quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O PARAÍSO PERDIDO A OCIDENTE (21)



Tinha alguns livros marxistas. Um deles era o Capital e quatro outras obras de Marx e Engels. Coloquei-os na estante do nosso posto de rádio. Não ficaram lá muito tempo. O Valadas vinha muitas vezes observar o ambiente, e dava-nos ordens rigorosas de que não queria ninguém estranho no nosso local. Isso causava-nos imensos transtornos com qualquer que fosse como era evidente.
Tratava-se de manter o sigilo das comunicações. Assim que viu os títulos dos livros na estante, perguntou de quem eram. Respondi que me pertenciam. Sem quaisquer explicações retirou os livros, abalou com eles. Advertiu-me que este tipo de literatura na sua companhia estava proibido. Isso depois foi muito comentado. Os alferes e furriéis quando tomaram conhecimento ficaram apreensivos. Devido a este facto e outros a relação com o Valadas começou a ficar fria.

No seu gabinete o alferes Santos, que era o segundo comandante, quando se reunia já não falava, mas gritava, ao ponto de chegarmos a pensar que a qualquer momento o Valadas seria agredido ou abatido. Talvez devido a isso o Valadas iniciou um ciclo de uísque. Preocupados assistíamos às suas incursões frequentes onde quer que fosse. Implicava por tudo e por nada. Tornou-se tão aborrecido que quando alguém avisava que ele vinha a caminho todos fugiam. Perante isto tive uma ideia. Arranquei uma folha de banda desenhada em que o herói gritava: – Vem aí os índios!!!
Como os três pontos de exclamação lembravam os galões de capitão, tratei de sublinhá-los devidamente, e colei a folha no posto de rádio. O Valadas quando entrou com o copo na cabeça viu a caricatura e disparou:
- Grandes punhetas tirem-me já esta merda daqui!
Como era eu que estava de serviço, e depois do incidente dos livros pensei que desta vez não escaparia. Mas não me aconteceu nada. O Moreira aconselhou-me para evitar provocações porque o homem não andava bom da cabeça. Inclusive já tinha problemas com o fígado, e de vez em quando ia para Luanda em tratamento. O nosso comandante definitivamente estava arrumado devido às comissões de serviço sucessivas. Estava no estado a que chamávamos cacimbado.

O cabo Pereira era meu colega. Como eu era o substituto do furriel Moreira, ele achava-se no direito de também dar ordens, o que era incorrecto. Sentia-se por isso muito constrangido e frustrado. Todas as ordens que lhe dava ele não as cumpria. Chegou ao ponto de voltar todos contra mim. Quando notei isso já tinha um ambiente desagradável no nosso seio, que duraria até ao fim da nossa comissão. Apesar do seu posto, era medíocre em tudo o que fazia. Não consegui entender como conseguiu a especialidade. Só provavelmente com cunha, o que os colegas comentavam em surdina. Este homem seria o meu inferno diário até ao fim da desmobilização.

O Moreira facultou-me as NEPs-Normas de Execução Permanentes, que ensinavam detalhadamente como gerir as comunicações. Fui procedendo de acordo com tais normas. Um dos aspectos importantes eram as baterias que alimentavam o nosso rádio fixo RACAL e os outros móveis também da mesma marca. Isto devia-se à cooperação Sul-Africana. Expliquei a todos que quando a bateria de trabalho – que era muito pesada e que convinha serem duas pessoas para a transportar – estivesse no mínimo de carga, substituírem-na pela outra que estava sempre a carregar no respectivo carregador.
Disto dependia a nossa sobrevivência, pois que sem comunicações que seria de nós? Perante isto o Pereira decidiu exactamente o contrário. Quando estava de serviço colocava os pés em cima da bateria. Carregada de lixo e pó tornava-se perigosa pois podia explodir devido a um curto-circuito. Quando acabava o serviço deixava a bateria quase sem carga. O local com louça suja, restos de comida, lixo por todo o lado como soe dizer-se. Era o quem quiser que limpe. Os colegas chamaram-me a atenção. Falei com ele mas em vão. Queixei-me ao Moreira. Este reuniu com todos e zangado chamou-nos a atenção. O Pereira a seguir teve o desplante de continuar – ou melhor de piorar – a situação. Quando numa manhã entrei de serviço para o substituir e deparei com o espectáculo de pura provocação chegámos a vias de facto. Era inevitável. Lutámos. Talvez que ele não contasse que eu chegasse a este ponto. Depois de sofrer algumas escoriações começou a chorar estupidamente. Nunca mais nos falámos a não ser indirectamente. Limitei-me a culpar a guerra por este incidente que até nos causava inimizades.

De salientar um aspecto muito curioso. O Pereira conseguia passar o tempo a ler e a reler o mesmo jornal desportivo de tal modo que, chegava ao ponto de estarem a chamá-lo pelo rádio e não ouvia. Era necessário que algum de nós lhe chamasse a atenção, ou que pegássemos no micro e disséssemos:
– Informa!
Enquanto o operador do outro lado dizia que a manter-se a situação informaria o chefe do batalhão. E de vez em quando surgiam mensagens a informar que foi punido tal e tal operador.

Quando o céu anunciava tempestade e vento, saía como voluntário, cansado de olhar sempre para a mesma paisagem. Oh! Como desejaria que a Belita estivesse aqui junto a mim para sempre. Se ela ou eu pudéssemos voar quão felizes seríamos. Oh! Como é doce sonhar amiúde com o cheiro e o sabor da sua vagina que me acompanham todas as noites. Só receio que na ausência reste apenas uma ténue recordação. Enquanto vou permanecendo nas tempestades e nos ventos, nos abraços do meu pénis erecto tentando perfurar os tecidos que inventaram e que incomodam o amor. Com o passar do tempo e devido à distância, a separação é quase sempre inevitável. As noites lentamente passaram a ser masturbações de vez em quando. Até que tudo repentinamente terminou. As tempestades e os ventos passaram a ser a única companhia que me confortava e alentava. Ao contemplar o verde no alto das montanhas, via o meu sonho de amor perdido para sempre.