quinta-feira, 11 de outubro de 2012

AS CINCO MAGNÍFICAS (16) Contém cenas eventualmente chocantes




Custava-me a acreditar no que o jovem me dizia. Quanto mais me falava, mais me sentia noutro mundo. Naturalmente que ele compreendeu facilmente o que se passava:
- Vizinho, essas mulheres não servem para ti. São muito perigosas. São viciadas. São mulheres socialistas. O que elas querem é arranjar dinheiro e gastarem-no com outros homens. Tens que ter muito cuidado. Deixa essas mulheres. Sentem-se muito felizes a roubarem tudo o que podem. E se não ficas atento, vão buscar o resto da quadrilha e ficas sem casa. Elas só querem é andar na moda. Qualquer homem lhes serve.
Era mais do que suficiente. Tinha jurado a mim mesmo que mais nenhuma mulher me faria pouco. Iria preparar a minha vingança.
Jandira vem muito sorridente. Faço um esforço para retribuir. Mostra-me a sua hipocrisia:
- George, este mês está a acabar. Não te esqueças da minha mensalidade.
- Pois não querida.
- Vejo que já te passou a má disposição. Despe as calças. Deves estar muito cheio. Vou-te despejar tudo.
- Não, não me sinto bem.
- Hoje é sábado, por acaso vais sair?
- Não! Daqui a pouco vou-me deitar.
- Óptimo. Vou levar alguma coisa para comer. Também estou muito cansada. Estudar, parece que não, é muito cansativo. Também me vou deitar cedo. Tchau meu querido. Desejo-te uma noite muito feliz.
Iria fazer-lhe a maior surpresa desagradável da sua vida. Uma lição que jamais esqueceria. Decidi que não dormiria. Sentia-me como um louco do amor. Quando se ama verdadeiramente, é como se estivéssemos próximo de Deus. Sentimos um poder incrível. Não tememos nada. Desafiamos a morte. Depois desse amor profundo, surge um ódio carregado do que dele resta.
Fiquei atento aos sons da porta da sua casa. Não parava de beber cerveja. Pelas vinte e três horas ouvi um som familiar. O som dos seus passos na escada era inconfundível. Eram os seus sapatos de salto alto que bem conhecia. Ia muito apressada. Corri para a varanda e esperei pela sua passagem. Ia apressada, via-a entrar num carro que a esperava. Entrou e tive tempo de ver o abraço e o beijo que deu àquele que a esperava.
Mudei para o conhaque. Não sentia sono. Fiz da varanda quase uma cama. Esperaria que ela chegasse. Adormecia encostado ao gradeamento da varanda, e quando acordava bebia um pouco de conhaque. Era a noite mais terrível da minha vida. Quando me levantava não conseguia caminhar regularmente. Estava tonto por causa do sono e da bebida. Depois da longa vigília, por volta das cinco da manhã, vi um carro chegar. Um vulto saiu apressadamente e entrou no prédio. Pelas características só podia ser ela. Corri para a porta e fiquei atento. Ouvi um leve barulho na porta em frente. Abri a porta silenciosamente, mas um leve barulho denunciou-me. Ela desconfiada voltou-se e encarou-se comigo. Ficou como uma estátua. Abriu a boca com espanto. Não conseguia fechá-la. Disse-lhe:
- Jandira, entra para conversarmos.
Estava como um autómato. Entrou e encostou-se no primeiro local que encontrou, o lava-loiça da cozinha. Fui buscar o copo e enchi-o com conhaque. Bebi mais. O que restava do nosso amor estava consumido no conhaque, que fluía no meu cérebro:
- Jandira, vou desgraçar a tua vida para sempre.
- George, espera deixa-me explicar.
- Não é necessário, já sei tudo.
- Quem te contou?
- Jandira, podes-me explicar porque é que tens o lábio inferior da boca inchado e muito transparente?
- Ah, é das garrafas de gasosa.
- Passaste a noite a chupar garrafas de gasosa? Jandira, vou fazer escândalo na tua casa.
- Não, por favor não me faças isso.
- Vou fazer sim.
O seu corpo começou a tremer descontrolado. As calças ficaram molhadas. Jandira não conseguia aguentar a urina que lhe escorria até aos pés. Suplicou-me:
- Por favor não me exponhas na minha família.
- Dá-me a chave de casa.
Muito atrapalhada, procurou na sua carteira. Teve que despejar o seu conteúdo:
- Está aqui. Mas, por favor não me abandones. O que será de mim?
- Somos marido e mulher, ou não?
- Somos sim, para toda a vida.
- Então vai buscar metade do que eu gastei contigo.
- Não estou a entender.
- Estão aqui as contas, quero metade do valor.
Abriu as portas silenciosamente e voltou pouco tempo depois. Trouxe roupa e algum dinheiro:
- Isto chega para pagar?
- Parece-me que sim. Agora falta o resto. Denunciar tudo à tua família.
Colocou-se à minha frente de joelhos no chão a implorar:
- Não me faças isso. Faço tudo o que tu quiseres. Sabes, eu sou muito fraca de cabeça. Esta minha cabeça não dá nada.
- Mereces umas boas chapadas na cara.
- Sim, tens razão. Bate-me, bate-me com muita força. Mereço isso, vá bate-me, bate-me.
Nunca apreciei bater numa mulher, e condeno os que o fazem. Dei-lhe uma leve chapada na face:
- Isso, vá bate-me, bate-me meu amor. Dá-me mais tempo até aprender a ser mulher. Perdoa-me, perdoa-me.
- Não, não te vou perdoar.
- Então vou-me matar.
- Acho que é a melhor coisa que podes fazer. Assim resolves os nossos problemas do modo mais fácil.
Foi para a varanda, inclinou a cabeça e um pouco do corpo. Olhou para baixo e ficou indecisa. Eu sabia que era um truque para tentar desorientar-me. Antes tinha feito um estudo sobre suicídios, e sabia que os suicidas nunca anunciam os seus actos. Esperam que sintamos compaixão. Isso dá-lhes força. Pelo contrário, reagi brutalmente. Peguei-lhe nas pernas e deixei-a suspensa no vazio:
- Queres matar-te? Vou ajudar-te.
O seu corpo agitou-se freneticamente. As suas pernas de repente ganharam vida. Parecia uma égua que queria dar coices. Pousei-a calmamente no solo:
- Desistis-te de te matar?
Não conseguia falar. Abraçou-me e chorou intensamente. Colocou-se novamente de joelhos:
- Perdoa-me por tudo o que te fiz.
- Então confessas que me fizestes muita maldade?
- Sim, confesso. Fui muito maldosa contigo. Perdoa-me meu amor. Faço tudo o que quiseres. Mas não vás lá em casa. Não me exponhas a isso.
- Já te disse que vou na tua casa queixar-me.
- Olha, acho que a minha pressão arterial está a ficar muito baixa. Não consigo manter-me em pé. Se morrer foi por causa de ti.
- Jandira põe-te a andar. Se morreres, ainda bem. Nunca mais me farás nenhuma maldade.
- Dá-me ao menos um simples beijo de despedida. Para me recordar destes últimos momentos.