terça-feira, 30 de julho de 2013

03 A 08 de Julho de 2013. Diário da Cidade dos Leilões de Escravos




03 de Julho
Bom-dia apátridas de Kabinda ao Kunene.
Eu sou angolano, nasci em Angola e aos cinco anos de idade vim para Portugal, ou: os meus avós nasceram em Angola, etc., nunca mais ouvi falar de Angola, mas considero-me genuinamente angolano, espero muito em breve ir para lá trabalhar, qualquer emprego me serve. Evidentemente que esta – estas - alma há muito tempo que é português, não entende nada do povo angolano, mas como a miséria lhe obriga a reivindicar o estatuto de “refugiado” angolano, então surge como o máximo expoente da angolanidade, um angolano genuíno, salvador da Pátria. Há poucos anos isto era impensável mas como a miséria obriga.
Considero que a coisa mais horrível que nos pode acontecer é ver um bebé chorar intensamente com fome, e não ter nada para lhe dar. E presentemente vivemos muito disso, como a coisa mais natural deste mudo, porque se perdeu a noção do que é um ser humano. Estamos muito bem civilizados porque matar é civilizar.
A política salarial vigente também é uma poderosa ferramenta de enfrentamentos sociais. Então, para o mwangolé, salário de miséria. Para qualquer estrangeiro, salário de riqueza. E porque não o contrário? Isto não é discriminação social? Racial?
Para quem não sabe as coisas acontecem assim: uma manifestação ali, uma manifestação aqui, outra acolá, outra mais lá, outra lá mais longe, outra acoli, outra acolém, outra para além, outra mais para além, e de repente a manifestação generaliza-se por toda a Angola, com o povo nas ruas. Só que por estas bandas será, será, será… nacional, é boa, eu gosto. Então, se a governação teima no mesmo crasso erro, o que se espera?
E continuam com a mesma parvoíce de sempre: já te ligo, depois ligo-te, depois falo contigo, depois passo aí, está descansado que já resolvo isso, não estou em Luanda, estou na Namíbia. Não passam de pobres diabos!
Bom-dia desempregados e desabrigados de Kabinda ao Kunene!
De um mais velho: Savimbi está invisível no meio de nós.
Mas é assim tão difícil fazer um estudo que prove que de tempos a tempos nasce uma geração de acéfalos que onde se instalam arrasam tudo e só deixam famintos?
Será que Passos Coelho e Paulo Portas depois dos seus mandatos – pelos vistos terão que sair à força? – serão exemplarmente julgados, condenados e entregues a carcereiros?
Hoje à tarde fui convidado por dois amigos para irmos até uma esplanada próxima. Depois de cerca de uma hora e meia já nos preparávamos para sair quando um português grita, como se o fizesse para um cão, que quer pagar a sua conta. Revelando má-educação repete o mesmo desprezo. O empregado chega e o português para pagar a conta de mil kwanzas, retira do bolso um enorme monte de notas e grita não se sabe bem para quem: «Queres beber mais uma cerveja?» Ao mover-se choca com um militar das FAA, no lugar de pedir desculpa, ainda lhe faz frente vangloriando-se: «É pá, eu não tenho medo de vocês, eu fui pára-quedista.» A sorte dele foi que o militar não lhe retribui a má-educação, revelando alto sentido de responsabilidade e preferindo-lhe o desprezo. Imaginem o espanto dos presentes, não é?! Bom, o português lá se foi a cambalear… estava bêbado. Agora não sei se alguém lhe montou alguma emboscada ou não.
Ainda há por aí alguém que acha que o povo angolano não se manifesta? Sabem como é que os mwangolés se vingam dos desaforos que quotidianamente lhes caiem em cima? Combinaram-se e estão todos a roubar. Sim, está tudo no roubo, no saque. É demais! Agora digam que os mwangolés são burros. Não conhecem o povo angolano.
Empregados e empregadores em Angola: sempre na expectativa que pingue, se ilumine qualquer coisa, que caia o dinheiro do salário, como a água e a luz, nem todos claro, mas são a maioria. E não dão qualquer satisfação, porque o tempo é de renovada escravidão.
Quando estrangeiros invadem um país que colonizaram, impondo outra vez as regras escravocratas do colonizador, esses estrangeiros chamam-se tragédia, loucura, porque não existe nenhum povo que aceite tal imposição. E isto é incitação à violência.
04 de Julho
A actual situação da anarquia da invasão portuguesa em Angola ultrapassa de longe o período colonial? É que estas coisas feitas sem regras, como tudo que funciona sem elas, tende a evoluir para uma catástrofe talvez sem precedentes, porque antes a colonização imperava, e agora na Angola independente os mwangolés continuam a sofrer os vexames da invasão neocolonialista portuguesa. Um povo independente tem o direito de se libertar da imposição da dominação estrangeira, ou não é assim?
05 de Julho
E depois de consumada a grande invasão portuguesa, naturalmente que os portugueses proclamarão unilateralmente a independência de Angola? República Portuguesa de Angola?
06 de Julho
Bom-dia mwangolés sem salários de Kabinda ao Kunene.
07 de Julho
Temos que fazer alguns cortes de energia eléctrica de vez em quando, senão não se vendem geradores, e neste mundo global a facturação também é global. Assim, lá tivemos que fazer um corte para que os vendedores de geradores se preparem, porque alguns clientes em pânico lá aparecerão. E então hoje apagámos das 10.12 até às 11.17 horas, é essa a nossa missão. Mas o que é que vocês querem?!
08 de Julho
Bom-dia vítimas dos constantes assaltos de Kabinda ao Kunene. É nacional, é bom, eu gosto.
Nova Vida (a chamada urbanização nova vida) torna-se a cada dia que passa um dos bairros mais inseguros de Luanda. Roubos e tentativas de roubo à mão armada a residências e viaturas são cada vez mais comuns, esta manhã assaltaram o meu Hyundai, roubaram-me os faróis e os stops, agora eh k tô lixada, os gatunos estão localizados só a Polícia eh k não faz nada: são os que se fazem de lavadores de carros, a maioria deles vive nas favelas que circundam o nova vida mas outros vêm do golf, etc. Ir dar queixa na Polícia é só se estressar, fica só assim... vamos fazer justiça pelas próprias mãos... In Olinda Cô Viê. Facebook