quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O empresário luso-angolano (FIM)





- Ele tinha um programador que trabalhava dia e noite a desenvolver software. Há mais de seis meses que não recebia um tostão. O coitado metia dó, passava fome, apanhou paludismo, deitou-se no sofá deu-lhe um ataque cardíaco e morreu. Ele não contribuiu com nada para o funeral. Portou-se como se nunca o tivesse conhecido. Ah… ele chegou-me a dizer que esse gajo não tem amigos.
Kizua ia-me espantando cada vez mais com as suas denúncias:
- O chefe do pessoal ficou entalado quando um carro fazia marcha-atrás. Partiu-lhe uma perna, ficou três meses em casa. Ele pagou-lhe um mês de salário, não contribuiu em nada para as despesas do hospital e medicamentos. O homem está aí a trabalhar de muletas.
- E o Engenheiro Mecânico? – Lembrei-me.
- Não é engenheiro mecânico. Ele começou a trabalhar numa empresa que representa uma marca muito conhecida. Num dia um general achou estranho o barulho que o motor do seu carro fazia. Intrigado pediu a um mecânico amigo que lhe vistoriasse o motor. Qual não foi o seu espanto quando o mecânico disse que o motor tinha sido trocado. O general esbaforido exigiu que queria o seu motor. Colocaram-lhe um novo, nunca souberam o que aconteceu ao outro, e ele foi despedido.
- Fantástico. – Comentei.
- Depois foi para outra empresa, os carros que reparava ficavam piores.
Também foi corrido. Arranjou trabalho numa oficina, esteve lá poucos dias porque um cliente ao sair notou que os apoios do motor não estavam apertados, ou não tinham sido montados.
- Que desgraça! – Exclamei.
- É um aventureiro… alojou-se aqui porque a mulher dele, uma amante angolana, correu com ele de casa porque não lhe dava dinheiro. Estava nitidamente a chulá-la. Já tem fama, porque alguns clientes quando chegam ou sabem que ele está aqui fogem. Os mecânicos que trabalham com ele são unânimes em afirmar que ele não percebe nada de mecânica.
- Como é possível? – Perguntei.
- Não se admire, aqui tudo é possível. Por exemplo, ele reparou o meu carro, mas ficou pior, tem problemas nos amortecedores. Ele disse que levou amortecedores novos, mas não é verdade porque são usados. Cobrou três mil dólares, e justificou-se que o carro levou uma reparação geral. Com o carro do Heitor aconteceu a mesma coisa, também cobrou a mesma quantia.
- O preço de um motor novo. – Calculei.
- Acho que foi vingança… o Vieira disse para não pagar. Ladrão que rouba ladrão.
Lembrei-me que também fui penalizado.
- Até agora não sei o que foi feito do meu potente Ups, da impressora a laser, e de uma secretária que me custaram muito dinheiro.
- Vendeu-os.
- Bandido!
Fico apreensivo porque Kizua olha-me fixamente. Parece ganhar coragem para me fazer uma grande confidência:
- Isto que lhe vou contar tem que me prometer que não dirá a ninguém.
- Prometo.
- Olhe que é muito perigoso.
O que seria desta vez que Kizua me ia contar? Seria assim tão importante? Preparou-se para desvendar:
- Ele tinha uma empresa de construção civil, uma sociedade com um português. Este executou um trabalho para o Estado. A dívida demorava a pagar, mas finalmente saiu a autorização de pagamento. Vieira, na função de director financeiro recebe o dinheiro e não dá nenhuma quantia ao seu sócio. Ele ia e vinha sem conseguir nada. Acho que o ameaçou de levar o caso a tribunal.
- Quanto era? – Perguntei.
- Um milhão de dólares.
- Oh!?
Era muito dinheiro. Não sei se alguma vez na vida teria tal quantia ou muito menos. Pedi a Kizua para continuar:
- Numa manhã o português caminhava por uma rua próxima de casa, um carro aproximou-se e sempre em movimento dispararam-lhe vários tiros… e acabaram com ele.
- Oh!? Oh!?
Fiquei perplexo, receoso, seria possível? Custava-me a acreditar em tal. Pensei que Kizua não poderia inventar uma coisa destas.
- E depois?!
- Depois nada. O Vieira recebeu a dívida e os que aguardavam a comissão convenceram-se que o português recebeu o dinheiro e que não lhes queria pagar. Então por vingança decidiram acabar com ele. Evidentemente que o Vieira está por trás disso.
- Ninguém se queixou à judiciária?
- Nem pensar, e quem tentar não ficará vivo por muito tempo. Como lhe disse são indivíduos muito perigosos. Com o correr do tempo desde a independência, levantaram a bandeira do comunismo deles, implantaram-se lentamente e actualmente constituíram-se em sindicatos internacionais do crime perfeitamente organizado. Garanto-lhe que são máfias que actuam impunemente, porque os seus tentáculos estão colados, protegidos pelo poder.
- Terrificante. – Prenunciei.
Kizua termina num tom convincente:
- Ainda estamos em 1975.
Nas traseiras havia um corredor comprido ladeado por um jardim muito mal conservado. As plantas estavam a secar, alguma relva conseguia resistir. Para lá do arame farpado que encimava o muro que protegia as instalações, divisava-se um campo abandonado com restos de sucata do tempo colonial. Alguns pardais sempre desconfiados poisavam e levantavam voo, assim que notavam presença humana. Percorria o corredor até ao fim e depois voltava ao início. Já passava da hora do almoço, não estava com vontade de comer a comida intragável do Vieira. O barulho do telemóvel desperta-me, é a Anita:
- Vai depressa ver o noticiário da tarde da televisão.
Corri, ainda a tempo de ouvir:
- Comunicado do Comando da Polícia Nacional: a Polícia informa a toda a nossa população, e à comunidade internacional que depois de aturadas investigações, conseguiu finalmente após grande resistência, abater com vários tiros no Sambizanga, o famigerado cabecilha conhecido pelo nome de código Malcolm X, chefe de uma poderosa quadrilha que atentava contra o Estado. Concretamente na preparação de um golpe de estado, onde pugnava, imaginem, pelo fim da corrupção no país. Foram capturados alguns elementos que serão acusados de conspiração internacional contra a segurança do Estado. As investigações prosseguem a bom ritmo, e oportunamente serão divulgados mais pormenores.

EPÍLOGO

A minha esposa enviou-me um e-mail a dizer que ela e os filhos me abandonaram para sempre. Terminava na desfeita, que já não gostas do que é claro, e que os caminhos da escuridão das negras não deixam visibilidade, e que ficasse para sempre com a escuridão eterna.
Com o dinheiro que vinha no embrulho que o Malcolm X deixou, comprámos computadores e montámos um escritório em casa, onde efectuamos vários trabalhos. A Anita sente-se feliz porque pretende doutorar-se através da Internet. Não sente escrúpulos da origem do dinheiro, costuma dizer, que se roubam, nós também temos esse direito.
Aproveitou, foi a Portugal visitar uma amiga, e trouxe muita roupa, especialmente lingerie, que no dizer dela, é para renovar a frota da nossa intimidade.
Vieira está trancado na sua fortaleza. Todos os novos-ricos estão assim. Costuma dizer que os telemóveis, raramente os atende porque sente medo, que um caiu na água e o outro avariou-se, o que não é verdade e que já vai resolver isso. Está sempre a mudar de alojamento para não ser surpreendido, porque tem muitos inimigos. Ultimamente aparece para pagar os vencimentos do pessoal, fica alguns dias e pisga-se. Continua a inventar documentos para não pagar impostos. Tem uma trading que vende desde agulhas a, no dizer dele, que também está apto a fornecer um porta-aviões a Angola. A electricidade do vez em quando, está sempre com falhas, por isso trabalha-se com gerador. Vieira costuma dizer: o que aqui há a mais são geradores.
Heitor prossegue a sua actividade de engenheiro de construção civil. Com um monte de dólares conseguiu a papelada e é mais um engenheiro. As paredes, os muros e o chão da empresa mostram brechas perigosas. Parece a falha de São André.
Nunca mais vi a Ava. O Vieira disse-me que ela não quer sair de Portugal. Está muito ocupada com a Butique.
O Kizua disse-me que o Jacinto morreu devido à fome, completamente abandonado à sua sorte.
O Engenheiro Mecânico continua a estragar os carros, os clientes estão a fugir.
E testifico que foi em Luanda que a grande depressão de 2008 iniciou. Tal e qual como o efeito borboleta.