segunda-feira, 25 de abril de 2016

DIÁRIO DE UM FAMINTO (09)



O vizinho foi ao banco para levantar dez mil dólares para pagamento de mercadorias. O banco disse-lhe que não tem dinheiro. O vizinho disse ao banco que o dinheiro era dele, mas o banco não lhe ligou, lhe desprezou. O vizinho anda bem chateado, porque afinal os bancos assaltam assim o nosso dinheiro como se fossem vulgares assaltantes. Que diferença pois, há entre os bancos e os bandidos que nos assaltam a todo o momento? Creio que nenhuma!
Funcionários da embaixada portuguesa em Luanda que recebem os seus salários em euros, na banca também não os conseguem levantar. Vivem dificuldades, há que pôr tudo a nadar na fome. Isto está muito feio, está sim senhor.
Outro vizinho foi no banco, – mas em Angola existem bancos?, e se existem para que servem?, – o coitado queria viajar para a África do Sul, chegou e quis levantar dois mil dólares, o banco não aceitou, recusou. Ele teve que pedir dinheiro emprestado para conseguir viajar. Mas caramba, a mana Isabel não teve nenhuns problemas em transferir duzentos milhões de euros para comprar a empresa Efacec em Portugal.
Também outra vizinha – pelos vistos isso é geral – não conseguiu levantar os seus quinhentos dólares, porque lhe recusaram.
Que me perdoem, mas creio que os verdadeiros delinquentes são os bancos, protegidos por outros delinquentes superiores.
Os dólares e os euros que estão nos bancos de fingir são propriedade exclusiva de uma família e dos seus amigos, e nada mais ninguém pode exigir ou reclamar. Mas isto traz consequências desastrosas para a actividade bancária, porque ninguém ousa confiar nos bancos de mais uma república das bananas.
E um fiscal avisou que as kinguilas que se cuidem, porque está para sair um decreto que condenará com três anos de prisão quem exerça a actividade ilegal de cambiar divisas nas ruas. Esta repressão abrange chineses e portugueses? E as desgraçadas das kinguilas que ficarão desempregadas, – este país é também uma república do desemprego – com os seus lares destruídos, com mais filhos para as ruas da fome, mais delinquência, mais assaltos mortais ou não. A formação profissional é-lhes negada porque em Angola isso não existe, ainda ninguém se lembrou disso. Há que dar formação profissional a essas mulheres que de repente são atiradas para o desemprego, como mais uma multidão de casas partidas e de desalojados sem indemnização.
E das medidas anunciadas para a estratégia para salvar a crise, nenhuma funcionará porque até hoje – uma caterva de perdidos anos – nenhuma funcionou, e é claro que nenhuma funcionará porque estamos debaixo do nada funciona. Alto! Há sempre uma coisa que funciona: a doce e saborosa amiga corrupção.
Perante o encerramento dos jornais semanários devido à esperada falência do sistema que os suporta, não podemos, não devemos permitir que fiquem apenas três órgãos de informação, a saber: o Jornal de Angola, a Rádio Nacional de Angola e a Televisão Pública de Angola.
E continuaremos a fazer de Angola um canteiro de obras, disse o chefe dos chefes.
Angola é muito bonita mas perante o caos que vivemos, que temos, está terrivelmente feia.

A Igreja e os rios de dinheiro que lhe fluem, impunes, isentos de impostos, excepto o imposto divino
Uma das coisas mais fáceis da vida é ganhar dinheiro muito facilmente, explorando a crendice dos pobres analfabetos através das falsas promessas que a religião lhes oferece. E neste aspecto a religião é a sublime nefasta líder. São rios de dinheiro que fluem impunes porque os governantes fecham os olhos, mas as mãos não, porque estão repletas do dinheiro dos analfabetos que acreditam em qualquer demónio disfarçado de pastor de Deus.
Educar a população no analfabetismo é o meio mais eficaz de conduzi-la para a morte.
Nuno Dala está em greve de fome, e nós também, pois estamos solidários com a crise que nos foi decretada pela chuva da impostura tanto da oposição como da governação.
Quando vem um novo ano, as pessoas inventam coisas para ludibriarem as suas almas, mas esquecem-se, ou fingem esquecer, que o dia de ano-novo é um dia como outro qualquer.
Sempre a lutar contra as desilusões da vida. Como a batalha perdida de mostrar aos selvagens os gestos de nobreza que ainda restam em alguns seres humanos. Mas, creio que é demasiado tarde porque mais uma chuva de metralha mundial, outro granizo da morte paira sob as nossas cabeças, sobre as famílias, mais céu tingido de explosões se pressente no horizonte claramente. E densas nuvens de fumo obscurecem os nossos olhos. Mais uma carnificina mundial se apronta.
Esta pocilga humana em que acreditei, e onde tudo foi por água abaixo, no esgoto ainda não se esgotou.
Há quarenta anos que estou aqui a viver no sofrimento de todos os dias, quando podia muito bem estar na casa dos meus pais, a viver com eles, com os meus irmãos, irmãs, restante família e amigos. Ajudem-me a sair desta tortura.
Eis mais um episódio da escravidão neocolonialista, ou colonialista, pois parece que isso nunca mais vai acabar. Fiscais da Ingombota na zona do Zé Pirão, em Luanda, aterrorizaram uma grávida – mas isto que interessa pois se todos somos para abater - já em estado adiantado, ela na fuga lembrando as torturas dos nazis, caiu desamparada. Ela vende chouriço, mas agora está com dificuldades de locomoção, queixa-se de dores. As suas clientes já lhe disseram para ir ao hospital. Mas que estranha coisa esta, porque nenhum fiscal até hoje ousou atacar um corrupto.
Oposição em Angola? Partidos políticos da oposição? É apenas exibicionismo, vaidade, palavreado oco, vazio, repetitivo, cansativo, doentio.
Oiço amiúde que o governo é uma palhaçada, mas os partidos políticos da oposição também o são.
Será possível que ninguém oiça o barulho do navio Angola a afundar?
O governo diz que constrói e que a oposição destrói. E o pouco que faz, a oposição nada é capaz porque é ineficaz.
Devido à crise, nos lares, elas abandonam os maridos, trocam-nos por outros. E eles também fogem, abandonam os lares. Pobres crianças entregues à sorte dos dias, abandonadas no deserto sem vida.
A crise: depois de dez anos, a esposa entra em casa com outro, dirige-se para o marido e diz-lhe: «Olha, este agora é que é o meu marido, já nos conhecemos há seis anos. Não te quero mais… tu não fazes nada… já não estou mais para te aturar!»
A corrupção vencerá!
A angolanização das empresas petrolíferas consiste no despedimento massivo dos trabalhadores angolanos, para que os estrangeiros mantenham os seus empregos. Estava em preparação a substituição dos estrangeiros por angolanos, mas o que acontece é o contrário. É mais uma mentira desta república das mentiras.
Entretanto, bajulando os pintos vão piando, e sem asas inúteis voos vão alçando.