sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Os Jasmins da Lwena (30). Não sei por onde sair, o esgoto governamental está a fluir.




O dia-a-dia no meu campo de concentração de Luanda
Não sei se conseguirei dormir para de manhã me levantar. Os estertores, estupores das festas que não se decidem nas frustrações da violência sonora, da agressão espiritual, neuronal, do sono inconstante, é irrelevante. Marés negras, petrolíferas de sons intranquilos que enfeitam as infernais noites. Deito-me na ânsia de não ouvir tal mensagem. Até agora nada! Devem estar cansados de tanto beber, amarrados, acostados.
Os pardais já voam sonoros. O meu relógio biológico despertou. Saio da cama, obrigo-me a levantar. Sem água, sem luz, sem nada para manjar. Não sei o que fazer. Disseram-me que na Internet há muita comida. Não sei onde isso fica, como lá chegar, vou procurar. Hei-de qualquer coisa lá encontrar para me consolar.
Ah! Esta negra existência! Porque querem acabar com a minha raça!? Só branco é bonito, e negra feia porque escura escurece o ambiente? Hipócritas! Então que acabem com a escuridão das noites. Façam operação ocular para extrair a cor preta, negra. Depois não verão mais a minha beleza exótica, tropicalíssima. Bem feito! Malandros! Sacanas, é o que são!
E a religião destrói Angola.
Não sei por onde sair, o esgoto governamental está a fluir. Piso nas pedras descalçadas, insegura espero não cair outra vez. Mas que grande merda! Está tudo a ruir, neste mercado das moscas ao ar livre. Comprar qualquer coisa importada não importa. Não produzimos nada nesta nação vendada. Com tanta gatunagem receio ser assaltada. Os que roubaram, roubam, são, serão roubados.
Pedi uns tostões emprestados sem juros que restaram do escrito a lápis desta inconstitucional república. Bolachas, rebuçados, pastilhas elásticas, cigarros, depois gasosa. Bebidas alcoólicas não, bêbado se complica! Foi o que comprei e nas mãos e cabeça carreguei. Cheguei, tive muita sorte, os gatunos estavam colaterais. Peguei numa travessa, limpei-a e nela arrumei a venda. Fiquei meia escondida na gruta de entrada do prédio. Um fausto vizinho, desses da democrática riqueza corrupta, se complicam muito comigo, com a minha pobreza. Que faço lixo, que contraria a sua natureza. São muito desconfiados, medrosos, vivem na insegurança. Da venalidade, imoralidade, dependem de armado segurança. Da ilicitude dos bens arregimentados contra natura.
Ninguém paga a alguém.
Depois do vizinho fausto, os fiscais policiados, sem vencimentos, sem sustentos. Para sobreviverem rapinam-me os mantimentos. Atacam o ponto mais fraco: a mulher indefesa. Protegem-se os empresários, salafrários e outros otários da impunidade fiscal tributários, taxados heróicos impostores das fugas aos impostos. Sem a pena, com plena protecção do poder civil, militar e do nosso Olimpo. Deveres, obrigações, cumprem com os arremedos guturais das ameaças mortais. A minha venda, desvenda algum dinheiro. Porra! Andei bem!
Hoje iludi, venci a fome. Por quanto lamento?! E amanhã, depois… a luz e a água vão me controlar, cortar. Não vou cozinhar sem gás, sem ocupação, não posso pagar. Emprego?! Só para estrangeiros, seguranças e polícias.
No espelho, conservo a pobreza, a leveza da minha beleza. Sempre a me chatear. Querem fiado aviar, depois… para pagar! Ah! Sou muito desavergonhada. Irrompo pelos escritórios deles, antes que saiam com os vencimentos e gastem-nos nas amantes. Exijo tumulto, a minha confusão apresento. Envergonhados, retiram o que me devem, fazem pagamento. As esposas deles copiaram-me. Assediam-nos e vazam-lhes as carteiras. Deixam-lhes penúrias medidas, para umas cervejas bebidas. Com as amantes na mínima condição de fãs, fás sustenidas.
Os estrangeiros controlam-me, mandam-me trabalhar porque os meus libertadores são hábeis no desempregar.
E o meu movimento de libertação chegou, e me libertou: «Agora já não somos mais escravos. Somos finalmente independentes. A terra, o país… tudo é nosso. Somos finalmente livres. Já não precisamos mais de trabalhar. Tudo o que era do colono fica para nós. Nunca mais seremos tristes. Nos nossos rostos reinará para sempre um sorriso de felicidade.»
Insistiram as minhas amigas: as igrejas da macumba é que estão a dar. Caí no chão duma delas mal abençoada. Escavam-nos mel dizimado de uma assentada. Fugi, não quero mais! Porque a magia negra deles exigia das crentes as cuecas, biquínis, tangas, calcinhas do feminino interior, das seivas dos cultos ocultos. Nunca tão poucos Shakas dizimaram tantos bantus.
O meu país, o meu reino, dizem os aventureiros que é tão potente portentoso desenvolvimento, com tanta reconstrução tanto envolvimento. Que é um país que cresceu muito não sei quantos quilómetros quadrados mais. Creio que corromperam as fronteiras dos países vizinhos. Ou desconhecem a superfície da minha nação, do meu reino. Que aumente, diminua, não melhora a minha desgraça. Piora a eterna ditadura das modernas naus desta velha escravatura.
Filhos? Para quê! Para morrerem de fome! E das doenças que ela provoca, e falecerem nos laboratórios hospitalares do nosso Dr. Mengele.
Se compro algo de valor e na minha casa entrar, nada, absolutamente ninguém me vai ajudar. Os gatunos entram, saem, restando o vazio do lugar. A polícia persegue-me com pesadelos, que não posso controlar. Nesta democracia da fome, prefiro, já aderi aos terroristas que me dão comida.
O auge da noite voltou, colou o imorredouro mal. De Spartacus e os seus jovens gladiadores revoltados, nascem da sombra que ensombra a luta contra mais este império da escravidão.
Três decuriões comandam as suas decúrias. Avançam posições e alguns podem cuspir fogo. Bailam-se os lamentos. Que os esfomeados incomodam, se transformam em formigas, moscas, ratos, cães vadios, e morcegos-vampiros. À noite dormem nas cavernas. A fome avança, estende-se, alarga-se. Com ela as epidemias: a cólera é a epidemia dos miseráveis, dos espoliados. São a tristeza de uma trintena de garotos que adquiriram o hábito de irradiar, nascer das ruas, viver nas cavernas nuas. Montam plantão no minimercado, na padaria, no cruzamento da rua movimentada. O plano marcial bem treinado, foi acoplado. Alguns param no meio da rua obrigando os carros a pararem. Ou passar por cima deles, o que não acontece. Têm muitos artefactos para arremessar das suas torres de guerra. Exigem dinheiro estendendo solenemente uma mão. Os condutores não podem evitar a surpresa e escudam-se no torpor da incerteza.
E um nevoeiro muito espesso tomou conta de Angola. A população diz que vem dos palácios alquímicos dos príncipes das trevas da governação. O nevoeiro alastra-se de tal modo que mesmo com as portas e janelas hermeticamente fechadas é inseguro. Os povos aterrorizados fogem e gritam a plenos pulmões: «É a Gripe C!!! é a Gripe C!!!»
Um gladiador de tenra idade descobre algo homólogo. Um carro de bebé abandonado com duas rodas sobradas. Puxa-o e improvisa uma quadriga. Como um gladiador sem arena acelera e risca o brilho de prata do César estacionado. O dono vê o seu bonito automóvel ficar feio. Não ousa contrariar o pequeno Spartacus e os seus modernos escravos. Os interiores dos caixotes do lixo são anotados nas mãos pé-de-cabra. O que resta da civilização sobra para a escumalha. O freguês da padaria traz um saco e sorriso feliz. O pão voa-lhe da mão, roubado por um infeliz. O vizinho Fausto chega. O segurança particular incha-se. Protege-o e à sua sombra.
Está com espingarda de assalto e pistola. Os abutres humanos acabados de saírem dos ninhos vigiam a presa afastados. Fausto está inseguro, caminha, quase aos tropeções, medroso.
Eh! Eh! Afinal o infausto vizinho tem muito medo. Hum, muito armado quando nos diz que não tem medo de nada, nem de ninguém. O vizinho do outro prédio deixa o carro mal estacionado. Corre como perseguido por um vulcão. Vê-se o pânico sair dos braços agitados que parecem querer ganhar asas e alçar voo. Fechem os portões! Genghis Khan está na outra rua a assaltar os prédios! Duas senhoras europeias amaldiçoaram as compras da noite. Dois petizes como pequenos falcões sobrevoam rasantes. Lestos nos hábitos, de arrancarem sacos e carteiras, abandonaram, deixaram a leveza aos movimentos feministas.
Um general não se sabe de que academia militar saído, está perante o dilema de uma batalha perdida. Grita do seu tanque civil: «Socorro! socorro! raptaram o meu filho!» A polícia faz a cena do normalmente fim da peça para averiguações. Seis dos excluídos do Plano C desgarram-se. Estes são mais crescidos, vieram porque a coisa estava a dar. A polícia persegue-os, os jovens elevam-se até um sexto andar. A única saída é encurralarem-se num canto. Lembram-se dos momentos, da angústia que o gato faz ao rato quando salta com a garra fatal. Três rendem-se aos incomensuráveis homens da lei. Os restantes optam pelo suicídio colectivo num voo só de ida com regresso mortal. O chão duro e insensível tal e qual a ditadura, aparou a moleza dos corpos. A jovem faleceu, os dois restaram calamitosos.
Bazei com a venda. Alguns rebuçados e os chinelos facilitadores abandonaram-me. Consegui atrapalhar-me nos degraus. Não queriam acompanhar o meu ritmo. Dançavam outra kizomba. Porra! Refugiei-me na minha tarimba.
Quem mais sofre com tudo isto é o meu coração. A pressão arterial sobe, manifesta-se. Mas o médico tranquilizou-me, enviou-me para os tranquilizantes destes dias sempre infernais: Vamos lá! Vamos lá! Tome-os com um pouco de líquido, água muito clara. Como um dia de sol prometedor, transparente. E ao escurecer dos desejos ao deitar. É um pequeno frasco com reacções químicas para que a noite insista, seja muito escura. Um sem dia, ou será um sem noite? Para que seja fácil suportar os deslizes do regresso à opressão e escravidão. Oh! Como é difícil andar com os pés neste chão.
Que dias tão tristes, apagados. Corromperam o sol!
Angola! Que mais pareces um continente perdido que jamais se encontrará?!
Ah! Mas que epopeia interminável!
Era negra como o vento, o coração, sorrisos, amor céu, sol sem cor e como a água, incolor, agora sou predadora.
As estradas são necessárias para o bem da humanidade. Por aqui são óptimas para o trânsito de exércitos de ocupação. E depois destruídas para que o inimigo não as possa utilizar. E as populações, que mais têm de suportar?
Conservo uma réstia da minha voz melodiosa, cheia do perfume perdido da minha mocidade amordaçada. Nos meus ténues gestos de mãos acorrentadas num infinito grão de areia de bolor. Sentir um pouco de amor (?), que já não resta no meu coração de Jasmim sem odor. Gostava muito de ver o sol nascer. Agora vejo a minha beleza no meu sorriso de tristeza ao entardecer.
Existe sempre um dia. O meu dia, assim como existem anos e silêncios. Que o infinito nevoeiro do tempo se dissipe e se lembre de mim Ah! Ditadores e falsos democratas… existe sempre um dia!
 Imagem: Aléxia Gamito

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Os Jasmins da Lwena (29) Nesta Angola não podemos fazer nada certo porque tudo está errado.




Uns na religião, outros na feitiçaria, outros no petróleo e diamantes, outros na corrupção, enfim, todos na miséria.
Acho isto tão vulgar, que não sei se devo narrar. Deixaram-se só. A minha família… uns morreram nos contentores de armas na Libéria. Outros nas catanas da Serra Leoa, outros na Somália metralhados. Os meus pais e os meus filhos em Angola bombardeados. E não sei mais quantos nas ruas cadavéricas do Ruanda.
Cacei um marido. Sempre bêbado chegava a casa e batia-me. Fugi-lhe do lar onde a nascente do sol deixou de fluir. Estou feliz na companhia da rua dos ratos. Não há, nem acredito nos mistérios dos ministérios das promoções das mulheres angolanas. As associações de direitos humanos não me podem valer. São como as telenovelas importadas, vemo-las e achamo-las interessantes. Deram-me a liberdade, tiraram-me a Universidade.
Estou a estragar a minha tristeza. Esquecida, abandonada, como se não existisse. De facto não existo, porque a minha Angola se afundou nos campos petrolíferos. Doem-me as costas, estou muito tempo na mesma posição da governação, agachada sem uma réstia petrolífera. Sem estribos para subir, mudar a situação. Se tento descansar, alertam-me que estou a preguiçar. Paro, levanto-me. Não sei quem ligou os holofotes solares. Parecem uma lanterna grande. A luz ilumina as copas das árvores. Já não são verdes. Ela aproxima-se, vai-me dar banho. Ergo a custo (a fome) a cabeça bem para o alto e vejo os meus seios nas montanhas. Alguns pássaros voam para mim, e saúdam-me. De repente sem saber porquê, grito: Ó Nzambi! Ó Nzambi!
O banho de sol é muito quente. Estou a transpirar, na escassa roupa para me tapar. Desperto da minha volúpia. Ele está próximo, capto a sua voz. Já chegou outra vez, a colonização. O seu olhar cobiça-me os seios. Adivinho o que vai dizer «Ó negra, estás a preguiçar muito!» Baixo-me e arrasto os frutos dos cafeeiros. Com a ferramenta de madeira, arrastadeira. Os outros estão a preparar os sacos para ensacar. Não sei quando vem a libertação desta transpiração. Ela chegará! Chegou a dipanda! Finalmente livre… nas ruas da amargura, sem vestidura. A vender a minha desventura corporal a qualquer um. Adestrava o cúmulo do tumulto da multidão. Perguntei-lhes: vieram a salomão? Responderam: está fortalecido na prisão do camaleão dos nossos professores de direito constitucional Vi-o, o lixo da criança que a alimentava. Na tábua rasa que flutuava, não homologada no livro da fome, das páginas dos recordes Guiness. Atrevi-me a lamentar: Glorioso, elementar sofrimento eleitoral. Não durmam eleitos, abandonem os leitos.
A política e o poder harmonizam muito bem. Muitos políticos, poucos lugares vagos no pódio. A concorrência eleva-se nos meus seios a despontarem cheios. O Sol percorre as distâncias de todos os dias, ilumina os obscuros, poderosos corredores da arte bancária que conduzem aos cofres subterrâneos, pesados pelos quilates das diamantíferas gemas gemidas e petrolíferas doentias. A bantologia abre os alicerces da vozearia: amanhece, a bronzeada levanta-se, sai à busca sem vida. Andou, navegou, olhou, sonhou. Regressa, não encontrou o tempo perdido. Esta bronzeada agora, adora sonhar. Reverteu, perdeu o caminhar, continua a recuar sem independência.
Convidaram-me para passar o ano novo. Recusei. Obstinei, passei-o na apanha de mabanga, assada, saboreada com maluvo na companhia honesta dos mangais. Divertimo-nos imenso. Como o cessar-fogo, e tudo continua na mesma. Não temos quadros, não os queremos, corremos com eles para manter a desorganização que conduz à mãe da corrupção. E tudo não se enquadra… retrocede à Idade Média… às origens de Richard Leakey. Povo que não lê é cego… e não vê. Só os esgotos são livres e o tema nunca se esgota. Vi que caminhávamos irremediavelmente para a destruição e sorríamos como sempre. Estávamos finalmente livres, independentes. Donos do nosso destino, do nosso futuro, Livre! Na minha bifurcação da mabanga, no mangal genial! Como chamar alguém, ou dizer que é génio porque há muitos idiotas. Que estancam uma comporta e as outras continuam com fugas. Nesta Angola não podemos fazer nada certo porque tudo está errado.
Desfaço-me nas escarpas dos meus cabelos à espera que tudo se conceba num minuto de vida. Permanece na eternidade da intranquilidade. Observo muita gente lutar a favor e contra. Os contras são muitos, poucos os defensores. Aguardo o vencedor nos contrários. A sua balada dos dias melhorar sem lutar!? Na Terra restam os últimos raios de fogo e nela nada de humano, ninguém para os deter.
Ouço duas pessoas numa só. Com qual devo falar?! Com o são ou o bêbado? Qual dos dois devo escutar?! Prefiro consultar o meu estatuto de cidadã da exclusão social sem casebres. Enquanto isso, o circo das organizações não governamentais prossegue. Os descolonizadores da infame hipocrisia evoluem no trapézio. Os homens são todos iguais, os sistemas políticos não. Os homens são diferentes na cor da pele mas as mentes estão intactas, não diferem, convergem. A genética é bem conhecedora: a maldade não tem cor, hipocrisia também não. Até os filhos renegam os pais, estes também. A árvore cresce para estar mais próxima do Sol. O filho deixa os pais morrerem à fome, os pais também. Os pássaros voam para as árvores porque se sentem seguros. Amanhecem com o silêncio porque a noite foi ruidosa.
Vendem-se armas a prestações a qualquer estado falhado. O fornecimento do armamento garante o exercício do poder ao exército. Os fabricantes incentivam a violência para o fabrico de mais armas. É por isso que as guerras modernas se fazem, se prestam a prestações. As fábricas da morte encorajam-se. Há sempre alguém que diz: as armas são necessárias para o desenvolvimento económico e social do nosso povo. E as populações correm para o seu destino da morte. A fugirem dela e da corrupção dos ditadores. Eles e ela estão sempre presentes. Estamos perante eles, quer queiramos quer não. Sem dúvida que isto é uma dádiva demoníaca que facilmente se verifica nos espaços dos cemitérios. Porque não fazemos de todos esses funerais o despertar da nossa luta contra a fome!? Os rostos das multidões dos mortos não são iguais.
Sempre a dependência, não a independência, surge quando a leitura não mora nos hábitos de um povo. Depois qualquer importação serve. E que por vezes a desunião faz a força. A demagogia constante é a inconstância da verdade. Não necessito do Ramadão para jejuar. A fome é a minha religião, nada tenho para adorar. Não posso evacuar a minha tristeza, disso tenho a certeza. Falar da SIDA é como o alastrar da guerra no Iraque, noutro e noutros como um comboio sem paragens, sem estações. Quantos mais morrerem, menos interesse despertam.
Quando o horror é trivial, habituamo-nos ao seu efeito mortal. É o quotidiano. Quando a monotonia das situações se repete como nos campos de concentração nazis, na companhia dos espectros da morte, o inimaginável acontece. Ficamos cúmplices dos algozes. Nas amarras dos malditos que ainda fazem dos seres humanos, o regresso aos campos dos membros esquartejados, acompanhados de uma sinfonia filosófica que orienta o final cadavérico da espécie humana.
A diferença que existe entre um cavalo e um homem é a seguinte: O cavalo tem quatro patas, o homem tem duas mãos e dois pés. O homem tem cérebro, mas muitas cavalgaduras não.
Mal governar é morrer rapidamente, é um suicídio não necessário, mas está sempre presente. É brincar com o fogo, queimar-se, abandonar o povo, demitindo-o das eleições. Ainda resta algo: a serenidade perdida jamais é restituída.
Isto não é Angola, são banqueiros e demais carniceiros na carnificina. Se fosse como eles, se roubasse estaria rica. Este é o único meio que ainda subsiste para enriquecer, que me provem o contrário. Não haverá ninguém que me atire o primeiro milhão de dólares para me desenganar porque a lei protege-os. Os poderosos e a gatunagem protegem-se dos fracos e desprotegidos, e daí o atroz terrorismo.
Não adianta recorrermos porque existem duas advocacias: uma para pobres, outra para ricos, e os deserdados… não foi em vão que esta palavra foi pela primeira vez pronunciada. Deserdados… porque os cancerosos poderosos a herdaram. A garantia da minha recente liberdade era atirar para o lixo os livros técnicos deixados pelos colonialistas, porque na nova vida não teriam nenhum proveito. Era assim que pensávamos na nova ideologia revolucionária: só os livros marxistas-leninistas eram edificantes, e ainda o são. Quando demos pelo engodo era demasiado tarde. Voltámos às cavernas, aos túneis do espírito sem luz. Novamente nas garras dos vampiros, a ouvir cigarra cantar e a ver formiga guardar
MEU POVO!
Quando ouvirem os políticos a falarem guardem silêncio. Quando eles se cansarem falem e sereis escutados. De noite não tenham medo das sombras das ditaduras deles. Pelo contrário, congratulem-se pelo luar que vos oferece a democracia. Não confiem em nenhuma igreja porque vos levam à escravidão. Porque nos tempos que correm devemos agradecer tão sublime jornada libertadora. Quando virem outros esfomeados passarem ao vosso lado não os desprezem. Eles indicam-vos os caminhos que esperam aos que desviam maliciosamente os caudais das nossas riquezas. Diariamente ouvirão muitos cantos de promessas. As mesmas músicas tocadas sempre nas mesmas rádios, jornais, TVs. Existirão sempre muitos ditadores com ares místicos mas poucos serão escutados. Nas tormentas das cidades aprendam a mergulhar nas multidões. Afastem-se e observem-nas. Verão oradores nos circos com muita palhaçada. Nas muitas horas vadias contem o tempo que resta para viverem. Verão depois que passaram muitos anos colonizados. E não terão mais horas vagas para recuperar o tempo perdido. Conhecem muitos governantes mas não pessoas. Nunca conhecerão ninguém se não conhecerem profundamente uma delas. E quando finalmente sós e abandonados, lembrem-se que os vossos pais nos silêncios das tumbas aguardam a vossa companhia e estarão sempre convosco.
E pior que o pior é ser melhor.
Talvez sejam os dias sem sol que nos fazem tristes e agressivos. Os dias quando nascem não são para todos, continuam apenas para alguns. Sempre os mesmos como uma dinastia milenar. Nesta terra nada mudou, muito pelo contrário, tudo piorou.
Não apreendo a matriz genética dos nossos políticos
Há armas nos quintais, nas ruas, nos lares, nos carros… e nas crianças. Postos de controlo disseminados, com carteiristas fardados. Sem civilização, com máfias, sociedades secretas. E atributos genéticos que nos condicionam. Como o gene que bloqueia a noção de compromisso, de responsabilidade: «Está bom, não há problemas. Daqui a pouco já passo por aqui. Depois telefono, amanhã passo aí. Vou telefonar sem falta. Na próxima segunda-feira, volto mais tarde.» É a política dos apocalípticos. Um passo em frente e três atrás. O pressuposto de uma política congénita: o mais importante é acabar com o povo.
Imagem: Aléxia Gamito


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Os Jasmins da Lwena (28) Para conquistar o poder basta-me um contrabandista de armas. Eles e elas são os nossos melhores amigos




O Governo angolano recorda mártires da repressão colonial. Da repressão pós-colonial anterior, actual, permanente, não. Já anunciei que quero alugar o meu coração, os inquilinos pagar-me-ão a renda com amor na minha morada eterna, e não me despojarão. Pagar-me-ão pontualmente a renda do meu coração.

A nossa loucura tudo esmaga, esvazia os nossos corpos como monstros lendários em selvas reais. Quem sabe o que está certo ou errado? Porque não me deixam humedecer no meu cacimbo? Somos pequenos, grandes actores no enredo deste interminável filme macabro.
Deleito-me a passear nos passeios esburacados, desventrados pelos lodaçais sempre inundados. Os nossos governantes sem itinerários deslocam-se nas rodas dos ventos ciclónicos, movendo a intempérie para outras rotas. O seu exibicionismo é a corrupção da inteligência. Não há separação de raças porque nas bebedeiras somos todos iguais. O cinismo e a hipocrisia são a barbárie da sobrevivência humana, entram democratas saem  ultra-direita. A solidariedade entre nós?! Ainda estamos a aprender com os ratos a política cultural das nossas guerras de libertação petrolíferas, diamantíferas. E nas florestas regadas de petróleo os bichos deixaram de cantar. Caçam-se para a fome mitigar.
Ouvirei sempre a minha doce voz de anjo no céu. Estou muito longe e contudo tão perto dos vossos corações. Não, não desisti tão cedo descontente! Quão difícil é acreditar! Com tanto amor que não tive e agora tenho no céu, o que nunca tive nesta terra. As minhas lágrimas não são de desespero, são de ódio ancestral ainda subjugadas por esta e a outra hipocrisia Ocidental.
Pareceu-me ouvir as vozes dos anjos no céu a chamarem-me para debaixo da terra. Dificilmente tentei sempre andar em cima dela. E facilmente consegui para sempre nela debaixo ficar. Na paz eterna que não me souberam dar. Acompanhem-me como se fosse a minha última festa. Chegaremos à morada eterna que neste dia encontrei. Sentirão os meus últimos sorrisos porque me vinguei da vida com a morte. Não me lamentem, o vosso dia não tardará!
Para a paz mundial estabilizar, os impérios devem ensinar, empregar a nossa gestão participativa. Os arquivos electrónicos onde se guardam as palavras, os passes secretos das fortunas fáceis, nesta Angola que não é minha. Quem enriquece, rouba e roubar é tão fácil. Basta pertencer ou amigar à família no poder. E nascem condomínios, partem-se os domínios dos casebres. Recebe-se o bónus dos negócios, ignomínias. Lamento muito, mas acho que não devo ser desprezada.
Por aqui não existe nada seguro, tudo é inseguro. Quando o meu presidente fala à nação, parece que está na ONU. Com palavras muito cultas exorta a nossa cultura, à incultura da fome, omite-a. Ah! A fome, isso é da competência das agências internacionais. Eu, o presidente, elegi-me, impus-me para governar. Receber as altas individualidades que poisam nos nossos palácios, e falar… falar que dentro dos próximos anos, sempre os mesmos, lutaremos, faremos qualquer coisa. Impávida e não serena a epidemia da fome alastra, estende-se como os desertos. Tão frágil parece o meu corpo na fortaleza da minha beleza.
O mar encrespava em sinfonia com as nuvens negras do FMI, parecendo chuvada. A natureza remexia-se, ordenava os preparativos, o desejo entre tantos venho já ausentes. Até logo, até amanhã entre aguardentes que se perdem por um fio.
O maldito humano destrói a comida marítima. Os marinhos, marinheiros em terra procuram a vida humana para alimentação. As barbatanas famintas para não serem extintas. Se alguma coisa em minha casa virem entrar, é certo que me vão assaltar.
A minha vida de lavadeira não acabou. Tanta roupa que levei, lavei, e o sol não secou. Devo andar seminua, nua para um estrangeiro namorar. Se alguma comida para casa quiser levar. Não sou prostituta, sou um submarino que usa lastrar. O meu silêncio espectral é um acto eleitoral, conjuntural. Não sei o que não quero. Vesti uma hiper mini-saia aventureira, fronteira bivalve. Um amigo prevenia os incautos e escreveu na minha bifurcação: «Perigo! SIDA, alta tensão! Qualquer serve para se sentar na minha cadeira eléctrica» A formação mais fácil da rentável escravatura: carregar no gatilho. Ah! Que agora neste outro poder libertador dos senhores negros, disputo aos abutres uma réstia de comida.
Tantos que partiram com a fome precocemente, tão cedo, rapidamente, com brutal indiferença, como se não existissem sentimentos. Desnecessário é dizer que para rejuvenescer, fortalecer, reaprender, é necessário aprender sempre. O que me espanta ver é sentir a maldade crescente. Curta, longa como mola esticada, de juventude generosa e ingénua. Todos os dias amaldiçoamos, odiamos a Ocidental hipocrisia e a sua Igreja.
Para conquistar o poder basta-me um contrabandista de armas. Eles e elas são os nossos melhores amigos. Com eles e com elas morremos nas guerras, sustentamos as democracias ocidentais. Não confio em ninguém. Estes políticos são aventureiros, atrás deles estão, chegam, sempre em movimento outros pares. Falar, discordar, não posso. Arrisco-me a ser presa, assassinada.
Todos os dias nos roubam. O Governo perde os recursos financeiros que flúem para as redes de esgotos das empresas, estruturas governamentais dos que nos governam, ou as suas famílias. Nunca se sabe quem dirige. Não dá para viver, temos que fugir. África, Angola são o campo de concentração da globalização. O ébano nu do meu corpo transparente, irreal, voa, salta todos os obstáculos da imaginação dos momentos de prazer.
Não vendo os sentimentos da minha cor ainda que no longínquo desejo e vencer, do saber esperar com ânimo e ardor dos desejos incontidos que a gente têm. Sou altiva, serena, convicta da certeza: que com tanta violência caminhamos para o além. De tanta emoção incontrolada de não estar presente, mas adiada, o amor é uma doença incurável. Ando sempre atenta porque posso cair num canal de uma vala de drenagem. Estes passeios das ruas têm canais, não como os de Veneza. Estes têm valas abertas que permitem o escoamento dos esgotos para as ruas. As nossas valas de drenagem são como o nosso governo. É um governo dos esgotos e para os esgotos. África é o continente negro sempre clareado pela luz solar. Vejo os dias a passar, e a fome não os faz alterar. Sempre em guerra! Os estrangeiros são evacuados, eu não.
Sem convicção, sem conteúdo tudo se parte em pedaços. E fica a chama ardente a consumir a paixão, perde-se a razão. Ainda não temos governo, apenas por enquanto milhões de promessas, que se perderam, ainda não aprenderam o que é a razão.
A espera é tão penosa e faz-me sofrer fechada no palpitar angustiado, oprimido como nunca senti. Não quero mais regressar como órfã. Quero entrar qual montanha de ventura. Vou fazer-me ídolo e idolatrar-me pura. Vou fazer do meu mundo uma procura. Com vozes a proclamarem-me que é uma loucura. E não construir outro abismo sem fundo para o meu povo. A tristeza já está insuportável, sinto-me desfalecer quase insondável, aguardo a chegada com o seu final. Com séquito e grande cerimonial, jóias e diamantes do mais puro mineral. Não mandarei mais tocar músicas e fazer grande Carnaval. Grandes coros a anunciarem a minha eterna e aberrante reeleição. E deslumbrada, os meus descendentes reinarão. Farei uma batalha, uma cruzada, uma moldura sem retrato, para segurar a minha graça e encantos sempre inseguros. Não deixar jamais o que nascer impuro, para continuar nele o meu amor, o meu ser. Deixar na sua semente uma grande muralha, um muro. E porvir, sentir dentro de mim a vida renascer. Abandonaram-me, cravaram-me num túmulo encerrada, nas árvores sem céu, numa desfolhada. Resta-me o aviltamento da humilhação. Sem o renascer, o viver do tempo moderno na sua teia enredada. Esperando sempre das agruras ser violentada, sem ao menos para descrever um caderno. Enquanto o mundo corre para o futuro, e eu, nós, fora dele a sonhar, esquecendo tudo nele impuro. Vivendo, sofrendo, esperando solitária navegar nas tormentas das pontes e dos estádios inseguros.
Depois do segundo milénio ainda existem regimes ditatoriais, e esta náusea insustentável da violência doméstica e política fez com que: não quero mais marido! Chega! Basta! Exportamos petróleo e importamos álcool e armas.
Convivo no continente da guerra dos traficantes de armas do conselho de segurança da ONU. Com o consentimento deles, da ONU, que são apenas vulgares seres humanos. Da nova civilização do holocausto, boicotam-se os governos e suicidam-se as populações à mais execrável fome civilizacional. Somam-se as organizações não governamentais para multiplicarem a nossa fome, regredindo aos tempos dos cruzados e das cruzadas. Ao templo de Salomão, ao cálice sagrado do sangue Rh P+, mais petróleo. Este bem muito mal gerido que é mais que suficiente para nos iluminar, mas não basta, nos desbasta.
A electricidade da nossa escuridão, do sempre vai e pouco vem, traz-nos outro mal… a poluição do fumo dos geradores. Não afecta as democracias porque se apoiam nas ditaduras petrolíferas. No segurança, pequeno ditador sentado, cercado com um vulgar cordel, na vulgarização da Kalashnikov espera os inimigos do estacionamento. Os computadores evoluem, nós não
Recordo a alegria do bater na minha porta cardíaca a subtileza do ritmo. Qual suave tambor na quietude do meu coração. De amor sem céu, sem sol iluminado, incompreendido. De olhar profundo, demorado, a devorar a vida. O tempo como se não existisse, nada e ninguém. Como se o mundo democrático desabasse e eu só o continuasse. A minha alma não é gentil, está sempre distante. Céus e terras entretanto permanecem, continuam dentro de mim a cada instante, recordando o suave alarido sonante. Aguardando o não feito, mas sempre que fizessem, na luta diária do abrir portas que me enlouquecem. Acossada nos castelos da ditadura, no solitário andar entre os agentes, errante. Algo que não fica, algo que vai como as notas suaves, melodiosas de um alaúde. Querer sempre andar mas ficar amiúde. No cruzar aqui e acolá com os agente e não olhar, convicta de que sou a melhor mas sem virtude.
Por vezes o vento pairava, como que indeciso, e indecisa ficava também a goiabeira. Arriscaria dizendo que ela estava cogitando. Será que as árvores meditam?
A mãe prostituía-se, a filha estudava Quanto mais a mãe se vendia mais a filha se aplicava na universidade, e a mãe precocemente envelhecia. A filha precocemente escolhia os estudos da vida. A filha rejuvenescia, enquanto a mãe cada vez mais envelhecia. A mãe amava a sua filha que agradecia. Oh! Como são insondáveis as tragédias do amor.
Os cinco jovens perderam a juventude da noite na discoteca. Encontraram muita bebida que não era proibida a menores. No carro conduzido pelo álcool, recalcitraram um tronco elefantóide plantado. Eles e o carro viajaram para as discotecas celestes. Não consigo imaginar o estoicismo destas pobres árvores.
Imagem: Aléxia Gamito

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Os Jasmins da Lwena (27) Da avidez e conivência de africanos que nos entregam aos estrangeiros como mão-de-obra escrava




Até hoje, o governo não é capaz de dizer onde está o dinheiro burlado aos cidadãos, nem é capaz de indicar onde estão os terrenos loteados. in David Mendes, presidente do PP, Partido Popular

A América redescoberta demandava escravos para a Europa. Caribenhos plantados nas plantações e mergulhados nas pérolas. Índios minados nas minas de ouro e prata até à exaustão da morte. Trocados, substituídos pela resistência africana, da magnanimidade colonial, original comércio português e espanhol. O lucro, o único aspecto atraente do desordenado humano competia. Ainda hoje não se fartaram os cofres da acumulação mundial, dos holandeses, suecos, dinamarqueses, alemães, franceses, e ingleses, fortificaram a África Ocidental. A fábula da minha escravidão lucrativa veio com a intolerante cooperação. Da avidez e conivência de africanos que nos entregam aos estrangeiros como mão-de-obra escrava, para pagar os luxos palacianos das suas guardas presidenciais e governos de fingir. Sempre mais em frente, sempre mais em frente, estava a cana-de-açúcar e as plantações de cravo-da-índia.
Desumanamente algemada, transportada nestes outros navios de maremotos tormentosos. Da torpe governação que suga tudo o que é dólares para eles, e para a população o abandono. Perante o silêncio e o cinismo da democracia ocidental, que enviam os seus bancos para nos dizimarem. Não sabem que promovem o terrorismo dos esfomeados mundiais e mais estes locais. E contudo o Iraque, o Afeganistão e o Paquistão animam-se contra o assédio deste terrorismo bancário mundial.
Desprezam-me longe do luxo dos salões deles, em leilões, onde admiram, saboreiam, compram o meu ventre, os meus seios… e a exposição da minha nudez. Milhões de manos e manas lá foram sem direito a bilhete de passagem, e tantos e tantas não passaram na Passagem.
Os comerciantes perante a pressão da abolição da carne para abutres e tubarões, defendem que isto afecta o seu sustento e o das suas famílias.
Fiquei muito preocupada com 1880 a 1914. Obrigaram-me a assinar tratados de protecção com metralhadoras na mão. Não havia nada que não estivesse anexado. Os brancos eram bem recebidos, retribuíam-nos com a sua poderosa metralha.
Saltei da manhã e o dia viu-me, terminou muito rápido. Durmo apenas para esquecer, ludibriar a fome que me assola. Quero que as noites acabem depressa para conseguir viver mais um dia, de um sonho ultrajado sem final. Viver não é um sonho, é um pesadelo, uma curva sem final na vida brutal. Não posso vender o assobio do vento, fico como que parada, indecisa, quase como uma estatueta de marfim.
Somos multidões de estátuas estáticas sem infinito, sem percepção do longínquo futuro, da pensativa tristeza do pesadelo que me não abandona. De manhã desperto e outro flagelo me espera: o martírio do dia-a-dia das baionetas. Três condições definem o ser humano: Em pé, sentado, e deitado no eterno.
Ajudei os Zulus. Derrotámos os ingleses e os africânderes. Depois fomos vencidos, humilhados, devido aos trovões, às tempestades das armas poderosas. Não é o armamento que ganha uma batalha, é o engenho humano.
Era feliz antes deles chegarem. Estava no paraíso, não me preocupava nada com a comida. Havia-a aos pontapés: mangas, bananas, abacaxis, lagostas, gambas, muita peixaria, muita frutaria.
Encostaram-me à parede da discriminação racial. Colaram-me um papel que me identificava: negra sem paraíso na terra perdida, apenas obtendo o direito autoral de ficar calada. Os missionários enfrentavam o secular silêncio da bondade divina. Do pouco fazer, da negação animal irracional.
Existo invisível, sem estatísticas, sou um zero negativo.
O alvoroço dos novos-ricos na caça cobreada, sem pausa, não deixa que descansemos, de revolver o intacto. Nem sobras, nem quebras, nem protestos. Que somos abençoados com notável cheiro em polvorosa. Dai aos novos senhores, o que é deles. A submissão dos iletrados é pertença dos escravos.
Danço e não encontro o centro do meu Universo. Milénios são passados no meu rosto, do crispar, do ranger de dentes do rosnar eterno. Normalmente tenho a pretensão de dizer tudo ao silêncio imposto de todos os dias. Que nascem e escondem a minha máscara eleita do meu coração sem deleite. E muito rapidamente vejo-o destroçado, o meu país, Angola.
As estradas e os comboios são a nossa distracção. Alimentam muitas cargas e poucas descargas. Conjuntos de metal que circulam carregados até ao mar. Petróleo, cobre, zinco, ouro, urânio, diamantes… muitos metais raros. Depois exportam-nos, aviam-nos. Permitem-nos observar essas mercadorias -fotografá-las não porque o deus marxista-leninista está sempre presente – que impedem o nosso sustento. Depois os marxistas-leninistas abandonam-nos, oferecem-nos a abastança da fome negra. Angola, Etiópia, Libéria, Sudão, e muitos mais …
O desgosto económico, a corrupção, a arbitrariedade. Perdi as incontáveis vezes em que fui libertada por soldados-ditadores.
Para onde irei, não sei, roubaram-me o casebre e as orquídeas dos jardins. Sem perfume, com azedume, para onde irei não sei, já disse! Lembrem-se de mim, ando por aí à procura dalgum governante honesto. Digam-lhe que nunca mais acaba o meu tormento. Grito no mais profundo virgem florestal: digam, procurem o nosso Deus ancestral. Se o encontrarem nos círculos sagrados, quando ousarem ir ao profundo da floresta sagrada, lembrem-se de mim, não receiem, lá estarei. Tragam-me um navio sem escravos, sem presentes e sem presidentes eternos.
Tento recompor os destroços perdidos dos barcos que encalham nos meus olhos, passeando, sulcando o oceano das minhas lágrimas. Sempre na procura mais longa que prometi voltar e lembrar dos vinte da praia de Jamestown. Mendigo na rua nua sem espelho para me mirar. Digam-me para voltar a lutar e rematar, e matar. Perdi-lhes a vontade, já não os amo, odeio-os, porque o meu petróleo e diamantes estiveram, já aqui não restam, estão muito além do mar. Vejam o que me fizeram e não retiveram: os sons que agora oiço dos pés nus e mãos estendidas. O meu nome está à venda, esse sentimento perdido como uma pequena janela, que nem isso já tenho. E o meu nome era o futuro… depois do ano 2000. O meu futuro, o meu relógio parou, já não se usa nos programas rodados sem computador. Nem comecei, parei, à espera da hora, demora falar. Perdi a escalada do véu que me conduz ao céu. Estamos juntos, tão próximos e contudo tão distantes, como lágrimas de crianças órfãs. Como tudo o que é belo e sempre efémero.
Governar é fácil, perguntem aos abutres. Quando dois homens não se entendem, o dinheiro está errado, disse Voltaire. Tenho que apressar-me, vou revolver o lixo da esperança, sem ela, de encontrar o que resta do meu nome. Sento-me, sinto-me cansada.
Tudo o que for construído, destruído será no cinismo da nossa hipocrisia angolana, onde diariamente tudo se agrava, cai aos pedaços, sem terramotos. Os vulcões desumanos ardem angolanos. Tudo se agrava, cai dia após outro dia. Sem escolas, sem ensino adequado, o meu cérebro está atrofiado. É por isso que dizem «É o Continente atrasado» A História humana é a história dos punhais. Se os nossos estádios de futebol lavrassem terra teríamos abundância de comida. Adeptos do futebol, escravatura moderna.
Não consigo afirmar-me à espera do profeta. As lágrimas saltam no meu rosto quando penso. Os animais agitam-se enquanto Deus estende as suas mãos, a um amor desconhecido sentado na margem dos mil rios.
Vi a mãe entregar o seu bebé para fugir da fome. O mar tentando galgar montanhas inundando inumanos voltando aos princípios. Os seres humanos perdidos na selva de betão, acorrentados, armadilhados, felizes na bestialidade para sempre eterna. O bebé para sempre abandonado sorrindo para o mundo hostil. Vi muitos de nós para sempre complacentes, cúmplices na desgraça. Vi os silêncios de cada instante no nosso olhar de cada dia, como cães selvagens na fuga incerta para nenhum lugar. Tentei adormecer no desalento, no amanhã da mamã. Confirmar a aventura, continuar na desventura neste pão angolano sempre órfão. Um governo das maratonas e para as maratonas que insiste beber o álcool não original das nossas origens e dos nossos destinos. Insistimos nos negócios que o vento leva e na vocação das festas inatas para arder o tempo que nos sobra em demasia. A hipocrisia é a satisfação do dever cumprido. Semear injustiças é colher revoltas. Mesmo que o nosso governo faça alguma obra para algum angolano ver, nós acabaremos com ela. Se tivéssemos a bomba atómica seríamos alcunhados «o Continente do cinzeiro radioactivo.» Se a bebida fosse livros eu seria muito culta. Até nos concursos internacionais de bebidas alcoólicas somos discriminados, porque de antemão todos sabem que somos vencedores. E nesta batalha não há Waterloo.
Não fico exausta, mas constrangida de não correr pela areia das praias agora proibidas. Um instante muda muito, muita coisa.
As estátuas dos meus seios erectos, modelados como fruta afrodisíaca na avidez do espanto do prazer, na espera do alimentar a vida e voltar a endeusar-me, sem corrupção nem queda da actual governação, algo muito fácil. Sou uma deusa lendária amada, desejada por todos os deuses e perante a realidade destas coisas sem mundo. Ó embarcações da emigração clandestina! levai-me e que chegue viva às fronteiras trágico-marítimas da nova colonização. O prédio onde ainda consigo viver, restam alguns alicerces, ainda bem! Prefiro o capim seco da liberdade campal. Comprometo a minha queda angolana abismal. Ao assinar contratos de qualquer espécie nacionais ou internacionais… para quê!? Se depois ficam esquecidos, rasgados, abandonados nas lixeiras desproporcionadas, desgovernadas. É por isso que o meu povo é acérrimo defensor da delinquência. Quantas mais leis, mais desordens, melhor será não existir lei, porque a desordem está organizada e devidamente institucionalizada. Ai de mim se conseguir desenvolver a minha inteligência, ficar culta, lá me chegam os ancestrais sacramentos: «Vai lavar a loiça, a roupa e varrer o chão, depois cozinha funji com quiabos, jimboa e cacusso assado. Traz o jindungo regado com a bebida da nossa trovoada, tempestade tropical. Em seguida despertaremos a sombra do secular embondeiro.»
Lutámos, sofremos, vivemos, morremos sem dinheiro. Está com eles e esses das companhias petrolíferas. Se não existisse hoje, amanhã?!
Imagem: Aléxia Gamito