terça-feira, 18 de dezembro de 2012

As Aventuras de Akalesela. (04) O Mistério do Prédio Enfeitiçado




Ficaram em silêncio durante uns momentos. Ela finalmente introduz o motivo da visita:
- Moro num prédio desses de cinco andares… que por milagre ainda está de pé. Há muitos anos que está enfeitiçado. Mas ultimamente é demais, insuportável... enfeitiçaram a luz e a água.
- Tem a certeza? Já falou com essas empresas? – Perguntou Akalesela sabendo de antemão que a resposta será em vão.
- Se o tivesse feito não viria aqui... essas empresas?! Ninguém consegue descobrir os feiticeiros que estão por detrás delas. Olhe senhor Akalesela, a caixa do elevador está cheia com o lixo dos feitiços. Já lá apareceram três cobras. Os fusíveis estão sempre a queimar. Nas escadas entre o primeiro e o terceiro andar já escapámos de vários incêndios dos cabos eléctricos. Os técnicos que vão lá reparam, mas poucos dias depois fica tudo na mesma. É um grande feitiço.
- Não se preocupe mais com isso, vamos dar início aos trabalhos.
- Agradeço-lhe muito senhor Akalesela.
- Pode dispensar o senhor.
- Está bom, muito obrigado, também temos outro feitiço. São as infiltrações de água dos vizinhos de cima. Quando lhes dizemos que no nosso tecto  pinga água, especialmente na cozinha e na casa de banho, eles dizem que de cima não é. Então isto não é um grande feitiço?
- Certamente.
- Pois, Akalesela. Outro mistério é as camisinhas, não sei se está a ver…
- Estou.
- Aparecem nas escadas, e apesar da vigilância que fazemos nunca vemos ninguém. Acreditamos que as utilizam para fazerem feitiços sexuais.
- É muito possível.
- Senhor…ah! Akalesela, outro grande mistério é o lixo nas traseiras e os baldes de água suja que atiram das varandas. Nunca se consegue saber quem é. Pessoalmente já vi alguns vizinhos a fazerem isso, mas negam categoricamente que não são eles. Dizem que são os espíritos dos nossos antepassados.
- Provavelmente estarão correctos… ainda são coisas da tradição.
- Apesar de termos um segurança no prédio, estão-me sempre a roubar os piscas do carro. De dia e de noite ouve-se martelar nas paredes. Os vizinhos não sabem explicar a sua origem.
- Ma Yuan, o feitiço descambou na história da nossa tragédia nacional. Um hábito corriqueiro do dia-a-dia.
- Confesso-lhe que sim. Por exemplo, o filho de uma minha amiga envenenaram-no porque foi promovido a chefe. Alegaram que ele lhes estava a roubar o emprego. Uma minha prima passou a secretária do director, ele confidenciou-lhe para ter muito cuidado com as comidas das colegas, porque sabia que queriam envenená-la.
- Ma Yuan, isso é muito trabalho. Por favor dê-me a localização:
- É na Ruela Muito Mal Iluminada. O meu apartamento é o quarto esquerdo. É muito fácil de encontrar pois só há um prédio.
- Fale-me dos moradores… dos vizinhos.
- A maioria é jovens moças, cerca de seis. Tem lá dois rapazes. A mãe foi para as Lundas à procura dos diamantes. Nunca mais voltou. O pai tem três mulheres. Para a última construiu uma casa no terraço do prédio com restos de madeira e alguns tijolos. A vida delas é procurar a sorte nas noites. Akalesela, isto parece-me ainda pior: São cinco filhas de mães diferentes. Muito confuso. Os homens entram e saem. A casa está sempre inundada de água porque as torneiras estão danificadas. Não as reparam porque dizem que isso traz feitiço. Nas traseiras têm dois cães que enfeitiçaram para roubarem dinheiro aos vizinhos.
Entretanto Akalesela recorda-lhe:
- As desgraças que se ouvem e lêem nos órgãos de informação, e as que são ditas à socapa farão com que sejamos um grande canteiro de cemitérios.
Ma Yuan lembrou-lhe o suprassumo da feitiçaria:  
- Akalesela, porque não fazes um feitiço para apanharmos muitos diamantes?!
- Há dois feitiços que são extremamente caros... para descobrir petróleo e garimpar diamantes.
- Quanto custa um feitiço para obter o bilhete de identidade?
Akalesela limitou-se a responder-lhe:
- Estamos é a ficar sem humanidade.
- Humanidade não, desumanidade. Seres humanos não, desumanos.
Ma Yuan continua a falar da feitiçaria dos vizinhos:
- Como dizia, continuando, tenho duas filhas casadas que residem há muitos anos na África do Sul.
Faz uma pausa depois diz a sorrir:
- Posso assegurar-lhe que não tenho marido, só de vez em quando. Bom, no apartamento onde reside o autopromivido a patrão do prédio, a esposa está quase sempre em Portugal, dizem. Ele tem muitas damas. É outro novo-rico dono de uma empresa de segurança e de alguns armazéns. Muda constantemente de carro, agora anda com um BMW. O segurança do prédio é da empresa dele. Mas mesmo assim são muito medrosos. Quando chegam ou estão de partida o segurança protege-os. Andam sempre doentiamente desconfiados. Nunca dormem descansados. Akalesela… consegui enfeitiça-lo, agora é meu namorado. O carro com que ando foi ele que mo ofereceu. Conheço bem os homens e sei do que eles gostam na cama. Ele aos fins-de-semana vai para os arredores da cidade. Muitos como ele frequentam uma igreja do feitiço numa mata escondida.
Kakulu-Ka-Humbi ouvia com extrema atenção. Achou que o tema lhe pertencia e serviu a sua colherada parabólica:
- Nasceram num sítio qualquer da rua. Ele cedo aprendeu a engraxar sapatos para sobreviver. Depois aprendeu a arte de roubar. Roubar é uma arte, duvidam?! Ela cedo aprendeu a vender o seu corpo para sobreviver. Depois tornou-se especialista em dar prazer aos homens. Sexo é uma arte, duvidam?! Ele mais tarde terminou os seus dias ao encontrar uma bala certeira policiada. Nunca soube o que é ser feliz. Ela terminou os seus dias ao encontrar a SIDA. Também nunca soube o que é ser feliz. Na Angola de hoje, especialmente os jovens, recusam-lhes e espoliam-lhes a felicidade.
Parece que Ma Yuan não entendeu patavina e continua a desnovelar a corrupção da feitiçaria.
- Há também um casal de são-tomenses com três filhos, são muito discretos. Pouco se sabe sobre a vida deles. Mas sabemos que são desafogados.
Kakulu-Ka-Humbi mostra a beleza, o devaneio da sua poezia:
- As suaves asas da suave pomba branca outra vez sem paz, neste céu parecendo azul, fugiam desta vermelha terra sempre em guerra.
- Pois é, noutro apartamento tinha lá muitos filhos. Depois espalharam-se pela África do Sul e Portugal. O pai tinha muitas mulheres. Quando se preparava para casar com a vizinha, fugiu-lhe, escolheu outra e casou com ela. Quando vinha em casa, sempre com os copos, fazia-lhe um filho para evitar que ela se comprometesse com outro.
Kakulu-Ka-Humbi intromete-se e tenta explicar o que é o amor:
- O amor tem muitas faces e muitas cores. Meu Deus! Como são estranhos e insondáveis os amores de uma mulher.
- Ainda noutro apartamento é uma grande confusão. Imaginem, são cerca de vinte filhos de quase quinze mulheres. Cerca de meia dúzia estão lá, os outros andam espalhados por aí. E o pai negou a paternidade a dois deles.
Kakulu-Ka-Humbi inssite, revela-se como poetiza:
- As crianças dançavam na areia do lixo iludindo-a. Uma árvore completava essa tela. Decerto, Van Gogh pintaria as crianças no lixo da areia.
Apesar de confusa devido às interrupções de Kakulu-Ka-Humbi, Ma Yuan prossegue com o relatório:
- No prédio também lá vive um branco português casado com uma angolana e um filho. A filha há muito que está em Portugal. Passa o tempo agarrado ao computador, a estudar e a escrever ninguém sabe o quê, mais parece um eremita.
Akalesela parece enigmático ou mordaz:
- A diferença que existe entre um cavalo e um homem é a seguinte: um cavalo corre, um homem também. Um cavalo come, um homem também. Um cavalo tem quatro patas, um homem tem duas mãos e dois pés. Um homem tem cérebro. Alguns homens pensam que um cavalo tem cérebro para transportar os homens que pensam. E também para transportar alguns homens que pensam que tem cérebro.
- Tem também um casal do Uíge com quatro filhos extremanete reservados. Não falam nem dão confiança a ninguém. E claro, tinha que ser, noutro apartamento (?) vivem o que se pode chamar os destruidores do prédio. O marido tem duas mulheres e elas convivem harmoniosamente. E lá vivem ou dormem quase vinte pessoas. Não se sabe bem quem são os pais. É o que se chama uma casa fora da lei. A desordem é visível… são terríveis. No centro do andar alugaram um quarto exíguo onde vivem seis pessoas. Não sei como conseguem, acho que dormem uns em cima dos outros. 
Kakulu-Ka-Humbi dá uma achega da sua sociologia:
- Uma sociedade para funcionar correctamente necessita de ter tudo no lugar. Para ilustrar isto, lembro-me de um investigador que estudava as tartarugas e as aves. As tartarugas nasciam, corriam para o mar. Antes de lá chegarem, as aves predadoras caçavam algumas. Ele tentou intervir para que as tartarugas não diminuíssem. Rapidamente descobriu que estava a cometer um grande erro. Se as tartarugas aumentassem haveria menos comida. O sistema seria abalado. Se uma sociedade não estiver bem organizada, cada um no seu lugar, na sua função, cada sector com o seu técnico, o seu profissional, o médico, o engenheiro. A classe política deve preocupar-se para que haja sempre uma ligação verdadeira e salutar desde o topo à base. Se isto não funcionar o país também não funcionará e não durará muito tempo. Finalmente as pessoas deixam-se dominar pela feitiçaria e a sociedade deixa de existir.