sexta-feira, 22 de abril de 2016

DIÁRIO DE UM FAMINTO (07)



Aurelio Marques; Embaixada de Portugal em Luanda é o espelho do nosso país. Que mais se pode dizer! !!!
A caça às divisas: Hoje, 29 de Março de 2016, na Sistec junto ao largo Primeiro de Maio, os bandidos assaltaram as kinguilas e limparam-nas, nem uma nota lhes deixaram para recordação.
Creio que a oposição em Angola é a emenda pior que o soneto.
Vejo multidões de famintos desesperados pela chegada da independência, e ela que tarda, como se jamais acontecesse. E que doentes, carcomidos pela fome, já moribundos vão para os hospitais, sabendo de antemão que nada nem ninguém os salvará da morte porque a corrupção é a instituição da foice da morte. E uma princesa diz que doará alguma coisa, parco da sua mina de ouro de Angola, como se hospitais e as mortes vivessem de doações, e a imensa comunidade portuguesa em Angola aprova, bate palmas à princesa da moderna Idade da Pedra, diz-lhe bem-haja porque com isso aguardam privilégios para as suas transferências bancárias, para o saque das divisas que rareiam. Até há quem questione porque é que as casas de câmbios não podem transferir divisas directamente para Portugal. E saúdam a condenação dos presos políticos com esgares odientos, felicíssimos pelas suas almas que lhes garantem por mais algum tempo as suas transferências bancárias porque os presos políticos vão apodrecer na prisão, que morram lá definitivamente então, são o lixo de Angola e como tal devem apodrecer na prisão.
E uma mãe dos jovens presos políticos disse que o ministro da saúde é acusado de desviar quatro milhões de dólares, e por causa disso quase que toda a população morre, - pouco falta - e não é preso, nada lhe acontece porque a lei só protege os que roubam e persegue, não aceita, não contempla quem é honesto.
Este é um governo de cleptómanos e para cleptómanos.
E lá vão os jovens outra vez para a prisão, o coitado do jornalista e professor universitário Domingos da Cruz vai com oito anos e seis meses de prisão. Outro jornalista, Sedrick de Carvalho do Folha 8, vai também com quatro anos de prisão, e muitos mais com acusações inventadas como se isto fosse outra Coreia do Norte. Presos por apenas lerem um livro, sim, aqui não se podem ler livros, só se podem ler aqueles que forem escritos pelo grande líder e seus correligionários. Pois é, só que não há nenhum livro escrito por eles, nem nunca haverá porque não sabem escrever. Um corrupto não escreve, corrompe e deixa-se corromper. Uma pátria de corruptos é uma pátria de presos políticos.
Quase uma vintena de crianças brincam no que chamam de parque infantil do jasmim, porque antes lá viveu um de flores brancas, perfumadas, e que depois tudo desapareceu, restando um inacabado edifício do espectro da morte imobiliária porque o petróleo já não dá para sustentar o exército de corruptos, porque o preço do barril baixou a níveis de já não dar para sustentar tanta escumalha. Mas as crianças não se preocupam nada com isso, e aos saltos e berros sob as ruínas brincam aos ditadores e aos presos políticos. Uma delas, um menino de oito anos está com um caderno da escola e imitando o processo dos 15+2 lê um texto imaginário: «Vá, parem todos e escutem o que tenho para vos ler, é uma história de vampiros muito maus, desses que comem mesmo pessoas de verdade. Este livro tem o título de, Como Conseguir Manter um Ditador Indefinidamente no Poder. E puxando pela sua imaginação finge que lê. Um ditador permanece eternamente no poder porque ninguém lhe faz oposição. Isso de oposição de fingir não dá. Oposição sem líderes é como uma casa sem água e sem energia eléctrica. Creio que Angola está condenada a viver eternamente numa ditadura.» Outra criança também de oito anos de idade finge que é um preso político e apresenta a sua defesa. «Nós presos políticos num país onde a justiça quem nela manda são corruptos, e os partidos políticos da oposição passam-nos a bola deles porque eles não sabem jogar e muito menos – é a ideia que se tem – não entendem nada de política porque se limitam a enviarem comunicados para os órgãos de comunicação social, reduzidos a um ou dois, a Rádio Despertar e o jornal Folha 8, tal como faz a CEAST. Isto não é política, é apolítica. O marasmo político é de tal desordem que seria muito bem-vinda a criação de outro partido político que de facto defenda os seus eleitores, e que não ande a brincar aos partidos políticos como os actuais da oposição.» Mas os esbirros da inquisição vigiavam as inocentes crianças. Desvairados caíram-lhes em cima, confiscaram-lhes tudo, os brinquedos, prenderam-nas e fizeram um relatório rápido aos seus chefes inquisidores onde ressaltavam que conseguiram abortar um golpe de estado, mais um acto preparatório de golpe de estado contra o Superior Inquisidor. As crianças foram sumariamente enjauladas, julgadas e enviadas para as santas fogueiras da inquisição. Mas a sua queima está suspensa porque os interrogatórios do tribunal especial de menores da inquisição, diz que elas serão eternamente julgadas por serem consideradas crianças altamente perigosas, uma associação de malfeitores infantis.
Há muito que a embarcação Angola navegava apenas comandada por ordens superiores, apenas uma voz. Tempestades cada vez mais violentas iam-lhe abalroando as frágeis estruturas. Uma tempestade extremamente violenta obrigou-a a adernar e viu-se forçada, condenada ao naufrágio político e social. A literatura foi proibida, apenas se podiam ler livros dos vates da inquisição oficial. Tudo o mais era considerado subversivo e atentatório aos bons costumes da classe inquisitorial. Não havia prisões que chegassem para tantos presos políticos. Até a sua designação de país foi alterada para, República dos Presos Políticos de Angola. Facilmente se via que terrível acontecimento surgiria. Inevitavelmente a condenação internacional se fez presente. Mas invocava-se a soberania descaradamente, desgraçadamente. Sabiamente se ordenou o definitivo enterro da democracia num cemitério clandestino, que muito dava nas vistas devido ao aparato das forças de defesa e segurança.
O suicídio político, social e económico está mais que presente, fartamente evidenciado. Mas a corte de bajuladores como pintos, muito pia que assim é que está bem, porque até já há uma muito bem estruturada estratégia para a saída da crise. Evidentemente que é da crise deles, porque foram eles – são sempre eles – que a provocaram, ficando muito a leste da população, que até mudou de nome para, mortos ambulantes. Aliás foi oficialmente declarada a extinção da população. Até parece que Angola do mapa desapareceu. Tão mal dirigida, tão abissalmente perdida.
Há muito que se decretou que a corrupção em Angola é considerada legal. Também os rombos sistémicos do erário público são considerados legais. Claro que o enriquecimento fácil é considerado a obra-prima do grão-mestre da governação. O mais longevo do poder, um campeão.
O incêndio atearam, as chamas alastraram, não as apagaram, elas se elevaram, como Nero cantaram, e finalmente pelas chamas acabados, derrotados, definitivamente sitiados, escorraçados, emparedados. Esta praga vai acabar, silenciar. Até as nossas almas venderam.
“Jose Vieira: Boa tarde amigos. Tenho kwanzas para vender em Portugal, alguém interessado? Agradeço respostas.”
Entretanto, trinta empresas chinesas estão na mega campanha de recolha do lixo de Luanda. Significa que no mínimo são trinta milhões de dólares.
Creio que a questão não é ver, sentir as pessoas, mas ver, sentir as coisas.

E esta, hem! Afinal os amigos de infância são inimigos.