sexta-feira, 26 de abril de 2013

11 a 26 de Abril de 2013. Diário da cidade dos leilões de escravos




11 de Abril
Três milhões de portugueses sem qualquer classificação escolar. In Rádio Vaticano
A luz apagou-se às 03.18 e fez a sua aparição triunfal às 06.05 horas.
E duas novas classes sociais se instalaram em Luanda. Os que têm geradores e os que não os conseguem ter. E quando todos formos burros, então finalmente este mundo será feliz. Este mundo está mesmo podre, inacreditável. O país que se diz com a economia mais desenvolvida do mundo, não tem energia eléctrica. O certo é que caminhamos para uma onda de miséria sem antecedentes, para a destruição completa das nossas vidas. E ter energia eléctrica é uma questão de sorte.
Fazem tudo por tudo para nos obrigarem a comprarmos geradores. E então será: em cada esquina, por todo o lado, um gerador. E quem é que viverá aqui? Defuntos? Claro que sim!
12 de Abril
A luz fugiu-nos, está sempre com essa mania, às 13.27 e por sorte lá veio ela às 18.51 horas.
Mais uma dos chineses. Construíram uma residência de três andares nas proximidades da rua das Sirenes, e quando chove, a água infiltra-se no interior dos apartamentos.
13 de Abril
18.05 horas. Ouvem-se estridentes gritos de uma jovem num carro que passa em alta velocidade. Ela será mais uma violentada sexual, torturada e morta?
Cerca das vinte e três horas. Um português putanheiro regressa da sua faina piscatória, todos os dias comer uma angolana, será que conseguirá comê-las todas? Sai do seu carro, mas já o esperam dois jovens, desses das motos rápidas que o atacam para o roubarem. Mas o português muito lesto consegue desembaraçar-se-lhes e foge na direcção da sua tábua de salvação, a porta do prédio, mas mesmo assim na atrapalhação do terror do fim da sua vida, bate com força na esquina da porta metálica e fere-se no ombro esquerdo. Mas o seu segurança pessoal no interior do prédio apercebe-se dos convidados indesejáveis e já se prepara para disparar em defesa do seu amo, mas os jovens já bazaram. E o português putanheiro ameaça o segurança, como se ele fosse o culpado da não acontecida tragédia: «para a próxima vez quero-te aqui fora, à espera que eu saia do carro, senão vou fazer queixa de ti, e mandar outro segurança mais competente para te substituir.»
14 de Abril
É necessário não quebrar o ritmo da venda dos geradores. Assim, mais um brutal, natural apagão se realizou às 05.18 e terminou, melhor, nos iluminou às 18.23 horas.
E um grupo de indivíduos sitia a cidade. E o continuo, incrementado enlace da selvajaria alimenta-a de luz. Ó podre africana degradação humana que cavalgas sem freio nos dentes para o abismo da morte. Sem cérebros não há solução, não há salvação.
15 de Abril
Lamento de um português: tenho que me levantar às cinco horas da manhã para ir na embaixada portuguesa tratar de um simples cartão do cidadão.
16 de Abril
Mais um apagão às 10.10 horas, quando é        que a luz regressará? Ninguém o sabe dizer, mas das finanças desaparecidas todos sabem.
Há um vizinho que todos os fins-de-semana faz obras no seu apartamento. O que se escuta mais é o som de um berbequim, desses barulhentos, o que é que não é barulhento nesta cidade?, fura, fura, fura… já deve ter o apartamento tudo furado, e pronto para o desabar.
17 de Abril
E até a água nos espoliaram. Hoje não saiu, não pingou nada. Para onde é que ela foi? Essa água anda muito vadia.
Receio que em breve a energia eléctrica se vá de vez, só os que nos desgovernam é que não, permanecem como as trevas, eternas.
18 de Abril
A luz reacendeu-se às 14.10 horas, quase três dias nas trevas dos predadores. A água continua, não desagua, isto é, secou, mingua.
Comunicado governamental: Devido à necessidade imperiosa da venda de mais alguns geradores, somos forçados a suspender o fornecimento da energia eléctrica. No negócio selvagem vale-tudo. Ainda não se vendeu a quantidade desejada de geradores, daí a necessidade da desordem de mais apagões. É necessário o cumprimento da palavra de ordem: a quantidade de geradores vendidos/existentes iguala, qual quê! suplanta a nossa miséria. Portanto, quantos mais geradores, mais o nosso fim se apressa.
19 de Abril
Será que me vão cortar a luz outra vez? Prosseguimos sem água.
20 de Abril
Sem Internet desde cerca das 21.00 horas.
21 de Abril
A luz abandonou-nos outra vez, sempre, mas que desfaçatez, deixou de brilhar às 11.12 e se iluminou, chegou às 13.24 horas. Mas não por muito tempo, porque fugiu-nos às 14.36 horas. Ligaram-na às 17.27 horas. Desapareceu às 22.25 e reapareceu às 2253 horas.
22 de Abril
Com os apagões como símbolo nacional, nota-se claramente que Luanda está nos momentos finais da sua destruição, mas ninguém se apercebe, porque será?
Hoje ouvi na Rádio Ecclesia, que segundo as análises feitas por um organismo, não sei quê Angola, não consegui captar, estamos a consumir produtos deteriorados: leite, farinha de trigo e vinho. E que mais?! E porque não denunciam as marcas? Que coisa mais torpe.
A energia eléctrica, o que é isto? Alguém me sabe dizer?! Evaporou-se às 11.44 e surpreendeu-nos às 12.58 horas.
23 de Abril
Outra vez apagados às 09.56 e iluminados às 10.19. De novo todos apagados às 15.19 e acesos às 15.49 horas.
24 de Abril
A luz fugiu outra vez às 14.08
25 de Abril
E como um pirilampo, ela chegou, a luz que o demónio nos enviou às 21.46 horas. Nos sênês, loja dos senegaleses, comprámos seis ovos, e quando íamos para os utilizar, fritar, estavam todos podres, nenhum se aproveitou, a não ser para o lixo que os tragou. Isto deve-se à falta de energia eléctrica pois eles não têm gerador. A uma vizinha também lhe aconteceu o mesmo, e a resposta dela foi lançá-los contra a porta dos sênês.
26 de Abril
O lavatório estava com muita terra que saiu da torneira. Agora, bebemos água ou terra?