domingo, 30 de julho de 2017

NO PAÍS MALDITO




República das torturas, das milícias e das demolições
Diário da cidade dos leilões de escravos

A crise é geral, maldita, total e por isso mesmo chove miséria a cântaros.
No país maldito, creio que é prodígio uma criança crescer e chegar à idade adulta. É um milagre, dizem os religiosos. É um mistério das forças ocultas do Universo, dizem os feiticeiros.
Aqui tudo continua teimosamente a ser um problema, – muitos, muitos problemas - é uma fábrica onde se fabricam, inventam problemas.
O sentimento actual é como se uma pessoa retrocedesse no tempo e fosse parar a uma ilha cheia de monstruosidades que a todo o momento nos perseguem para nos devorar.
Quase que sinto a minha alma a arder porque convivo com gente que não tem alma, que nunca ouviu falar nisso. Meu Deus!, estão a fabricar pessoas sem alma. É por isso que são almas do outro mundo. São como plantas cuja raiz não está bem assente no solo e por isso mesmo desabam.
“Após um bom jantar estamos dispostos a perdoar a todos, até mesmo os nossos parentes.” (Oscar Wilde)
Hoje, creio que pela primeira vez exclamei: “meu Deus, tira-me daqui!” Estamos, vivemos na tragédia diária.
Parece que não, mas estão a dar cabo das crianças, antes, aos poucos, mas agora muito rápido.
E quando se nomeia uma comissão de gestão, deve ler-se: comissão de má gestão.
Deve-se legislar para que nas empresas, organismos públicos, escolas, etc., para que seja obrigatório ter pelo menos um conjunto de primeiros-socorros.
E desde quando é que cabeças no ar resolvem alguma coisa? Desde nunca!
E o famoso seriado há quarenta e dois anos que deslumbra plateias. Ganhou, criou muita fama devido às suas promessas nunca cumpridas. Falo do maior êxito de todos os tempos: OS NOSSOS ALDRABÕES.
Os sedentos de justiça há muito que estão reprimidos, depois de libertados o chão tremerá, treme sempre.
Por aqui já caiu tudo, de modos que não há mais nada para cair.
Não entendo porque é que as pessoas se surpreendem com a prostituição de menores, pois se há muito as condições estão criadas. Estão distraídas ou fingem que nada sabem, que nada veem?
Se uma pessoa é, vive abandonada, claro que não liga, despreza o que lhe dizem.
E eis as nuvens do intenso nevoeiro eleitoral que cada vez mais se adensam. Depois das eleições de 23 de Agosto, o que se aguarda com muita ansiedade é a reposição da justiça, pois que há muito que ela desapareceu deste Texas. Será possível que continue tudo na mesma, pior? No rumo da nova vida sem futuro, sem esperança?
Quando o militarismo partidário se intromete, o diálogo acaba e começa a intolerância.
Bajular é a arte de conseguir ganhar o pão sem trabalhar.
Para onde vai Angola? Para lado nenhum!
Há muitos e muitos milhares de anos nada mudou, está tudo na mesma: guerras, desgraças, fome, constantes assassinatos de crianças, ditaduras, perseguições políticas, terrorismo, etc. Que belo panorama, não é? E nos reinos da selvajaria obrigam-nos a viver como animais selvagens.
Creio que o mais terrível que nos pode acontecer é ficarmos manietados pelo poder de uma oligarquia tribal africana. A corrupção e os novos-ricos são a tribo principal e viver na subjugação de uma tribo é o fim de tudo.
Não custa nada lembrar a conhecida frase, o destino é muito cruel.
Estamos sempre na mesma, sempre a recuar. Vida de recuos é vida sem esperança, de miséria, fome.
Devidamente colonizados pela miséria e fome. Mais uma vitória total e completa. Outra frase muito conhecida, não há mal que sempre dure. Mas por aqui já há demasiado que dura, será que veio para ficar?
Eis alguns excertos da cultura que caiu no esquecimento. Se não caiu, pouco falta. É a crise geral, total, como um banco sem sistema: A audiência é pública, aberta a toda a comunidade, à excepção dos não iniciados e das mulheres em impureza menstrual. Em Angola, serve de fórum a praça aberta debaixo da mulemba, a árvore heráldica e tutelar das chefias bantus, que plantam cada vez que se inaugura uma nova chefia ou se estria uma povoação. O chefe eleito crava, diante de sua casa, várias estacas da mulemba ficus, dedicadas aos seus antepassados ilustres e como testemunho permanente da sua nobreza. Se alguma delas não pega, os antepassados não estão satisfeitos; tornam-se urgentes os sacrifícios propiciatórios de animais.
Costuma estar presente em muitos grupos, o «árbitro da justiça», «grande mestre em questão de direito», que no Nordeste angolano, se denomina «nganji». Intervém, não como conselheiro, mas como guarda legal do depósito jurídico comunitário. É um jurisconsulto, cuja sabedoria e prudência acumulam os códigos tradicionais.
Nos ordálios, o adivinho mistura o veneno com água e obriga os presumíveis culpados a pegar numa colher de e a ingeri-lo com água. Devem tomá-lo em jejum. Passado pouco tempo, um dos acusados vomita com fortes convulsões; a sua inocência está provada. Outro morre. Embora a morte seja rápida, não deixa de ser horrorosa, porque chega entre convulsões e vómitos de sangue, com a boca cheia de espuma e os olhos injectados de sangue.
Segundo os Bacongos, o homem é composto de corpo (nitu), sangue (menga) que é a sede da alma espiritual (moyo), o princípio específico do homem. O «moyo» sobrevive à morte e passa a viver com os antepassados. A alma dupla (nfumu nkutu), alguma coisa semelhante à alma sensitiva, completa a personalidade humana, pois é o princípio da percepção sensível. Reside no órgão auditivo e anima ouvidos e vista. Pode andar errante durante as síncopes e o sono. Origina a sombra que segue o homem. Desaparece à hora da morte. O nome, quarto elemento, deve mudar sempre que se dá uma mudança substancial na pessoa.
O «muxima», coração em quimbundo angolano, encerra toda a riqueza do universo pessoal do homem. «Não é a origem e o conjunto das emoções e dos afectos sensíveis, nem o motor da vontade, nem a fonte do pensamento, nem a própria pessoa na sua originalidade individual: é tudo isso de uma vez».
O «muxima» distingue-se do coração físico do homem. O delicado humanismo banto: hospitalidade, calor humano, solidariedade, agradecimento e cortesia revela o refinamento do «muxima». Por isso, a grande aspiração é possuir um «muxima» poderoso, viril, que dirige, em definitivo, define e valoriza o homem. Analisar o coração equivale a analisar a totalidade do homem.
Certos grupos bacongos asseguram que alguns génios, cujo habitat é a água, podem introduzir-se no corpo do banhista. Pela cópula encarnam e originam filhos anormais, como os albinos e gémeos. Outras vezes, atribuem o nascimento anormal à infidelidade materna, pois que um pai não pode gerar dois filhos. Os gémeos são considerados, em muitos grupos, anormais e perigosos para a sociedade. Daí as cerimónias propiciatórias exigidas pela comunidade ameaçada. A mãe dos gémeos fica sujeita a tabus especiais. Há que advertir que nem todos os grupos bantos realizam estes ritos de iniciação. Mesmo em Angola, há grupos que desconhecem e outros que a praticam parcialmente. Por isso, as nossas afirmações referem-se aos grupos que exigem os ritos de iniciação.
Os companheiros de iniciação ficam unidos para sempre por laços indestrutíveis. Ajudam-se e defendem-se uns aos outros. Nasce um sólido sentimento de fraternidade, chamam-se «irmãos». Estes laços podem prevalecer sobre os familiares e clânicos, porque os preceitos da iniciação são sagrados. Juro pela «muhanda» (nome quimbundo destes ritos de passagem), é uma expressão sagrada. O grande rito termina por juramentos solenes: «Nem à mulher com quem dormires poderás contar o que fizestes na muhanda; esconde, nega, desfigura, senão morrerás». (Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas.)