terça-feira, 17 de setembro de 2013

A casa do sol cercada de petróleo por todos os lados




Nos últimos dias devido à estação das chuvas, a lagoa estava bem gorda, repleta, bem viva, movimentada de água. No céu nuvens escuras queriam dizer que mais água se preparava para cair dele. Mas isso não impedia que à volta da lagoa a vida parasse. Cada um vivia, ou improvisava como podia. E os clientes da lagoa iam chegando, não no número habitual porque a chuva prejudica os investimentos das pessoas, e muitos não se podiam deslocar porque as ruas estavam intransitáveis. Pode-se assegurar que de resto tudo estava estabilizado. Ouvia-se, não, não se pode dizer que se ouvia, a terrível barulheira de uma aparelhagem musical comandada por jovens que a abasteciam com a música mais estridente possível. De tal modo que até para falarmos não conseguíamos, aproximávamos as bocas quase coladas nos ouvidos dos ouvintes, e então não falávamos, gritávamos, deixávamos de ser pessoas, creio que nos parecíamos mais com os animais numa selva aterradora. Ir lá falar com os jovens para que baixassem o som, não adiantava, eles ainda mais o aumentavam. Será que é isto o que resta da identidade cultural do mwangolé? Até nos hábitos alimentares: sandes com muita mostarda e muita maionese. A propósito: amigo leitor sabe o efeito da mostarda no nosso estômago? Pois bem, vou-lhe mostrar: pegamos numa moeda bem usada, daquelas que quase não se consegue ver nada das inscrições. Despejamos-lhe um bocado de mostarda nas duas faces e depois enrolamos, por exemplo, num papel de guardanapo e deixamo-la descansar durante aí dois minutos. Depois retiramos-lhe o guardanapo e a moeda… surge como que acabada de sair da cunhagem. Tudo nela desapareceu. Agora, o amigo leitor já pode facilmente imaginar os estragos que a mostarda faz no nosso estômago. Quando ainda jovem vi essa demonstração nunca mais comi esse condimento.
Voltando aos clientes do cacusso, também vale dizer que com o arrastar do lixo da água das chuvadas a lagoa também era afectada, porque além do lixo a água ficava bastante turva o que dificultava a sua oxigenação e daí o peixe ter dificuldade para respirar, ou morrer, a pesca diminuía e as receitas abrandavam, não compensavam, como se fosse tempo do defeso.
E de repente ouve-se um grito lancinante de criança: o pai olha na direcção do som e vê os seus dois filhos juntos, um com seis anos e outro com apenas um, e o mais velho corre para o pai: «Pai! Ele mordeu-me!» «Pois, tu passas a vida a fazer-lhe judiarias e o coitado enerva-se e morde-te.» E gritando na direcção do pequenino: «Ó seu bebé piranha não mordas mais o teu irmão! Vai para o pé da tua mãe.» Passados alguns minutos, e como é costume dizer, um mal nunca vem só, eis que novamente se faz ouvir a voz do filho mais velho, mas desta vez o grito é bem diferente: «Pai!!! Pai!!!» «O que é porra?!» «Pai, são os chineses que estão aí com camiões para despejarem lixo na lagoa.» «Oh!Oh! mas que porra de merda esta! Vai para casa e fica lá com a tua mãe e o teu irmão.»
O Pai reuniu de emergência o CRB – Constituição da República da Bwala, e enquanto os seus membros se preparavam para o pior, as mamãs, os petizes e os jovens já armazenavam pedras e outras tralhas para repelirem os invasores chineses. E então começaram as conversações entre as duas delegações. Do lado angolano o Pai chefiava, a comitiva marchou e quando se aproximou dos inimigos chineses fez alto. Os chineses assustados pelo elevado número da comissão de recepção, logo viram que não era para festejá-los, dar-lhes as boas-vindas, e o Pai faz o discurso de apresentação: «Quem são, de onde vêm e para onde vão?» Mas os chineses já há muito que estavam habituados a estas manobras dilatórias e posicionam os seus camiões - eram apenas (?) três - e preparam-se com o maior à-vontade para poluir a lagoa com escombros das obras de construção civil deles. Mas como que nascendo do chão uma turba de jovens cerca-os e com gestos indicam que vão apedrejar e depois queimar os camiões. Então um chinês usa a artimanha dos prevaricadores da Lei, que consiste em afirmar que desconhecia a Lei e assim praticar todo o tipo de crimes a bel-prazer. E o representante chinês tenta safar-se: «Chinês não saber falar português.» E o Pai não se deixa desarmar, convencer pela artimanha da sabedoria milenar chinesa: «Estes chineses são o máximo, além de fazerem da China o país mais poluído do mundo, é por isso que agora têm chuvadas que nunca mais acabam que limpam a poluição da terra. Para quem não sabe a Natureza é muito vingativa, e em quem se vinga? No homem, claro, que é o seu pior inimigo. Agora também querem fazer de Angola o país mais poluído de África» E o Pai faz sinal com as mãos aos chineses a indicar-lhes que lhes cortarão as cabeças. E o chinês não desiste, entrega-lhe um telemóvel para o Pai ligar. Mas o Pai não lhe liga nada e já a surra aos chineses se ensaia, está por um triz. A algazarra dos jovens subiu, parece chicotadas sonoras nos ouvidos. Então há que entrar nos camiões e bazar. Claro que foram despejar a poluição aí em qualquer lado. Quer dizer: num lado construir e noutro destruir.
E chegou a hora do almoço, e o Pai já na mesa com a Mãe e os seus dois filhos. Não havia mais ninguém, além de três cães e quatro gatos que habitualmente montavam guarda quando a piroga voltava da faina da lagoa. Pelo menos estavam saudáveis, pois o segredo da longevidade da gataria é o comer peixe fresco. Agora quanto aos vira-latas, esses qualquer coisa lhes serve - até parecem as nossas jovens de agora, que qualquer homem lhes serve - mas também estavam bwe fixes com a frescura dos cacussos. Era esta reduzida família que convivia, se abastecia à mesa porque anormalmente ninguém mais aparecia, pois o Pai era pobre, como aqueles mwangolés que vivem apenas do seu salário, e então não lhe ligavam, nem a família, claro. E o Pai prepara-se para a oração de graças pela comida concedida, e ora: «Pois é, andam por aqui no assédio que vêm construir uma cidade, que vão reconverter esta bwala, que farão desta lagoa outra centralidade. Aventureiros portugueses já nos rondam com propostas de fazer desta lagoa uma bruta estância de turismo para estrangeiros, e que como compensação me darão dois barcos com motores fora de-borda a gasolina, que me pagarão o combustível e pagarão os salário0s de quem neles trabalhar. E a manutenção dos motores? Tudo muito bonito, mas se saio daqui vou mais pescar então aonde? A Mãe e as crianças vão vender cerveja e pinchos para sobrevivermos? Eu sei que eles privatizarão isto, tudo, até as nossas almas, e isso não é a aposta segura de faser da nossa querida Angola outra Argélia?» E pergunta à Mãe: «Já mandaste comprar gasóleo para o nosso gerador? Pois creio que jamais teremos energia eléctrica da rede. A propósito: eu nem sei o que é isso de rede. Será uma rede dessas, tipo cerca de um terreno e de lá sai luz?» E a Mãe com voz triste de partir o coração, responde-lhe: «Nem dinheiro temos para comprar pão para as crianças quanto mais para comprar gasóleo. Se os sênês nas suas cantinas vendessem gasóleo, seria a nossa sorte pois teríamos kilapi.» E o Pai ordena no filho mais velho: «Vai lá na cantina do sênê, diz que o pai mandou dois litros de vinho, diz-lhe também que é para fazer kilapi. Esses sênês já estão com as suas cantinas por todo o lado, os chineses estão em todos os cantos das terras na busca de minérios, os portugueses invadem-nos, estão também por todos os cantos – já são mais de metade dos estrangeiros em Angola, e até dizem que: nas ruas, em dez brancos, nove são portugueses - na venda de sabonetes e quinquilharias e nós, qual será o nosso futuro? Mão-de-obra escrava para abastecer tanto invasor estrangeiro?»