quarta-feira, 4 de maio de 2016

SILENCIADOS




“Toma-me para ti
Aprisiona-me
Pois jamais serei livre
Jamais casto
Se não me consumires.”
(John Donne. 1571-1631)

Perante um governo tão poderoso
As crianças morrem indefesas
Enorme pesado e muito luxuoso
Que abala as suas frágeis defesas

Com a China reforço da cooperação
Também com Cuba e Coreia do Norte
Não admira tanta lentidão
Da população a sua má sorte

A nossa vida é uma grande desilusão
Morremos, enterrados sem chão
E para termos alimento
Só faltam os cartões de abastecimento

Já temos comissões de moradores
Falam de outros temores
De muitos outros tremores
E outros perseguidores

Pouco lixo há para fazer
Pois não há dinheiro para comer
Nestas ruas de miséria infestadas
Pela intensa fome condicionadas

Na noite uma vela se acende
Sem leite a criança chora
Vê-se a miséria que ascende
Aos rostos sombrios a mãe implora

Um cão de corpo cadavérico ronda
Já não há onde se esconda
No corpo corroído de tanta pancadaria
De noite e de dia

Nos rostos da fome sem cor
Perdeu-se o alvor
E a sagrada esperança
Trouxe para alguns a abastança

Já ninguém acredita em promessas
Porque está tudo às avessas
A trama diariamente se descontrola
E a nossa vida nela se atola

Dia-a-dia as dificuldades aumentam
Nos devoram, nos rebentam
As sanguessugas nos arregimentam
E os lobisomens nos afugentam

Imagem: Setenta anos da Coreia Do Norte. ELPAIS