segunda-feira, 8 de abril de 2013

27 de Março a 03 de Abril de 2013. Diário da cidade dos leilões de escravos




27 de Março
Muito exausta, a energia eléctrica iluminou-nos às 00.10 horas. Abandonou-nos às 09.18 e assomou timidamente às 11.51 horas.
Acabo de ouvir horrores no atendimento das clínicas privadas. Como por exemplo, numa delas apenas um médico para atender muitos doentes. Angola está doente e as pessoas também, está tudo doente. Há quem afirme que é preferível ir para os hospitais públicos. Entretanto o nível de crianças afectadas pela malária cresce horrorosamente, fala-se de epidemia, o que não é nenhuma novidade.
28 de Março
Ao meu redor só oiço falar de pessoas, vizinhos, amigos, familiares que estão com paludismo. Mas que epidemia, santo Arquitecto da Paz. Estou receoso, acho que também não vou escapar.
A luz voou outra vez às 18.06, regressou às 19.10 horas.
A Fula vende os seus hortícolas no mercado livre da rua. Escolhe um passeio e instala-se. Já lá vai algum tempo que ela exerce a sua actividade na rua das Sirenes, junto à conhecida rua dos Apagões. Hoje veio com equimoses na cara. Uma habitual cliente pergunta-lhe o porquê, mas prevendo de antemão qual será a resposta: «O meu marido vive com mais duas… tem mais duas mulheres. Ontem chegou bem boiado e perguntou-me pelo dinheiro da renda da casa. Eu disse-lhe que está difícil, que vai lá nas outras tuas mulheres, elas que paguem a renda. E o gajo, o sacana de merda surrou-me.
No outro dia, a Fula confessou que o gajo lhe voltou a surrar, mas com menos intensidade, assim tipo surra de fingir. Três clientes e algumas kinguilas decidem que ela deve exigir-lhe um ultimato, e então: «Olha, você manda esse gajo à merda, para a puta que o pariu.» «Sim, é isso mesmo que já estou a fazer, disse-lhe que não lhe quero mais.»
No outro dia, as clientes e as kinguilas ansiosas sondam-na: «Então o gajo, como é?» «É manas! Ele não está a aguentar, está a ficar maluco. Hoje ameaçou-me que se eu lhe abandonar ele vai-se enforcar. Manas! Não é a fingir, é mesmo verdade. Ele está mesmo muito atrapalhado, chora-me que sem mim vai-se matar mesmo.»
29 de Março
Jovem ardina que me costuma trazer o Semanário Folha 8, há quatro semanas que não aparece. Liguei, liguei, liguei para o telemóvel dele, e nada. Já lhe dei como mais um manifestante desaparecido, fuzilado, nesta guerra do Artigo 47º.
30 de Março
O mwangolé está na presença de uma portuguesa chefe, são tantas, do pessoal. Ele aguarda que ela lhe diga o porquê de uma dúvida no seu processo individual, mas ela aborda-o desconexa: «Sabes, eu sou muito competente, sou licenciada, estou aqui em Angola porque sei trabalhar. Sei muita coisa, estudo muito, não sou como vocês que não ligam a essas coisas, não preciso que ninguém me ensine nada. Eu sou a chefe do departamento do pessoal, e como te disse sou muito competente.» Até hoje o mwangolé nunca entendeu porque é que ela o chamou. Mas salta aos olhos, não é? Quem usa essa conversa é sem sombra de dúvidas mais uma pobre alma sem habilitações, mais um pobre diabo para chicotear escravos.
31 de Março
De repente a maliana começa a surrar selvaticamente o seu filho de cinco anos. Era pancada nas costas, na cara, por todo o corpo do tipo, hoje mato-te. Ninguém gostou da selvajaria, e dois mwangolés mais ousados chegaram ao pé dela, e chamaram-lhe a atenção, ao que ela de chofre num tom eloquente esclareceu-os: «Mas o que é que vocês querem? O filho é meu, posso muito bem matá-lo. Se vocês o quiserem podem ficar com ele, tenho outro aqui na barriga.»
No mercado dos congolenses, um cliente pergunta a uma vendedora porque é que as que vendiam cigarros já lã não estão. Ela disse-lhe que morreram. E uma mais-velha também pergunta à vendedora porque é que já não vê também muitas outras pessoas que ali vendiam, a vendedora esclarece-a: «Mana, morreram, está a morrer muita gente.»
01 de Abril
Circular por Angola de carro está demasiado perigoso, uma catástrofe. Angelino Serrote, o porta-voz da Polícia de Trânsito, informou que nos três últimos dias, 30, 31 de Março e 01 de Abril, nas estradas de Angola devido a acidentes morreram vinte e cindo pessoas, em Luanda foram dezassete, e ficaram feridas noventa e oito. O automóvel está a ficar muito perigoso, um caixão ambulante.
A criança de seis anos está na escola com paludismo. Diz na professora que se sente muito cansado, adormece, claro que não consegue prestar atenção, nem fazer os deveres escolares, e a professora na sua sapiência de regime totalitário: «Não fazes os deveres?, não te bato porque estás doente!» E assim a criança ficou até à hora de saída, quase incapaz de se mover, a custo chegou em casa e a primeira coisa que fez foi deitar-se, já com 39,5 de febre. Que apologia da morte neste ensino escravo, analfabeto.
02 de Abril
Um luso-angolano foi na embaixada portuguesa tratar do seu BI e do cartão consular. Chegou às 07.00 e saiu de lá às 16.00 horas. Já ninguém sabe trabalhar, não é?! A mediocridade toma conta de tudo e ninguém a enfrenta. 
Será que a banca em Luanda tem o prazo expirado?
Esta manhã, no banco BAI em Luanda, duas agências não tinham sistema, e nestas duas e mais uma, não tinham cartões de crédito multi-caixa.
15.45 horas, 33 graus à sombra. Uma zungueira mais velha, já com idade de descansar pelo dever cumprido durante a sua vida, carrega uma banheira com frutas na cabeça. Nota-se claramente que se esforça para andar, porque as suas forças estão em baixo, mas ela insiste, não desiste, e continua a arrastar-se como uma moribunda à espera que os abutres a cacem e devorem o que resta do seu corpo. E eles de repente aparecem, não a voarem mas numa carrinha dos fiscais do Governo de Luanda, e brutalmente puxam-lhe pela banheira que cai no cão, os fiscais apanham-na e metem-na na carrinha e fogem. Ouve-se de repente um grande coro de vozes, tipo Igreja Universal, de revolta, de condenação, de estupor, de campo de concentração. A mais velha chora de mãos na cabeça, porque era a única coisa que conseguiu para vender para não morrer de fome. Graças aos ensinamentos do petróleo, a selvajaria está muito evoluída, muito instruída. Este petróleo tem a cor da fome, da morte.
22.00 horas. A jovem Sónia estaciona o seu carro no largo das Sirenes. Prepara-se para sair, uma moto-rápida com dois jovens encosta-lhe e um deles bate-lhe no vidro com uma pistola, fazendo-lhe sinal para abrir. Ela abre o vidro e o jovem da pistola diz-lhe peremptório: «Fica calada, não tentes nada. Passa o teu saco.» Ela entrega-lho e eles muito rápidos desaparecem na noite, protegidos pelos apagões. Ela sai do carro a cambalear, quase a desmaiar: «Levaram-me todos os meus documentos, incluindo o meu cartão do multi-caixa, o meu telemóvel, e outras coisas. E agora, que será de mim?»
O mwangolé foi renovar o seu bilhete de identidade nos Combatentes, actual Avenida Comandante Valódia, mas toda a gente a chama de Avenida dos Combatentes. O seu BI saiu com tudo, ou quase tudo errado, coisa muito natural por aqui. Refizeram-lhe o BI, teve que ser outro novo. O mwangolé esteve todo o dia nisto, das oito até às dezoito e trinta. De facto onze anos de paz são muito pouco até para conseguir um BI.
03 de Abril
Existem em Angola, salvo erro, vinte e três bancos. Alguém me sabe explicar o porquê desse número tão elevado?
Quase quarenta anos depois, os mwangolés usam as traseiras dos prédios e similares, para atirarem o lixo, águas imundas, etc. Essas traseiras são de facto monumentais lixeiras. Isso deve-se a quê? A uma conjuntura de lixo?