sábado, 12 de agosto de 2017

BREVE HISTÓRIA DESTA MISÉRIA




República das torturas, das milícias e das demolições
Diário da cidade dos leilões de escravos


Miséria: estado de enorme sofrimento; infelicidade, desgraça. Estado de carência absoluta de meios de subsistência; indigência, penúria. (Dicionário Houaiss)
No princípio eram as cavernas. Vivendo em grupos como animais gregários caçavam para se alimentarem e vestirem. Tudo parecia bem até que um grupo desconhecido chegou. Vinham armados com tíbias, invadiram as cavernas e não encontrando resistência logo sujeitaram o indefeso bando obrigando todos a trabalharem de borla. Isto perpetuou-se por milénios de geração em geração originando ao longo da História uma classe miserável que se mantem na miséria subjugada pelos descendentes das tibias. Já com o estatuto de classe miserável, devidamente assessorada pelas igrejas que lhe ensina como um rebanho dócil se deve comportar, nada mais resta para a miséria continuar. Precisamente a religião inventou-se para perpetuar a imbecilidade, a submissão, a superstição, a prisão do intelecto que obriga a pensar sempre na mesma e única direcção, o vazio do céu. À classe dos miseráveis se convencionou chamar mandiocas. A classe dos dominadores foi denominada lagostas.
“Meu trabalho torna-se a imagem de um reinado partido, de um estranho período de loucura e vergonha humanas - e à Igreja - A civilização jamais alcançará a perfeição até que a última pedra da última igreja caia sobre o último padre.” (Émile Zola (1840-1802).
Construindo a cidadania da miséria: as tácticas do patrão muangolé para não pagar os salários dos trabalhadores continuam. Neste ínfimo exemplo, os trabalhadores da construção civil que fazem o restauro de um apartamento estão há quase dois meses sem salários porque a patroa está de viagem… no estrangeiro. Só que alguém a viu num domingo em visita ao apartamento, assim no estilo de que ninguém me verá, ninguém saberá que estou cá. É o marasmo da gestão da miséria empresarial. Este modelo está bem inculcado no nosso empresariado. Fogem para o estrangeiro para não pagarem os salários. Com esse dinheiro que é um autofinanciamento sem juros, fazem negócios e com os ganhos, lucros, pagam os salários sem dispêndio de gastos. É miséria, só miséria. Um espécime destes com quem trabalhei chegava a deixar os trabalhadores três meses sem salários. Os kwanzas trocava-os por dólares e ia a Portugal periodicamente depositá-los. De certo modo esta prática generalizou-se, assentou arraiais e funciona como se estivesse legislada na LGT-Lei Geral do Trabalho. Ó porca miséria!
Os salários milionários do Fundo Soberano de Angola: administradores ganham 43.600 USD mensais. Trabalhadores levam para casa 3.800 USD ao fim do mês. Cada membro do conselho fiscal recebe 22.000 USD mês. Fundo angolano gasta 4,5 vezes mais do que o de Timor mas é 3,4 mais pequeno. (Expansão 04/08/17)
Contribua para a miséria, roube à vontade e jure que você não tem nada que ver com isso, o grande culpado, neste caso, culpada, é a crise.
Um grande contributo creio que o principal é o alcoolismo, essa milenar universidade de Angola. A feitiçaria é a academia de ciências sociais. Os hospitais são necrotérios. A corrupção é a tão propalada força motriz da sociedade. Só o alcoolismo nos liberta desta miséria.
“Sobre os romanos, que antes eram tão poderosos, tornaram-se escravos de prazeres corruptores e só precisam de pão e circo.” (Juvenal, entre 55-60-127)
Vê-se nitidamente nas crianças o futuro da nação da fome que as espera. Isto não é uma nação é uma infernal corrupção. Quanto mais coisas nos prometem mais desgraças nos acometem.
Sinto-me como Dante (1265-1321) quando disse que pertencia a um partido com um único membro.
Nesta miséria galopante, Angola fortemente aspira a um caixão para que o seu governo seja um cemitério.
Quando um governo age como polícia e não como gestor, creio que é isto que dá pelo nome de estado policial.
Se o colapso de Angola não for resolvido depois do dia 23 de Agosto, então a miséria ficará sem solução por tempo indeterminado. E as bichas no multicaixa aumentam, tudo é composto de bichas.
Quem é que disse por aí que é possível acabar com a miséria? A empresa Só Bandidos, Ilda, (ilimitada) é a empresa com mais funcionários em Angola. São aos milhares, aos milhões. A sua principal actividade é os assaltos. De tal modo é poderosa que logo desmantelada pela Polícia, logo surge outra sede com novos sócios e muitas sucursais, o que faz com que a sua actividade seja impossível de extinguir.
Outro aspecto revelador da miséria do novo-riquismo é as suas casas por dentro estarem muito bonitas, muito luxuosas, mas por fora estão em risco de desabar. Mais caricato é outras casas de novos-ricos que por fora estão rodeadas de esgotos ao ar livre.
Acredito que é pelo elevado número de santos, há muito que o céu está inflacionado deles, que as coisas estão como estão… no rumo de mais carnificinas. Aqui pode-se dizer que a principal actividade dos homens é a carnificina, onde todos os seus cainhos levam à mais sublime invenção: a miséria.
Civilização é os Estados Unidos da América e a Europa Ocidental, o resto é selvajaria?
Há muito tempo que nos martelam os ouvidos que com a independência o povo colonizado, e claro, escravizado, ficaria livre e feliz. Hoje esse povo abandonado morre de fome vitimado pela república das crises.
A corrupção sendo generalizada é por demais evidente que as eleições serão corruptas.
Na Rádio Despertar: Adelino João Cassoma, responsável da Unita na Lunda-Norte, (numa original campanha eleitoral) foi preso, torturado, morto e depois amarrado com uma pedra muito grande e atirado para o rio Cuango infestado de crocodilos.
No dia 07/08/17 ouvi na Rádio Despertar que em Kinshasa, capital da RDC, houve tiroteios em vários bairros com um saldo de doze mortos. Depois fiquei a pensar: que pelos noticiários há tiroteios por toda a África, como se a sua designação fosse o continente dos tiroteios. A África negra está uma catástrofe. Os governantes governam como deuses fazendo com que haja como que uma certa propensão para a miséria e a fome.
Angola está de parabéns, por mérito próprio e grande empenho, porque conquistou mais uma vez o tão cobiçado prémio da miséria do descontrolo total. Angola, como sempre, aposta nas suas capacidades inatas, aposta fortemente no futuro. A aposta da miséria é a chave para abrir as portas da felicidade. Muita miséria, povo muito feliz.
O mais velho já com sessenta e poucos anos de idade lamenta a sua miséria para uma vizinha, “tinha quatro hiaces que faziam o trabalho de táxi. Tinha quatro casas que me garantiam o sustento e me faziam levar uma vida bem regalada. Não sei onde tinha a cabeça, fiquei sem nada, estou na miséria.” O coitado faz uma pausa com as mãos na cabeça, agita-a e, “mas onde tinha a minha cabeça? O que é que eu fiz da minha cabeça?!” A vizinha condoída diz-lhe para se acalmar porque se continuar a pensar nisso acaba como muitos, com uma trombose. O mais velho foi-se embora, e uma vizinha que ouviu a conversa sem nada opinar, diz para a outra: “Esse, conheço-o bem, ele tinha muito dinheiro, tinha dez mulheres, gastava… gastava dinheiro à toa, bebia… bebia muito, andava sempre bêbado, e nas bebedeiras as mulheres conseguiram apanhar-lhe os carros e as casas. Agora, olha, chupa no dedo. Mana, vida de muangolé é mesmo assim. Quando eles têm algum dinheiro gostam de se armar em ricos, ter muitas mulheres e depois ficam sem nada. Mana, nós não damos mesmo nada porque não conseguimos sair da miséria. Por causa da nossa burrice os estrangeiros vão sempre dominar-nos, e a escravidão será o nosso emprego.”