quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Auscultando a juventude




Ainda jovem, com os seus modestos catorze anos de idade, o Nelo desterrou-se de Benguela, assentou arraiais em Luanda e conseguiu um condomínio na entrada de um prédio, onde uma senhora muito piedosa o tratava como a um filho, até frequentava a sua casa. Estava safo. Fazia biscates, sobrevivia. Alguns anos passados - os anos sempre passam, nunca retrocedem – o Nelo começou a chupar, a engolir bebida da pesada, a simpatia do Best Whisky e do Best Marula Fruit. E claro que aconteceu o previsto, o Nelo foi ruado, porque entrava bêbado e insultava a senhora, inclusive chamando-a de “sua puta de merda”. Já lhe queriam trucidar, a começar pelos filhos da senhora e dalguns vizinhos, mas ela sempre piedosa não o consentiu, preferiu-lhe o desprezo, porque dói mais, conforme ela explicou.
E o Nelo, que levava uma boa vida, a senhora até lhe subsidiava vestuário, calçado e alimentação, viu-se abandonado, atirado na rua do degredo.
E o Nelo como alternativa começou a lavar carros e a fazer parcos biscates. Safava-se, e ao fim do dia já com a receita da tesouraria arrecadada no bolso fazia investida numa mais velha que vendia o Best Whisky, e comprava um saquinho, depois, outro e mais outro, e então já bem bebido, melhor dito, bem bombardeado, ia no prédio da sua agora despiedosa vizinha e lançava-lhe impropérios: «Vai para a puta que te pariu!» E mais ousado: «Vou-te partir a cara sua vaca de merda!»
Isto passou a ser o dia-a-dia na bwala. Mas ouve unanimidade no veredicto dos jurados quando chamados a decidirem qual o futuro do jovem.
Foi, não lhe ligarem, deixarem-no para aí falar, falar. E o Nelo sentindo-se frustrado encetou outro nível de diálogo, o espatifar a entrada do prédio, onde por exemplo, rebentou com as torneiras da água e na entrada já não se andava, se nadava.
Mas perdoaram-lhe optando-lhe pelo desprezo, o que ainda mais o enraivecia. Começou a fumar como um condenado à morte que não espera mais nada da vida. E tão dependente já estava que a senhora que vendia o Best Whisky e cigarros, ele batia-lhe na porta à uma hora da manhã.
E não lhe pedia, cigarros e bebida lhe exigia.
Não encontrando ninguém que lhe fizesse frente, ele considerou que toda a gente tinha medo dele, mas não era assim, porque uma mais velha costumava dizer: «Esse está à procura da morte, de alguém que o mate.»
O Nelo decidiu enfrentar-se com um jovem, o Indiana Jones, que não aceitava insultos de quem quer fosse, muito menos à sua progenitora, e o Nelo cometeu o erro de por aí adentrar: «Vai para a puta que te pariu! A tua mãe é uma grande puta! É hoje que te vou matar!»
E pegou numa garrafa de cerveja abandonada – o cartão-de-visita das nossas ruas - partiu-a e tentou esquartejá-lo, mas o Indiana Jones já habituado a estas aventuras de luta, desarmou-o de um só golpe utilizando a mão como cutelo, o que restava da garrafa saltou-lhe da mão como que por artes mágicas, deu-lhe dois socos que fizeram com que o Nelo se estatelasse no solo quase em estado de nocaute. O Indiana pegou-lhe e lançou-o para o caixote do lixo.
Durante uns dias o Nelo não incomodou ninguém pois estava com a cara em muito mau estado de conservação.
E quando a dependência lhe afligia, o Nelo utilizava alguns estratagemas de sobrevivência alcoólica. Um deles era quando um vizinho otário lhe mandava comprar gás – ele tinha um carro de mão para o negócio - entregava-lhe duas garrafas acompanhadas dos correspondentes kwanzas, o Nelo vendia as garrafas que acrescentando à quantia lhe entregue em mão, era festa, grande torra. E durante quinze dias desaparecia, ninguém lhe sabia.
E o Nelo tornou-se no habitual alarido matinal. Pelas seis horas da manhã ouvia-se burburinho que parecia o de uma grande confusão. Com os nossos ouvidos atentos à espera do pior, tiros para aqui e para ali, a voz do Nelo parecia que lutava com muita gente, mas não, ele decidiu afrontar os seguranças.
Não é nada difícil imaginar os pobres seguranças depois de uma noite de serviço, todos partidos, afrontados pelo sono, ainda terem de suportar os insultos, as ameaças do Nelo como num hospital psiquiátrico com os pacientes à solta: «Eu não os quero aqui, a rua é minha porque antes de vocês chegarem já eu cá estava. Vou correr com vocês, seus filhos da puta de merda. Hoje vou matá-los todos, nenhum vai escapar. É melhor começarem já a fugir.»
Quem manda aqui sou eu! Entenderam seus merdas?! A partir de agora se vir algum de vocês por aqui, MATO-O!!!»
Um ou outro segurança, daqueles que não dá para brincar nem um coxito, desses que não riem, que estão se marimbando, que matam alguém em missão de serviço, falavam-lhe em tom de não deixar dúvidas: «Só te falo uma vez, desaparece daqui senão é hoje mesmo que acabo contigo.» E o Nelo não ligava, só desprezava pois a ilusão da força do álcool fazia-lhe sentir dono e senhor absoluto de tudo, incluindo do mundo.
E ripostava, ameaçava, torturava, ofendia o outro, e o segurança já se preparava para lhe dar o golpe de misericórdia, mas os seus colegas conhecedores profundos da situação bloqueavam-no. E o Nelo também acabou por se cansar e para outras bandas foi pregar.
Parece que o maior erro da sua vida foi quando injuriou, utilizando a verborreia habitual, uma kinguila que se queixou nos seus dois filhos. Foi azar do Nelo: Eles foram ter com ele para pedir explicações. Um deles com um corpanzil lembrando o Incrível Hulk, pegou-lhe, levantou-o como se fosse uma folha de árvore, deu-lhe duas chapadas que parecia que a cara dele ia desaparecer, e ameaçando-o de que para a próxima jogaria à bola com o corpo dele. O Nelo nunca mais se meteu com a kinguila.
E o Nelo tudo e todos surpreendeu, quando com ele uma bonita mulata apareceu. E ele reforçou o trabalho, mas na bebida continuava, sempre omnipresente nela labutava. As lavagens de carros aumentaram, de manhã muito cedo lá estava ele de balde com água, pano e detergente, muitos carros lavava e a facturação aumentava, a mulata sustentava.
De vez em quando os fiscais apareciam, ele estava sempre atento como a leoa na caça, mas mesmo assim uma ou outra vez desleixava a guarda e deixava-se apanhar porque os fiscais montavam-lhe emboscada. E lá ia ele, arrestado com a sua mochila de criança nas costas.
Os fiscais quando a revistavam ficavam embaraçados pois a única coisa que lá existia eram duas embalagens de plástico do tal uísque, a força que está com os lavadores de carros e com os seguranças.
E o Nelo no fim do dia, depois de uma intensa luta laboral, tomava banho, vestia-se todo bonito e de mão dada com a sua amada passeava, na rua se mostrava. Será que o Nelo encontrou a mulher da sua vida? Isso ninguém sabia, mas sim, parecia.
E redobrava no trabalho, pois a sua mulata já vivia com ele na improvisada casa da entrada do prédio.
O rendimento financeiro já era substancial, ele já não bebia, só uma cuca de vez em quando, já estava com juízo, e por isso mesmo o pecúlio já era considerável, e estava à guarda da mulata, ele confiava-lhe.
Alguns meses depois já com uma boa quantia acumulada, é que o jovem trabalhava mesmo com força, e tudo o que ganhava a mulata controlava.
Uma manhã, dessas do tempo ridículo, o Nelo aparece outra vez a gritar, mas desta vez muito diferente, a chorar: «Mulata de merda! Falsa, filha da puta!»
Um segurança perguntou-lhe o porquê da gritaria de desgosto, e Nelo respondeu-lhe: «A mulata afinal andou todo este tempo comigo para me roubar, para me dar o golpe do baú! Fugiu com o dinheiro todo, não me deixou nada!»
E as manas mamãs em sinal de luto moviam as cabeças para a esquerda e para a direita e confessavam com desgosto: «Coitado, está a ficar maluco, é melhor não lhe ligarem, deixem-no ficar para aí, um dia destes alguém vai acabar com ele, ou de tanto beber, numa manhã já não vai mais acordar, viver!»