quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O EMPRESÁRIO LUSO-ANGOLANO (13)




- Estás a falar da Igreja antiga, os tempos mudaram.
- Sim, mas a merda é a mesma. Com os bons exemplos que a Igreja deu, nações constituíram-se em grandes impérios. Para isso matavam e roubavam, e as populações que restassem, porque é impossível matar a todos, ficavam, e ainda ficam, a viverem como escravos. E ainda hoje o fazem. Depois da matança oram a Deus, a agradecer-lhe, talvez aborrecidos, porque não conseguiram matar os que desejavam.
- Vieira, insisto… hoje, a Igreja já não é a mesma.
- Fazem algumas tentativas para darem a entender que mudaram. Mas a sua estrutura mantém-se. Sem alterações de estruturas não existem mudanças. Em dois milénios não conseguiram dar o bem-estar às populações. Pelo contrário, cada vez pior. Deviam pregar que as populações têm direitos, e quem os violar, deviam explicar-lhes que os esfomeados têm o direito de se revoltarem, para pedirem aquilo que lhes foi roubado. Mas, pelo contrário pregam a ideologia de Job. Isto é: vive na miséria que o Senhor no fim te recompensará, para que quantos mais esfomeados existirem melhor. Este é o terreno fértil em que a Igreja adora vegetar.
- Vieira, não podem passar sem o Divino. A nossa alma, quando menos esperamos, sente-se vazia. Nas vicissitudes do quotidiano estamos constantemente a apelar para Ele. Vê o número da proporção divina que existe no Universo. Não sentes o equilíbrio do infinito do Universo?! Isso não te é revelador?! O nosso pensamento funciona como? Porquê?! Isso não é uma coisa divina?!
- Mas o que é que tu queres?! Neste momento só sinto o equilíbrio do infinito do Dão Meia Encosta. Toda esta merda tem uma explicação muito simples. É a história da acumulação mundial, em que meia dúzia ficou com tudo até hoje, e os outros ficaram sem nada. Quando tentam reivindicar os seus direitos, atiram-lhes com a polícia e o exército para cima. A História da Humanidade resume-se apenas nisto: Quem roubou, roubou, quem não roubou ficou sem nada. Por isso eu roubo tudo o que puder. E mais; a História da Humanidade é a história da maldade humana. É a história do ser humano, que sente imenso prazer em matar outros seres humanos. E digo-te ainda mais: neste mundo não há lugar para a compaixão.
- Já suspeitava que és desumano. Agora tenho a certeza… lembra-te que não é possível viver num mundo sem amor. Não entendo um economista formado na Alemanha, RFA, a proceder assim. Será que és mesmo economista?!
- Amor (?). Diz-me onde é que isso existe. Amor só em troca de bens materiais? Mas tu achas que uma gaja te abre as pernas por amor? Deixa de ser ingénuo. Contrariamente ao que tu pensas, gosto muito de plantas e animais. Não consigo matar formigas, abelhas, borboletas. Osgas, só no meu quarto existem umas seis, enfim… não gosto de matar nada. Mas mato baratas e ratos. Quem sabe se não estou a cometer um tremendo erro?
- Mas sem amor a humanidade extinguir-se-á.
- Deixa-a extinguir-se. Quem vier depois que se safe. O que interessa é viver o dia-a-dia. E se duvidas se sou economista ou não, tenho o meu diploma, e não é em vão que assino os documentos das empresas com DR.
(Suspeito que a derrocada da energia eléctrica em Luanda, deve-se a defeitos de fabrico nos cabos das linhas de alta tensão. Sem energia eléctrica, e geradores por todo o canto que se somam ao fumo dos carros, torna-se impossível sobreviver em Luanda. Sob pena de morrermos envenenados.)
Ao vasculhar numa pasta de arquivo encontrei uma carta que me sobressaltou:
Vieira! Já passaram mais de seis meses desde a constituição da empresa. Durante este tempo empenhei-me profundamente na criação das suas estruturas para que pudéssemos arrancar. O projecto idealizado por mim ocupou-me demasiado tempo. Até hoje nunca pronunciaste uma palavra. Quando pretendia falar contigo através do meu telemóvel, ou pessoalmente, nunca consegui. Não atendias as minhas chamadas, ou simplesmente mandavas dizer que estavas muito ocupado. E quando te procurava pessoalmente diziam sempre que não estavas, o que era mentira. Apenas pretendo que me pagues os custos do meu trabalho.
P.S. Angola está cheia de aventureiros como tu. Não é com os almoços e jantares que me ofereceste, que se pagam os meus serviços. Afinal éramos sócios. Não passas de um português disfarçado de angolano… ridículo que vive e apoia esta república das bananas. Os portugueses insistem no colonialismo. Pagam o trabalho das pessoas com algumas refeições. Se continuares assim terás muitos dissabores. Não passas de um vulgar e vil colonialista aventureiro.
Estou a ver que isto me vai trazer muitos dissabores... estou bem fodido. – Pensei.
Vieira pergunta-me:
- Já estudaste o processo?
- Já.
- Então vamos arrancar. Diz-me o que é preciso que o Heitor trata disso. Dentro de um ou dois meses vou para a Namíbia, ver como estão as minhas empresas... ficas aqui como director-geral. Antes de sair elaborarei o despacho com a tua nomeação, para que não haja lugar a dúvidas. Olha, aparecerá por aqui um cliente que tem problemas com o computador. Também comparecerão um chileno e dois cubanos.
- Isso é para facturar?
- Não. Tenho interesses empresariais neles. Vão… conseguir introduzir diversas mercadorias no país. Ficam aqui armazenadas e depois seguem para os circuitos informais. Mas o que é que tu queres?! É assim que se ganha dinheiro facilmente.
O cliente trás um computador portátil. Diz que não consegue aceder ao sistema operativo. De facto quando a máquina arrancava, informava uma catadupa de erros. Disse-lhe:
- O melhor é limpar tudo e reinstalar de novo.
- Sim, faça isso. O que pretendo é que ele trabalhe.
Antes da formatação notei que estava com quatro partições. Apaguei-as e criei uma única partição. Reinstalei o sistema operativo e o Ms-Office. Depois de tudo concluído chamei o cliente. Deixei-o a sós, ele ligou a máquina. Depois de alguns minutos chama-me com ar de que alguma coisa não está bem:
- Eu tinha quatro discos, agora só tenho um.
- Não, só tem um disco. Acontece que estava particionado…
- Não! Não! Eu quero os discos que lá estavam…
- Deixe-me explicar. Os discos que lá estavam eram virtuais, exceptuando o C. O senhor só tem um disco…
- Assim não pode ser, não estou a gostar nada disto. Vou falar com o Vieira.
Vieira liga-me a dizer que o cliente está muito chateado. Que eu lhe roubei os outros discos que estavam no computador. Depois da explicação que dei, ele replicou-me:
- Ele é de Malanje. Esses gajos são muito complicados. Até me garantiu que tu lhe enfeitiçaste o computador. Põe essa merda como estava e manda-o para a puta que o pariu. Mas o que é que tu queres?! Não sei como… mas esse gajo é médico. Os mwangolés são fodidos… olha! Vai-te ligar uma pessoa amiga que tem problemas com o modem. Mais logo encontramo-nos na boate.
A pessoa amiga ligou-me e lamentava-se que:
- O meu filho anda a estudar informática. Comprou um modem para ter acesso à Internet, mas até agora não conseguimos. Está a cheirar a queimado.
- Ok! Pode-me apanhar para irmos aí ver o que é que se passa?
- Sim. Estarei aí dentro de quinze minutos.
Na casa do cliente verifico que o modem está ligado à rede eléctrica de… 220 voltes.
O Chileno chega. Tem cerca de quarenta anos. É alto e muito magro. O seu rosto é triste, talvez devido a desgostos. Vieira segredara-me que ele lhe interessava muito, porque tinha bons contactos internacionais, e que lhe daria bons negócios. Vêm com um computador portátil:
- Meu amigo, o sistema operativo está em russo. Gostaria que instalasse mais dois sistemas operativos, um em espanhol e o outro em português.