sábado, 3 de setembro de 2016

DEIXAR O CIRCO PEGAR FOGO



República das torturas, das milícias e das demolições

Diário da cidade dos leilões de escravos

Ano 1 A.A.A. Ano do Apocalipse de Angola

A fome é quem mais ordena.
Era muito evidente que Angola chegasse ao ponto final da carreira da sua existência como país, porque um conjunto de vozes falava e escrevia sobre isso, mas como por aqui a tudo se faz ouvidos de mercador, é muito natural que este circo pegasse fogo. Mas a tal extremo que se chegou, que vigora, está inacreditável. E os culpados da situação é a incompetência da governação e da oposição. Isto está uma grande macacada. Antes era uma república das bananas, depois foi premiada como república da ginguba, agora, e finalmente, república da fome. O que se vê no sistema bancário sugere que a sua queda está iminente, num Estado megalómano outra coisa não seria de esperar. Continua impressionante o modelo de gestão que mais parece uma trapalhada comunista, que o enxame humano do politburo tem tudo e a população não tem nada, nem sequer direito tem ao vulgar estatuto de cidadania. Os mesmos de sempre que falharam no tiro ao alvo, são os mesmos que fizeram a crise do Angola vai parar, continuam a governar, a paralisar, sabendo nós de antemão que com o remédio de fórmula corrupta a doença vai piorar. A situação já está descontrolada porque na fome a população vive como ovelhas tresmalhadas facilmente presas dos lobos famintos. No terreno as forças policiais e fiscais para se safarem, perseguem nas ruas quem venda alguma coisa no terror quotidiano, e os condutores das viaturas são perseguidos pela extorsão monetária, senão a miséria e a fome tomam conta dos seus lares. A mana Antónia estava com a sua ginguba e batata-doce assadas para vender, chegaram os fiscais e queriam carregar-lhe com tudo. Ela disse-lhes que estava ali para ver se conseguia arranjar dinheiro para pagar a transfusão de sangue efectuada na sua filha. Então, um fiscal pediu-lhe, “dá só duas batatas-doces.” Isto foi a meio da tarde, porque a meio da manhã queriam levar preso o jovem da cantina alegando que alguns produtos estavam com o prazo expirado. Então a mana Antónia e mais a mana Mónica foram em auxílio do jovem e disseram aos fiscais para o deixarem em paz, porque ele faz quilapi nos vizinhos. E assim o deixaram, sem antes lhe surripiarem alguma coisa, como é da praxis, claro. É que a fome tende a generalizar-se porque já há famílias que viviam bem e também já padecem dos efeitos do alimentar-se mal. A fome já se apresenta como uma doença crónica. Angola vai parar, parece que já parou. Sem dinheiro, Angola está em poder do coveiro. Angola é uma mentira permanente, um consumado facto decadente. A fome é a muito boa conselheira da destruição. Por quanto mais tempo os famintos aguentarão, por quanto mais tempo sobreviverão às garras das feras inimigas da nação? É lícito por tempo indeterminado submeter a população ao martírio da fome sem que haja consequências gravosas? O que se houve mais falar é o roubo de telemóveis. Num prédio vizinho já colocaram um segurança porque os assaltos são demais. Sim! Os bandidos já estão nos prédios, as hordas de famintos invadem o asfalto da cidade na luta sem quartel onde já ninguém se salva na mendicidade. Sem cérebros não há soluções, há paspalhões, e quanto mais fazem, mais as nossas vidas desfazem. Bom, isto está uma grande macacada daquelas. Está tudo muito confuso, onde os muangolés já se confundem com animais selvagens. Angola acabou, o que lhe resta é para o saque final, habitual. Nada funciona, tudo se desmorona. Quando a miséria e a fome se extremam aparece uma igreja em cada esquina, como ciganos a nos lerem a sina. Tal como depois da queda do império romano, a Igreja apresentava, cantava o advento do apocalipse. Sim, vem sempre com a história do apocalipse para arrebanhar os desesperados e sugar-lhes o que resta das suas vidas. Onde há povo burro, a religião e as ditaduras são o bicho-papão. Isto já não tem solução, pois sem pão é vulcão, os parasitas nacionais e estrangeiros aguardam a ocasião para a chegada do furacão. Sem dinheiro, excepto para a comunidade da corrupção, os pilares bancários gemem na agonia da cidade de Luanda, como na destruição pelos romanos das cidades de Cartago e de Palmira. As incansáveis testemunhas de Jeová perseguem de casa em casa os apalermados cidadãos a anunciarem-lhes que o fim de Angola está próximo tal como rezam as sagradas escrituras. Que o Senhor está a chegar para o ajuste final de contas. Os inventores de Deus e dos deuses, de pastores mal fabricados com a bíblia numa mão e na outra um cofre, ameaçam que se não contribuírem com os dízimos não se salvarão do abençoado apocalipse. A religião e a corrupção destruíram esta nação. Igreja e corrupção, a perfeita união. Não há dinheiro, pois alguns ficaram com ele e estão podres de ricos, daí facilmente se explica a miséria e a fome que não se sabe quando acabará. Talvez daqui a vinte anos? Nunca? Quantos estarão vivos para festejar… alguns, sempre os mesmos.
No dia 19 de Julho de 2016, junto da Igreja Adventista do Sétimo Dia, na rua Rei Katyavala, em Luanda, foi visto um europeu, dizem que é um português mas até agora tal não se confirmou, à procura de comida nos caixotes do lixo. A vizinhança ficou estupefacta porque nunca assistiu a tal coisa, e lamentaram, sentiram muita pena do europeu.
O avô mantinha relações sexuais com a neta de doze anos, foi descoberto e levado preso para a esquadra. Fazia muita confusão com os polícias, e dizia-lhes que isso era uma coisa natural, carnal, porque é sangue da minha carne, posso fazer isso com ela. E de repente surgiu uma luz forte e o avô desapareceu. Procuraram a neta em casa dela mas também desapareceu.
A Igreja é o pilar das ditaduras.
Um povo educado pela Igreja é obediente, submisso, supersticioso, faminto, mas acima de tudo escravo de Deus, a mais hedionda invenção dos clérigos. Mas sobretudo pelo temor a essa monstruosidade divina. Ficar ao dispor, ao sabor de uma ditadura. E a Igreja é a ditadura de Deus. E por isso mesmo a igreja adora ditaduras. Portanto as ovelhas do povo de Deus são o holocausto das ditaduras. E a Igreja, campeã universal da hipocrisia, diz que o povo está feliz. A ditadura de Deus e dos homens juntam-se e abençoam-nos com a extrema miséria, fome. Sem eles seriámos muito felizes. Quando a quadrilha de Deus e dos homens se unem, há quem lhe chame democracia. Há que os apagar da face da Terra e da História.
23 de Julho 16 A.A.A, ano do apocalipse de Angola. Um bebé de poucos meses é arrastado pela sua mãe para a festa num cestinho embrulhado em roupa branca. Na festa, que consistia em meia dúzia de pessoas num terraço estarem sentadas a ouvir música selvagem, sito é, com o som o mais barulhento possível. O bebé passa quase encostado às colunas de som. Vejam, eu a cem metros de distância não suporto o barulho, imaginem o pobre bebé, mais um que veio ao mundo para nele vegetar. Mas estavam lá cerca de meia dúzia de outras crianças abandonadas à destruição precoce dos seus ainda não imunes corpos. Mergulhados no Apocalipse de Angola, creio que as pessoas fazem festas porque sabem que brevemente vão morrer. Então, enquanto há tempo despedem-se da vida.