segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O REI DO PETRÓLEO (06)



RCE - República dos Comités de Especialidade, algures no Golfo da Guiné.

Sob a palavra de ordem, entreguemos a RCE aos chineses, no palácio, o Rei do Petróleo recebe a azáfama diária de todos os momentos, da fidalguia, dos outros nobres e do que lhes resta dos dividendos do petróleo, que a cada mês se vê desaparecer de vês. As coisas vão desaparecendo das prateleiras dos estabelecimentos comerciais porque quem depende do petróleo aniquila a população à fome, e rejubila pela sua constitucional erradicação. O comité de especialidade dos bajuladores está sempre alerta na actividade desperta da pátria dos seus vendedores. Com uma simples graxa conseguem num minuto o que o trabalho honesto de uma vida o sábio não consegue.
E os chineses avançavam, tudo tomavam. Os arredores da cidade já eles somavam, multiplicavam. Na RCE só um homem tinha ideias – aos outros, a nenhum isso não era permitido porque logo corria o risco de ser abatido - para diversificar a economia que estava no colapso e não havia dinheiro para nada, também ninguém conseguia, não sabia explicar o motivo porque tal acontecia. Mas porque é que de repente uma montanha de dólares superior ao cume do monte Evereste desaparece assim da noite para o dia? Ninguém sabia! O Rei do Petróleo com a sua política, batia palmas e alinhavava que, da maneira que isto está, creio, dizia, que se pretendia o regresso rápido da escravatura, aliás o nosso martirizado povo já está na formatura.
Convém salientar que há malucos que fingem ser pessoas normais, assim como há demónios que se disfarçam de pessoas.
E assim a milenar tragédia humana permanece na valorização da perseguição dos que têm valor, dos que têm ideias válidas, valorosas para que as sociedades avancem. Na RCE, diariamente, a todo o momento perseguem-se e enviam-se para as inúmeras fogueiras os Giordanos Brunos que ousam afirmar que as riquezas da RCE estão nos cofres de uma família da desgraça.
O exército dos desempregados fortalece-se com assíduos aderentes de todas as frentes. Por exemplo: Na sempre salutar e exemplar NCR há muitos despedimentos, às moscas estão os comerciais estabelecimentos. O mais importante é destruir e do poder dele não sair. Porque é sempre melhor acreditar que nele se pode muito demorar, quando na verdade nele se vai atolar, imolar, incendiar, atrozmente acabar.
E no palácio sempre a cada dia mais fortificado, o chefe da Polícia visitou, orientou os comandos da corporação para que fiquem em estado de prontidão combativa porque a qualquer momento a população salta para as ruas e nelas exercerá o seu há muitas dezenas de anos, o seu recusado direito de cidadania.
Há muitas armas em poder da população e aqui reside o receio dela vir para a rua em peso, porque a cidade será regada de sangue, tudo ficará vermelho, que Deus nos livre de tal coisa. Mas parece bem que não, porque o poder o deseja, o almeja na sua final rendição.
É um dia de cacimbo das noites gélidas e muito húmidas, onde os deportados para o ar livre dos inventados zangos caiem como moscas sem uma manta quentinha que os abrigue, especialmente os mais pequeninos, os tais pioneiros continuadores da gloriosa revolução marxista-leninista, agora atulhada pela chinesa imposição comunista, do dar à criança tudo o que ele merece, a morte. O frio das noites e do romper das manhãs estremece os corpos, agita-os, enregela-os no cárcere cadavérico da opressão, no cemitério nacional da exclusão social. No nevoeiro deste cacimbo se anuncia a revolução da propícia ocasião. Os oprimidos e injustiçados serão glorificados.
É necessário e urgente que nos libertemos da angústia permanente do morrer pela fome, pelas balas, pelas torturas ou abandonados numa prisão sem culpa formada.
Até a um advogado lhe fizeram a cassação da sua carteira profissional por motivos políticos. Já nem opiniões podemos formar porque corremos o risco do triunvirato nos eliminar.
Esta democracia é como uma víbora venenosa que está sempre pronta para nos desferir a sua mordedura mortal.
E no nevoeiro dos zangos dos guetos prostrados reina a miséria dos abandonados, o poder do nevoeiro é cerrado, quem ainda vive será pelo navio negreiro fuzilado.
No palácio do Rei do Petróleo o regozijo é intenso, já virou moda, pois tudo o que acontece, por mais insignificante que seja é motivo de festejo. E o Rei do Petróleo celebra mais um dos discursos do seu louvor, porque não havendo quem o faça ele fá-lo como o anúncio do poder de Deus, aliás ele já o suplanta e até já orientou que escrevam, imprimam e distribuam a sua bíblia intitulada: DEUS SÓ HÁ UM, EU E MAIS NENHUM! Claro que na Igreja e nas igrejas o êxito estava de antemão assegurado, pois o poder do dinheiro e das armas é a mais forte religião e contra ela, eles, não há oposição.
- Caros camaradas, caros membros desta grande empresa anónima que é a RCE, caros bajuladores, caros generais que me garantem o poder absoluto, patriotas em geral: uma das cláusulas dos acordos secretíssimos do apoio chinês é a extinção por todos os meios desses jovens do tal movimento revolucionário. Os primeiros passos já foram dados, os desgraçados jazem já na prisão de Calomboloca do fim do mundo. Outra exigência dos biliões de dólares do governo chinês prende-se com a extinção da oposição. Com o degredo da acusação do golpe de estado sobre esse processo dos quinze, brevemente só lhes restarão ossadas, creio que nem isso, pois os seus corpos desaparecerão misteriosamente para que não se crie a romaria dos mártires, e a tal parva da oposição política parlamentar e extraparlamentar também será decepada, também em Calomboloca encarcerada e pelos jacarés festejada. E assim, caros camaradas e companheiros de luta se encerrará mais um capítulo da nossa gloriosa e revolucionária luta. Viva o comunismo chinês e a sua fortaleza fortemente implantada na RCE!
Um general sempre de ar marcial como convém, ar grave, denso como uma forte tempestade, um vulcão, um ciclone, uma forte trovoada, arremessou o seu aríete:
- Mestre do Petróleo, salvador da pátria permanentemente ameaçada pelos golpistas do 27 de Maio, arquitecto da paz e da guerra duradoiras, do bem-estar e felicidade das nossas famílias e do nosso povo… e que faremos do tal da oposição… esse Chamauva?
- Bom… esse é a coisa mais parva que aconteceu em quarenta anos da RCE, o homem é tão pobre, tão insignificante de imaginação. Bom… deixem-no nos americanos se queixar que nós continuaremos com os nossos amigos chineses a avançar, os opositores a liquidar. Bom… com tão insignificante oposição que mais perece cães de guarda e como tal apenas ladram, construiremos outro Reich, um império empresarial. Ai de quem nos ouse criticar, enfrentar, pois os nossos exércitos não são de brincar, são para atirar a matar.
O alcoolismo, o melhor amigo do homem, venceu e convenceu. A bola está sempre do seu lado nesta cidade, nesta nação. Pouco falta para lhe chamar república alcoólica. De tal modo que é assustador o volume de alcoólicos. E todos unidos no álcool pereceremos.
O lixo invadia a cidade, mas no palácio ninguém disso se apercebia, porque se sentia que o lixo é a habitual, a cómoda boa companhia. E que brevemente engoliria nas suas goelas o palácio não escaparia.
E um sistema de câmaras de vigilância será montado para ver onde há lixo e logo a sua posterior recolha.
Oficialmente a RCE parece que entrou em pé de guerra contra os seus cidadãos porque a guarda presidencial do Rei do Petróleo circula nas ruas com capacetes de guerra.

O terror está fortemente implantado, parece uma filial do Estado Islâmico, porque permite a qualquer um militante fardado do partido, ou não, da RCE disparar a matar sobre quem bem lhe apetecer. Matar pessoas já é um desporto tão vulgar que os corpos ficam por aí estendidos até que alguém se lembre de os apanhar e um enterro condigno lhes proporcionar. Recebem o mesmo tratamento do lixo o que é de louvar.