terça-feira, 17 de setembro de 2013

A casa do sol cercada de petróleo por todos os lados




Nos últimos dias devido à estação das chuvas, a lagoa estava bem gorda, repleta, bem viva, movimentada de água. No céu nuvens escuras queriam dizer que mais água se preparava para cair dele. Mas isso não impedia que à volta da lagoa a vida parasse. Cada um vivia, ou improvisava como podia. E os clientes da lagoa iam chegando, não no número habitual porque a chuva prejudica os investimentos das pessoas, e muitos não se podiam deslocar porque as ruas estavam intransitáveis. Pode-se assegurar que de resto tudo estava estabilizado. Ouvia-se, não, não se pode dizer que se ouvia, a terrível barulheira de uma aparelhagem musical comandada por jovens que a abasteciam com a música mais estridente possível. De tal modo que até para falarmos não conseguíamos, aproximávamos as bocas quase coladas nos ouvidos dos ouvintes, e então não falávamos, gritávamos, deixávamos de ser pessoas, creio que nos parecíamos mais com os animais numa selva aterradora. Ir lá falar com os jovens para que baixassem o som, não adiantava, eles ainda mais o aumentavam. Será que é isto o que resta da identidade cultural do mwangolé? Até nos hábitos alimentares: sandes com muita mostarda e muita maionese. A propósito: amigo leitor sabe o efeito da mostarda no nosso estômago? Pois bem, vou-lhe mostrar: pegamos numa moeda bem usada, daquelas que quase não se consegue ver nada das inscrições. Despejamos-lhe um bocado de mostarda nas duas faces e depois enrolamos, por exemplo, num papel de guardanapo e deixamo-la descansar durante aí dois minutos. Depois retiramos-lhe o guardanapo e a moeda… surge como que acabada de sair da cunhagem. Tudo nela desapareceu. Agora, o amigo leitor já pode facilmente imaginar os estragos que a mostarda faz no nosso estômago. Quando ainda jovem vi essa demonstração nunca mais comi esse condimento.
Voltando aos clientes do cacusso, também vale dizer que com o arrastar do lixo da água das chuvadas a lagoa também era afectada, porque além do lixo a água ficava bastante turva o que dificultava a sua oxigenação e daí o peixe ter dificuldade para respirar, ou morrer, a pesca diminuía e as receitas abrandavam, não compensavam, como se fosse tempo do defeso.
E de repente ouve-se um grito lancinante de criança: o pai olha na direcção do som e vê os seus dois filhos juntos, um com seis anos e outro com apenas um, e o mais velho corre para o pai: «Pai! Ele mordeu-me!» «Pois, tu passas a vida a fazer-lhe judiarias e o coitado enerva-se e morde-te.» E gritando na direcção do pequenino: «Ó seu bebé piranha não mordas mais o teu irmão! Vai para o pé da tua mãe.» Passados alguns minutos, e como é costume dizer, um mal nunca vem só, eis que novamente se faz ouvir a voz do filho mais velho, mas desta vez o grito é bem diferente: «Pai!!! Pai!!!» «O que é porra?!» «Pai, são os chineses que estão aí com camiões para despejarem lixo na lagoa.» «Oh!Oh! mas que porra de merda esta! Vai para casa e fica lá com a tua mãe e o teu irmão.»
O Pai reuniu de emergência o CRB – Constituição da República da Bwala, e enquanto os seus membros se preparavam para o pior, as mamãs, os petizes e os jovens já armazenavam pedras e outras tralhas para repelirem os invasores chineses. E então começaram as conversações entre as duas delegações. Do lado angolano o Pai chefiava, a comitiva marchou e quando se aproximou dos inimigos chineses fez alto. Os chineses assustados pelo elevado número da comissão de recepção, logo viram que não era para festejá-los, dar-lhes as boas-vindas, e o Pai faz o discurso de apresentação: «Quem são, de onde vêm e para onde vão?» Mas os chineses já há muito que estavam habituados a estas manobras dilatórias e posicionam os seus camiões - eram apenas (?) três - e preparam-se com o maior à-vontade para poluir a lagoa com escombros das obras de construção civil deles. Mas como que nascendo do chão uma turba de jovens cerca-os e com gestos indicam que vão apedrejar e depois queimar os camiões. Então um chinês usa a artimanha dos prevaricadores da Lei, que consiste em afirmar que desconhecia a Lei e assim praticar todo o tipo de crimes a bel-prazer. E o representante chinês tenta safar-se: «Chinês não saber falar português.» E o Pai não se deixa desarmar, convencer pela artimanha da sabedoria milenar chinesa: «Estes chineses são o máximo, além de fazerem da China o país mais poluído do mundo, é por isso que agora têm chuvadas que nunca mais acabam que limpam a poluição da terra. Para quem não sabe a Natureza é muito vingativa, e em quem se vinga? No homem, claro, que é o seu pior inimigo. Agora também querem fazer de Angola o país mais poluído de África» E o Pai faz sinal com as mãos aos chineses a indicar-lhes que lhes cortarão as cabeças. E o chinês não desiste, entrega-lhe um telemóvel para o Pai ligar. Mas o Pai não lhe liga nada e já a surra aos chineses se ensaia, está por um triz. A algazarra dos jovens subiu, parece chicotadas sonoras nos ouvidos. Então há que entrar nos camiões e bazar. Claro que foram despejar a poluição aí em qualquer lado. Quer dizer: num lado construir e noutro destruir.
E chegou a hora do almoço, e o Pai já na mesa com a Mãe e os seus dois filhos. Não havia mais ninguém, além de três cães e quatro gatos que habitualmente montavam guarda quando a piroga voltava da faina da lagoa. Pelo menos estavam saudáveis, pois o segredo da longevidade da gataria é o comer peixe fresco. Agora quanto aos vira-latas, esses qualquer coisa lhes serve - até parecem as nossas jovens de agora, que qualquer homem lhes serve - mas também estavam bwe fixes com a frescura dos cacussos. Era esta reduzida família que convivia, se abastecia à mesa porque anormalmente ninguém mais aparecia, pois o Pai era pobre, como aqueles mwangolés que vivem apenas do seu salário, e então não lhe ligavam, nem a família, claro. E o Pai prepara-se para a oração de graças pela comida concedida, e ora: «Pois é, andam por aqui no assédio que vêm construir uma cidade, que vão reconverter esta bwala, que farão desta lagoa outra centralidade. Aventureiros portugueses já nos rondam com propostas de fazer desta lagoa uma bruta estância de turismo para estrangeiros, e que como compensação me darão dois barcos com motores fora de-borda a gasolina, que me pagarão o combustível e pagarão os salário0s de quem neles trabalhar. E a manutenção dos motores? Tudo muito bonito, mas se saio daqui vou mais pescar então aonde? A Mãe e as crianças vão vender cerveja e pinchos para sobrevivermos? Eu sei que eles privatizarão isto, tudo, até as nossas almas, e isso não é a aposta segura de faser da nossa querida Angola outra Argélia?» E pergunta à Mãe: «Já mandaste comprar gasóleo para o nosso gerador? Pois creio que jamais teremos energia eléctrica da rede. A propósito: eu nem sei o que é isso de rede. Será uma rede dessas, tipo cerca de um terreno e de lá sai luz?» E a Mãe com voz triste de partir o coração, responde-lhe: «Nem dinheiro temos para comprar pão para as crianças quanto mais para comprar gasóleo. Se os sênês nas suas cantinas vendessem gasóleo, seria a nossa sorte pois teríamos kilapi.» E o Pai ordena no filho mais velho: «Vai lá na cantina do sênê, diz que o pai mandou dois litros de vinho, diz-lhe também que é para fazer kilapi. Esses sênês já estão com as suas cantinas por todo o lado, os chineses estão em todos os cantos das terras na busca de minérios, os portugueses invadem-nos, estão também por todos os cantos – já são mais de metade dos estrangeiros em Angola, e até dizem que: nas ruas, em dez brancos, nove são portugueses - na venda de sabonetes e quinquilharias e nós, qual será o nosso futuro? Mão-de-obra escrava para abastecer tanto invasor estrangeiro?»

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O empresário luso-angolano (16)




- Oh! Eu já os conheço. Escondeu-se ou foi para Benguela… para fugir ao pagamento das dívidas. Sei que o Heitor comunica regularmente com ele. Quando lhe pergunto onde está o dinheiro que me deve, ele responde-me como faz com toda a gente, que isso é com ele, que não sei nada disso.
Para entornar o absurdo do ambiente a Secretária aparece. Vem com um telemóvel bem visível preso no cinto das suas calças.
- Vim apenas para o cumprimentar... para saber como vão as coisas por aqui.
- Fico contente pela sua visita... as coisas por aqui continuam na mesma.
- Bem, já está visitado… vou para a padaria.
Chega um fax. Olho para ver do que se trata. É do Vieira, diz que quer falar urgentemente com o irmão, para eu o chamar e que venha para junto do fax. Assim fiz. Era verdade, Vieira estava em Benguela. Heitor envia-lhe um fax a informar que está presente. Do outro lado vem a resposta em letras grandes escritas à mão. MUITO URGENTE. VAI AO COFRE E RETIRA DINHEIRO PARA COMPRAR TIJOLOS E CIMENTO. ARRANCA JÁ COM AS OBRAS. VOU FECHAR A DELEGAÇÃO DE BENGUELA. ATÉ BREVE.
Deixei de frequentar a boate devido ao barulho infernal e ao ambiente fechado. Por mais que se tentasse não era possível retirar o fumo dos cigarros, mesmo com o ar condicionado sempre ligado. Isto é muito prejudicial para a nossa saúde. Ademais para regressar, o Jacinto tardava intencionalmente a dar-me boleia. Uma das vezes saí quase às três da manhã.
Ao findar do dia observo que Jacinto está presente. Não notei a sua entrada. Vem na minha direcção. Penso que me vai criar complicações. O seu rosto está pálido, faz lembrar um cadáver. Fico na expectativa. Fala-me com voz gutural:
- Empreste-me vinte dólares que depois de amanhã pago-lhe.
Lixaram a vida do pobre velho. Coitado. - Meditei
Eu sabia que ele nunca me pagaria. Mesmo assim entreguei-lhe a quantia que me pediu.
Muito obrigado. - Disse-me torturado.
Em seguida fez menção de que queria dizer-me mais alguma coisa. Convidei-o a prosseguir.
- O que o Vieira está aqui a fazer, e o que os outros portugueses fazem, é uma desumanidade sem limites. Não falo dos outros estrangeiros, apenas dos nossos compatriotas. Já trabalhei com o Director nos Caminhos de Luanda. Esse então está podre de rico. Onde vê dinheiro, as suas mãos já não o largam. No fundo são lavagens de dinheiro que o Governo português aceita, só não entendo porque não efectua o controlo da origem destes dinheiros?
Jacinto continua com as suas lamentações.
- No colonialismo os portugueses respeitavam a lei da Metrópole. Agora retornaram em força. Instituíram a corrupção. Já não obedecem às leis da Metrópole. Aqui criaram as suas próprias leis. Colonizadores silenciosos. Ninguém se dá conta que estão a rapinar Angola. Eles, os brasileiros e mais os chineses estão a massacrar os angolanos. Tudo o que apanham não devolvem. Nem um simples CD virgem. Até isso roubam… bandidos da pior espécie.
Nunca mais o vi. Convenci-me que teria falecido. O Chileno também deixou de aparecer. Também nunca mais o vi.
(A aprendizagem demora muito tempo. Formar um Homem envolve muitos custos. Hoje em dia ninguém está interessado em formar nada. Investir na educação é muito caro, investir na má-educação é muito barato. É por isso que os políticos e as suas políticas quando abrem as bocas todo o edifício se desmorona. Porque faltou-lhes o investimento educacional.)
Nos caminhos de Luanda a Chefe informa-me que será nomeado um novo director. Aproveito para lhe perguntar:
- E o Director?
-Oh! Já ganhou, ou melhor, já roubou o suficiente. Vai para a sua terra, para Portugal.
Sabia que ele era português, mas fingi que desconhecia:
- Parece-me que ele é… angolano.  Quando reinaugurava algo aparecia fardado e armado… vi isso na televisão.
- Aquilo era uma pura palhaçada, percebe? O que ele queria era dar nas vistas, chamar a atenção de que era um grande revolucionário. É mais um português colonialista, disfarçado de comunista.
- E não era?
- Não! De maneira nenhuma. O que ele queria era dinheiro. Já lhe disse que ele raramente por aqui aparecia. Não ligava absolutamente nada. Só se  preocupava com as comissões que as empresas lhe pagavam no estrangeiro.  Ele é que fazia os contratos. Como isso começou a dar nas vistas suspenderam todos os investimentos. Como já tem o suficiente, vai-se embora. Olhe, aproveito para lhe dizer que o novo director antes de tomar posse, já está a exigir a apresentação de contas. Disse que vai pôr o Director em tribunal. É por isso que ele a qualquer momento embaçará.
- Mas, não temos condições de trabalho.
- Este não quer saber disso. Diz, que se pagamos, o problema não é nosso. E que nada temos a ver com a sua empresa. O responsável pela contabilidade é o senhor. Recomendo-lhe que se safe como puder.
Tentei defender-me:
Sempre a eterna questão. O técnico de contas é que é o culpado de tudo. E mais: lembro-lhe que estou num país em que os contabilistas não gozam de protecção.
A Chefe saiu sem me dar atenção.
Heitor vinha sempre ao fim da tarde enviar e receber faxes. Disparo-lhe:
- O doutor?
- O Vieira? Diz que no fim-de-semana está aqui.
No último exercício contabilístico e depois do fecho das suas contas, notei o seguinte:
Vieira parte para a Europa em Dezembro. Regressa em Fevereiro do ano seguinte. Não pagou os vencimentos de Dezembro. Não pagou o décimo terceiro mês. Em Fevereiro paga os vencimentos de Dezembro. Com isto obtêm 26.000 dólares de auto-financiamento. Em pagamentos de documentos falsos, 42.000 dólares. Emissão de saídas de caixa a simular que pagou as rendas aos Caminhos de Luanda, 59.000 dólares. O que representa 101.000 dólares de fuga ao fisco. No total obteve um auto-financiamento de 127.000 dólares.  Mais uma vez omitiu na contabilidade as suas contas bancárias em dólares. Vendeu as vinte viaturas que serviam de apoio aos serviços de segurança devido ao encerramento da prestação de serviços.

(Está toda a gente a carregar brutos reservatórios de água e geradores para os prédios. Que vão desabar pois claro. O peso é tremendo, as estruturas estão envelhecidas. Que grande desorganização. É só irresponsáveis. Incompetentes… e é claro acompanhados de muitos aventureiros. Isto é o Inferno. Tudo funciona na horripilante mentira. Na genuína distorcida mitologia Bantu?)

Não efectuou o seu abate, o que representa mais uma fuga ao fisco. Se considerarmos como média os 101.000 dólares de fuga ao fisco, vezes 1.000 empresas teremos 101.000.000.00 cento e um milhões de dólares. Vezes 2.000 empresas teremos 202.000.000.00 duzentos e dois milhões de dólares.  Por aqui se pode ver facilmente porque é que Angola é o Eldorado. Todos querem vir para aqui,  porque o enriquecimento é fácil. Mas, o valor é muito superior devido às grandes corporações, especialmente as de construção civil. Esta quantia serviria perfeitamente para criar empregos, e ajudar imenso a combater a fome. Mas, é preferível andar, navegar à deriva.
No exercício seguinte Vieira burla o fisco com a emissão de documentos falsos no valor de… 3.800.000.00 –  três milhões e oitocentos mil dólares. É o que se chama ganhar muito dinheiro sem trabalhar.  Este país é maravilhoso. Interessante é notar que numa das suas empresas fictícias as iniciais são… SS.
Oiço gritaria lá em baixo.  Só pode ser o Vieira. A barulheira está próxima. É ele:
- Já cheguei, estás bom?
-Estou.
- Deixa-me despachar estes gajos que já falamos.
 Já não havia ninguém. Perguntei-lhe:
- Vieira o que é que aconteceu com a Secretária?
- Ainda não sabes?
- Não.
- Ela e o chefe da padaria vão casar.
- Oh!
- Foi amor à primeira vista. Ela não tratou nada da matrícula da universidade. Ia mas era encontrar-se com ele. Bastou ele oferecer-lhe um telemóvel, e já está. Ela está convencida que a padaria lhe garante muito dinheiro... já está grávida.
Imagem: autor desconhecido

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Xuxuadas e Camel toe





Afinal não foi Mary Quant que inventou a minissaia.
Quando a moda ditava seios pequenos, as bandagens cuidavam de pressioná-los, quando a cintura precisava ser fina, os espartilhos faziam o trabalho de espremer as costelas e afinar a silhueta. E para quem tem horror a uma barriguinha, saiba que ela também já esteve na moda. "Na Idade Média, as mulheres usavam enchimento por baixo das roupas para manter o ventre saliente e arredondado", lembra a professora de moda do Senac, Débora Caramaschi. A história da lingerie se confunde com a da roupa íntima feminina. Segundo Débora, o primeiro registro de preocupação da mulher em cobrir o seio acontece entre os séculos 3 e 4 antes de Cristo, quando elas usam tecidos em forma de bandagem e túnicas até os tornozelos. A coordenadora do curso de design de moda da Faculdade Belas Artes, Valeska Nakad, afirma que na civilização de Creta, na Grécia, por volta de 2.000 e 1.400 a.C apareceu um corpete simples que projetava os seios. "Era inspirado no ideal de beleza feminino da época, a Deusa das Serpentes", disse. Na Idade Média, entre os séculos 5 e 15, surgiu a cota, uma túnica com cordões, considerada o ancestral do corset, disse Valeska. Segundo a coordenadora, também existia um corpete que era amarrado nas laterais ou nas costas e costurado à saia, conhecido como bliaud. "Ainda havia o soquerie, uma cota muito justa conhecida como guarda-corpo", citou. No período da Baixa Idade Média, entre os séculos 5 e 10, o ventre saliente e arredondado, combinado a seios e quadris pequenos, compunham a beleza da mulher. "Elas usavam enchimento por baixo da roupa para aumentar o ventre e bandagens para pressionar os seios", afirmou a professora de moda Debora Caramaschi. De acordo com a professora de história da moda na universidade Santa Marcelina, Miti Shitara, o período foi marcado pela "silhueta gótica" - seios pequenos e ombros caídos. In moda.terra.com.br
Nem só de lavar a louça vive uma mulher, disse-me uma amiga que andava praticamente com os seios nus para atrair os homens, mas agora – continuou – com essa da xuxuada, eles caem, são atraídos como num poderoso íman, anzolados... é tiro e queda! E rematava que assim se torna mais fácil pegar um bosse, um deputado ou um general. É nacional, é bom e eu gosto!
Claro que a moda do despir quanto mais a mulher é sempre um bom negócio, apesar de que hoje em dia os machos andam muito exigentes, recatados, cautelosos devido ao pavor da Sida. Mas se a moda pega os lucros ficam fabulosos.
E o amor anda por aí perdido às toneladas nos collants xuxuados, de desejos ardentes, sonhados. Já deixou de se entender onde começa e onde acaba o amor.
Nele tudo se compra e tudo se vende. Vale tudo, as suas regras de conduta estão adulteradas, como perdidas num oceano desconhecido, que por mais esforços que se façam ninguém o consegue reencontrar. Mas contudo ainda se acredita no lugar-comum de que a vida é bela.
E depois da “tchuna baby”, eis o tempo - o templo - do collant xuxuado, que pelos vistos, “chegou, viu e venceu.”
Já me imagino de olhar fixo nessas flores desenhadas, nesse chamariz super sexual numa sociedade desregrada onde se copia tudo. Aqui uma questão: porque será que muito raramente vejo uma jovem a ler um livro? Porque se procura tudo o que é mais fácil, e não custa nada oferecer o corpo, mais tarde é que são elas.
Há imemoriais tempos que os puristas debalde se esforçam por manterem os mesmos costumes, os mesmos modos de viver, como se as regras sociológicas fossem imutáveis ou dependessem de um reduzido número de indivíduos que ditam as regras do como se vestir, ou quais as partes do corpo que devem ser exibidas em público. Isto tem constituído a milenar luta entre os academistas que se opõem a qualquer reforma e os reformistas que sempre pugnam por ela, pois até o clima nos impõe novas mudanças. E desculpem-me o chavão de Lavoisier (1743-1794), «Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.»
Safo, (VII antes de Cristo) a maior poetisa da literatura grega, a sua poesia de conteúdo erótico revelava o protesto da mulher pela dominação masculina, daí dando origem ao lesbianismo, da ilha de Lesbos, e á palavra, lésbica.
No ano de 1863 tem lugar a exposição do salão dos recusados - das obras recusadas - no Salão de Paris da Real Academia Francesa de Pintura e Escultura. Manet e Césane estavam entre os proscritos. Assim se originou o Impressionismo, de Impressão, nascer do sol, (1872) de Claude Monet.
A Maja Nua, uma das mais célebres obras de Francisco de Goya, (1746-1828) em 1814 a Inquisição confiscou-a por a considerar obscena.
A Odalisca é um quadro do pintor Ingres (1780-1867) que retrata a nudez de uma mulher do Império Otomano que podia chegar até a esposa do imperador.
O quadro de Corbet, (1819-1877), A Origem do Mundo, é considerada a obra mais “escandalosa” da história da pintura, porque mostra ao pormenor o sexo feminino, a vulva em todo o seu esplendor.
Já as brasileiras quando os portugueses as descobriram com apenas uma tanga que mal lhes cobria o sexo, deslumbraram-se, enlouqueceram-se de lascívia, mas os sacerdotes cristãos logo os advertiram que isso não era gente, eram coisas, eram demónios. As senhoras portuguesas andavam vestidíssimas da cabeça aos pés, mas mais tarde acabaram pela ostentação da nudez, porque afinal andarem muito tapadas prejudicava a ventilação dos seus sexos e daí as doenças vaginais. Não foi por acaso que se inventaram as saias.
Quando actriz Ursula Andress, no filme, “007 Contra Dr No” ousada sai do mar em biquíni, é o fim do escândalo e o triunfo de mais uma moda.
Antes a sua condenação foi violenta, condenada ao ostracismo: “O pedaço de pano foi, durante muitos anos, considerado escandaloso e a sua utilização foi proibida pelo Papa Pio XII no final da Segunda Guerra Mundial por atentar contra os padrões seguidos pela igreja.”
“Sempre a dizer mal daquilo que é novo, a sociedade apelidou o modelo de imoral e condenava o seu uso nas praias ditas "de família"
“Sabiam que houve países que proibiram completamente o uso do biquíni? Portugal, foi um deles... Mas não nos podemos esquecer que, nessa época, era Salazar quem mandava...”
Da minissaia pouco ou nada há a dizer, pois a sua história é demasiadamente conhecida excepto que não foi Mary Quant quem a inventou pois: “A mais antiga cultura conhecida em que as mulheres usavam minissaias era a Duan Qun Miao, que literalmente significa "saia curta Miao" em chinês. Isso foi em referência às saias curtas "que mal cobrem as nádegas" usada por mulheres da tribo, e que eram "provavelmente chocantes" para os observadores do povo han durante a Idade Média e Idade Moderna.”
Ainda hoje há países que proíbem o uso da minissaia, invocando que não desejam que os costumes ocidentais os pervertam.
Seguem-se-lhe o Hot Pants, um invento de Mary Quant – um calção muito curto que deixa as pernas à mostra - o monoquíni, o topless – só biquíni, xuxas à mostra - o microbiquíni e o fio dental que desafiam o conservadorismo, pois o fim é esse mesmo, escandalizar, provocar.
As praias de nudismo consideram-se normais desde que em circuito fechado e que nunca venham para as ruas, porque é muito escandaloso, passível de violação pois chama, apela o convite ao sexo.
Hoje, nas passarelas da moda, manequins desfilam minúsculos tecidos interiores transparentes que mal lhes cobrem os seios e a genitália, que são aliás por demais nítidos, pois mostram tudo. E não é nenhum escândalo, é perfeitamente normal.
As nossas muílas até ao Namibe andam de seios ao léu e não se consideram indecorosas - muito pelo contrário - são um monumento nacional.
Há muita pedofilia por aí, até as meninas-crianças gemem: «Ai tio, não me faças doer.»Mas não se houve o desenvolver nenhuma campanha nacional para acabar com este escândalo, com esta aberração que de tão vulgarizada que está, já ninguém lhe liga. É o prato do nosso dia-a-dia. É “pedofilar” para a frente.
Sempre assim foi e sempre assim será, com ou sem reminiscências do Cristianismo o collant xuxuado seguirá em frente. “A reacção não passará!”.
(Fontes das pesquisas: Internet)
Imagem: recado.info

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Auscultando a juventude




Ainda jovem, com os seus modestos catorze anos de idade, o Nelo desterrou-se de Benguela, assentou arraiais em Luanda e conseguiu um condomínio na entrada de um prédio, onde uma senhora muito piedosa o tratava como a um filho, até frequentava a sua casa. Estava safo. Fazia biscates, sobrevivia. Alguns anos passados - os anos sempre passam, nunca retrocedem – o Nelo começou a chupar, a engolir bebida da pesada, a simpatia do Best Whisky e do Best Marula Fruit. E claro que aconteceu o previsto, o Nelo foi ruado, porque entrava bêbado e insultava a senhora, inclusive chamando-a de “sua puta de merda”. Já lhe queriam trucidar, a começar pelos filhos da senhora e dalguns vizinhos, mas ela sempre piedosa não o consentiu, preferiu-lhe o desprezo, porque dói mais, conforme ela explicou.
E o Nelo, que levava uma boa vida, a senhora até lhe subsidiava vestuário, calçado e alimentação, viu-se abandonado, atirado na rua do degredo.
E o Nelo como alternativa começou a lavar carros e a fazer parcos biscates. Safava-se, e ao fim do dia já com a receita da tesouraria arrecadada no bolso fazia investida numa mais velha que vendia o Best Whisky, e comprava um saquinho, depois, outro e mais outro, e então já bem bebido, melhor dito, bem bombardeado, ia no prédio da sua agora despiedosa vizinha e lançava-lhe impropérios: «Vai para a puta que te pariu!» E mais ousado: «Vou-te partir a cara sua vaca de merda!»
Isto passou a ser o dia-a-dia na bwala. Mas ouve unanimidade no veredicto dos jurados quando chamados a decidirem qual o futuro do jovem.
Foi, não lhe ligarem, deixarem-no para aí falar, falar. E o Nelo sentindo-se frustrado encetou outro nível de diálogo, o espatifar a entrada do prédio, onde por exemplo, rebentou com as torneiras da água e na entrada já não se andava, se nadava.
Mas perdoaram-lhe optando-lhe pelo desprezo, o que ainda mais o enraivecia. Começou a fumar como um condenado à morte que não espera mais nada da vida. E tão dependente já estava que a senhora que vendia o Best Whisky e cigarros, ele batia-lhe na porta à uma hora da manhã.
E não lhe pedia, cigarros e bebida lhe exigia.
Não encontrando ninguém que lhe fizesse frente, ele considerou que toda a gente tinha medo dele, mas não era assim, porque uma mais velha costumava dizer: «Esse está à procura da morte, de alguém que o mate.»
O Nelo decidiu enfrentar-se com um jovem, o Indiana Jones, que não aceitava insultos de quem quer fosse, muito menos à sua progenitora, e o Nelo cometeu o erro de por aí adentrar: «Vai para a puta que te pariu! A tua mãe é uma grande puta! É hoje que te vou matar!»
E pegou numa garrafa de cerveja abandonada – o cartão-de-visita das nossas ruas - partiu-a e tentou esquartejá-lo, mas o Indiana Jones já habituado a estas aventuras de luta, desarmou-o de um só golpe utilizando a mão como cutelo, o que restava da garrafa saltou-lhe da mão como que por artes mágicas, deu-lhe dois socos que fizeram com que o Nelo se estatelasse no solo quase em estado de nocaute. O Indiana pegou-lhe e lançou-o para o caixote do lixo.
Durante uns dias o Nelo não incomodou ninguém pois estava com a cara em muito mau estado de conservação.
E quando a dependência lhe afligia, o Nelo utilizava alguns estratagemas de sobrevivência alcoólica. Um deles era quando um vizinho otário lhe mandava comprar gás – ele tinha um carro de mão para o negócio - entregava-lhe duas garrafas acompanhadas dos correspondentes kwanzas, o Nelo vendia as garrafas que acrescentando à quantia lhe entregue em mão, era festa, grande torra. E durante quinze dias desaparecia, ninguém lhe sabia.
E o Nelo tornou-se no habitual alarido matinal. Pelas seis horas da manhã ouvia-se burburinho que parecia o de uma grande confusão. Com os nossos ouvidos atentos à espera do pior, tiros para aqui e para ali, a voz do Nelo parecia que lutava com muita gente, mas não, ele decidiu afrontar os seguranças.
Não é nada difícil imaginar os pobres seguranças depois de uma noite de serviço, todos partidos, afrontados pelo sono, ainda terem de suportar os insultos, as ameaças do Nelo como num hospital psiquiátrico com os pacientes à solta: «Eu não os quero aqui, a rua é minha porque antes de vocês chegarem já eu cá estava. Vou correr com vocês, seus filhos da puta de merda. Hoje vou matá-los todos, nenhum vai escapar. É melhor começarem já a fugir.»
Quem manda aqui sou eu! Entenderam seus merdas?! A partir de agora se vir algum de vocês por aqui, MATO-O!!!»
Um ou outro segurança, daqueles que não dá para brincar nem um coxito, desses que não riem, que estão se marimbando, que matam alguém em missão de serviço, falavam-lhe em tom de não deixar dúvidas: «Só te falo uma vez, desaparece daqui senão é hoje mesmo que acabo contigo.» E o Nelo não ligava, só desprezava pois a ilusão da força do álcool fazia-lhe sentir dono e senhor absoluto de tudo, incluindo do mundo.
E ripostava, ameaçava, torturava, ofendia o outro, e o segurança já se preparava para lhe dar o golpe de misericórdia, mas os seus colegas conhecedores profundos da situação bloqueavam-no. E o Nelo também acabou por se cansar e para outras bandas foi pregar.
Parece que o maior erro da sua vida foi quando injuriou, utilizando a verborreia habitual, uma kinguila que se queixou nos seus dois filhos. Foi azar do Nelo: Eles foram ter com ele para pedir explicações. Um deles com um corpanzil lembrando o Incrível Hulk, pegou-lhe, levantou-o como se fosse uma folha de árvore, deu-lhe duas chapadas que parecia que a cara dele ia desaparecer, e ameaçando-o de que para a próxima jogaria à bola com o corpo dele. O Nelo nunca mais se meteu com a kinguila.
E o Nelo tudo e todos surpreendeu, quando com ele uma bonita mulata apareceu. E ele reforçou o trabalho, mas na bebida continuava, sempre omnipresente nela labutava. As lavagens de carros aumentaram, de manhã muito cedo lá estava ele de balde com água, pano e detergente, muitos carros lavava e a facturação aumentava, a mulata sustentava.
De vez em quando os fiscais apareciam, ele estava sempre atento como a leoa na caça, mas mesmo assim uma ou outra vez desleixava a guarda e deixava-se apanhar porque os fiscais montavam-lhe emboscada. E lá ia ele, arrestado com a sua mochila de criança nas costas.
Os fiscais quando a revistavam ficavam embaraçados pois a única coisa que lá existia eram duas embalagens de plástico do tal uísque, a força que está com os lavadores de carros e com os seguranças.
E o Nelo no fim do dia, depois de uma intensa luta laboral, tomava banho, vestia-se todo bonito e de mão dada com a sua amada passeava, na rua se mostrava. Será que o Nelo encontrou a mulher da sua vida? Isso ninguém sabia, mas sim, parecia.
E redobrava no trabalho, pois a sua mulata já vivia com ele na improvisada casa da entrada do prédio.
O rendimento financeiro já era substancial, ele já não bebia, só uma cuca de vez em quando, já estava com juízo, e por isso mesmo o pecúlio já era considerável, e estava à guarda da mulata, ele confiava-lhe.
Alguns meses depois já com uma boa quantia acumulada, é que o jovem trabalhava mesmo com força, e tudo o que ganhava a mulata controlava.
Uma manhã, dessas do tempo ridículo, o Nelo aparece outra vez a gritar, mas desta vez muito diferente, a chorar: «Mulata de merda! Falsa, filha da puta!»
Um segurança perguntou-lhe o porquê da gritaria de desgosto, e Nelo respondeu-lhe: «A mulata afinal andou todo este tempo comigo para me roubar, para me dar o golpe do baú! Fugiu com o dinheiro todo, não me deixou nada!»
E as manas mamãs em sinal de luto moviam as cabeças para a esquerda e para a direita e confessavam com desgosto: «Coitado, está a ficar maluco, é melhor não lhe ligarem, deixem-no ficar para aí, um dia destes alguém vai acabar com ele, ou de tanto beber, numa manhã já não vai mais acordar, viver!»