sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A intolerância ecológica





A
José Quitério

Que civilização é esta que enclausura o ser humano na prisão sem vegetação?
Dantes existiam muitas árvores e poucos seres humanos. Agora há muitos seres humanos e poucas árvores.
Qual é a diferença que existe entre um especulador imobiliário e um tubarão? Nenhuma… são imprevisíveis.
Não existindo árvores as nossas crianças poderão existir? Sem árvores as nossas crianças não verão, não saberão o que é o verde, essa cor maravilhosa que nos dá tranquilidade. Sim, a cor verde dos campos, dos bosques interpretados como na sinfonia das Quatro Estações de Vivaldi, ou a sesta e sétima sinfonias de Beethoven que nos musicam que a nossa mente se impossibilita de viver sem o verde das deusas árvores.
Antes da civilização do betão as árvores eram respeitadas, actualmente na civilização do betão as árvores nasceram para serem derrubadas.
E as tempestades ciclónicas não se podem conter porque a civilização do betão pretende substituir, plantar árvores de betão, e as chuvas sem vegetação ficam com os caminhos libertos, inundam, arrastam a civilização do betão. É que as árvores são uma muralha que contém os ventos e a chuva, e não é por acaso que se ouve nos noticiários que os ciclones estão cada vês mais devastadores. Não é por acaso que os Índios e os Celtas veneravam as árvores como deuses porque eles sabiam que sem elas o seu futuro se encerraria, a sua civilização se extinguiria. Considero um tremendo erro o cristianismo acabar com esses cultos da adoração da Mãe Terra em nome de um Deus que não admite a Natureza nos seus altares.
Todos os dias – quando me é permitido – costumo levar ao colo o meu neto de dezanove meses e digo-lhe: «Bebé, olha aí o verde das árvores, é muito bonito, não é?» E a criança sorri, porque a cor verde tranquiliza o cérebro e inspira a mente.
Creio que se Galileu (1564-1642), fosse vivo e agora debaixo de uma árvore de betão, não diria que lhe caiu uma maçã na cabeça, mas um pedaço de betão, e a célebre lei da queda dos corpos seria substituída por outra: lei da queda do betão sem lei.
Olho para a cidade e vejo-a despida, roubaram-lhe a roupagem da arborização e assim persistimos que quantas mais árvores derrubarmos, mais no vazio nos encontraremos e as nossas vidas subjugaremos, porque existe algo de mais valioso do que o maravilhoso trinar de um – por exemplo – um beija-flor no seu incessante, feliz e pairado voo na busca da perfumada seiva das flores a anunciar que o dia rejuvenesceu e o jardim floresceu?
E como os namorados farão mais promessas de amor sem o mundo verde, inspirador? Decerto será um amor seco, frustrador.    
Creio que tinha vinte anos quando a despediram da vida. Era muito atraente, oferecia, tinha ainda muitos promissores frutos proeminentes em frente. Cheios e cheia de saúde e assim morrer tão prematuramente… os frutos saborosos com que nos deliciava, a sua sombra e a sua frescura terminaram no reino inglório do lixo, em mais um monte de madeira para cozinhar refeições e aquecer dos dias e das noites frias.
Era uma árvore, uma mangueira altiva e muito orgulhosa, nunca se deitava e não se cansava de viver sempre em pé. Convivia, participava, acompanhava as nossas vidas. Fincou raízes nas traseiras de três prédios, num grande largo que a juventude utilizava para disputar campeonatos de futebol. Junto dela vivia um homem de idade avançada, numa modesta habitação, e porque a saúde lhe desistia contactou um general para a sua venda. Feito o negócio, ainda se sentia o frio das notas bancárias e já alguns militares, mais um arquitecto e um engenheiro começam a rodear a mangueira. Com curiosidade olham-na de cima a baixo. Depois faíscam-na como inimiga, soldados trepam-na, e a rir como a festejar grande vitória contra um inimigo poderoso, tratam de esquartejar primeiro os seus ramos mais pesados, mais volumosos. A árvore rapidamente sente o fim aproximar-se, e entre suspiros e lamentos, gritos silenciosos, como só as árvores fazem, sons que os seres humanos não ouvem, não querem ouvir.
E a árvore continua a resistir ao assédio. Heroicamente resiste a cada golpe que sem piedade lhe assestam os seus inimigos poderosos. Já estava quase careca, desnuda. Creio que se sentia muito envergonhada da sua nudez. Restava apenas o tronco que teimosamente insistia em estar ligado à Terra Mãe, aquela que a viu nascer. E a Terra sentia-se ferida. E num ronco descomunal surgiu uma fera de metal, que lançava fumo por todos os lados, como um dragão invencível… e com uma pá de aço mergulhou nas entranhas da Terra e retirou as raízes, o esqueleto, o pouco que restava da pobre árvore, deixando lá uma cratera, o que alegrou os militares habituados aos cadáveres no campo de batalha. E gritaram numa só voz como que ao comando do seu chefe: «Madeira!!!»
Depois, entre o tilintar de copos de bebida, o general, os seus soldados, o arquitecto e o engenheiro beberam à saúde de mais um inimigo aniquilado. A seguir veio a máquina niveladora, nivelou a terra, apagou os vestígios da descomunal batalha. Seguiu-se outra máquina que despejou cimento e areia. Os tijolos e demais materiais já aguardavam para iniciar mais uma obra da especulação imobiliária. Passados poucos dias já ninguém se lembrava que ali existiu uma árvore, uma mangueira. No seu lugar cresceria mais uma árvore de cimento e areia, de betão.
Quem não dá valor a uma árvore decerto maltrata também os animais e considera os seres humanos como irracionais.
Quando era criança, com os meus sete anos, recordo-me das minhas brincadeiras, das minhas aventuras entre eucaliptos e pinheiros. E ainda sinto as vozes surdas do vento vindo deles. Sozinho, sentia medo como se uma multidão de pessoas me sussurrasse, me perseguisse, como se cada eucalipto e cada pinheiro fossem pessoas que de repente se desprendessem da terra e me quisessem agarrar. E quando havia tempestade o barulho do movimento dos troncos impressionava-me, como um mundo desconhecido dos humanos.
Acabar com as árvores é acabar com os sonhos do nosso inconsciente colectivo.
E nos dias, nos tempos seguintes os nossos avós recordarão aos seus netos que lhes contarão em forma de lenda: «Era uma vez uma árvore que diariamente nos saudava, fazia parte das nossas vidas, era como uma filha.»

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