quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O empresário luso-angolano (16)




- Oh! Eu já os conheço. Escondeu-se ou foi para Benguela… para fugir ao pagamento das dívidas. Sei que o Heitor comunica regularmente com ele. Quando lhe pergunto onde está o dinheiro que me deve, ele responde-me como faz com toda a gente, que isso é com ele, que não sei nada disso.
Para entornar o absurdo do ambiente a Secretária aparece. Vem com um telemóvel bem visível preso no cinto das suas calças.
- Vim apenas para o cumprimentar... para saber como vão as coisas por aqui.
- Fico contente pela sua visita... as coisas por aqui continuam na mesma.
- Bem, já está visitado… vou para a padaria.
Chega um fax. Olho para ver do que se trata. É do Vieira, diz que quer falar urgentemente com o irmão, para eu o chamar e que venha para junto do fax. Assim fiz. Era verdade, Vieira estava em Benguela. Heitor envia-lhe um fax a informar que está presente. Do outro lado vem a resposta em letras grandes escritas à mão. MUITO URGENTE. VAI AO COFRE E RETIRA DINHEIRO PARA COMPRAR TIJOLOS E CIMENTO. ARRANCA JÁ COM AS OBRAS. VOU FECHAR A DELEGAÇÃO DE BENGUELA. ATÉ BREVE.
Deixei de frequentar a boate devido ao barulho infernal e ao ambiente fechado. Por mais que se tentasse não era possível retirar o fumo dos cigarros, mesmo com o ar condicionado sempre ligado. Isto é muito prejudicial para a nossa saúde. Ademais para regressar, o Jacinto tardava intencionalmente a dar-me boleia. Uma das vezes saí quase às três da manhã.
Ao findar do dia observo que Jacinto está presente. Não notei a sua entrada. Vem na minha direcção. Penso que me vai criar complicações. O seu rosto está pálido, faz lembrar um cadáver. Fico na expectativa. Fala-me com voz gutural:
- Empreste-me vinte dólares que depois de amanhã pago-lhe.
Lixaram a vida do pobre velho. Coitado. - Meditei
Eu sabia que ele nunca me pagaria. Mesmo assim entreguei-lhe a quantia que me pediu.
Muito obrigado. - Disse-me torturado.
Em seguida fez menção de que queria dizer-me mais alguma coisa. Convidei-o a prosseguir.
- O que o Vieira está aqui a fazer, e o que os outros portugueses fazem, é uma desumanidade sem limites. Não falo dos outros estrangeiros, apenas dos nossos compatriotas. Já trabalhei com o Director nos Caminhos de Luanda. Esse então está podre de rico. Onde vê dinheiro, as suas mãos já não o largam. No fundo são lavagens de dinheiro que o Governo português aceita, só não entendo porque não efectua o controlo da origem destes dinheiros?
Jacinto continua com as suas lamentações.
- No colonialismo os portugueses respeitavam a lei da Metrópole. Agora retornaram em força. Instituíram a corrupção. Já não obedecem às leis da Metrópole. Aqui criaram as suas próprias leis. Colonizadores silenciosos. Ninguém se dá conta que estão a rapinar Angola. Eles, os brasileiros e mais os chineses estão a massacrar os angolanos. Tudo o que apanham não devolvem. Nem um simples CD virgem. Até isso roubam… bandidos da pior espécie.
Nunca mais o vi. Convenci-me que teria falecido. O Chileno também deixou de aparecer. Também nunca mais o vi.
(A aprendizagem demora muito tempo. Formar um Homem envolve muitos custos. Hoje em dia ninguém está interessado em formar nada. Investir na educação é muito caro, investir na má-educação é muito barato. É por isso que os políticos e as suas políticas quando abrem as bocas todo o edifício se desmorona. Porque faltou-lhes o investimento educacional.)
Nos caminhos de Luanda a Chefe informa-me que será nomeado um novo director. Aproveito para lhe perguntar:
- E o Director?
-Oh! Já ganhou, ou melhor, já roubou o suficiente. Vai para a sua terra, para Portugal.
Sabia que ele era português, mas fingi que desconhecia:
- Parece-me que ele é… angolano.  Quando reinaugurava algo aparecia fardado e armado… vi isso na televisão.
- Aquilo era uma pura palhaçada, percebe? O que ele queria era dar nas vistas, chamar a atenção de que era um grande revolucionário. É mais um português colonialista, disfarçado de comunista.
- E não era?
- Não! De maneira nenhuma. O que ele queria era dinheiro. Já lhe disse que ele raramente por aqui aparecia. Não ligava absolutamente nada. Só se  preocupava com as comissões que as empresas lhe pagavam no estrangeiro.  Ele é que fazia os contratos. Como isso começou a dar nas vistas suspenderam todos os investimentos. Como já tem o suficiente, vai-se embora. Olhe, aproveito para lhe dizer que o novo director antes de tomar posse, já está a exigir a apresentação de contas. Disse que vai pôr o Director em tribunal. É por isso que ele a qualquer momento embaçará.
- Mas, não temos condições de trabalho.
- Este não quer saber disso. Diz, que se pagamos, o problema não é nosso. E que nada temos a ver com a sua empresa. O responsável pela contabilidade é o senhor. Recomendo-lhe que se safe como puder.
Tentei defender-me:
Sempre a eterna questão. O técnico de contas é que é o culpado de tudo. E mais: lembro-lhe que estou num país em que os contabilistas não gozam de protecção.
A Chefe saiu sem me dar atenção.
Heitor vinha sempre ao fim da tarde enviar e receber faxes. Disparo-lhe:
- O doutor?
- O Vieira? Diz que no fim-de-semana está aqui.
No último exercício contabilístico e depois do fecho das suas contas, notei o seguinte:
Vieira parte para a Europa em Dezembro. Regressa em Fevereiro do ano seguinte. Não pagou os vencimentos de Dezembro. Não pagou o décimo terceiro mês. Em Fevereiro paga os vencimentos de Dezembro. Com isto obtêm 26.000 dólares de auto-financiamento. Em pagamentos de documentos falsos, 42.000 dólares. Emissão de saídas de caixa a simular que pagou as rendas aos Caminhos de Luanda, 59.000 dólares. O que representa 101.000 dólares de fuga ao fisco. No total obteve um auto-financiamento de 127.000 dólares.  Mais uma vez omitiu na contabilidade as suas contas bancárias em dólares. Vendeu as vinte viaturas que serviam de apoio aos serviços de segurança devido ao encerramento da prestação de serviços.

(Está toda a gente a carregar brutos reservatórios de água e geradores para os prédios. Que vão desabar pois claro. O peso é tremendo, as estruturas estão envelhecidas. Que grande desorganização. É só irresponsáveis. Incompetentes… e é claro acompanhados de muitos aventureiros. Isto é o Inferno. Tudo funciona na horripilante mentira. Na genuína distorcida mitologia Bantu?)

Não efectuou o seu abate, o que representa mais uma fuga ao fisco. Se considerarmos como média os 101.000 dólares de fuga ao fisco, vezes 1.000 empresas teremos 101.000.000.00 cento e um milhões de dólares. Vezes 2.000 empresas teremos 202.000.000.00 duzentos e dois milhões de dólares.  Por aqui se pode ver facilmente porque é que Angola é o Eldorado. Todos querem vir para aqui,  porque o enriquecimento é fácil. Mas, o valor é muito superior devido às grandes corporações, especialmente as de construção civil. Esta quantia serviria perfeitamente para criar empregos, e ajudar imenso a combater a fome. Mas, é preferível andar, navegar à deriva.
No exercício seguinte Vieira burla o fisco com a emissão de documentos falsos no valor de… 3.800.000.00 –  três milhões e oitocentos mil dólares. É o que se chama ganhar muito dinheiro sem trabalhar.  Este país é maravilhoso. Interessante é notar que numa das suas empresas fictícias as iniciais são… SS.
Oiço gritaria lá em baixo.  Só pode ser o Vieira. A barulheira está próxima. É ele:
- Já cheguei, estás bom?
-Estou.
- Deixa-me despachar estes gajos que já falamos.
 Já não havia ninguém. Perguntei-lhe:
- Vieira o que é que aconteceu com a Secretária?
- Ainda não sabes?
- Não.
- Ela e o chefe da padaria vão casar.
- Oh!
- Foi amor à primeira vista. Ela não tratou nada da matrícula da universidade. Ia mas era encontrar-se com ele. Bastou ele oferecer-lhe um telemóvel, e já está. Ela está convencida que a padaria lhe garante muito dinheiro... já está grávida.
Imagem: autor desconhecido