segunda-feira, 12 de agosto de 2013

LUANDA. LENDAS URBANAS




Eram cerca de vinte e duas horas de um cacimbo violento, muito frio e de intensa humidade, daqueles que faz com que até os cães sumam das ruas, que nos faz tossir imenso devido ao aglomerar do pó e de partículas de ferro, e de outros materiais que serrados e partidos pelas brocas industriais se disseminam pela atmosfera sem vento, ou quase sem ele, e que acumulados constituem a desgraça dos nossos pulmões, especialmente das crianças e idosos.
Os seguranças dos prédios costumam se associar para depois nascer numa panela de cozinha quase industrial um bruto funji de carne, jimboa, quiabos, a farinha de mandioca e o jindungo do Cahombo.
E já a matéria-prima flutuava na panela, pronta para deglutir. Cada um dos seguranças, aí uns dez, levava o seu prato e se servia, chegava e sobrava para todos. O meu prato foi-me servido sem grande cerimónia pois já era da casa.
Fiquei num grupo de três seguranças - os meus kambas de todos os dias - o Pastor, o Leão e o Tony. Comemos, deliciámo-nos, aquecemo-nos confortados pela comida e pelo ambiente humano. Para beber apenas água, ou gasosa, pois se os chefes dos seguranças os apanham a beber, dá direito a despedimento imediato.
E o Pastor – assim designado, pois ele quando está de serviço prega o evangelho aos seus colegas – corta o silêncio e fala, desta vez não é do evangelho: «Num armazém onde prestava serviço, os empregados desapareciam misteriosamente, ninguém sabia porquê. Até que num dia – desses mesmo onde tudo se descobre – uma esposa foi procurar pelo seu marido, e lá no armazém lhe disseram que não sabiam nada dele, talvez fugisse com outra mulher – coisa tão vulgar, tão circense que até já ninguém presta atenção, pois faz parte do nosso dia-a-dia na cidade – assim explicaram na esposa. Ela anuiu, e assim de lá saiu. Mas, desconfiada e sempre com o sexto sentido alerta – isso em que as mulheres são exímias, já nasceram assim com tal intuição - foi como que arrastada para a lixeira existente no armazém e se deparou com restos de vestuário que lhe despertaram a atenção. Com o coração a bater frenético olhou atentamente e não lhe restaram dúvidas que eram os restos do vestuário do seu marido. Alertou as outras esposas do sucedido e combinaram que no outro dia lá estariam no armazém para averiguarem o que lá se passava. Elas acabaram por descobrir que os corpos dos seus maridos depois de mortos eram esquartejados e vendidos como pinchos nas praças da cidade. Confirmados os factos a Polícia chegou e prendeu os donos do armazém.»
E o Leão, assim alcunhado porque dizia que tal como a personagem bíblica Daniel, tinha caído numa cova de leões e salvou-se milagrosamente: «Uma minha prima apanhou o último táxi candongueiro da noite, desses que têm coragem de circular às vinte e duas horas. Com ela viajavam apenas duas jovens, por sinal muito bonitas, a minha prima achou muito estranho que o táxi não parasse em nenhum local, parecia um comboio directo, desses que só param na estação de destino. Começou a sentir-se insegura, a amedrontar-se, depois de falar com as duas jovens e com o motorista e como resposta ouviu gargalhadas de vozes guturais, dessas que dizem que são do outro mundo. Entretanto o motorista do táxi candongueiro acelera, de tal maneira que parecia que voava, e a minha prima gritou: «Ai meu Deus, meu Deus salva-me!» E começou a rezar muito, a pedir a Deus que a salvasse de tão grande infortúnio. E o táxi mais parecia um caça-bombardeiro, e a minha prima sentiu que a sua vida nos próximos momentos ali acabaria. E de repente o táxi imobilizou-se, ela encheu-se de coragem, olhou pelo vidro da janela e viu que estavam num cemitério, e que o taxista e as duas jovens saíram do táxi e dirigiram-se na direcção das tumbas e lá desapareceram. Ela depois confessou com extremo horror que correu sem parar até alcançar a sua casa, sem saber bem como o conseguiu.»
O Tony também tinha a sua crónica de um acontecimento passado na casa de um seu familiar, quando festejavam o seu aniversário: «Eram já para aí duas da manhã, o ambiente estava muito bom, com a família e amigos reunidos que comiam, bebiam e riam nas calmas num quintal algures no bairro Rocha Pinto. De repente uma senhora jovem vinda do céu montada numa vassoura aterra em cima das pessoas. Ela levanta-se e nas calmas explica-lhes que a gasolina se acabou e por isso caí aqui.»
Entretanto o mano Pastor volta à carga com mais uma crónica. «Esta aconteceu no Uíje, quando alguém se dispunha lá a alugar uma casa num local mais ou menos isolado. Diziam que nessa casa toda a família foi morta durante a guerra antes da independência, eram brancos que lá moravam, não tiveram tempo de fugir para Portugal, e também diziam que durante as noites a família que lá vivia costumava interpretar saraus musicais. Então, durante algumas noites os futuros inquilinos aproximam-se da casa para a observarem como é que se apresentava no período nocturno, e de repente a casa se iluminava e lá estava toda a família na execução de mais um sarau musical. Ainda há pouco tempo me garantiram que a casa ainda continua na mesma, bem iluminada à noite e sempre com os mesmos intérpretes a tocarem música.»
Ainda me lembro de mais outra cena que já lhes vou contar, disse o Pastor: «No Hotel Alameda, na rua que dá para a avenida Comandante Valódia, ex/Combatentes, as kinguilas dizem que por volta das vinte e uma, vinte e duas horas, uma menina aí com uns cinco anos costuma aparecer no meio da rua a caminhar, a descer, e depois desaparece, e que as kinguilas que lhe tentam falar, ela não lhes responde. Ninguém sabe quem é essa menina e o que faz ali. As kinguilas quando ela aparece fogem dali cheias de medo.»
E o Tony também narra um acontecimento quando estava num dia de serviço:
«Os polícias da DNIC – Direcção Nacional da Investigação Criminal, há muito que andavam na caça de mais um nomeado perigoso delinquente, numa manhã de um dia de cacimbo de céu parcialmente nublado, com muita humidade onde toda a gente se queixava de que não se lembrava de um cacimbo tão frio como este - um dos tais dias extraordinariamente ridículos – montaram-lhe uma emboscada para acabarem com a sua actividade da desestabilização da sociedade. Os polícias montaram guarda em todos os locais estratégicos, até em cima do telhado de chapas de zinco do homem muito perigoso, assim estirados como nos filmes fabricados nos Estados Unidos, esperaram, esperaram, e do delinquente nada. Não entrou nem saiu de casa, mas ele nesse dia protagonizou mais alguns assaltos. Os homens da DNIC já desesperavam pelo baile que ele lhes dava. Como é que ele continuava a protagonizar assaltos, pois se estava super vigiado noite e dia? E a cena mantinha-se, não havia sinais de mudança, até que um dos agentes da DNIC teve uma ideia genial – acho que é assim que as coisa funcionam, porque sem ideias ninguém vai a lado nenhum, não se sai da cepa torta – foi na sala e mirou um grande sofá, com a ajuda de alguns dos seus companheiros arrastaram-no e viram o inimaginável, debaixo dele notavam-se muito bem alguns mosaicos mal alinhados, levantaram-nos e logo foram conduzidos a outra casa subterrânea, onde ele entrava e saía com o maior à-vontade. Claro que o bandido quando chegou foi de imediato algemado.»

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

09 a 19 de Julho de 2013. Diário da Cidade dos Leilões de Escravos




09 de Julho
Algumas empresas queixaram-se que isso da venda de geradores já era, então novamente lá nos apagaram a luz, a energia eléctrica, das 14.56 até às 19.54 horas.
Luanda. Isto generalizou-se, porque quem chega tarde a casa, a partir das vinte e duas horas, ou menos, e entra no prédio é assaltado. A sorte é os seguranças, senão... até ver. São quadrilhas de jovens a rondarem os quinze anos, o tal futuro da Nação, do homem novo. Isto já era. Luanda é uma poderosa fábrica de delinquentes. Só não se entende como é que se continua a fabricar em série bandidos e assaltantes. Será que não existe a noção das consequências posteriores? Com tanta espoliação anárquica e o roubo descarado dos empregos por estrangeiros, já atingimos o clímax da desestabilização total, porque os mwangolés estão marginalizados e para sobreviverem só lhes resta a guerrilha urbana.
10 de Julho
Se calhar devíamos falar nas pessoas que sabem fazer e acontecer e fornecem currículos fantásticos e chegam cá (Angola) não sabem é fazer nada. Seria um alerta para as empresas... É tudo verdade. Mas também é verdade que as empresas contratam expatriados que dizem querer vir trabalhar e quando chegam só pensam em cucas e mulatas. Até se esquecem de dormir! Alguém sabe quanto custa um visto de trabalho? E as viagens? Quem paga? In Ana Goncalves. Facebook
11 de Julho
De repente como num filme de terror, tudo fica escuro, mais uma brincadeira, não têm nada para fazer? É essa coisa da luz que desligaram às 00.06 e incendiaram às 00.59 horas.
12 de Julho
O tuga alugou ou comprou um apartamento aqui na bwala, pensando que isto ainda anda como no tempo colonial, a água pinga-lhe na cozinha e na casa de banho, foi queixar-se no vizinho de cima que gastou muito dinheiro na reparação do apartamento – que por fora desaba, isto é geral, como parece que já falei nisso, como a mulher exteriormente muito bonita mas quando se despe é uma lástima, feia, feia, cheia de acessórios – e o vizinho a prometer que sim senhor vou já tratar disso. Como? Se ele – nós - tem dificuldades financeiras para conseguir algo de comer para conseguir sobreviver no dia seguinte.
13 de Julho
O segurança dos sênês, (senegaleses) até lhe pagavam bem. Ele não se despediu, fugiu de lá porque à noite apareciam muitos vultos. Aquilo metia medo. Os sênês diziam-lhe para ele não mexer em nada, que quando quisesse alguma coisa, bastava pedir-lhes. Ele confessou que os sênês rezavam em cima das mercadorias que vendiam.
14 de Julho
Tivemos outra visita indesejável da energia eléctrica, chegou, melhor, nos abandonou às 13.41 horas e reapareceu às 15.38 horas.
15 de Julho
O tal tuga do apartamento comprado ou alugado, engatou uma bruta mulata muito bonita, quem a viu subir com ele garante que só lhe faltava diamante. De beleza muito distinta, deslumbrante, claro que ela antes de passar a noite e fazer o serviço completo lhe terá exigido umas bastas centenas de dólares. Pouco tempo depois escuta-se a algazarra normal. O português recusou pagar o prometido – nisto são ases, ciganos - mas aquilo era gritaria e ameaças. O tuga rendeu-se e acabou por lhe pagar o prometido. Já viram como Luanda se transformou na capital mundial da prostituição? Agora os nossos filhos e filhas educam-se sob os maus costumes dos putanheiros portugueses. E a Polícia, onde está?
16 de Julho
Agora os fiscais andam na limpeza das ruas de quem lá vende devido ao campeonato mundial de hóquei em patins e a outros inventos? (eventos). Isto não é acabar com a pobreza, é incentivá-la, e onde a pobreza se força, a violência descontrola-se.
17 de Julho
Os fiscais andam atrás das kinguilas e quando não conseguem caçá-las, vingam-se na primeira pobre vendedora que encontram sentada na entrada de um prédio. Assim aconteceu com a mana Jinguba, levaram-lhe o uísque, a jinguba, o vinho, a gasosa, só a cerveja escapou porque estava no interior da entrada do prédio. Se é como dizem uma apreensão, porque é que os fiscais não inventariam os bens confiscados das pobres vendedoras que não têm mais onde conseguirem sobreviver porque os estrangeiros já ocupam tudo, incluindo chineses e chinesas que até já vendem funji e zungam nas ruas?
18 de Julho
“Aconteceu no passado dia 11 de Julho por volta das 19 horas:
5 capangas entraram em nossa casa depois de espancar os seguranças, reviraram tudo do avesso, levaram dinheiro, telemoveis, computadores, camaras, etc... No fim
uma agressão bárbara a um de nós.
Seguimos imediatamente para a Clinica Girassol, com um olho desfeito a necessitar de operação urgente, depois da consulta e sem grandes garantias a decisão foi regressar imediatamente a Portugal. Conseguiu-se uma vaga no avião da TAP das 8h30 em direção a Lisboa, sem dinheiro e sem telefone.
Chegada a Lisboa por volta das 17 horas, apanhar um taxi e seguir imediatamente para o hospital Santo António no Porto, chegada por volta das 20h30 e por volta das 23h já estava no bloco operatório. Correu bem, excelente o serviço prestado pelo Hospital Santo António e pelos excelentes profissionais que lá trabalham.
No proximo Sábado o regresso a Luanda, porque a vida continua.
Este relato é só mais um alerta para todos, por muito cuidado que se tenha, existem situações que não se podem evitar.
Nota: Se alguem tiver a ousadia de comentar este post dizendo que isto acontece porque os portugueses não respeitam os angolanos, desde já respondo antecipadamente com o meu desprezo!” In Alberto Cardoso. Facebook
19 de Julho
Há cerca de cinco dias que a NET da MOVICEL está bwé. Manos e manas! Sirvam-se do descontrolo e naveguem à vontade, é de borla!
A mana Jinguba alugou um quarto da sua casa a um casal. A esposa ausentou-se durante alguns dias para uma província.
O marido aproveitou e conquistou uma boazona para passar uma noite com ela. O contrato era setecentos dólares. Claro que ele não lhe cumpriu nem uma cláusula. Ela regressou para a cobrança acompanhada de escolta e disse para o garanhão: «Paga-me já senão vais desaparecer.» E pegou numa garrafa ameaçando-o de que lhe desfaria a cabeça, ele viu que não tinha qualquer hipótese e rendeu-se, isto é: «Não tenho esse dinheiro comigo.» Como resposta ela mostrou-lhe um cartão: «Vês este cartão? É um autorização do José Eduardo a autorizar-me nesta vida, por isso posso te fazer o que eu quiser. Eu sou dessas bandas, não sabes?» E carregou-lhe tudo o que lhe foi possível para liquidar a dívida, incluindo a garrafa de gás. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O EMPRESÁRIO LUSO-ANGOLANO (13)




- Estás a falar da Igreja antiga, os tempos mudaram.
- Sim, mas a merda é a mesma. Com os bons exemplos que a Igreja deu, nações constituíram-se em grandes impérios. Para isso matavam e roubavam, e as populações que restassem, porque é impossível matar a todos, ficavam, e ainda ficam, a viverem como escravos. E ainda hoje o fazem. Depois da matança oram a Deus, a agradecer-lhe, talvez aborrecidos, porque não conseguiram matar os que desejavam.
- Vieira, insisto… hoje, a Igreja já não é a mesma.
- Fazem algumas tentativas para darem a entender que mudaram. Mas a sua estrutura mantém-se. Sem alterações de estruturas não existem mudanças. Em dois milénios não conseguiram dar o bem-estar às populações. Pelo contrário, cada vez pior. Deviam pregar que as populações têm direitos, e quem os violar, deviam explicar-lhes que os esfomeados têm o direito de se revoltarem, para pedirem aquilo que lhes foi roubado. Mas, pelo contrário pregam a ideologia de Job. Isto é: vive na miséria que o Senhor no fim te recompensará, para que quantos mais esfomeados existirem melhor. Este é o terreno fértil em que a Igreja adora vegetar.
- Vieira, não podem passar sem o Divino. A nossa alma, quando menos esperamos, sente-se vazia. Nas vicissitudes do quotidiano estamos constantemente a apelar para Ele. Vê o número da proporção divina que existe no Universo. Não sentes o equilíbrio do infinito do Universo?! Isso não te é revelador?! O nosso pensamento funciona como? Porquê?! Isso não é uma coisa divina?!
- Mas o que é que tu queres?! Neste momento só sinto o equilíbrio do infinito do Dão Meia Encosta. Toda esta merda tem uma explicação muito simples. É a história da acumulação mundial, em que meia dúzia ficou com tudo até hoje, e os outros ficaram sem nada. Quando tentam reivindicar os seus direitos, atiram-lhes com a polícia e o exército para cima. A História da Humanidade resume-se apenas nisto: Quem roubou, roubou, quem não roubou ficou sem nada. Por isso eu roubo tudo o que puder. E mais; a História da Humanidade é a história da maldade humana. É a história do ser humano, que sente imenso prazer em matar outros seres humanos. E digo-te ainda mais: neste mundo não há lugar para a compaixão.
- Já suspeitava que és desumano. Agora tenho a certeza… lembra-te que não é possível viver num mundo sem amor. Não entendo um economista formado na Alemanha, RFA, a proceder assim. Será que és mesmo economista?!
- Amor (?). Diz-me onde é que isso existe. Amor só em troca de bens materiais? Mas tu achas que uma gaja te abre as pernas por amor? Deixa de ser ingénuo. Contrariamente ao que tu pensas, gosto muito de plantas e animais. Não consigo matar formigas, abelhas, borboletas. Osgas, só no meu quarto existem umas seis, enfim… não gosto de matar nada. Mas mato baratas e ratos. Quem sabe se não estou a cometer um tremendo erro?
- Mas sem amor a humanidade extinguir-se-á.
- Deixa-a extinguir-se. Quem vier depois que se safe. O que interessa é viver o dia-a-dia. E se duvidas se sou economista ou não, tenho o meu diploma, e não é em vão que assino os documentos das empresas com DR.
(Suspeito que a derrocada da energia eléctrica em Luanda, deve-se a defeitos de fabrico nos cabos das linhas de alta tensão. Sem energia eléctrica, e geradores por todo o canto que se somam ao fumo dos carros, torna-se impossível sobreviver em Luanda. Sob pena de morrermos envenenados.)
Ao vasculhar numa pasta de arquivo encontrei uma carta que me sobressaltou:
Vieira! Já passaram mais de seis meses desde a constituição da empresa. Durante este tempo empenhei-me profundamente na criação das suas estruturas para que pudéssemos arrancar. O projecto idealizado por mim ocupou-me demasiado tempo. Até hoje nunca pronunciaste uma palavra. Quando pretendia falar contigo através do meu telemóvel, ou pessoalmente, nunca consegui. Não atendias as minhas chamadas, ou simplesmente mandavas dizer que estavas muito ocupado. E quando te procurava pessoalmente diziam sempre que não estavas, o que era mentira. Apenas pretendo que me pagues os custos do meu trabalho.
P.S. Angola está cheia de aventureiros como tu. Não é com os almoços e jantares que me ofereceste, que se pagam os meus serviços. Afinal éramos sócios. Não passas de um português disfarçado de angolano… ridículo que vive e apoia esta república das bananas. Os portugueses insistem no colonialismo. Pagam o trabalho das pessoas com algumas refeições. Se continuares assim terás muitos dissabores. Não passas de um vulgar e vil colonialista aventureiro.
Estou a ver que isto me vai trazer muitos dissabores... estou bem fodido. – Pensei.
Vieira pergunta-me:
- Já estudaste o processo?
- Já.
- Então vamos arrancar. Diz-me o que é preciso que o Heitor trata disso. Dentro de um ou dois meses vou para a Namíbia, ver como estão as minhas empresas... ficas aqui como director-geral. Antes de sair elaborarei o despacho com a tua nomeação, para que não haja lugar a dúvidas. Olha, aparecerá por aqui um cliente que tem problemas com o computador. Também comparecerão um chileno e dois cubanos.
- Isso é para facturar?
- Não. Tenho interesses empresariais neles. Vão… conseguir introduzir diversas mercadorias no país. Ficam aqui armazenadas e depois seguem para os circuitos informais. Mas o que é que tu queres?! É assim que se ganha dinheiro facilmente.
O cliente trás um computador portátil. Diz que não consegue aceder ao sistema operativo. De facto quando a máquina arrancava, informava uma catadupa de erros. Disse-lhe:
- O melhor é limpar tudo e reinstalar de novo.
- Sim, faça isso. O que pretendo é que ele trabalhe.
Antes da formatação notei que estava com quatro partições. Apaguei-as e criei uma única partição. Reinstalei o sistema operativo e o Ms-Office. Depois de tudo concluído chamei o cliente. Deixei-o a sós, ele ligou a máquina. Depois de alguns minutos chama-me com ar de que alguma coisa não está bem:
- Eu tinha quatro discos, agora só tenho um.
- Não, só tem um disco. Acontece que estava particionado…
- Não! Não! Eu quero os discos que lá estavam…
- Deixe-me explicar. Os discos que lá estavam eram virtuais, exceptuando o C. O senhor só tem um disco…
- Assim não pode ser, não estou a gostar nada disto. Vou falar com o Vieira.
Vieira liga-me a dizer que o cliente está muito chateado. Que eu lhe roubei os outros discos que estavam no computador. Depois da explicação que dei, ele replicou-me:
- Ele é de Malanje. Esses gajos são muito complicados. Até me garantiu que tu lhe enfeitiçaste o computador. Põe essa merda como estava e manda-o para a puta que o pariu. Mas o que é que tu queres?! Não sei como… mas esse gajo é médico. Os mwangolés são fodidos… olha! Vai-te ligar uma pessoa amiga que tem problemas com o modem. Mais logo encontramo-nos na boate.
A pessoa amiga ligou-me e lamentava-se que:
- O meu filho anda a estudar informática. Comprou um modem para ter acesso à Internet, mas até agora não conseguimos. Está a cheirar a queimado.
- Ok! Pode-me apanhar para irmos aí ver o que é que se passa?
- Sim. Estarei aí dentro de quinze minutos.
Na casa do cliente verifico que o modem está ligado à rede eléctrica de… 220 voltes.
O Chileno chega. Tem cerca de quarenta anos. É alto e muito magro. O seu rosto é triste, talvez devido a desgostos. Vieira segredara-me que ele lhe interessava muito, porque tinha bons contactos internacionais, e que lhe daria bons negócios. Vêm com um computador portátil:
- Meu amigo, o sistema operativo está em russo. Gostaria que instalasse mais dois sistemas operativos, um em espanhol e o outro em português.


José Eduardo Agualusa. “Barroco Tropical”


 “Barroco Tropical” é o romance de 2009 de José Eduardo Agualusa. O autor angolano fala de um livro, e simultaneamente de um país e de um mundo: o nosso.
Angola parece, lida por si, com um pé no século XXI e outro no século XI. Lado a lado, estão o curandeiro e o traficante de armas. Porque é que escolheu o tempo futuro (2020) para falar de uma cidade onde vive no presente?
 Porque olhar o presente a partir de um futuro próximo nos pode ajudar a perceber como certas dinâmicas, já instaladas na sociedade angolana, podem evoluir. Uma distopia serve, pode servir, como alerta e exercício de reflexão. “Barroco Tropical” não pretende ser uma profecia – se daqui a doze anos eu for reconhecido como profeta essa será uma péssima notícia.

Em Barroco Tropical uma mulher é presidente da República. Outra cai do Céu numa tempestade tropical! Outra aborda um escritor no aeroporto e quer ter um filho/salvador do mundo com ele! Pergunto-me como é que olha para as mulheres…
Recentemente, durante uma viagem pela Alemanha, para promover a tradução alemã d’ “O Vendedor de Passados”, uma professora de literatura acusou-me de, como todos os homens, não me ser possível desenhar uma personagem feminina convincente. Segundo ela as escritoras podem atrever-se a criar personagens masculinos, porque os homens são mais simples. Talvez tenha razão, no que diz respeito à simplicidade dos homens, mas creio que a literatura é sempre um exercício de alteridade. Um bom escritor tem de saber colocar-se na pele de qualquer personagem. Eu já me coloquei na pele de uma osga, de assassinos e de torcionários. Nunca apertei a mão a um assassino, mas vivi sempre rodeado de mulheres. O mundo das mulheres também é o mundo dos homens. As fronteiras são fluidas. Modéstia à parte creio mesmo que as minhas personagens mais convincentes, mais humanas, são mulheres.

Há um personagem que vem do livro anterior, e que é escritor. É tentador vê-lo como uma projecção de si… Além de outras histórias que parecem decalcadas da sua história.
Isso faz parte de uma estratégia de credibilização. Eu quero que o leitor acredite no que está a ler, mesmo se o faço viajar por um universo povoado por anjos e sereias. Se o leitor acredita que um dos narradores é o próprio autor, já está a creditar naquilo que lê. Há muito de mim em Bartolomeu. Mas a verdade é que também há muito de mim na Kianda. Algumas das recordações dela, da infância dela, pertencem-me.

Ficou mais cínico nos últimos anos? Este livro é, não exactamente mais negro, mas mais descrente.
Meu Deus, acho que não! Não tenho nada de cínico. “Barroco Tropical” é um livro um pouco escuro, mas ao mesmo tempo cheio de riso, e onde continua a existir lugar para a esperança. Sim, estamos a avançar por caminhos perigosos, mas ainda podemos mudar de rumo.

A verosimilhança e a inverosimilhança coexistem neste romance, como em todos os outros. Sabe sempre onde é a realidade e onde começa a ficção?
Suponho que ninguém sabe. A realidade é constantemente subvertida e modificada pela ficção. Jorge Amado reinventou Salvador, ou Ilhéus, literariamente, e depois Ilhéus e Salvador modificaram-se de forma a adaptarem-se à invenção de Jorge Amado – porque era isso que os turistas procuravam. Salazar mandou colocar ameias no Castelo de São Jorge para o tornar mais verosímil. Todos nós nos reinventamos constantemente, inventamos o nosso passado, episódios do nosso passado, e acabamos por acreditar nessa invenção.

Publicado originalmente na revista Máxima em 2009
http://anabelamotaribeiro.pt/43718.html