domingo, 23 de julho de 2017

DEPOIS DAS ELEIÇÕES



República das torturas, das milícias e das demolições
Diário da cidade dos leilões de escravos


E depois das eleições com uma vitória arrasadora dos partidos políticos da oposição, o Mpla proclama vitória por maioria relativa ou simples (a que reúne um número de votos superior àquele dos outros concorrentes, mas inferior à maioria absoluta). A oposição contraria e mostra provas. Porém, o versado matreiro Mpla desarma argumentando que a sua vitória é por demais evidente e que não oferece dúvidas. E mais esclarece que os resultados eleitorais da oposição são uma pura invenção, mais uma fraude, pois o Mpla nunca perdeu, nem jamais perderá um pleito eleitoral, pois a esmagadora maioria da população angolana confia e segue cegamente o Mpla desde e antes dos gloriosos tempos da independência. E mais adianta que a oposição tem que se habituar a contentar-se com as suas derrotas e com a sua vulgar e reles insignificância. E a oposição em bloco contesta e diz que vai levar o pleito para o Tribunal Constitucional. E assim fez. Entretanto o Mpla esfrega as mãos de contente, pois que tal tribunal parcial há muito que é um órgão partidário e foi instituído para sempre julgar a seu favor. A oposição (mais uma vez, muitas vezes) viu contrariados os seus desejos. Depois de infindáveis dias, uma eternidade, tecnicamente falando viu o seu pedido rejeitado, mais tecnicamente viu o seu pedido indeferido. Confesse-se que nada aconteceu de anormal pois tal veredicto já era de contar, normal. Vai daí, a oposição recorre à instância máxima da Lei, o TS, Tribunal Supremo. Muito confiante aguarda que se faça justiça, pois tudo está a seu favor. De facto está mais que provado e a nação inteira sabe que a oposição derrubou o célebre contendor Mpla, pois tudo e todos estavam já demasiado fartos (isto é favor, o correto é dizer-se demasiado fartíssimos) de o aturar. Mas, para quê espantar?, o TS declarou perenptoriamente da sua suprema justiça, a injustiça de que o Mpla é de facto e de jure o aclamado, o proclamado vencedor das eleições de 23 de Agosto. Logo de seguida e perante tão flagrante injustiça, a oposição ameaça sair às ruas numa grandiosa chuva de manifestações. O Mpla aconselha que não, pois a oposição tem que felicitar o vencedor e não fazer marchas tumultuosas. A oposição tem que aceitar, se contentar com a sua derrota. O Mpla faz sair um comunicado onde nele realça que se a oposição quer fazer confusão, então o seu devido lugar é na prisão. Mas a oposição não desarma, forte, poderosa, nunca desarmou, como a isso sempre nos habituou, que fará uma surpresa, que vai mesmo sair para as ruas, porque o poder sempre esteve, lá mora. O Mpla replica que não tolerará nenhuma agressão interna e externa e invoca que um governo devidamente constituído tem o supremo direito de se defender, a si e às populações que democraticamente o elegeram. As coisas sobem de tom pois outra coisa não seria de esperar. O Mpla convoca todos os seus instrumentos de defesa e segurança e envia-os para prenderem os insurrectos e preferencialmente eliminá-los para sempre sob o escudo da acusação de células terroristas devidamente implantadas e organizadas. Mas a oposição não se deixa intimidar, porque batalhadora como nunca, pois contra qualquer injustiça sempre lutou. Começam os tumultos com barricadas nas ruas, com muitas nuvens de fumo provenientes de pneus e outras tralhas a arder. São milhões de manifestantes que não aceitam, dizem, mais o jugo do comunismo. O Mpla decide-se pela sua vitória certa, final, ordenando a todas as forças de ar, mar e terra que disparem a esmo, sem dó nem compaixão contra tudo que se mova. Sente-se no ar a pólvora e o cheiro acre dos corpos queimados pela fornalha de tão colossal metralha. Os nossos santos Bispos declaram que Angola optou pela solução da RDC, nada mais tendo a declarar ou reclamar. Como sabido, de lei, a diplomacia internacional é a arte da hipocrisia internacional. A comunidade internacional volta, faz o seu papel, cumpre o seu dever, a olhar de soslaio finge tomar conta da situação. Mostrando-se impotente deixa andar, é o deixa-andar, deixa-disso universal, excepto um não perenptório quando lhe interessa, quando os seus poderes e interesses geoestratégicos estão directamente ameaçados, retira-se sub-repticiamente e é o nascimento de mais um estado africano que cai, que se entrega à barbárie, à mais elementar crueldade onde as crianças ficam, são aos milhões, biliões?, sem UNICEF.
Crónica de uma morte eleitoral: “Todos os intervenientes do processo eleitoral afirmam que querem um processo eleitoral livre e justo, implicando por conseguinte um processo transparente. Para falarmos de transparência necessariamente temos de exigir o cumprimento da lei. É exactamente nesta questão (do cumprimento da Lei) que a CNE tem deixado muito a desejar. Neste momento, faltando 38 dias para o pleito eleitoral, o plenário da CNE quer agora aprovar o Regulamento sobre a Organização e Funcionamento dos Centros de Escrutínio, estabelecendo a lei que "A Comissão Nacional Eleitoral deve estabelecer e publicitar no prazo de 30 dias a contar da DATA DA CONVOCAÇÃO DAS ELEIÇÕES, a estrutura, a organização e o funcionamento dos centros de escrutínio, bem como os sistemas de transmissão e tratamento de dados e os procedimentos de controlo a utilizar nas actividades de APURAMENTO e ESCRUTÍNIO, em conformidade com os artigos 116.º e 117.º da Lei Orgânica Sobre as Eleições Gerais". Estive a citar o número 1 do artigo 30.º da Lei n.º 12/12, de 13 de Abril - Lei Orgânica sobre a Organização e
O Funcionamento da Comissão Nacional Eleitoral Não cumpriram com a lei de propósito e agora querem a correr aprovar um regulamento que viola a Lei Orgânica sobre as Eleições Gerais no que à transmissão das actas diz respeito, pois pretendem que essa transmissão seja feita a partir das ADMINISTRAÇÕES MUNICIPAIS e não das Assembleias de Voto (será que querem adulterar os resultados????? E já agora por que razão escolhem as Administrações Municipais e não as Comissões Municipais Eleitorais???). POR FAVOR CUMPRAM SÓ COM A LEI!!!!” (Mihaela Webba, deputada da Unita)
Propaganda eleitoral da Igreja Adventista do Sétimo Dia em Luanda: “ministérios da criança. “Convite. O ministério da Criança convida-o a participar na semana de oração infantil que acontecerá de 15 ao 22 de Julho na Igreja Central de Luanda. Será uma semana repleta de bênçãos celestiais. Participe! Traga a sua visita. Abrace este ministério!”
Viver no reino da mentira é permanentemente viver na miséria e assim continuando acaba-se no reino do inferno da fome. Antes era o colonialismo, agora é o colonialismo. “O estrangeiro vem, tem emprego. O português vem, tem emprego. O brasileiro vem, tem emprego. O chinês vem, tem emprego. O angolano anda aí na rua a vender a jinguba. (Isaías Samakuva, em Ondjiva, Cunene)
A crise não é de agora, já vem de longe, já há quarenta e dois anos que nos invade.
Em Angola chove muito, há quarenta e dois anos que as casas estão inundadas de miséria, pelo mar, pelo dilúvio de fome.
A coisa mais pavorosa que me é dada a observar, é o ver exércitos de famintos que a única riqueza que têm, claro, é a fome. E ver alguns novos-ricos a desfilar com os seus carros de luxo, ostentando e esbanjando o que ilicitamente conseguiram e conseguem. Creio que isto é sem dúvida alguma a essência da revolta e do terrorismo que eles provocam. Este é um Estado declarado de expropriados.
No país dos expropriados a terra não é de quem a trabalha, é de quem a rouba com metralha. E o mais importante é criar pretextos para fazer cortes de energia elétrica e com isso vender mais alguns geradores. É que a diversificação/diversão/desertificação da economia resolve-se com o uso massivo de geradores. Com o sistema de geradores domésticos ou industriais, dentro de pucos meses esta economia será imparável. Até qualquer bajulador do FMI declarará que ela inigualável será.
E esta torpe sociedade vai evoluindo com festas muito barulhentas a qualquer hora do dia ou da noite. Beber até desmaiar, até morrer, até não mais levantar.
Trabalhar é criar, inovar. Quem isto não faz, não trabalha, desfaz. Está a brincar, é como um autómato teledirigido.
É bazar porque não deixam, é impossível pensar, trabalhar. Quando quiserem, deixarem pensar e trabalhar, então é hora de voltar. Mas receio que seja demasiado tarde.