarnação. E lá pelas três da manhã quando todos dormiam, dava-me uma lata de um galão e uma mangueira, e apontava para outro Austin Cooper S, chamando-me a atenção de que: «Esse aí está bem abastecido, e o tampão é fácil de abrir.»
Aproximava-me então para o reabastecimento. Tudo estava bem iluminado, e receava que se alguém me descobrisse, não sei como seria, pois que era muito fácil ficarmos encurralados. Em mais algumas vezes que abastecemos por este método, por sorte nunca fomos surpreendidos. Depois mergulhávamos na noite. O Jorge ia sempre ter com a namorada dele, ali para os lados de Moscavide. Ela estava sempre à espera dele, sempre preparada a qualquer hora da noite.
Ela gostava imenso dele, e como tinha uma irmã, vinham as duas muito felizes porque iam passear de carro, mas tinham que voltar antes do amanhecer para iludir os pais como se não se tivessem ausentado de casa. Depois parávamos num local bem escondido, e o carro ficava com roupas espalhadas por todo o lado. Fazíamos amor até ficarmos cansados, e depois as nossas namoradas procuravam os biquínis, os sutiãs e o resto da roupa. Tinham uma grande preocupação de arranjar os cabelos e alisar a roupa amarrotada.

Depois íamos comer pão quente com manteiga e beber uma garrafa de leite nas bombas de combustível da SACOR, na Encarnação, que também tinha restaurante. Muito rápidos íamos levá-las a casa, depois era eu. O Jorge ensinou-me que para entrar em casa sem ninguém dar conta, tinha que meter a chave muito devagarinho na fechadura e ir rodando lentamente, ao mesmo tempo que segurava no puxador da porta, levantando-a para evitar as folgas. Assim evitava-se o ranger e o chiar gótico quando se abre uma porta. Depois em passos muito leves ia para a cama. As nossas namoradas não necessitavam destes cuidados, porque entravam pela janela que antes deixaram encostada. Tudo ficava em segredo, só nós os quatro é que sabíamos.

Com esforço e poupanças e também com a ajuda do meu pai, que foi promovido no serviço – passou a bagageiro na TAP – o que lhe permitia já algum desafogo financeiro. Ele dizia que não era o dinheiro do vencimento que o sustentava, mas as inúmeras gorjetas que os passageiros lhe ofereciam pelos serviços de carregamento das suas bagagens.
Várias moedas estrangeiras que depois no fim do mês se cambiavam. Também conseguiu crédito num merceeiro amigo de Moscavide. Ele enviava-nos todos os meses um carro bem carregado de comida. O leite e o pão eram colocados à porta todos os dias bem cedo. Também a pagar no fim do mês.

Comprei a colecção completa, salvo erro da Porto Editora, dos livros Quer Saber? Tratava de muitos temas desde, a História do Dinheiro, até a Mozart, Beethoven, etc. Comecei a aprender muita coisa, a entrar no desconhecido, a sair da ignorância. Depois também comprei a colecção completa do Fantomas, mas só li metade devido à repetição cansativa da personagem, e lamentei o dinheiro gasto.
Entretanto, Wanzeller muda-se para Queluz, nas proximidades de Sintra, um local muito mais calmo. Uma habitação com apenas dois andares, mas com grande arrecadação na cave e um, pode-se dizer, vasto quintal, que lhe permitia aí instalar a sua fábrica.

Mais um jovem foi contratado e incumbiram-me de lhe ensinar as técnicas de fabricação. A produção aumentou e os clientes também, especialmente as molas para a roupa que os clientes muito apreciavam, pois que eram de boa qualidade. O nosso principal cliente era a Pollux, na Rua dos Fanqueiros.
Concederam-me o direito de frequentar e a almoçar na casa, a conviver com a família, pois consideravam-me como um filho. A Noémia, licenciada em germânicas, ensinou-me a contar em três línguas, de um até dez. Em alemão, inglês e francês. Queria despertar-me para as línguas estrangeiras.


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