segunda-feira, 12 de agosto de 2013

LUANDA. LENDAS URBANAS




Eram cerca de vinte e duas horas de um cacimbo violento, muito frio e de intensa humidade, daqueles que faz com que até os cães sumam das ruas, que nos faz tossir imenso devido ao aglomerar do pó e de partículas de ferro, e de outros materiais que serrados e partidos pelas brocas industriais se disseminam pela atmosfera sem vento, ou quase sem ele, e que acumulados constituem a desgraça dos nossos pulmões, especialmente das crianças e idosos.
Os seguranças dos prédios costumam se associar para depois nascer numa panela de cozinha quase industrial um bruto funji de carne, jimboa, quiabos, a farinha de mandioca e o jindungo do Cahombo.
E já a matéria-prima flutuava na panela, pronta para deglutir. Cada um dos seguranças, aí uns dez, levava o seu prato e se servia, chegava e sobrava para todos. O meu prato foi-me servido sem grande cerimónia pois já era da casa.
Fiquei num grupo de três seguranças - os meus kambas de todos os dias - o Pastor, o Leão e o Tony. Comemos, deliciámo-nos, aquecemo-nos confortados pela comida e pelo ambiente humano. Para beber apenas água, ou gasosa, pois se os chefes dos seguranças os apanham a beber, dá direito a despedimento imediato.
E o Pastor – assim designado, pois ele quando está de serviço prega o evangelho aos seus colegas – corta o silêncio e fala, desta vez não é do evangelho: «Num armazém onde prestava serviço, os empregados desapareciam misteriosamente, ninguém sabia porquê. Até que num dia – desses mesmo onde tudo se descobre – uma esposa foi procurar pelo seu marido, e lá no armazém lhe disseram que não sabiam nada dele, talvez fugisse com outra mulher – coisa tão vulgar, tão circense que até já ninguém presta atenção, pois faz parte do nosso dia-a-dia na cidade – assim explicaram na esposa. Ela anuiu, e assim de lá saiu. Mas, desconfiada e sempre com o sexto sentido alerta – isso em que as mulheres são exímias, já nasceram assim com tal intuição - foi como que arrastada para a lixeira existente no armazém e se deparou com restos de vestuário que lhe despertaram a atenção. Com o coração a bater frenético olhou atentamente e não lhe restaram dúvidas que eram os restos do vestuário do seu marido. Alertou as outras esposas do sucedido e combinaram que no outro dia lá estariam no armazém para averiguarem o que lá se passava. Elas acabaram por descobrir que os corpos dos seus maridos depois de mortos eram esquartejados e vendidos como pinchos nas praças da cidade. Confirmados os factos a Polícia chegou e prendeu os donos do armazém.»
E o Leão, assim alcunhado porque dizia que tal como a personagem bíblica Daniel, tinha caído numa cova de leões e salvou-se milagrosamente: «Uma minha prima apanhou o último táxi candongueiro da noite, desses que têm coragem de circular às vinte e duas horas. Com ela viajavam apenas duas jovens, por sinal muito bonitas, a minha prima achou muito estranho que o táxi não parasse em nenhum local, parecia um comboio directo, desses que só param na estação de destino. Começou a sentir-se insegura, a amedrontar-se, depois de falar com as duas jovens e com o motorista e como resposta ouviu gargalhadas de vozes guturais, dessas que dizem que são do outro mundo. Entretanto o motorista do táxi candongueiro acelera, de tal maneira que parecia que voava, e a minha prima gritou: «Ai meu Deus, meu Deus salva-me!» E começou a rezar muito, a pedir a Deus que a salvasse de tão grande infortúnio. E o táxi mais parecia um caça-bombardeiro, e a minha prima sentiu que a sua vida nos próximos momentos ali acabaria. E de repente o táxi imobilizou-se, ela encheu-se de coragem, olhou pelo vidro da janela e viu que estavam num cemitério, e que o taxista e as duas jovens saíram do táxi e dirigiram-se na direcção das tumbas e lá desapareceram. Ela depois confessou com extremo horror que correu sem parar até alcançar a sua casa, sem saber bem como o conseguiu.»
O Tony também tinha a sua crónica de um acontecimento passado na casa de um seu familiar, quando festejavam o seu aniversário: «Eram já para aí duas da manhã, o ambiente estava muito bom, com a família e amigos reunidos que comiam, bebiam e riam nas calmas num quintal algures no bairro Rocha Pinto. De repente uma senhora jovem vinda do céu montada numa vassoura aterra em cima das pessoas. Ela levanta-se e nas calmas explica-lhes que a gasolina se acabou e por isso caí aqui.»
Entretanto o mano Pastor volta à carga com mais uma crónica. «Esta aconteceu no Uíje, quando alguém se dispunha lá a alugar uma casa num local mais ou menos isolado. Diziam que nessa casa toda a família foi morta durante a guerra antes da independência, eram brancos que lá moravam, não tiveram tempo de fugir para Portugal, e também diziam que durante as noites a família que lá vivia costumava interpretar saraus musicais. Então, durante algumas noites os futuros inquilinos aproximam-se da casa para a observarem como é que se apresentava no período nocturno, e de repente a casa se iluminava e lá estava toda a família na execução de mais um sarau musical. Ainda há pouco tempo me garantiram que a casa ainda continua na mesma, bem iluminada à noite e sempre com os mesmos intérpretes a tocarem música.»
Ainda me lembro de mais outra cena que já lhes vou contar, disse o Pastor: «No Hotel Alameda, na rua que dá para a avenida Comandante Valódia, ex/Combatentes, as kinguilas dizem que por volta das vinte e uma, vinte e duas horas, uma menina aí com uns cinco anos costuma aparecer no meio da rua a caminhar, a descer, e depois desaparece, e que as kinguilas que lhe tentam falar, ela não lhes responde. Ninguém sabe quem é essa menina e o que faz ali. As kinguilas quando ela aparece fogem dali cheias de medo.»
E o Tony também narra um acontecimento quando estava num dia de serviço:
«Os polícias da DNIC – Direcção Nacional da Investigação Criminal, há muito que andavam na caça de mais um nomeado perigoso delinquente, numa manhã de um dia de cacimbo de céu parcialmente nublado, com muita humidade onde toda a gente se queixava de que não se lembrava de um cacimbo tão frio como este - um dos tais dias extraordinariamente ridículos – montaram-lhe uma emboscada para acabarem com a sua actividade da desestabilização da sociedade. Os polícias montaram guarda em todos os locais estratégicos, até em cima do telhado de chapas de zinco do homem muito perigoso, assim estirados como nos filmes fabricados nos Estados Unidos, esperaram, esperaram, e do delinquente nada. Não entrou nem saiu de casa, mas ele nesse dia protagonizou mais alguns assaltos. Os homens da DNIC já desesperavam pelo baile que ele lhes dava. Como é que ele continuava a protagonizar assaltos, pois se estava super vigiado noite e dia? E a cena mantinha-se, não havia sinais de mudança, até que um dos agentes da DNIC teve uma ideia genial – acho que é assim que as coisa funcionam, porque sem ideias ninguém vai a lado nenhum, não se sai da cepa torta – foi na sala e mirou um grande sofá, com a ajuda de alguns dos seus companheiros arrastaram-no e viram o inimaginável, debaixo dele notavam-se muito bem alguns mosaicos mal alinhados, levantaram-nos e logo foram conduzidos a outra casa subterrânea, onde ele entrava e saía com o maior à-vontade. Claro que o bandido quando chegou foi de imediato algemado.»