Vai para três meses que Luanda está sem energia elétrica. Entretanto, há quarenta e dois anos os que governam por direito de sucessão apostam na diversificação da economia… sem energia eléctrica. E o fumo do gerador do banco millennium-atlântico na rua rei Katyavala mata-nos. Em Luanda, matar é facturar.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O REI DO PETRÓLEO (03)


RCE - República dos Comités de Especialidade, algures no Golfo da Guiné.

É impossível uma nação sobreviver no secretismo absoluto das negociatas dos seus governantes.

No palácio, o Rei do Petróleo agigantou uma festança para comemorar mais uma das suas palavras de ordem que dava pelo nome de: ENTREGUEMOS AS NOSSAS TERRAS AOS CHINESES. Antes do imponente acontecimento os serviços protocolares esmeraram-se no envio de aeronaves para transportação dos governadores de todas as províncias e demais generalato do elenco governativo da RCE. Notável, como sempre há quarenta anos, era o comité de especialidade dos bajuladores, do comité de especialidade da Igreja e das igrejas, onde se impunha a sumptuosidade de um cardeal, bispos, padres e demais acólitos religiosos. Dinheiro não havia porque o preço do petróleo não consentia, a população sofria mas o Rei do Petróleo mais se enriquecia. Na RCE o seu soberano imperava como ser absoluto exactamente como os senhores feudais, dos quais seguia escrupulosamente os seus ditames. O fausto e opíparo rega-bofe tinha como abertura um duo de trovadores medievais recrutados na Europa para abrilhantar, fazer jus às laudas etiquetas desses tempos antigos mas na RCE extremamente actuais. O duo compunha-se de um hábil mestre de alaúde e de uma bela musa do canto, que assim inauguraram mais um universo de gastos supérfluos.  E a melodiosa voz feminina abriu o concerto medieval chinês:

O Rei do Petróleo é o único que pensa
Dá as terras aos chineses ficam sua pertença
Como se a RCE fosse deles desde a nascença
E o povo resta-lhe a escravidão como recompensa

Claro que os ouvintes levaram a letra da música para os tempos da Idade Média, não a conseguindo associar ao tempo local. O Rei do Petróleo não quis discursar alegando que estava muito ocupado com os assuntos do Estado, delegando competências ao cardeal seu grande amigo pessoal e das colheitas dos dízimos do petróleo. E o cardeal não se fez rogado e orou a Deus para que lhe concedesse sabedoria, porque sem Ele nesta terra e neste mundo nada é possível, então já possuído por Deus pregou para os beneficiários do petróleo e demais riquezas do país:
- Ao nosso omnipotente Deus que concedeu a graça e o poder divino ao nosso querido irmão crismado Rei do Petróleo porque sem ele nunca seriámos independentes. Meus irmãos, devo confessar que não é possível alguém governar em seu lugar porque o espírito de Deus está com ele na vida e na morte. Isto significa que o nosso bem-amado Rei do Petróleo governará para sempre e não há poder que se lhe oponha, pois o poder de Deus é invencível. Mesmo depois da sua morte o Rei do Petróleo nos governará do além-túmulo em espírito para todo o sempre, portanto não devemos perder tempo com eleições ou qualquer inutilidade similar porque Deus já designou vencedor. Meus irmãos, só Deus tem o poder de ressuscitar mortos e impor o seu governo celestial na RCE. Oremos irmãos para que o petróleo e os seus lucros continuem a jorrar sob a sábia direcção e gestão do único sábio que Deus nos presenteou. Finalmente uma palavra sobre a negociata chinesa: Não estranhemos irmãos a entrega de parte do território da RCE aos chineses. O importante não é o povo que será mais uma vez escorraçado, das suas terras espoliado, para dar lugar aos chineses em troca dos biliões de dólares que eles concedem a esta república em nome do reforço dos laços de amizade e cooperação que unem os dois povos, a República Popular da China e a nossa também ainda república popular. Meu Rei do Petróleo, tu és o maior meu!
Do comité de especialidade dos bajuladores surge uma personalidade bem sinistra. Demonstra-a o seu rosto sinistro, olhar de pelotão de fuzilamento, roupa de verdugo de guilhotina, de conjuntura rodeada por uma auréola de intolerância política, arrogância desmedida, gestos agressivos do estilo, eu faço o que quiser e bem entender, em suma: o demónio em pessoa.
- Jamais na história da humanidade se conheceu tão insigne humanista, tão acérrimo defensor do povo e dos direitos humanos. Nesta república tudo vai bem e a população sente-se imensamente feliz por ter um guardião que vela por ela, e dá às crianças tudo o que elas merecem. Nas centralidades e no partir das casas está o sucesso do nosso futuro. As nossas crianças, os continuadores da nossa gloriosa gesta, nada lhes falta, incluindo o mais importante: o extremoso amor do nosso querido e atraente líder, o camarada Rei do Petróleo. Sem ele, o que seria de nós? Não seriamos nada, apenas uns zés-ninguéns. Confiemos e brindemos ao nosso herói, ao nosso pai, ao nosso arquitecto da paz, ao nosso mais que tudo. Camaradas! Viva o nosso camarada presidente! Viva a nossa riqueza. Abaixo as manifestações! Tortura e morte aos arruaceiros e a quem ouse atentar contra a ordem estabelecida. Viva as chacinas! Viva o empréstimo chinês e a hipoteca das nossas terras! Viva os comités de especialidade!
E ouviu-se um estrondoso bater de palmas como uma ovação da entrada triunfal em Roma de um vencedor dos seus inimigos.
Começava também a primeira reunião oficial do GEC-Gabinete Especial das Chacinas, onde se deliberou, se decretou que a próxima chacina seria nos partidos da oposição. Como nota final recomendou-se que tudo o que fosse religião seria enquadrado no comité de especialidade da religião. E quem resistisse, não concordasse, se manifestasse, seria entregue, purificado pelo fogo da chacina.
Há homens que engrandecem países, há homens que os vendem ao desbarato. A corrupção não andava, por todo o lado galopava como uma manada de cavalos tresloucada. E na rua ouvia-se mais um desafortunado como num pregão: «Mais um saque de um português/angolano. Dupla nacionalidade, duplo saque. Augusto Helder Paiva de Azevedo é o sócio-gerente da empresa Magnum-Protecção e Assistência, Lda. Funciona em Luanda nas instalações do CFL- Caminhos de Ferro de Luanda, nas suas traseiras junto à Unicargas. Nas contas do balanço de 2014 defraudou a conta de Edifícios Administrativos adulterando-a para Equipamento Industrial no valor de Kwanzas, 593.515.896.50 para vigarizar a FESA-Fundação Eduardo dos Santos, que está em negociações para aquisição do espaço. Os valores dos Edifícios Administrativos provêm de facturação falsa de empresas criadas para o efeito. Ora, a Magnum nunca teve nenhuma instalação industrial, basta ver a sua denominação comercial. Uma empresa de segurança tem instalações industriais de quê? Foram também falsificados documentos para pagamento das rendas do ano de 2014 (e anos anteriores) do CFL no valor de 4.500.00 dólares mensais, e os seus valores creditados na sua conta pessoal. O terreno é do CFL, e a sua transacção é mais uma negociata ilegal. Quer dizer, o português/angolano faz a negociata e depois foge de Angola.» E o nosso pregoeiro termina: «Roubar mais e distribuir pior!» Eis o paraíso perfeito para a gatunagem empresarial, de bandidos da pior espécie que sob o disfarce da dupla nacionalidade exercem a sua actividade criminosa, obtendo elevados lucros e gozando da santa total impunidade.
Nas ruas houve-se o clamor do povo, que as igrejas estão cheias, que o povo diz que vai vir aí uma guerra pior que a de 1975. Enquanto os jovens do movimento revolucionário gritam que, sem manifestações não há liberdade.
Pretender acabar com quem vende nas ruas para sobreviver, é como querer acabar com as moscas, porque ao enxotá-las elas vão para outro lado. É o desejo mórbido de esconder a miséria para mostrar a pobreza de espírito dos ricos e das suas riquezas ilegais. Na RCE só há lucros para os ricos, os pobres são para exterminar.
Mais mil casas foram destruídas na zona da Funda, arredores de Luanda. Partir casas continua como a principal ocupação da desastrosa governação. Os desgraçados foram viver ao relento, entregues nos braços da morte, pois com as baixas temperaturas nocturnas, o frio mata-os. Mais uma cidadã agora na condição de expatriada disse na Rádio Despertar que eram três horas da manhã quando “forças de terra, mar e ar”, invadiram a área, para que os seus quintalões sejam entregues aos brancos, (chineses).
Os chineses já estão a cobrar os juros do empréstimo a toda a velocidade. Os chineses estão a ser corridos da África. Acabam de ser corridos de Moçambique, resta-lhes o último reduto, a RCE, e mais um violento conflito à moda colonial surge.


Imagem: autor desconhecido