quinta-feira, 18 de julho de 2013

UMA TRÁGICA HISTÓRIA DE AMOR




Baseado num facto verídico
Dérito e Sambita namoravam-se. Não como aqueles que namoram e fazem disso uma mera ocupação para passar o tempo. Amavam-se para além das montanhas aladas das suas almas. Muito para além da atracção universal de dois corpos terrenos. Dérito, de vinte e um anos e Sambita, dezasseis, vizinhavam-se, há dois anos que floresciam no namoro. O pai dela não sabia, saber não podia. Estudavam, o futuro preparavam. Distraíram-se e Sambita engravidou.
Desabrochavam-se no seu amor que já sentia maturidade. A responsabilidade que aceitavam no infiel quotidiano. Dérito lembrou-lhe:
- Querida, acho melhor desfazeres a gravidez!
- Sim, também já pensei nisso meu amor!
- Sabes, alguns remédios que vendem por aí… acho que são eficientes.
- Já tomo alguns… com a ajuda das minhas amigas tudo correrá bem. Assim o espero!
- Concordo contigo. Estudamos e neste momento não temos condições para suportar um ser que nascerá, e para o qual não temos meios de o sustentar, alimentar. Será mais um esfomeado. Quem nos apoiará? Decerto serás escorraçada de casa. Para onde? E eu? Que estou na casa de um tio?! Deixaremos de estudar. Será o nosso fim.
- Déritozinho, compreendo perfeitamente. As tuas preocupações são a eternidade da fortaleza, da certeza do nosso amor. Apesar de retirar a sementeira do meu ventre, que jurei só a ti pertencer, continuará sôfrego de liberdade para nele de novo exercitares. Planta neste jardim das delícias acolhedor, a semente do nosso universo. Verás depois os frutos saborosos, acolhedores que cairão no paraíso das tuas mãos.
E a vida no laboratório da Sambita expandia-se, sentia-se como o peixe na água, crescia, remexia, renascia.
- Déritozinho, não me sinto bem. Acho que estou com paludismo.
- Vou procurar ajuda!
- Não vale a pena. Ninguém nos ajudará. Somos apenas jovens que se amam. Quem se preocupa com isso? Pensa nisso minha ternura, minha essência pura, e tudo se enaltecerá!
- Confio em ti, na tua raiz celestial, matriz de amor impetrai.
Sambita sentiu-se num mar confuso que não lhe corria de feição. A juventude do seu corpo fortalecido, sempre adequado para saltar qualquer obstáculo, em maré de rosas sempre cuidada, regada, e que no esquecimento seca-se, sem rega. Mas que depois recebe a água da vida. Reergue-se, Sambita sentiu a sua jasminácea flor jasmim-manga murchar-se. Apesar de muito aromatizada não conseguia resplandecer. Lançou talvez o último pedido de socorro.
- Por favor, leva-me para a maternidade!
Dérito não sabia como obedecer. O que fazer do e no tempo, o que pensar. Sentia o sol apagar-se. Mecanizou-se como adivinho talvez ao último desejo da amada nebulosa.
- Está bem, não deixes o jasmim da nossa primavera da vida murchar.
Chegou na maternidade e entregou-se nos cuidados intensivos. Suspirava, procurava a vida que lhe faltava, do único que a amava. No exterior, Dérito aguardava, impacientava-se. Talvez fosse apenas mais um daqueles sintomas que as mulheres sentem durante a gravidez. O tempo passava e as notícias, ele sentia, desconfortavam-no. Sentiu uma faísca no cérebro. Como se alguém lhe enviasse uma mensagem. Que estranho... era a primeira vez que sentia tal no seu pensamento. Parecia um pesadelo. Despertou sobressaltado. Não esperou, subiu as escadas empurrando, não se importando com quem lhe aparecia à frente. Sabia onde ela estava. Estacionou e perguntou:
- A Sambita…
O semblante da médica deslocou-o para a época glacial, ela conseguiu descartar-se:
- Faleceu!
É apenas com esta palavra que as pessoas que trabalham nas áreas de saúde respondem. Saborear a morte é ser profissional, é ser normal. Perderam os sentimentos, apenas sentem as pessoas como qualquer objecto avariado. Enquanto funciona é prestável, quando não nos serve o destino é a morgue.
Dérito evadiu-se, afastou-se da realidade. A querida da sua vida sem ela? Será engano? Não! Viu, sentiu que ela se despediu, do muro de suporte da vida que ruiu. Não respirava. Lembrou-se que quando deixamos a dinastia da vela vivencial não respiramos. Sentiu a ténue chama que restava da alma do seu amor, já nos idos sempiternos.
Dérito! Sonharam-me que descobriria o Caminho, que tudo me seria revelado, lamento! Não consegui. Deixo-te os meus últimos suspiros, vão para ti. Vejo tudo tão escuro, parece noite. Que luar, neste tão estranho lugar! E contudo tão bonito. Vejo alguém muito longe que se apressa. Levita para mim. Dérito! Sinto muito medo! Ah! És tu! Não te demores, acolhe-te nos meus braços abertos. Ainda queria viver muito, mas não me deixaram. Não deixam ninguém viver, apenas nos resta o sono, sonho eterno da nossa infelicidade.
Um tremendo fogo interior percorreu-lhe o corpo. A decisão da morte tão cruel para expiar o sentimento de culpa que sentia, a vingança a uma sociedade desumana. Uma vingança ao mundo que não os soube acolher. Adquiriu a certeza que não adianta mais viver. Pegou num recipiente. Foi numa bomba de combustível e encheu-o com gasolina. Entrou em casa normalmente, ninguém suspeitou das suas intenções. Fechou-se no quarto bem trancado. Ensopou o colchão com gasolina, deitou-se e pegou-lhe fogo. As chamas tomaram conta do seu corpo. Um familiar sente cheiro a fumo. Tenta abrir a porta do quarto, não consegue. Gastaram-se aí quinze minutos para derrubar a fortificação. Levaram-no rápido para o hospital. As queimaduras eram intensas. Dificilmente escaparia. Pouco depois veio o fim do que nos resta. O convite da morte foi atendido. Contente por roubar mais um jovem, transportou-o para o seu abismo eterno. Os últimos momentos foram uma mensagem de esperança, para a sua Sambita. A quem amou, como poucos sabem fazer. Ao maior, mais puro e único amor da sua vida.
Sambita! Estou prestes a consumir-me nas chamas da gasolina. Na escuridão dos cofres humanos gelados, onde guardam as almas invisíveis, insensíveis, que nos conduzem à morte. O meu, o nosso clamor não será em vão. Alguém escutará, redobrará este apelo!
Na noite mais sombria dos tempos voltarei, e juntos encantaremos, espalharemos o perfume humano da humanidade do nosso Amor.
Oh! Querida… voltaremos! Vejo para sempre finalmente, a tua beleza e o teu amor que me seguem. Vem! Para a nossa morada eterna, onde não existem noites, apenas o nosso glorioso Amor. Se fortuna não tivemos na terra, a do céu será o nosso tesouro. Do casamento que inventaram, com a morte nos casaram. Este enlace que jamais alguém apartará.

Imagem: http://www.webix.com.br/fotos/imagens/paisagens/media_estrada-florida.jpg