segunda-feira, 22 de julho de 2013

O EMPRESÁRIO LUSO-ANGOLANO (12)




Enquanto a empregada executa o pedido, entram dois portugueses fugidos da reforma agrária do Zimbabué. Encostam-se ao balcão e observam o que a parabólica transmite. Está num canal que só transmite música com negros e negras. Pessoalmente apreciava, aprecio, especialmente a dança sensual dos corpos das negras, a naturalidade genética. Para mim as negras eram… são, muito bonitas e extraordinariamente sensuais. Um dos portugueses reclama para a empregada:
- Tira essa merda daí, põe isso noutro canal!

Vieira grita para o irmão. Heitor aproxima-se com o telemóvel a tocar. Olha para o número que está no visor e não atende. Comenta:
- É uma gaja. Dei-lhe algumas fodas, agora quer dinheiro para os medicamentos dos filhos.
- Está bem!.. Heitor, eu e o contabilista vamos para minha casa!
- Concordo. Têm o direito de descansar porque hoje já trabalharam muito.
A empregada colocou tudo numa caixa. Vieira faz-lhe sinal para lhe segredar algo no ouvido. Ela baixa-se demasiadamente. Fica numa pose bastante provocadora. Consigo ouvir o que Vieira lhe diz:
- A partir de amanhã vão passar a andar nuas. Quero ver aqui muitos clientes. Acho que a casa vai ficar cheia.
E depois voltando-se para mim, reforça:
- Mas digo-o com toda a sinceridade. Qual é o problema de as pessoas andarem nuas?! Custa-me também a entender que para fazermos amor, que é um acto perfeitamente natural, temos que nos esconder?!
- No tocante a isso tenho a minha opinião.
- Vamos embora. Continuamos em minha casa. Vais ver o meu carro novo.
Saímos e parámos junto ao carro. Vieira abriu as portas, entrámos e diz-me orgulhoso:
- Já viste este Lancer?! Fiz um trabalho para um gajo, ele não me queria pagar, fiquei-lhe com o carro.
- É todo preto, preferes essa cor?
- Sim. Porque não se nota a sujidade. Um carro branco é trabalhoso a limpar, este mesmo que estando carregado de sujeira não se nota nada.
Havia pastas de arquivo, livros, e papéis espalhados em cima de mesas, cadeiras e sofás. Enquanto Vieira, na cozinha preparava a comida, consegui arrumar o local para nos instalarmos. Ele atrapalha-se:
- Não consigo encontrar o saca-rolhas para abrir a garrafa.
- Arranja um parafuso comprido e um alicate.
Enrosquei o parafuso na rolha de cortiça, depois com o alicate puxei com força, e consegui retirá-la. Vieira dá uma ideia:
- Já viste o negócio se aquelas gajas andassem nuas, era casa cheia de dia e de noite.
- Vieira, no tocante a isso tenho opinião formada. Foi o cristianismo que nos impôs o andarmos todos tapados. É pecado mostrar a nudez.
- Não acredito em Deus!
- Porquê?
- Isso é tudo uma grande aldrabice. No fundo é uma grande empresa de estrutura vertical. O Papa é o presidente do conselho de administração. Os Cardeais são administradores. Os Bispos são directores. Os Padres, chefes de departamento e os Fiéis, são os operários.
- Vieira, não acreditas em Deus… ou na Igreja?
- Nem numa coisa nem noutra.
- Ensinaram-me que quanto mais o negares, mais nele acreditarás.
- Mas o que é que tu queres?! Sou ateu. Não posso ser ateu? Não perco tempo com religiões.
- Parece-me que o ateísmo é uma religião. É como aquele indivíduo que diz que não quer saber de política, mas na realidade está a exercer um acto político. O de não ser político. Quando nos sucede algo que não podemos controlar, gritamos. Ai meu Deus!
- Mas o que é que tu queres?! Mantive um estreito relacionamento com um padre católico. A nossa intimidade fazia-me crer que a amizade seria eterna. Dei o meu contributo com algum dinheiro para ajudar a Igreja. Num determinado momento senti-me numa situação aflitiva. Roguei-lhe o seu apoio. Pura e simplesmente fui abandonado, desprezado. Quanto à nudez, a os dicionários há bem pouco tempo evitavam falar sobre tudo o que se relacionasse com o sexo… isso deve-se à Igreja.
- Não te esqueças que a Igreja é composta simplesmente por seres humanos.
- Mas o que é que tu queres?! Por seres humanos (?). Então não dizem que o Papa é eleito por Deus? Não sabes que o Papa João Paulo II tentou interferir na Internet? Queria controlo, que a Internet deixasse de ser livre, mas ninguém lhe ligou. E ainda bem.
Abrimos a segunda garrafa, Vieira exclama:
- Sinto-me orgulhoso em ser português por causa destes vinhos. Viva o Dão Meia Encosta!
- Mas és português ou angolano?!
- Eh pá!.. não me fodas! Aqui sou angolano, em Portugal português. Já te disse que sou um cidadão do mundo. Olha… os pregos no pão já acabaram. Vou retirar algumas lagostas da arca e preparar um molho que…
- Com o bom azeite…
- Sim tens razão. O bom azeite português. Outro produto do qual muito me orgulho. Viva Portugal! E os portugueses pedófilos que se fodam. Entretanto a Igreja parece que não se dá conta de que promove a pedofilia. E ficam incólumes.
- Vieira, já te disse que são apenas seres…
- E também querem promover o homossexualismo, mas o Papa não admite isso. Então para os chatearem, vários países já o legalizaram. Pouco falta para se estender ao resto do mundo.
- Na África não.
- Oh! Esses são uma cambada de atrasados.
- Vieira, apenas defendem as suas tradições.
- Enquanto assim procederem nunca avançarão em nenhuma frente.
- Mas agora somos todos obrigados a sermos homossexuais?
- Mas o que é que tu queres?! Se eles já nasceram assim, temos que respeitá-los.
- E casados? Como farão filhos?
- Adoptam-nos.
- E depois educam-nos para serem também homossexuais?!
- Não é nada disso, se não fazem filhos, não será por causa disso que a humanidade se extinguirá. O homossexualismo existe desde a criação do ser humano. Legalizando-o até tende a diminuir.
Vieira abre a terceira garrafa e canta:
- Ai meu vinho Dão Meia Encosta, não há cor igual há à tua. Porra! Isto é mesmo bom! Não existe no mundo nada igual. Nem o paraíso se lhe compara. Entre uma boa gaja e este vinho, escolheria o vinho.
- Sabias que o vinho nos seus primeiros tempos era considerado uma droga, divino, assim como a oliveira, reis eram ungidos com azeite.
- Sim sei disso. O culpado disto tudo foi o Carlos Magno. Antes de uma grande batalha, sonhou que viu uma cruz no céu. Ganhou a batalha e tratou de entregar tudo à Igreja. Por isso o Papa Leão III em gesto de agradecimento corou-o como Imperador do Ocidente. É como o Marx. Ele é o Cristo e Estaline a Igreja.
- Vieira, não estou a entender.
- Mas o que é que tu queres?! A igreja ficou com tudo. Depois aniquilaram os Cátaros e os Templários, apenas para os roubarem. Nem as terras escaparam. O Infante D. Henrique, o Navegador, conseguiu as suas aventuras marítimas à custa dos bens dos Templários. A história do cristianismo é uma história de massacres, genocídio de povos, roubos das suas obras literárias, e dos seus conhecimentos científicos. Com a Inquisição terminam, finalmente por aniquilar qualquer oponente, e ficar com os seus bens. Quando um membro da Inquisição sabia que alguém tinha algo valioso que lhe interessava, enviava-o para o braço secular do Santo Ofício, sem testemunhas para se defender. Tudo em nome de Deus. Mas a melhor monstruosidade que a Igreja Católica inventou, foi um demónio chamado Torquemada. Este demónio inventou instrumentos de tortura, que duvido existirem no inferno. Era mais ou menos como o 007, tinha ordens para matar. Tinha um prazer divino em matar. Como é que eu vou acreditar nesta quadrilha de malfeitores?!