Vai para três meses que Luanda está sem energia elétrica. Entretanto, há quarenta e dois anos os que governam por direito de sucessão apostam na diversificação da economia… sem energia eléctrica. E o fumo do gerador do banco millennium-atlântico na rua rei Katyavala mata-nos. Em Luanda, matar é facturar.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

16-24Dez14. República das torturas, das milícias e das demolições





Diário da cidade dos leilões de escravos

16 de Dezembro
O Governo português do primeiro-ministro Passos Coelho disse que o desemprego em Portugal diminuiu. Com certeza, pois se por aqui – em Luanda – pouco falta para que sejam – dizem – quinhentos mil portugueses que aqui conseguiram emprego. Numa política puramente colonial apoiada pelos princípios mais retrógrados do poder do petróleo, em que, o petróleo é nosso, da minoria, nós ordenamos e o povo ajoelhado suplica-nos por algumas côdeas de pão.
E o que se fará com o petróleo a 55.91 dólares? Nada, isto é, numa população miserável não há como carregar nos impostos. As empresas são deles ou a eles ligadas, só resta o aumento do preço dos combustíveis, e isto será a derrocada porque a população já não suporta mais miséria e com a fome como única companhia o teatro está encenado para a desgraça final. Esta irresponsável governação quando os preços do petróleo valiam ouro podia muito bem ter criado o desenvolvimento da economia do país, mas não, optou por surripiar as receitas do petróleo para usos individuais e agora nada há a fazer, a não ser o regresso ao comunismo primitivo, que já se nota muito bem com o apoio dos chineses, basta ver a porcaria dos produtos deles que por aqui circulam. Quer dizer, a China envia-nos o lixo e nós comemos. Sinceramente, isto é demais, como se fossemos porcos no curral, e a oposição não consegue combater estes males, a não ser com alguns comunicados onde o partido no poder se ri de tanta inépcia. Pobres cérebros sem neurónios.
17 de Dezembro
Todos os meios lhes servem para nos eliminarem. Até o gás do gerador do banco millenium na rua rei Katyavala em Luanda. Sobre mais este gerador da morte, – são muitos, como os que estão nas torres e condomínios deles, é tudo deles até as praias, eles fazem o que querem e lhes apetece para nos liquidarem e ninguém têm coragem para se lhes opor, como essa oposição da vergonhosa vanguarda do histerismo político que se diz democrática – chegou à nossa redacção a informação que o banco millenium telefona todos os dias para os técnicos portugueses, mas eles não aparecem. Uma fonte que preferiu o anonimato disse que o banco millenium não paga os serviços prestados e os portugueses estão em greve por falta de pagamento. Sem lei nem ordem os portugueses destronam Luanda e as nossas vidas.
18 de Dezembro
Mais um cúmulo bwé da nossa hipocrisia local: falam bwé da corrupção dos outros países, como o caso Junker da União Europeia e da corrupção das suas figuras públicas, falam, falam da corrupção sem exaustão. E da corrupção das portas escancaradas em Angola nem uma palavra. Isto inclui os tais nossos famosos jornalistas que têm medo de se debruçarem sobre o tal patriotismo nacional – a corrupção – Ah! Corrupção a quanto obrigas.
19 de Dezembro
Isto assim não dá, quer dizer, qualquer um tem ordem para matar. Isto cheira a chacina.
Ninguém está em paz porque as quadrilhas chegam e como no faroeste, fazem tudo por tudo para nos desalojarem, nos matarem. Só a lei da morte impera. Em pleno ano de 2014, custa dizê-lo, mas estamos à mercê de um Estado selvagem.
Diariamente a violência sobe tão facilmente até atingir a sua vitória final. Viver aterrorizado à espera de ser assaltado, isso é viver? Ó senhores do petróleo, ainda não lhes chega, ainda não estão satisfeitos? É necessário o clímax final?! É fácil de prever que uma revolta acontecerá, mas como os senhores, os donos do petróleo e de tudo têm a certeza que não, eles é que são os inteligentes porque com a violenta repressão, o terror resolve tudo mas gera também violenta resposta que facilmente se poderia evitar mas como preferem o caos e os rios de sangue, assim seja feita a vontade deles.
20 de Dezembro
Rafael Marques de Morais: “Como se pode ter orgulho na soberania de um país que tem mais de mil generais e comissários da polícia, mas não consegue produzir dois coordenadores de segurança para o Kero? Com a premissa da incapacidade da mão-de-obra local e a carência de quadros nacionais, faltou apenas ao governo importar ministros e generais, cargos que constituem os maiores entraves ao desenvolvimento humano em Angola.”
Viver sem oposição política, é como o mar sem peixe, como um castelo assombrado, como mulher sem marido e vice-versa, como sacerdotes sem templos, como dias sem sol densos de nevoeiro. Viver de uma só voz é como um hospital psiquiátrico que vive da voz do seu director. É como uma ditadura do proletariado.
Não é, nunca será possível nesta cidade dominada por quadrilhas existir lei. Existe apenas a lei das quadrilhas.
21 de Dezembro
Uma jovem de dezoito aqui da bwala engravidou e não se sabe como tirou a gravidez. Depois começou a queixar-se de que não se sentia bem. Levaram-na ao hospital mas em vão, quando lá chegou já estava sem vida.
No dia 10 de Novembro a Rádio Ecclesia noticiou que um jovem no bairro Huambo, em Luanda, foi assaltado e agredido até à morte.
O Nosso Técnico está num banco a reparar uma máquina que controla os depósitos e levantamentos. De repente chegam dois brancos portugueses e dizem-lhe para ele se retirar que eles farão o serviço, quer dizer, para lhe roubarem o emprego. O Nosso Técnico bazou e foi para casa. São tantas, tantas as diatribes patrocinadas pelos únicos e exclusivos milionários do petróleo que não dá mais para suportar. Desprezar os angolanos em proveito dos estrangeiros é um atentado contra a segurança nacional, é fazer revolta, é promover instabilidade.
22 de Dezembro
Nós, estrangeiros, apoderamo-nos de tudo, então, vós, mwangolés ficais desempregados. Bom, desempregados não. Restam-vos as vendas nas ruas e os assaltos. Mas nas vendas nas ruas instruímos a Polícia para que vos persiga, porque não queremos lixo nas ruas, sim! Vós, os donos da terra sois lixo! 
23 de Dezembro
Não resisti a mais esta afronta praticada pelos donos das nossas vidas. Para os que lutaram pela independência com armas na mão ou não, isto é um ultraje, uma traição à Pátria passível de julgamento. Mais um alerta de Rafael Marques de Morais que não se pode silenciar: “Um exemplo específico e recente é o do maior hipermercado de Angola, Kero, pertença dos generais Manuel Hélder Vieira Dias Júnior “Kopelipa” e Leopoldino Fragoso do Nascimento, e do vice-presidente Manuel Vicente. Em Outubro passado, a direcção-geral do Kero procedeu a 12 nomeações para os cargos de director-geral adjunto, gerentes de lojas e bazares, assim como os de coordenadores de segurança. São todos oriundos de Portugal, e nenhum deles é negro. Vejam-se os casos de Nuno Sardinha e Paulo Monteiro: ambos vieram para Angola como coordenadores de segurança da logística e do hipermercado do Kilamba, respectivamente. O primeiro saiu de Portugal como chefe de segurança do Jumbo de Castelo Branco, enquanto o segundo exercia a mesma função no Jumbo da Amadora, em Lisboa.”
24 de Dezembro
Amanhã é Natal, mais um dia de mais um ano passado na fortaleza da miséria, de promessas infestadas de desolação. Para quê prometer se sabemos que nada vai acontecer. Muito pelo contrário, tudo é de esmorecer.
Entretanto às 12.27 horas o petróleo está a 57.12 dólares. Se antes na abastança era miséria, agora com tais preços chamar-se-á miserabilíssima.
Desejo a todos um feliz Natal…