quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

DIÁRIO DA CIDADE DOS LEILÕES DE ESCRAVOS. 01 a 12 de Dezembro de 2012




Atenção, muito cuidado! Evitem o aperto de mãos, pois ele está a enfeitiçar. É a nova onda do feitiço em Luanda.
Viver dos rendimentos/ da democracia do petróleo/ viver em paz na corrupção/ é Angola, trabalho sem nação/ da estrangeira invasão/ é Angola sem coração.
01 de Dezembro de 2012
Lá se foi pela bilionésima vez a energia eléctrica, das 20.24 até às 22.14 horas, e das 22.45 até 00.23 do dia 02 de Dezembro
Vamos ficar mais três dias sem água. Como nós somos prisioneiros muito indisciplinados neste campo de concentração, este é o castigo que nos dão.
O gerador esteve dois dias e duas noites numa densa nuvem de fumo tóxico, venenoso, claro. Era do outro lado da rua, no terraço de um edifício só com primeiro andar. Aquilo era impressionante, de tal modo que tínhamos que fechar as portas e janelas. Os moradores que estavam próximos dessa morte, aparentemente achavam aquilo normalíssimo. Nesta cidade tudo o que é destrutivo considera-se normal. Pudera, perante tanta anormalidade.
02 de Dezembro de 2012
07.36 horas. Iniciou-se mais um apagão
Arrancam os tais três geradores gigantescos. Tenho que fechar as janelas do quarto, porque quando o vento está de feição é um jacto horrível de fumo. Garantiram-me que o prédio de doze ou catorze andares, o terreno custou um milhão de dólares e o prédio é propriedade do ex/ ministro das Finanças, José Pedro de Morais Júnior
Um chefe da nossa Polícia costuma surrar a sua esposa kinguila, como é normal nesta sociedade que fabrica quantidades industriais de psicopatas. De vez em quando a esposa aparece-nos com manchas escuras na face, nos olhos e por todo o corpo, resultado dos treinos de pancadaria do nosso chefe. Desta vez, mais bêbado que as sessões anteriores, o chefe decidiu que a vagina da esposa não estava nada bem. Então, amarrou-a de pés e mãos na cama, as pernas ficaram bem abertas. Disse-lhe que a sua vagina era suspeita, meteu-lhe o dedo e triunfante falou que a vagina estava muito molhada, o que indiciava que andou na f… com algum amante. Rápido decidiu-se pelo seu bastão. Pegou-lhe e bastonou-lhe na vagina várias vezes, e curou-lhe do “adultério”.
Uma outra kinguila deu quarenta e dois mil kwanzas ao Benguelense, nome do jovem, para lhe fazer umas compras. O Benguelense nunca mais voltou, deve estar em Benguela a festejar.
O vizinho que mora no andar de baixo veio ter comigo, acompanhado de dois canalizadores, um não chegava (?) para fazer o orçamento. Estupefacto, perguntei-lhe qual orçamento, e ele respondeu-me que eram os tectos da cozinha, da casa de banho e da despensa. Há meses que ele já me tinha falado sobre isso, mas tudo tinha ficado devidamente esclarecido. Ele alugou o apartamento a indianos, e os inquilinos faziam-lhe pressão sobre infiltrações de água. Disse-lhe que ia lá abaixo resolver isso de uma vez por todas, e descemos. No tecto da cozinha não pingava, expliquei-lhe como já tinha feito antes, que isso foi do vizinho de cima que me inundou a casa porque ligou a canalização aos tubos podres por engano, pois tinha instalado novos. Depois fomos no tecto da despensa, afinal também não pingava, o que acontecia era que quando chovia pingava água. Depois era na casa de banho que cheirava mal, o canalizador cheirou a saída no ralo do chão e disse que não. A melhor ficou para o fim: na varanda havia, sim senhor infiltração de água. Aí, já disse no vizinho que isso era demais, que estava a gozar comigo e já estava a ficar fora de mim, quando um dos canalizadores, afinal eram pai e filho, explicou que aquilo era do tanque e que por isso era impossível atribuir-se ao vizinho. Não sei se está a ver amigo leitor: o vizinho estava a tentar vigarizar-me, atribuir-me as culpas, e claro, arcar com as despesas. E até agora tudo continua na mesma, o vizinho não fez qualquer reparação nas anomalias, está tudo como dantes. 
03 de Dezembro de 2012
05.00 horas, Luanda está às escuras excepto nos prédios deles com os geradores deles.
Já sintonizo o meu rádio nas ondas curtas para saber o que se passa no mundo.
A luz chegou às 17.18 horas.
04 de Dezembro de 2012
A água fez a sua aparição triunfal, como num exército atrozmente, amplamente derrotado.
Hoje foi o funeral de uma jovem de vinte anos que se extinguiu com um cancro nas duas mamas, sob patrocínio dos malfeitores do petróleo. Abandonada por uma sociedade selvagem onde ninguém quer saber de ninguém.
Alguém me sabe explicar como é que o tal homem novo funciona sem água e luz? De facto o que se vê mais por aí é o tal homem novo vestido de fato do futuro andrajoso, com a máscara da morte na face. Até os passeios das ruas privatizam. Um homem canceroso, de futuro desesperançado, neste quotidiano escravo.
05 de Dezembro de 2012
Há quarenta anos que o fornecimento da água continua racionado.
O prédio do general LED.
Luanda. Basta ver na cor amarelada do pilar rectangular, o que significa que só tem areia e cascalho. Isto vai desabar. Dois ou três pilares só têm areia e cascalho. As traseiras de três prédios estão fechadas, não há acesso. Quando chove ou não, não há escoamento das águas. O largo e a rua também foram fechados. Se houver um incêndio será uma grande desgraça. Ao lado estão três geradores gigantescos que depois não poderão respirar. É uma obra ilegal, e como tal não se faz a demolição, porquê? É nas traseiras da Pomobel, largo Zé Pirão. É um inferno que já monta há dez anos.
06 de Dezembro de 2012
Outro apagão. Iniciou às 21.53 e terminou às 22.47 horas.
07 de Dezembro de 2012
Há já quatro dias que a água pinga do terraço e cai na varanda dianteira. É dos reservatórios que lá estão. Torna-se evidente que o terraço desabará. Tudo nesta cidade ruirá.
08 de Dezembro de 2012
Mais um prédio ali na rua da Liga Africana se constrói atabalhoadamente, sem respeitar vizinhos, que serão pela cruz do petróleo prejudicados, aliás como todas as obras que se fazem nesta cidade. Construir, reafirmo, é destruir.
Não será preferível, no lugar de depositar dinheiro nos nossos bancos, não será melhor depositá-lo no petróleo dos caixões?
09 de Dezembro de 2012
Sem Net desde as 11.00 horas, restabeleceu-se cerca das treze.
10 de Dezembro de 2012
04.13 horas, acordo, um chinês bate numa chapa de ferro com um martelo. Pouco tempo depois volto a acordar, é a escolta das sirenes que à sua passagem anuncia o advento do neocolonialismo.
11 de Dezembro de 2012
Luanda. Cerca das vinte horas, o supermercado Pomobel, em frente à Delegação Provincial da Juventude e Desportos, foi assaltado. Dois órfãos do petróleo foram caçados e entregues à Polícia. Pouco depois, quem estivesse em frente ao estabelecimento era apedrejado, isto é, os órfãos do petróleo foram buscar reforços. Afinal é outra quadrilha sem petróleo, andam por aí a rondar.
Kinguila depois de ser assaltada: «Também foram só novecentos dólares.» Isto faz-me pensar: E andava eu embrenhado nas ilusões da vida.
Algum português está a experimentar um programa dele. É que a Net está outra vez uma grande porcaria. Isto não é um crime cibernético? Então o que é?!
12 de Dezembro de 2012
Vejo os empregados e empregadas da limpeza a varrerem as ruas sem óculos, sem máscaras e calçado de protecção. As receitas do petróleo são tão exíguas que não dão para proteger estes escravos e escravas.

Imagem: Depois de abrir igreja, Rivaldo deixa a Angola ...
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