terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

1ª Guerra Mundial. A INFANTARIA CANADENSE NO SOMME




Trecho de uma carta do soldado William H. Gilday, 82º Batalhão da infantaria canadense, a sua irmã, descrevendo suas experiências na Batalha do Somme: Nós fomos à linha de frente uma noite. Os “Fritz” nos bombardearam enquanto avançávamos e, claro, acertaram alguns dos nossos homens. Nós ficamos na trincheira até de manhã, sem ser muito incomodados e, em seguida, os atiradores entraram em ação. Eu imagino que, se colocássemos uma moeda um pouco acima do parapeito e eles pudessem vêla, eles a derrubariam. Perto do meio-dia, recebemos a ordem para ir até o topo. E assim fizemos. Eu sei que você acha que as pessoas correm, berram, gritam e
esse tipo de coisa, mas não é assim. Pelo menos não foi assim naquela ocasião, pois nós andamos muito discretos e silenciosos. Eu só posso falar por mim, pois, até eu chegar ao arame farpado, minha mente só ficou parada. Eu não pensava em nada. Alguma coisa me atingiu na perna e rasgou a minha calça. Aí a minha mente funcionou ao máximo. O barulho era enlouquecedor, as balas passavam zunindo por mim, cantando sua canção de morte, estilhaços gritavam acima e a artilharia estourava em todas as direções. O ar estava cheio de ferro e chumbo e praticamente todos os meus companheiros morreram. Eu não consigo, de jeito nenhum, imaginar como eu escapei. Eu não sei como alguém poderia ter sobrevivido. No entanto, vários outros, assim como eu, atingiram as trincheiras alemãs, mas só tinha uns poucos “hunos” ali. Nós não tínhamos oficiais, apenas o sargento ferido e oito homens, então, não
sabendo o que fazer, preservamos aquela ponta, pois os homens à nossa esquerda nunca chegaram à trincheira. Fiquei lá por horas, tremendo de medo e esperando ser o próximo a cada minuto. Naquela tarde, eu entrei em outra trincheira com mais alguns homens e uns oficiais. Perto da meia-noite, de novo nos deram ordens de subir até o topo. Mais uma vez, eu consegui chegar com
segurança, mas, como antes, havia apenas uns “hunos” para nos saudar. Eles correram deixando tudo, até mesmo os seus fuzis. Estávamos lá há três dias e três noites, e eu escapei por pouco de alguns tiros. Deus certamente fez um bom trabalho cuidando de mim, pois eu me sentia bem doente. Eu gostaria de poder lhe contar tudo o que aconteceu, mas você nunca iria entender como as coisas são. Eu recebi uma bala bem no meu bolso esquerdo, e ela passou pela minha caderneta de pagamento e algumas fotos. Estou mandando junto uma
das fotos que foi perfurada, para que você possa guardar de lembrança. A bala nunca me tocou. A fotografia perfurada era do irmão de Gilday, Clem, dos Engenheiros Canadenses, que foi morto em ação na França, no final daquele mês.

A Primeira Guerra Mundial. Lawrence Sondhaus
Imagem: http://www.rusmea.com/2014/06/a-frente-ocidental-parte-2-primeira.html
Fonte: Publicado inicialmente no Calgary Daily Herald, 6 de novembro de
1916, disponível em
www.canadiangreatwarproject.com/transcripts/transcriptDisplay.asp?
Type=L&ld=27.