terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A ECONOMIA SEM MERCADO (01)




A água deslizava como que sorrateira acariciando as pedras e caía parecendo um volumoso fio de prata, que a cerca de dez metros de altura libertava-se formando um lago sempre rejuvenescido. O lago estava ladeado por mangueiras que vaidosas ostentavam suculentas mangas, e aves viuvinhas passeavam, saltavam de ramo em ramo brincando tranquilamente.
Do lado oposto estava como que encomendada uma saliência de pedra natural que servia para dar mergulhos tipo prancha de piscina, para sentar, descansar ou admirar tão magnífica paisagem que obrigava os sentidos a se enfeitiçar.
Depois de uns mergulhos, os jovens, Lukeni e Mita, sentados na saliência conversavam ao mesmo tempo que balançavam as pernas que pendiam no vazio. Pararam de balançar e acto contínuo decidiram os corpos encostar. Lukeni segredou no ouvido dela “és mesmo tu que eu quero, jamais te esquecerei, jamais o teu amor abandonarei. Prometo amar-te para sempre. Prometo que serás para sempre a fonte da juventude do nosso eterno amor que jamais secará.” E ela sentindo arrepios de amor por todo o corpo, esfregava as pernas e acariciava o corpo entregando-o à irresistível lascívia. Abraçaram-se e beijaram-se convictos de que para eles o tempo parou, e que o mundo era só deles como se fosse uma gigantesca ilha, a aldeia global do amor.
Era no tempo da estação quente. O apogeu do calor incomodava os corpos, Lukeni e Mita caminhavam de mãos entrelaçadas no início da tarde na direcção de um grande lago abundante de cacussos (Tilapia rendalli). Lukeni retirou a sua pequena cana de pesca previamente anzolada, iscou-a e lançou-a para o sorteio da água. Não demorou quase nada e logo um cacusso se prendeu num anzol. Pescou mais um, encostou-o ao outro e passou-lhes pelas bocas um fio de tecido vegetal. Continuaram a caminhada, colheram da terra fecunda duas brutas batatas-doces garantindo o maná do dia. Mita, esticou as mãos e colheu duas orgulhosas mangas.
De repente, como que por magia o céu escureceu, nuvens escuras moviam-se rapidamente, não tardaria e a chuva presente se faria. Correram para o refúgio de um casebre estrategicamente edificado para o efeito, instalaram-se e viram o dia a se transformar em noite, tal era a intensidade do breu. Antecedendo a chuvada, o vento assobiava e soprava de tal modo que parecia que tudo pelo ar voaria. Parecia uma procela, era tal o ímpeto da chuva que fazia lembrar o déjà-vu. Mita começou a preparar os cacussos com a água da chuva, enquanto Lukeni preparava a fogueira com a lenha seca retirada do improvisado aprovisionamento. Depois de saciados deitaram-se bem colados, sentia-se frio porque a temperatura baixou. Taparam-se com uma manta a tresandar a pó. A chuva continuava a bater forte e sem se darem conta adormeceram profundamente.  
A Aldeia do Lago era muito pacífica, os seus habitantes viviam em – pode-se dizer – harmonia absoluta. O sustento diário estava garantido, miséria e fome eram totalmente desconhecidos, e talvez também porque não existiam partidos políticos nem feitiçaria, porque as contendas eram geridas pela jurisprudência do Sábio do Lago, assim cognominado porque vivia no penedo do lago. Ele também educava as crianças e os adultos dando-lhes instrução primária, secundária e até superior, porque era da tradição e ele detinha os conhecimentos do legado dos antepassados.
Lukeni e Mita cedo se levantaram e já pela aldeia circulavam a distribuir os bons-dias pelos aldeãos. De mãos entrelaçadas iam para o seu poiso habitual, o Lago da Cascata.     
Já lá estavam quando dee repente o céu foi abalado por um barulho muito conhecido, ouvia-se distintamente o som característico de hélices de helicópteros. Eram três que de imediato se fizeram a terra, enquanto vários camiões estacionavam e deles saíam tropas especiais, e dos helicópteros desembarcavam pára-quedistas. Pela movimentação a aldeia ficou pejada de pó, como se de um nevoeiro apocalíptico se tratasse. Estranhamente, a cena lembrava o filme Apocalipse Now de 1979, do célebre realizador Francis Ford Coppola, só lhe faltava o napalm. Um militar com um megafone em punho fazia-se ouvir muito estridente “petróleo à vista!” Os aldeãos em pânico corriam de um lado para o outro sem saberem o que fazer, acreditando piamente que as suas vidas chegaram ao fim.  
Creio que uma das principais funções dos seres humanos é destruírem os paraísos dos povos, ainda há quem lhes chame de descobertas, mas descobrirem o quê? Mas como se pode dizer que se descobriu um país, um povo? E indo nessa, serve-lhes de jurisprudência para colonizarem outros povos, alegando que eles são inferiores, que andam vestidos com um pequeno pano a tapar-lhes os órgãos sexuais, alcunhando-os de pagãos e com a tenaz da religião e a união de uma ditadura, estão lançados os dados da jurisprudência para a anexação subtil ou não desses países e povos. Modernamente usa-se o paradigma da cooperação vantajosa e a amizade entre países e povos.

Imagem: autor desconhecido