quinta-feira, 3 de novembro de 2016

AS ÁGUAS TURVAS DA LAGOA DOS CACUSSOS



República das torturas, das milícias e das demolições
Diário da cidade dos leilões de escravos

Ano 1 A.A.A. Ano do Apocalipse dos Angolanos.

Aguardo com muita impaciência que surja a voz a anunciar que, Angola está libertada!
Os corruptos enriquecem, os honestos empobrecem.
Creio que o estafado espírito patriótico é para quem apoia a corrupção. Quem não o faz é cognominado de falta de ética e antipatriota.
A fraude eleitoral da água: “Um homem pode ser destruído mas não derrotado.” (Hernest Hemingway 1899-1961).
O M está completamente corrompido, desorganizado, derrotado. M, o paraíso do vandalismo. Ham, ham, a vizinhança… é buerere porque a Epal anda a serrar os canos da água – porquê só agora ao fim de 41 anos e porque não no início, porque não montam o pré-pago como fizeram na energia eléctrica? Porque da Idade da Pedra não querem sair e quem não estiver que se mude. Angola há muito que tem apenas um dono, o M – deixando muita gente, centenas, milhares, milhões (?) de eleitores sem água. Quem tem as contas em dia não escapa do satanismo, também lhes cortam a água, e quem faz isto não vai preso?, ah! ah! ah! ah! E tão vasto número de eleitores para dar mais raiva, agora privados de água, juram que vão votar na UNITA. Porra!, qu’esta merda não está nada boa, cada vez pior, ah, ah!, ah!
Também os restantes veículos políticos, esses pobres coitados da oposição, são incipientes e de intelectos vale sempre lembrar que só temos a família Andrade, o que sobra é uma medíocre equipa de demagogos. Mas quem é que quer este M?, ninguém, claro! Não é por acaso que M é a primeira letra da palavra miséria. É incrível como ainda há gente que vive num mundo tão incrivelmente primitivo, e tudo fazem para dele não sair. Será que estamos em presença de um mundo perdido do período mesozóico dos dinossauros? É muito bem possível. Numa terra de analfabetos, quem sabe das coisas, quem sabe trabalhar e não tem mácula, é excluído, considerado um inimigo perigoso. O detentor do conhecimento da sabedoria é um alvo a abater e para garantir a sua sobrevivência tem que exilar-se num país acolhedor. Entretanto lá vai mais um, Jacob Zuma, o presidente sul-africano vai ser ruado por corrupção.
Nos últimos dias, devido à estação das chuvas, que forte, fortemente como nunca fazia, abastecia a lagoa que estava bem gorda, bem viva, movimentada de água. No céu, nuvens escuras queriam dizer que mais água viria. Mas isso não impedia que à volta da lagoa a vida continuasse. Cada um vivia ou improvisava como podia. E os clientes da lagoa iam chegando, não em número habitual porque a chuva prejudicava os investimentos e muitos não se podiam deslocar devido à intransitabilidade das ruas que lá iam dar. No entanto, pode-se dizer que, no resto, estava tudo estabilizado. Ouvia-se (quer dizer, não se pode dizer taxativamente que se ouvia) a terrível barulheira de uma aparelhagem musical comandada por jovens que a abasteciam com a música mais horrivelmente estridente possível. De tal modo que até para falarmos tínhamos de aproximar a boca aos ouvidos uns dos outros, aos gritos, é claro. Quase deixávamos de ser pessoas, assemelhando-nos mais a animais numa selva aterradora. Falar com os jovens para que baixassem o som não adiantava. Eles ainda o aumentariam mais. Será que é isto o que resta da identidade cultural do muangolé? Até nos hábitos alimentares as coisas mudaram bastante: agora comem-se sandes com muita mostarda e muita maionese. Poucos saberão, por exemplo, os estragos que a mostarda provoca no nosso estômago. Mas isso se vê facilmente: pegamos numa moeda bem usada, daquelas que quase não se consegue ver nada das inscrições; despejamos-lhe um bocado de mostarda nas duas faces e depois enrolamo-la num papel de guardanapo e deixamo-la descansar durante uns dois minutos; depois retiramos o guardanapo e a moeda surge como que acabada de sair da cunhagem; tudo nela desaparece. Em face disso, já se pode imaginar os estragos que a mostarda faz no nosso estômago. Quando ainda jovem, depois de ver essa demonstração, nunca mais comi nada com esse condimento. Voltando à conversa dos cacussos, dizer que, com o arrastar do lixo da água das chuvadas, a lagoa também ficava afectada, turva, sem oxigenação, o que resultava na diminuição do pescado bom para se comer, uma vez que os peixes morriam antes de caírem nas armadilhas. Então, as receitas não compensavam o esforço dos pescadores como se fosse tempo de defeso. De repente ouve-se um grito estridente de uma criança: o homem olha na direcção do som e vê os seus dois filhos pequenos agitados. O mais velho, de uns seis anos, vem em sua direcção e grita: «Pai, ele me mordeu!» «Pois, tu passas a vida a fazer-lhe judiarias e o coitado enerva-se e morde-te», ralha o pai. E gritando na direcção do mais pequenino de dois anitos berra: «Ó seu bebé piranha, não mordas mais o teu irmão! Anda, vai p’ro pé da tua mãe!». Mas, como diz a sabedoria popular que um mal nunca vem só, passados alguns minutos, eis que novamente se faz ouvir a voz do filho mais velho. Todavia, desta vez, o grito é bem diferente: «Pai!!! Pai!!!». «O que é, porra?!», indaga o homem bem chateado. «Pai, são os chineses! Eles estão aí com os camiões deles para despejarem lixo na lagoa», explica o pequeno. «Oh, oh, mas que merda esta! Vai p’ra casa e fica lá com a tua mãe e o teu irmão, anda!», grita para o filho. Pouco depois, convoca uma reunião de emergência de um denominado, alto comité da buala para análise de situações. Entretanto, preparados para o pior, as mamãs, os petizes e os jovens já armazenavam pedras e outras tralhas para repelirem os invasores chineses. A reunião de emergência do alto comité decide-se pelo envio de uma comitiva para estabelecer conversações com os invasores inimigos da Natureza. A delegação chefiada pelo pai, marcha ao encontro dos chineses, que logo viram que a numerosa comitiva não estava para festejar a sua chegada. Os chineses já estavam a preparar-se com o maior à-vontade que lhes é consagrado na Constituição, para poluir a lagoa com escombros das obras de construção civil. O pai faz então o discurso de apresentação: «Quem são, de onde vêm e para onde vão?». Um chinês usa então a artimanha dos prevaricadores da Lei, que consiste em afirmar que a desconhecem e assim praticar todo o tipo de ilícitos a bel-prazer. E tenta safar-se: «Chinês não saber falar português.» Mas o pai não se deixa desarmar: «Estes chineses são o máximo. Além de fazerem da China o país mais poluído do mundo, querem fazer de Angola o país mais poluído de África». E faz um sinal com as mãos de que pode haver problemas sérios se eles não se forem embora. No entanto, o que parece ser o chefe dos chineses não desiste. Entrega um telemóvel ao pai para falar sabe-se lá com quem. O pai nega e volta a assinalar que é melhor que eles partam. Os invasores acatam o conselho, pegam nos seus camiões que desta vez eram apenas três, e bazam. Claro que foram despejar os seus detritos poluentes num outro lugar qualquer, à socapa. E é assim: num lado se constrói e noutro se destrói.

Chegou a hora do almoço. Além do pai, a esposa e os dois filhos, não estava mais ninguém à mesa. Isto sem contar com os três cães e quatro gatos que habitualmente montavam guarda quando a piroga voltava da faina da lagoa, pelo menos pareciam saudáveis. Aliás, o segredo da longevidade da gataria é comer peixe fresco. Quanto aos vira-latas qualquer coisa lhes serve, mas também estavam bué fixes. Era esta reduzida família que se abastecia à mesa porque normalmente ninguém mais aparecia, porque pobre é assim, ninguém o visita. O pai que tencionava fazer uma oração de graças ao Senhor pela comida concedida acaba por discursar contra a invasão aos seus domínios: «Pois é, andam práqui estrangeiros a dizer que querem fazer da nossa lagoa uma estância de turismo, dando-me como compensação dois barcos a motor, combustível e salários para quem neles trabalhar. Mas, se saio daqui, vou mais trabalhar aonde? E a manutenção dos motores? Não, isso não é aposta segura para nós». No íntimo, decide-se então a resistir até aonde for possível ao assédio dos estrangeiros para deixar o seu torrão. E pergunta à mãe: «Já mandaste comprar gasóleo para o gerador? Possas, sabes quando é que vamos ter energia eléctrica da rede pública?». Claro que ela diz que não, que revolução à africana é assim, e que nem sabia sequer o que era isso de rede. O pai lembra-se então que faltava algo para completar o almoço. Chama o filho e ordena: «Ó menino vai à cantina do ‘sênê’ e lhe diz que o pai pediu dois litros de vinho. Mas, lhe diz que é para pôr no kilapi. Vai, faz rápido, que a comida vai esfriar!». E enquanto esperava pelo tintol, foi chegando à amarga conclusão de que Angola, por esse andar, sem liderança, outros colonizadores se instalam para substituir os anteriores. São assim de facto e de jure as independências africanas porque os seus políticos são formados nas melhores universidades da demagogia.