segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O REI DO PETRÓLEO (04)



RCE - República dos Comités de Especialidade, algures no Golfo da Guiné.

No palácio, a festa dos biliões de dólares chineses não acabava, há alguns meses que durava. Festejos como estes duram intermináveis meses, e ninguém no seu perfeito juízo – desconhece-se quem o tinha – estava disposto a encerrá-la. Biliões de dólares não é todos os dias que se conseguem, e a classe dominante, sempre a mesma até que já pareciam fantasmas, prometia eleições mas perante uma oposição de lesmas o Rei do Petróleo fazia o que queria e bem entendia, porque nenhum partido político com assento parlamentar numa assembleia nacional que só tinha esse nome, onde o ridículo se impunha e a oposição muito anedota se queixava nos órgãos ditos de soberania, mesmo sabendo de antemão que isso não resultaria, continuava, chorava sem nada digno de louvor, como pobres peixes na boca do tubarão que os engolia sem dó nem piedade… e os pobres de espírito da oposição continuavam, nadavam a lengalenga do sem solução, a queixarem-se aos estrangeiros em vão. Quer dizer, a RCE arde e para apagar o fogo pede-se auxílio aos bombeiros internacionais. E o Rei do Petróleo sorria e na sua falsa complacência para si dizia: «Mas que manada de parvalhões que tanto me fazem rir. Ó, como adoro este circo onde imensos palhaços não lhe faltam. Um dia destes vou contratá-los para um espectáculo de grande envergadura no meu palácio. Confesso que me sinto abismado por não ter nenhum líder da oposição que me possa enfrentar. E onde os presbíteros se rendem sob as minhas ordens, estou mandatado a fazer muitas desordens porque só a Deus devo contas tal e qual como por Ele fui eleito. Não sou das coisas terrenas, tenho o poder divino de chacinar e esse poder Deus mo concedeu.»
Os acontecimentos sucediam-se até chegarem ao horripilante ponto da mortandade vulgar. A morte sucedia-se inexorável como se constasse num artigo da constituição. A RCE ia para os precipícios da matança africana sob o esgar da máscara da morte da Igreja que os abençoava, pois, depois da matança vem a cruz levantada ao céu sob o ajoelhar dos crentes da religião da escravidão. Onde há excesso de religião há destruição da nação. É inconcebível que as instituições da Igreja funcionem como um partido político de um país. Sim, o Vaticano é um país com um único partido, a Igreja.
A RCE tornou-se no grande escoadouro da miséria internacional. Exércitos de moribundos económicos chegavam, como o rastejante exército português de miseráveis que declaravam que vinham ajudar os seus homólogos da RCE. Dono de uma extraordinária visão empresarial, Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro português, ordenou o envio de milhares de portugueses para o Vietname da RCE. Os pobres coitados não sabiam que a qualquer momento a morte os aguardava na insegurança do dia-a-dia, pois onde há muita miséria, há muita fome, e quando estas duas coisas se combinam as nossas vidas não têm nenhum valor.
Tudo se desmoronava, nada restava. Era arrepiante ver os escombros do terramoto político e social da extinta sociedade onde os valores se perderam, se abandonaram, ao esterco da vida se entregaram. Esta gente adoptou a lei da palhaçada do: já vou aí, depois falamos, daqui a pouco falamos, ou, amanhã passo aí sem falta, significando que não conseguiram sair da escravidão colonial portuguesa e muito menos serão capazes de saírem da escravidão chinesa ou de qualquer outra. Como ninguém sabe o que é um compromisso, e claro, não está em condições de o honrar, então não adianta pensar no projecto Nação, porque está definitivamente encalhado. A RCE não é diferente dos outros países africanos, é em tudo semelhante.
E os agentes secretos do Rei do Petróleo lavam as mentes dos que saíram de uma escravatura e entram noutra: «Antes fomos colonizados pelos portugueses, agora pelos chineses. Vamos ver se a colonização chinesa é melhor que a portuguesa.»
E que não devemos depender do dólar. Pois não, se não os há, claro que deles não se dependerá. E aqueles economistas pobres coitados que defendiam que graças á divina clarividência do eterno grande líder – apesar de os países de todo o mundo serem afectados pela crise – na RCE nunca, jamais, porque era um Estado governado por um deus e um povo muito especial. Agora já declaram solenemente que a crise afinal está aqui, e que daqui não quer sair. E que se não fossem os chineses, ai que seria de nós!
Da RCE nada há a fazer, a não ser vê-la desaparecer.
Os vizinhos dizem para termos cuidado com o que falamos, porque andam muitos nas ruas a escutar o que dizemos para depois entrarmos na lista dos alvos a abater.
As demolições dos casebres continuam para criar estaleiros para o milhão de chineses que aí vêm. Mas, a trapalhada é os saques, pois carregam bens dos desalojados, como geradores, arcas de congelação e outros bens.
Entretanto o Banco Mundial alertava que a RCE não tinha dinheiro para pagar as suas dívidas.
Os colonos chineses chegavam e um exército de escravos os aguardavam, saudavam, pois, com uma população e oposição que são como cães que ladram, logo não mordem. Alguma gente nascida na colonização portuguesa resignada, com a maior naturalidade da fatalidade estampada nos rostos dizia que já estavam habituadas a isso, e que se os chineses reinauguravam a colonização, preparavam os corpos para os novos/velhos chicotes, pois a vida de africano é para escravizar, neocolonizar. Mas a juventude não ia nessa conversa, pois não nasceu sob as ordens coloniais, e como tal o poder do Rei do Petróleo não lhes resistiria.
Em todo o lado a revolta fervilhava e uma insurreição geral se preparava, escutava. Quando a fome aperta, nos estômagos acende-se o rastilho da revolta, pois a fome não se combate com balas e exércitos presidenciais ou nacionais. Quando isto acontece, e na RCE acontecia, já era lugar-comum, aos poucos ouvia-se a música do número dos descontentes que davam os primeiros passos de gigantes para acabar com o sofrimento, com a humilhação, com a fome, com a escravidão. Para fechar para sempre os portões dos condomínios dos que têm tudo e dos que nada têm.
Governar sob a desgraça do petróleo é a população matar.
A população vivia como que preparada para o outro matadouro asiático que à força despontava. Nunca com tanta facilidade se conseguiu abocanhar, espoliar a terra dos autóctones entregue de bandeja a invasores chineses que decerto empregarão as mesmas tácticas que os franceses usaram na Argélia colonial.
Que Estado, que país, que nação é esta que entrega as terras, as instituições e as suas populações a gente que nunca esteve na RCE? Não é normal, é a mais terrível monstruosidade praticada por quem não tem escrúpulos pelas leis do Direito, pela sua advocacia e pela morte definitiva da Constituição. E viver com estas coisas é salvar-se da outra constituição instituída, a dos demónios infernais.
As leis nascem e logo morrem, porque aqueles que as criam não as cumprem. Então, governar é o tudo adiar, às hienas e abutres nos entregar, devorar.
A noite chega, e com ela o silêncio do nada mais há em que acreditar e em quem confiar. Há tantos e tantos anos que a parca oposição se deixa manietar, e sem chefes para nos comandar, o Rei do Petróleo está à-vontade para a RCE hipotecar.
Onde estão os homens honestos e as mulheres libertadoras desta terra? Jazem algures por aí na terra que muito brevemente os chineses as suas ossadas desenterrarão, e logo como heróis se levantarão e esta terra LIBERTARÃO!
Os analfabetos dominam, dominam-nos!

Imagem: autor desconhecido