domingo, 21 de dezembro de 2014

O Paraíso Perdido a Ocidente (14)





À noite depois do jantar fui como habitualmente para o Café do Frederico. Lá estava todo o grupo. Muito animados, comentavam uma pequena crónica do suplemento literário Juvenil do Diário de Lisboa. Quitério era o alvo das atenções. Pensei que estava outra vez metido em sarilhos, porque adorava polémica. Já me preparava para o apoiar, e sempre que necessário, se tivesse argumentos, claro. Mas não. Eram elogios devido a ele ser o autor da crónica que falava do abate de uma árvore. Aqui ganhei-lhe uma grande admiração. Afinal não só dizia o que bem sabia, como também escrevia. Para publicar trabalhos nesse suplemento o rigor era enorme. Aproveitei e cumprimentei o Quitério de modo não habitual. Fiz-lhe uma grande vénia com a cabeça muito inclinada. E todo o grupo em coro me agradeceu:
- Chegou o Zé Maluco!
- Meus senhores acabem com isso. Acho que já é tempo de acabar com o andarmos assim a maltratar o homem. – Lamentou o Quitério.
Ouviu-se na plateia:
 - Aplaudido, aplaudido por maioria silenciosa.
E o Quitério:
- Da discussão nasce a luz ou funde-se a lâmpada. Proponho que a partir de agora o chamemos de fusível.
Foi assim que o meu nome foi alterado para fusível. Perguntei ao Quitério o porquê deste novo nome. Explicou-me que eu andava sempre em risco de queimar os fusíveis e daí o nome. Fiquei-lhe com uma grande raiva e apeteceu-me bater-lhe. Mas ele a rir levou-me à certa. Que fusível sempre era melhor que Zé Maluco. Depois pensando bem, não me preocupei mais com isso. Achei até que era um bom elogio, porque o Quitério elucidou-me que provinha de um grande filósofo da antiguidade, um grego de nome Platão.
Quando os outros intervinham eram interrompidos sistematicamente porque os argumentos do Quitério eram arrasadores. Deixava-os prostrados no terreno das ideias tal era a força de conhecimentos que possuía. A nossa admiração por ele aumentava a cada dia porque já ninguém ousava fazer-lhe frente. Passou a ser o nosso líder incontestado. Acho que se aproveitou dessa circunstância quando anunciou sem meias medidas, como uma ordem:
- Tive uma ideia. Vamos fazer teatro. Vamos começar com Ionesco. Já consegui reunir alguns actores. Os ensaios vão começar dentro em pouco. É importante que saibam que quem nunca esteve nos bastidores, nunca saberá o que é teatro, por isso estudem muito bem as obras de Ionesco.
Aproveitei para saber qual seria o meu papel.
- Como és o fusível vais ficar com a responsabilidade da iluminação. Os ensaios vão começar na próxima semana.
Seguindo as instruções fui ver no Instituto Superior Técnico uma peça de teatro amador que salvo erro tinha por título, As Guerras de Arlequim e o Mangerão, de Bertolt Brecht. Tentei o impossível. Não consegui saber quase nada. Os meus conhecimentos eram muito limitados. Mas insistia. Estava com os Sequestrados de Altona de Sartre. Convencido de que quanto mais estudasse e quando chegasse a hora da nossa representação teatral decerto teríamos êxito considerável.

Mas o Quitério como todos os seres humanos não resistiu aos encantos do amor, da São. Ela era muito encantadora, disso todos sabíamos. Nunca namorou com ninguém e foi uma grande surpresa para todos quando isso aconteceu. Creio que não era muito atraente porque a barriga parecia estar sempre grávida. Os seios ousavam envergonhar o resto do seu corpo porque eram pequenos para um porte tão avantajado. Mas o seu rosto era agradável como uma estátua grega a que alguém tinha eliminado o resto do corpo. Conseguia manter qualquer diálogo com quem quer que fosse. Surpreendia-me tal talento porque nunca a vi ler nenhum livro. No fundo parecia quase Afrodite renascida nos Olivais-Sul. Houve festa na sua casa quando o Quitério foi pedir a sua mão, para surpresa geral. Ela que tinha sido desprezada por todos e quase já na despedida da juventude a caminhar para o templo perdido da gerontologia e por isso mesmo deixava o seu pai muito preocupado, porque ninguém gostava nem queria a sua filha.

De repente o Quitério conseguiu com que a São fosse o alvo de todas as nossas atenções. Passou a ser a nossa Deusa. Quando ela surgia no nosso seio, ele pegava-lhe nas duas mãos e beijava-as com inusitada ternura. A partir daí deixou de conviver connosco, só ocasionalmente. Ela, quando ele foi chamado para cumprir o serviço militar apresentou-se com uma vestimenta de princesa medieval. Parecia um filme sobre a Guinevere. O cabelo longo guardado nas costas. Um vestido transparente que lhe chegava aos pés e deixava a descoberto o seu corpo que ela queria que todos vissem que afinal era sensual. O decote apertado mostrava os seus seios virgens, ávidos para as aventuras do amor. No fundo pretendia demonstrar-nos que era bela e que a sua beleza seria sempre para o Quitério. Sempre à espera dele. Que ele regressasse vivo da guerra do Ultramar.
O Quitério sentenciou:
- E depois de um regresso vertiginoso que encetámos à Idade Média a partir de...
A São interrompeu e exclamou:
- Meu amor não fales agora dessas coisas, o meu coração não suporta tal!
- Sim é verdade, as mulheres são conservadoras por natureza. Não entendo porque é que os governos não as colocam no poder. Acho que o mundo seria bem melhor se elas nos governassem. Mas apesar de tudo, o nosso maior erro foi termos ficado fora da guerra. Deveríamos ter participado na segunda guerra mundial, foi um erro a nossa neutralidade. Orgulhosamente sós na destruição irremediável do nosso dia-a-dia. Destruindo o nosso futuro. Quebrando os restos do espelho dos nossos antepassados.

Entretanto, mantinha correspondência regular com a Belita. Já fazíamos promessas de amor. A nossa correspondência pelo correio, as cartas que enviávamos era muito regular. Quando a imprensa noticiava que chovia muito e que o Tramagal estava a ser afectado, ficava muito preocupado e escrevia logo uma carta. Perguntava como estava a situação. Ela respondia que o Tramagal estava no mesmo sítio. Que o comboio não circulava porque árvores tinham caído sobre a via, e que também alguns desabamentos de terras pioravam mais a situação. 




Fotos:
Da grinalda:  comquemsera.com