terça-feira, 11 de julho de 2017

O ÚLTIMO COMBOIO DE LUANDA



República das torturas, das milícias e das demolições
Diário da cidade dos leilões de escravos

Finalmente, o abismo está concluído.
“A oposição cala-se. Não vai à rua. Não se mobiliza. Não protesta. Esconde-se... Reclama e reivindica, em “soft”, regra geral, no conforto das poltronas dos gabinetes com ares condicionados ou refastelados nos Lexus. Por todo este descaso, mais uma vez, desconsigo acreditar estar o país tão sem rumo, face aos bilionários e vergonhosos roubos financeiros, que poderá avocar a tese tão cândida no socialismo, face às dificuldades económicas e sociais, porque vive a maioria da população: “Estão criadas as condições objectivas para a revolução”. (William Tonet in Folha 8, edição 1324, 01/07/17)
Importante, fundamental, uma sociedade sem regras não sobrevive, comete suicídio, e esta é a tragédia de Angola que dá por concluído o seu abismo final. Pelo catastrófico avolumar para outra RDC vamos navegar. E por isso mesmo o abismo, o fim está próximo., a chamar.
Para onde vai este comboio sem democracia? Para a grande desgraça que se anuncia. Em Angola o comboio da democracia não para porque não tem estações, e não se sabe quando as terá. Talvez que a inspiração da RDC seja a solução, ou que o fim da democracia está próximo. E também se esqueceram que o comboio da democracia para circular necessita de carris, até disso se esqueceram porque as mentes estavam – estão – demasiado ocupadas no saque. O comboio sem democracia só transporta lagosta, a mandioca atira-a para os cães que a olham de lado rosnando de raiva, muito desconfiados pois até a mandioca desapareceu, já não é dos pobres, é também dos lagostas, não é comida de pobre, é comida de ricos. 
Não havendo oposição há corrupção. Na verdade tal oposição é o sustentáculo do comboio da corrupção.
Se um partido político resolve tudo pela violência, não dá para ver como ou qual será o futuro de Angola. Quando o poder é violento a violência o esmagará.
Aqui diz-se que se defende tudo, incluindo a liberdade, só não se vê quem defende a liberdade dessa liberdade.
O RETRATO DE LUANDA: E o muangolé continua notável na sua destruição. Por exemplo, consegue alugar o seu apartamento, a beneficiária costuma ser uma amante – são tantas – parte os mosaicos e os azulejos recentemente instalados pela anterior amante, para tirar o feitiço da outra, só pode – numa altura destas como conseguem tal fortuna para tão vultuosos gastos? – o apartamento do vizinho é destruído, tudo bonito por dentro e por fora a desabar. Assim continuando – claro que vão continuar pois se não sabem fazer mais nada – e devido à penúria financeira vigente prevê-se que os muangolé viverão como ratos, desculpe amigo leitor, as populações já não são pessoas, são ratos, piores que eles pois os roedores têm regras que respeitam, enquanto os roedores humanos não respeitam regras… nada nem ninguém. Por isso os ratos sobrevivem e os seres humanos não. No apartamento das obras, está por baixo outro que, como foi dito aos jovens que executam o trabalho de partir tudo e até erguer mais paredes, o que conforme lhes foi explicado não dá para suportar mais peso. O prédio já ronda os cinquenta anos, foi erguido até ao terceiro andar. Depois o proprietário decidiu fazer aqui morada. Ergueu mais dois andares, o quarto andar destinado a arrendamento e o quinto andar fez dele um escritório. Ambos têm como característica o não serem construídos em betão armado o que leva a que a qualquer momento desabem. A varanda das traseiras está com três fendas, uma delas a mais saliente, vai até ao meio da casa de banho. Na cozinha tem uma fenda de um metro de comprimento por cima da chaminé. Os tectos da cozinha e da casa de banho estão a desabar, já se vê o tijolo. A varanda que dá para a rua tem duas fendas, uma delas chega quase a meio da sala. Num dos extremos da varanda a parede está-se a desfazer, e no outro extremo um pilar tem uma fenda a toda a altura. Num quarto que dá para as traseiras tem uma fenda preocupante que chega a meio do tecto. Por baixo da viga tem também uma fenda que a acompanha a todo o comprimento, cerca de cinco metros. Mas os jovens não estão interessados nisso, o que querem é facturar conforme um deles anuiu de cabeça quando confrontado com a desgraça à espreita. Foi-lhes dito que mostrassem a licença da obra, disseram que está com o encarregado. Então que digam ao encarregado da obra que há que falar com ele para a responsabilização dos prejuízos que aí vem. Passam os dias e nada de encarregado. Devido à envergadura da obra facilmente se fica a saber que o apartamento foi vendido a uma senhora que trabalha num banco, conforme dito por vizinhos. Também se pediu a sua comparência mas não resultou. Há fuga intencional, só que a senhora e quem possa estar por trás dela ainda não sabem que irão residir como se estivessem num navio prestes a afundar-se. Ela quando disto tiver conhecimento decerto desmaiará ou terá um ataque cardíaco. Claro que está a fazer um muito mau negócio, a deitar dinheiro para o lixo. Contas feitas por alto a obra é capaz de estar nos cinquenta mil dólares. E de novo vem o assombro: as empresas estão com impressionante contenção nos gastos, e como este ano a coisa não melhora, mais despedimentos serão feitos. A crise é de tal monta que faz com que os investimentos fujam, e quando isto acontece há a inevitável fuga de divisas que aqui fica muito fácil de fazer devido à república da corrupção instalada. Claro que chovem perguntas: Como é possível tal esbanjamento? Tal dinheiro foi ganho honestamente? Como foi conseguido? Como é possível num ambiente de miséria e fome haver quem ostente riqueza tão agressivamente? Num ambiente quase de pleno desemprego há para quem o dinheiro caia do céu. Escravidão, desgraça, miséria e fome deveriam ser as palavras de ordem seguidas. Neste teatro de plena injustiça milhões de almas clamam por justiça, e quanto mais ela tardar mais os próximos dias serão de arrepiar. Como isto é incrível, ao nível que esta gente chegou, sem cérebro, onde construir é destruir. Há dez dias que não se consegue trabalhar porque a barulheira é por demais infernal. Isto passa-se na rua Rei Katyavala, no prédio 109, no quinto andar direito.
No noticiário da rua, um cidadão mal ou bem informado, disse que se a Unita ganhar as eleições, o Mpla vai retirar todo o dinheiro dos bancos – pessoalmente não sei que dinheiro porque isso é coisa que não há, como se diz na gíria, o dinheiro está muito difícil porque está a ser desviado para a campanha do Mpla – para que a Unita no poder encontre os bancos vazios.
Se os democratas de fingir continuarem na democracia de fingir, decerto que na hora da prestação de contas vão fugir, sem saberem onde cair não conseguirão se redimir.
Isso de falar e não fazer nada fica grotesco, é palhaçada. E palhaços não nos faltam, tudo isto se encaixa perfeitamente na tragédia final do palco infernal. Democracia sem democratas é isso o futuro que nos querem presentear, ludibriar, na miséria e na fome continuar.
Pelos vistos os muangolé ainda não conseguem conviver com o próximo, e se até hoje não o conseguem jamais o conseguirão. Isto faz parte da grande tragédia de África que se desintegra a olhos vistos, como se caminhasse para o fim da sua civilização.
X-FILES: “Noutros ordálios fica inocente quem consegue extrair uma agulha do fundo de uma panela de água a ferver. Outras vezes, submetem-se à «prova da agulha»: se não sai sangue depois de picar a língua, o lóbulo da orelha ou as pálpebras, fica provada a sua inocência. Também é inocente quem consegue pisar com lentidão, várias vezes, as brasas, sem queimar os pés. Mais perigosa, aterrorizante e frequente a prova do veneno, usada sobretudo para esclarecer a acusação de feitiçaria. Em muitas regiões de Angola denominam-se «mbambu». o adivinho conhece as propriedades altamente venenosas de certas plantas.” (Cultura Tradicional Bantu. Pe. Raul Ruiz de Asúa Altuna. Edições Paulinas)
Majores pennas nido: asas maiores que o ninho. Expressão de Horácio (Epístolas, I, 20-21), que se aplica aos que, vivendo em condição medíocre, aspiram a altos destinos. Malesuada fames: a fome ruim conselheira. Virgílio (Eneida, VI, 276), enumerando os monstros que guardam a entrada dos Infernos, qualifica a fome de ruim conselheira, isto é, de inspiradora de crimes e de más acções. (Dicionário Lello)