domingo, 28 de julho de 2013

22 De Junho a 02 de Julho de 2013. Diário da Cidade dos Leilões de Escravos.




22 de Junho
14.33 horas. O jovem quase que se encosta no carro. Depois abre-lhe a porta e antes de se sentar vira a cabeça muito rápida em todas as direcções para ver se está, ou se aproxima alguém para o assaltar. Por aqui se vê facilmente que uma paz podre é afinal uma poderosa insegurança.
Pelas arbitrariedades de intenso amargo sabor colonial ainda recente, e vigente de vários tugas, receio que os portugueses serão outra vez ruados de Angola.
23 de Junho
E que chegaram umas moças do Brasil, bem bonitas. Os homens fazem bicha, andam muito nervosos.
24 de Junho
A balada e a abalada dos bairros são o uísque Best Whisky: «Bebeu, tossiu e morreu!»
25 de Junho
Nos bairros nunca se deixam as casas sem ninguém. Quando o marido sai, fica a esposa em casa. Quando a mulher sai, fica a o marido em casa. Porque se os bandidos sabem que não está ninguém em casa, assaltam-na, levam tudo, não deixam nada.
26 de Junho
Mais um apartamento onde se partem paredes para alugar a estrangeiros, até o prédio desabar. É mesmo de “puro mwangolé”: «Quero lá saber se o prédio vai desabar, o que eu quero é facturar.»
Vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, em entrevista exclusiva à SIC:
“É um processo, não se pode acabar com a corrupção de hoje para amanhã.”
Só que nunca se sabe qual é o hoje e qual é o amanhã.
27 de Junho
15.20 horas. Os escravos da fome já fazem espera nos contentores do lixo. Quando alguém deixa um saco no contentor, logo um abandonado do reino petrolífero lança-se vitorioso na esperança de encontrar algo para comer. E teve sorte, porque assim que abriu o saco, começou a mastigar bolachas. Este desabrigado do petróleo é um escravo cheio de sorte.
Quase vinte e quatro horas depois alguém se lembrou que estávamos sem energia eléctrica e ligaram os interruptores às 14.56 horas.
José Severino, presidente vitalício da AIA – Associação Industrial de Angola, alertou no programa Vector, da LAC – Luanda Antena Comercial, que existem muitos estrangeiros que não pagam impostos, não se sabe o que fazem, e que exercem pressão sobre os bancos para transferirem grandes somas de dinheiro para o estrangeiro. Qual é a actividade destes estrangeiros em Angola? Como é que eles conseguem o dinheiro? Angola já é uma gigantesca lavandaria internacional de dinheiro?
No noticiário das 12.30 horas, a Rádio Ecclesia informou que no hotel Epic Sana, na rua da Missão em Luanda, propriedade de portugueses, (conforme pesquisa na NET, Pinhal do Concelho, Praia da Falésia Olhos de Água, Albufeira 8200-593, Portugal), mais de quatrocentos trabalhadores entraram em greve. O motivo principal é o salário de 12.000.00 (doze mil kwanzas, pouco mais de cem dólares. E como é que os portugueses resolveram o diálogo? Chamaram, fizeram combina com a Polícia, e quando os trabalhadores chegaram para se concentrarem no local de greve indicado, atiraram-lhes com cães e muita, muita surra. Alguns ficaram muito feridos, nem uma jovem mamã que estava com o seu filho de dois meses foi poupada, surra em cima dela. Mas não é assim que se faz com os escravos?
O que faz falta é também os portugueses alimentarem a carnificina angolana, o que faz falta.
28 de Junho
Tudo indica que JES-MPLA repete o que o colonialismo fazia: repressão sem limites – e o incrível é que como movimento de libertação, JES-MPLA, exagera, ultrapassa os limites da selvajaria – e sabemos o que aconteceu pouco antes e depois da independência: uma carnificina. Se JES-MPLA insistir na repressão, do tudo resolver a tiro – Moçambique já lá está no reino da carnificina – então teremos outra carnificina que a História registará como das mais horrendas. Quem não abdica do: toda a gente fuzilar, incluindo mulheres grávidas e crianças, arderá na fogueira da História. Exagero? Alarmismo? Incitação não sei de quê? Até que não, pois os factos estão aí nas ruas, nas esquinas, nos cidadãos que falam do mundo real que vai explodir, porque é inconcebível que trabalhadores ganhem doze mil kuanzas, e que não têm direito à greve, enquanto biliões de dólares enchem os bolsos de muitos estrangeiros e de alguns outros estrangeiros disfarçados de nacionais, angolanos.
29 de Junho
Lições de informática: qualquer arquivo de trabalho que não tenha cópia de segurança, não tem nenhum valor.
Escravos da vida de miséria nos seus países e que aqui desembarcados, são engordados, patrões com escravos seus empregados, tão revoltados.
30 de Junho
A nossa miséria da energia eléctrica fugiu-nos às 14.09 e veio para casa às 14.37 horas.
E os tais que gastam o dinheiro que não lhes pertence, continuam na azáfama do construir paredes e depois derrubá-las. Este é o nosso presente incansavelmente destruidor.
Aí pelas sete da manhã de todas as manhãs e de todos os dias, começa a barulheira da música que estremece os vidros das janelas, vizinhos loucos, possuídos pelo demónio, vizinhos do primeiro andar.
01 de Julho
Para sobrevivermos a política do regime obriga-nos a todos os expedientes de sobrevivência, então, como é que os estrangeiros dizem que estão aqui para nos ajudarem?
Para conseguir uma simples latinha de leite para o seu bebé, o mwangolé vale-se de mil e um expedientes no seu emprego, ou fora dele o que é mais usual. Que merda esta que nunca mais acaba.
02 de Julho
Mas quem é que disse que não há manifestações em Luanda? Em cada esquina está um bandido para nos assaltar, ou matar. Nos bairros dos mabululos, (periferia), - os tais que o MPLA jurou antes da independência que acabaria com eles e que daria uma nova vida aos colonizados - quando o marido sai a esposa fica em casa, quando a esposa sai, o marido fica em casa, porque se saírem os dois, quando voltarem não encontrarão nada em casa porque os gatunos levaram tudo. ISTO ESTÁ MUITO PODRE! Pode-se assegurar que Luanda já está em estado de sítio. E as demolições continuam a produzir mais “terroristas”, o roubo descarado dos empregos também. Parafraseando Agostinho Neto: contra milhões de espoliados ninguém combate, e quem o fizer será vencido. E os investimentos estrangeiros e a grande invasão de portugueses? Mais uma tragédia?!
A podridão da energia eléctrica deles apodreceu-nos, abandonou-nos às 16.01 horas.
Acabo de receber a informação de que em Viana, crianças quando saem das escolas são raptadas. São vários os casos e isso já acontece há vários dias. A Polícia não se pronuncia sobre isso, porquê?
Aprendi que este mundo é cruel e maldoso, aprendi também que a religião era o meu refúgio, a minha esperança, mas depressa verifiquei que era hipócrita, maldosa, sem esperança. Também aprendi que existem algumas pessoas que a todo o momento praticam actos de amor, de heroísmo para salvarem, ajudarem os milhões de seres humanos que vivem na degradação, na escravidão. Independentemente da sua religião, da sua política, há seres humanos que merecem, vai a minha admiração, pois sem eles o Mundo há muito já teria desaparecido. Se não fosse essa meia dúzia de seres humanos que tudo fazem desinteressadamente pelo bem-estar do próximo, este Mundo seria totalmente bem selvagem. Mas atenção: é que esse pequeno grupo diminui assustadoramente como a camada de gelo dos pólos e doutros locais. E se esses queridos seres humanos continuarem no degelo, a diminuir, então não haverá mais esperança. Por isso façamos um esforço, não deixemos que aqueles que defendem um mundo livre de corruptos desapareçam. As nossas vidas e a humanidade dependem deles. Sobretudo lutemos para que cada criança tenha uma alimentação e educação condignas, porque depois enfrentaremos criminosos e uma trágica multidão de terroristas. Este mundo é, está terrível de se viver porque nele acontece a batalha de um pequeno grupo de corruptos contra a população mundial.
Só me faltava mais esta: agora sou obrigado a comprar tudo made in China? Obrigam-me a comprar lixo, pois é tudo aldrabado, muito mal pirateado.