terça-feira, 2 de julho de 2013

O EMPRESÁRIO LUSO-ANGOLANO (11)


(Como o crescimento projectado do Pib era artificialmente inflado, o país fica endividado além da sua capacidade de pagamento. Frente à ameaça da moratória entra então uma segunda rodada de negociações, assegurando o controlo por firmas americanas das reservas de petróleo ou outros recursos. Em resumo, Perkins era encarregado de organizar, para as grandes empresas americanas, o aprisionamento dos países na armadilha da dívida, na chamada “debt trap”. In Armadilha da dívida. Ladislau Dowbor
…O caso da Arábia Saudita é exemplar: “Eu simplesmente punha a minha imaginação para funcionar e escrevia relatórios que apresentavam uma visão de futuro glorioso para o reino. (Como também se faz em Angola). Eu tinha referências aproximadas para as cifras que eu poderia utilizar para estimar coisas como o custo aproximado de produzir um mega watt de energia eléctrica, uma milha de estrada, água, esgoto” etc. (...) “Eu sempre tinha em mente os verdadeiros objectivos: maximizar pagamentos a firmas dos EUA, e tornar a Arábia Saudita cada vez mais dependente dos Estados Unidos. (Assim como Angola, dependerá em absoluto da China). Não levei muito tempo a entender como os dois objectivos se articulavam; quase todos os novos projectos desenvolvidos exigiriam “upgrading” e serviços de apoio contínuos, e eram tão complexos do ponto de vista técnico que assegurariam que as empresas fornecedoras teriam que mantê-los e modernizá-los.
Na realidade, conforme eu avançava com o meu trabalho, comecei a juntar duas listas para cada um dos projectos que eu visionava: uma para os contratos do tipo “design e construção”, e outra para acordos de serviço e gestão de longo prazo. MAIN, Bechtel, Brown & Root, Halliburton, Stone & Webster, e muitas outras empresas americanas de engenharia e construção teriam lucros generosos para as décadas seguintes”. A expansão das firmas era acompanhada da negociação da sua protecção militar, evidentemente apresentada como segurança do país, convenientemente ameaçado pelas tensões regionais “A sua presença (da indústria da defesa) iria requerer uma outra fase de engenharia e construção, projectos, incluindo aeroportos, (como o novo aeroporto de Luanda) sites de mísseis, bases de pessoal militar, e toda a infra-estrutura associada com estas instalações”. Um dos chefes do Perkins se referia ao reino da Arábia Saudita como “a vaca que iremos ordenhar até que o sol se ponha sobre a nossa aposentadoria”…
…É interessante fazer o paralelo entre Perkins, o homem do sistema que sai denunciando, e Stiglitz, que larga o Banco Mundial e publica “A globalização e os seus malefícios”, ou ainda David Korten que participa dos programas da USAID na Ásia e sai denunciando o que se faz na realidade (“Quando as corporações regem o mundo”). O sistema é realmente bastante podre, e chamar isto de “livre mercado” é realmente um insulto a Adam Smith» In Actualizações. Ladislau Dowbor)

Vieira avança:
- Os lucros do petróleo sobem. Os custos de importação também. Não sei onde está o lucro. Mas o que é que tu queres?! Nem conseguimos fabricar uma bicicleta.
- Vieira, isso não se deve também ao adiamento constante das eleições?
- Mesmo que outro partido as ganhe a situação não sofrerá nenhuma alteração. Acho que vai piorar ainda mais.
- Porquê?!
- A corrupção está de tal modo implantada que não se consegue sair dela. As petrolíferas vão manter ou aumentar os níveis de corrupção. Qualquer partido político que interfira nos seus interesses não durará muito tempo.
- Vieira… acredito que são os efeitos da globalização.
- Tantos intelectos que existem por aí, e não têm acesso à Internet. Convém-lhes um povo completamente analfabeto. Para quando algum estrangeiro aqui chegar, dar-lhes a volta facilmente. É tão fácil aos EUA acabar com os regimes corruptos, mas isso não lhes interessa. E quando um presidente da república não lhes interessar mandam-no passar férias.
- Vieira, isso significa que sempre assim foi e sempre assim será?
- Não tenho qualquer dúvida. Outro aspecto é que não se pode confiar em ninguém. Era muito amigo de um comandante da polícia. Aflito, pois estava sem carro, telefonei-lhe para me dar uma boleia. Disse-me que vinha já. Esperei, esperei e não apareceu. Depois nem se dignou falar mais no assunto. E andava sempre atrás de mim a pedir-me isto e aquilo.
- Vieira, a moral é coisa…
 … mantinha grande amizade com um coronel, depois foi promovido a brigadeiro, agora parece que é general. Pensei que entre nós existia uma amizade profunda e sincera, mas actualmente como já não necessita dos meus préstimos, mandou lixar a nossa amizade. Enquanto necessitava de mim, fingia-se meu amigo.
- Vieira, o civismo…
… uma coisa muito anedótica é quando um indivíduo se apresenta com um cartão de visita com o nome, por exemplo, Abu Bakar. É imediatamente recebido pelas altas estruturas do poder... assim não dá. Não se pode confiar em ninguém. O que interessa é roubar, seja o que for. O sistema está tão implantado, que quem não roubar, morre à fome.
- Vieira, a identidade cultural…
… No fundo concordo com a política de Fidel Castro em Cuba. Para resistir e evitar a escravidão do seu povo torna-se ditador. Quando os EUA pretendem derrubá-lo por todos os meios, para explorarem as suas riquezas e fazerem lá uma colónia de férias, com os grandes lucros que daí sairiam, ele livra-se disso. E naturalmente apelidam-no de ditador. Se Fidel Castro obedecesse aos EUA, seria considerado um grande democrata. Actualmente o que os EUA fazem na África Negra, e noutros países é simplesmente aterrador. Não há comparação possível com o colonialismo. Estão como que a matar milhões de pessoas à fome.
- Vieira, acho que Marx fortaleceu o capitalismo porque…
… Mas o que é que tu queres?! O culpado não foi o Marx. O Estaline é que estragou tudo. Ainda hoje conheço pessoas que quando vêem a sigla URSS ficam quase em pânico. Sentem um mal-estar pelas recordações que essas quatro letras lembram. Do mesmo modo as siglas MPLA, UNITA e FNLA deveriam ser alteradas devido às recordações que comportam. Lembram o terror das inúmeras matanças. Trazem sempre muitas memórias aterradoras. Para terminar vê o que apanhei no site do Angonoticias de um tal Grathus que comentava um artigo sobre os muçulmanos em Angola:
«Angolanos. Os muçulmanos estão de tal maneira implantados que agora já nunca mais os tiramos daqui. Os ismaelitas, que vieram com uma mão à frente e outra atrás, estão milionários e mancomunados com os nossos ladrões nacionais, por exemplo, sabem quem é o Amim Bangi, um drogado que chegou fugido de Portugal, em 10 anos ficou milionário, como? Roubando.
O Ministério das Finanças pagou-lhe milhões de dólares de mercadoria que nunca forneceu. Façam uma investigação séria à empresa Marvimport, ou Vitocaldas e outras que foi utilizando, e descobrirão as fraudes e os comparsas nacionais. A Imporafrica é outra. O Abdul e o seu comparsa Faruk, vieram fugidos e falidos da empresa Tricos de Portugal, agora são o que são, estes índios, foram os mentores do chamado caso dos biliões e mais tarde dos triliões, por acaso algum foi a julgamento? Não! Porquê? Porque os nossos corruptos estão feitos com eles, o dinheiro não tem cor nem religião.
Ainda temos aí mais rafeiros como os da Teorema, os Nizas, pai e filho, os da Euroafrica, e tal de Jamal da Socogrel, etc., etc. Por isso Mangolés, qualquer dia estamos todos a rezar de cu para o ar, porque os nossos dirigentes querem é dinheiro, não querem saber do que se vai passar em Angola dentro de 30 ou 40 anos»
- Vieira, pelos pormenores que esta informação contém, parece-me que é alguém que conhece muito bem os enredos da podridão angolana.
Vieira não comenta, prefere fugir para a temática das eleições.
- E o partido que oferecer telemóveis à juventude, ganha as eleições. Mas, a questão fundamental é que neste país não existe oposição. Apenas oram ou lêem comunicados… dão entrevistas para darem nas vistas. Não conseguem mobilizar o povo porque ninguém acredita neles. Nunca vi em parte nenhuma, uma oposição como esta. São simplesmente confrangedores. Este país nunca sairá deste marasmo. O mais curioso é que os intelectuais parecem que não existem. Onde estarão?! Porquê o seu silêncio (?). Estarão definitivamente acomodados?!
A aparelhagem da pista de dança da boate iniciou a sua actividade, a costumeira barulheira. O som estava altíssimo, insuportável. Para conversar quase que tínhamos de encostar os lábios aos ouvidos. De qualquer modo quase se gritava para se ser escutado. Então roguei a Vieira:
- Desculpa, mas com este barulho não é possível conversar. Não sei como consegues suportar isto.
- Também não consigo… calma que já vamos para minha casa acabar a conversa.
A empregada chegou e recolheu o que estava na nossa mesa. Novamente ao baixar-se, os seios mostram-se quase nus, sedutores, e depois de costas, o seu traseiro bem modelado, convida mudo de sensualidade. Vieira ordena-lhe:
- Prepara quatro pregos no pão, e trás as seis garrafas de vinho tinto Dão Meia Encosta que estão na prateleira e põe na minha conta!