sábado, 17 de novembro de 2012

As Aventuras de Akalesela (01). O Mistério do Prédio Enfeitiçado




O verdadeiro mistério do mundo está no que é visível, e não no que é invisível. Oscar Wilde (1854-1900)
Não sei, não vi, não creio em bruxas, “pero, que las hay, las hay”. Sebastião Coelho (1931-2002)

Eis o famoso detective angolano, Akalesela, acompanhado pela sua deslumbrante, esbelta e sensual colaboradora, Kakulu-Ka-Humbi, que investigam e desvendam feitiços.

Rua dos apagões e das escoltas, Luanda, Angola.

- Kakulu-Ka-Humbi, (águia) onde está o nosso Jornal do Povo dos anúncios?
- Ei-lo.
- E o nosso anúncio… saiu?
- Sim.
- Deixa ver... e nos jornais privados?
- Não, o dinheiro não chegou.
Akalesela, (pesquisam) lamenta-se do arcaísmo da nossa economia:
- Quarenta anos ultrajados… nos outros países pede-se um serviço e paga-se trinta dias depois ou mais. Sem esta norma nenhuma empresa sobrevive.
Kakulu-Ka-Humbi reforça-o:
- Exceptuando as dos tubarões de sangue azul.
- Tudo para eles… têm horror à concorrência. É um estado do sítio.  
Os dois jovens detetives analisam o anúncio do teimoso, ó tempo volta pa trás, do saudoso Prava.

Akalesela e Kakulu-Ka-Humbi
Detectives de feitiços
Investigamos e acabamos com os feitiços
Rua das Escoltas 909, Luanda, Angola
Telefones: 429 00 69 30 e 469 69 69 69

Akalesela acreditava que o negócio de detective de feitiços seria muito fácil. Tal e qual como as igrejas aqui implantadas, perante um universo apocaliptico de gente desgovernada, têm o terreno ceifado para a crendice. E assim faturarem com a divina espoliação a população que já não acredita em mada nem em ninguém. Um terreno propicio para encher os bolsos e trasnsferir para as contas estrangeiras, deixando algum para os protetores da banda. De qualquer modo, o país alava-se completamente enfeitiçado. Todos os dias atiravam-se crianças nuas para as ruas. Antes, sofriam o suplício do fogo sob o libelo acusatório de serem feiticeiras. Faz um reparo:
- Gostas de provocar.
- Ai é?! Não sei porquê!
- Preveni-te para mudares a pornografia numérica do telemóvel.
- O teu também sofre da mesma depravação.
- Só um.
- Precisamente. Sou mais actuante, mais participativa. Os números revelam a nossa personalidade.
- Acho que os brincalhões não faltarão com as perseguições.
- Não te preocupes. Quando morder um, os outros temerão e não nos incomodarão mais.
Kakulu-Ka-Humbi, no aconchego do lar projectava o mínimo de vestuário. Um sutiã e uma tanga. Dengosa raspou-se:
- Estou transpirada, vou tomar um duche.
O rumor da água pressentia-se, desaguava, sorria sobre o seu exótico corpo, enquanto cantava:

Aqui não estou
Contente
Quero estar na rua
Com a minha gente

Não se demorou muito. Reapareceu a secar a água do seu corpo de ébano com uma toalha de banho. Akalesela lembra-lhe:
- Estás nua, o Injandanda (aranhas) pode aparecer.
- Sim. Verá este musgo viçoso e estas uvas pretas pontudas…
- … Fruta fresca.
- Akalesela, isso lembra-me o ar condicionado da sala que não funciona.
- Foi o teu amigo português que o instalou. Garantiu-nos que dava para toda a casa. É muito potente e a instalação eléctrica não aguenta.
- O sacana aldrabou-me. Parecia muito meu amigo. O gajo queria namorar comigo. Acha que isto por aqui é tudo à borla... mandei-o para o espaço.
- São todos assim.
Ela acabou a limpeza. Voltou ao sutiã e à tanga. Rondava os trinta anos. Pele castanha clara devida à mestiçagem bantu. Alta e magra, seios robustos, tarados de sensuais. Rosto quase recto e olhos profundos. Lábios polposos. Nas curvas íntimas e celestiais do seu corpo pressentia-se a avidez da contemplação de quem a fitasse. O seu passatempo é a cozinha, o cabeleireiro, especializar-se… olhar-se no espelho e fazer compras. Pratica judo e carate eficientemente. Conseguiu licenciar-se em sociologia, mas não consegue emprego. Disparatou:
- Queres-me comer com os olhos?!
- Estou à espera que a maldade, a balda acabe.
Akalesela gostava muito de gambas com um molho que patrocinou. Coentros, limão, alho e sal moídos, e muito jindungo. Foi para a cozinha acecipar. De lá quase gritou:
- Kakulu-Ka-Humbi, temos outra vez inundação, está a cair água do tecto!
- Já falei com eles quanto baste! Eles, esses que moram por cima dizem sempre que de lá não é! Estão mas é a destruir-nos a casa!
- Mas se por cima deles não tem mais ninguém, deve ser um feitiço do céu!
- Akalesela, com esta gente não dá para viver!
- Certo! Quando começarmos a facturar vendemos isto e vamos para outro lado, é o que toda a gente faz.
Kakulu-Ka-Humbi, quando se enerva frasea kimbundu:
- Ene abu o ima ioso. (Eles saquearam as coisa todas)
Akalesela jurisdicionou-lhe:
- Um governo da Idade Média que permite e apoia a destruição das habitações e casas-casebres. Porque o vizinho de cima destrói a casa do debaixo. Como isto se considera normal, então regressámos à obtusidade. Porque nessa dimensão histórica era o lixo, a água imunda e demais porcarias que lançavam das janelas para as ruas. O cortejo de ratos agradecia-lhes e surgiu a Peste Negra.
- Tenhamos esperança e aguardemos que o eterno poder do movimento para limpar almas saia, para enfim arrumarmos definitivamente os nossos lares e darmos rumo à nossa vida. – Sonhou Kakulu-Ka-Humbi.
- Um povo que destrói a réstia do que lhe resta… e a beber e dançar. Um povo que vive com a esperança da sua impotência. – Ripostou, Akalesela a olhar para o tecto.
- A nossa teimosia vencerá. Não queremos desenvolvimento. Queremos as nossas tradições primitivas. Duas políticas, uma tradicionalista, outra a copiar a vida ocidental. Com um bom feitiço conseguir um jipe. Estudar dá muito trabalho. Beber é mais fácil. Esperamos as ofertas, como por exemplo os retrovirais que foram doados à Nigéria e depois vendidos. – Rematou Kakulu-Ka-Humbi.
São vinte e três horas de um sábado. Akalesela sugere:
- Vamos divertir-nos um pouco numa discoteca.
- Aprecio esse convite. Gosto muito de dançar e mostrar o meu corpo. Preparo-me num instante.
- Deixamos os telemóveis para não atrairem indesejáveis.
O dono da discoteca era amigo de Akalesela. Uma mesa com duas cadeiras foram-lhes recepcionadas. Já acomodados, acostou-se uma empregada de bruta mini-saia e baby-doll que não conseguia, fingia cobrir os seios. Deixou-lhes duas cervejas e retirou-se. O tempo escoava e as cervejas também, já individualmente nadavam na quarta. Os frequentadores masculinos não desmagnetizavam os olhos de Kakulu-Ka-Humbi, que aparentemente fingia ignorá-los. Levantou-se e foi para a pista de dança. Agitava de tal modo o seu corpo que um jovem dançarino, já com os efeitos do álcool não resistiu ao feitiço. Entretanto, Akalesela apreciava as jovens seminuas que iam chegando. Na pista o jovem atracou o corpo dele a Kakulu-Ka-Humbi. Ela enervou-se:
- Nguamiami! (não quero)
O jovem apertou-a ainda mais. Ela sentiu a fortaleza do que parecia um aríete pronto para derrubar a sua muralha não fortificada. Lembrou-se do filme Indiana Jones e os Salteadores da Arca Perdida, onde um vilão com uma cimitarra dá vários golpes no ar para amedrontar o herói. Indiana Jones pega na pistola e dá-lhe um tiro. Ela colocou um joelho no chão fingindo que lhe doía. O galã aproximou-se indeciso. Então, Kakulu-Ka-Humbi num movimento rápido, crava-lhe os dentes nos testículos. Enquanto ele geme de dor com as mãos colocadas na zona inoperante, um grandalhão vem com a mão no ar em auxílio do seu amigo. Ela baixa-se de repente, levanta um joelho e assesta-lhe uma joelhada no sexo. Ele retrocede até ao encosto da parede e lá fica a urrar. Ela grita:
- Alenga, alenga! (fugir, fugir)
Correm na direcção do seu jipe curto, um Pajero. Já movimentados, ela alerta:
- Vejo um carro ligeiro que nos persegue, muda a matrícula.
Akalesela carregou numa tecla e a matrícula alterou-se para: PR PALÁCIO PRESIDENCIAL. Mas, a perseguição continuava. Kakulu-Ka-Humbi opina:
- Vai pela rua dos buracos, depois pela rua das crateras. Eles não vão aguentar.